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sábado, 1 de agosto de 2015

A revolução silenciosa

Alguma coisa está mudando no futebol brasileiro. Lentamente, como tudo costuma ser, mas existem forças positivas em andamento dentro de uma estrutura historicamente arcaica. É verdade que o nível de endividamento dos clubes continua alarmante, que a política demissionária de técnicos segue imperando e que a cartolagem – sobretudo de federações estaduais e CBF – continua sendo um entrave. No entanto, em diversos aspectos podemos constatar avanços consideráveis que não podem ser ignorados. Pontos que, reunidos, formam uma pequena e silenciosa revolução que chama a atenção de quem sempre manteve um espírito crítico em relação ao futebol local.
Dentro de campo, já é visível a maior compactação e intensidade nas partidas. A imagem de um futebol brasileiro moroso e espaçado vem dando lugar a jogos mais rápidos e dinâmicos. Com isso, boas partidas vêm deixando de ser algo raro no Brasileirão. É certo que as longas viagens e o calendário inchado são um empecilho quando se pensa na aplicação de velocidade Premier League, porém, nota-se que a referência mudou. Os times nacionais ainda não são intensos como as principais equipes europeias, mas o Brasil não tem sido mais uma ilha isolada no planeta.
E tal mudança não passa apenas pelos jogadores e treinadores. Embora essa questão não tenha sido tratada de forma aberta pela Comissão de Arbitragem da CBF é nítida a existência de uma orientação para que os árbitros deixem o jogo “correr” mais. Os choques têm sido considerados normais e nem todo esbarrão é interpretado como falta. E isso tem contribuído de forma sensível para o aumento da dinâmica nas partidas. Mesmo a polêmica punição severa das reclamações pode se tornar algo positivo a médio/longo prazo. Existe uma cultura enraizada no Brasil que coloca o árbitro como outro adversário a ser derrotado. Quanto menos os atletas se preocuparem com os árbitros, maior a possibilidade de se concentrarem exclusivamente na partida que estão disputando. Logicamente, ainda veremos expulsões exageradas até que o novo sistema encontre seu equilíbrio, contudo, quando isso acontecer, a tendência é que todos saiam ganhando.
Outro movimento bastante positivo é a evolução da média de público dentro do campeonato. Apesar dos 16.392 pagantes desta temporada ainda não ter ultrapassado os 16.537 de média total registrada em 2014, a curva que determina o aumento de público é visível e auspiciosa. São mais de 20 mil em julho, sendo que a décima sexta rodada tem tudo para ser a de maior público até o momento com quebra de recorde do campeonato na partida entre Flamengo e Santos no Maracanã. Difícil especificar todos os fatores para o aumento do público, uma vez que o preço médio do ingresso continua alto. Mas é possível citar alguns como o novo horário das 11 da manhã, a presença de Atlético Mineiro e Corinthians nas primeiras colocações da tabela, o fantástico apoio da torcida do Palmeiras (dono da maior média) e a chegada do atacante Paolo Guerrero inflamando os torcedores do rubro-negro carioca.
Enquanto algumas coisas se transformam internamente, boas notícias surgem do meio externo ao esporte. Quase que simultaneamente às ações do FBI que desmantelaram um esquema de corrupção na FIFA e culminaram com a prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, houve a aprovação no Senado Federal da Medida Provisória 671, também conhecida como MP do Futebol, na prática, trata-se do primeiro passo para o fim das gestões temerárias que tantos danos causaram ao nosso futebol. Evidentemente, a chamada Bancada da Bola trabalha para diminuir os impactos da MP, entretanto, dificilmente conseguirão barrar o cerne da matéria. Não há dúvidas de que o futebol brasileiro deveria ser mais autônomo, mas se não é capaz de se auto-regular, que a moralização venha de fora.
Paralelamente, não se nota grandes mudanças em nossa imprensa esportiva. A perigosa mistura entre esporte e entretenimento está mais presente do que nunca e isso se nota até em espaços onde a informação ainda sobrevive como o principal ativo. Está claro que a audiência norteia a mídia e isso não seria diferente no esporte, porém, a busca pela qualidade não pode ser deixada em segundo plano. Análises táticas mais profundas e debates mais elevados não deveriam ser exceções num grande universo de mesas redondas que levam do nada a lugar nenhum. Do mesmo modo, as entrevistas deveriam questionar muito mais sobre o jogo, em vez de alimentar intrigas e fomentar a eterna corda bamba em que vivem os treinadores. Não há dúvida que todos sairiam ganhando com isso. Sobretudo, o futebol tão massacrado no país que um dia o classificou como casa. 
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

sábado, 7 de março de 2015

Dória, Bielsa e a imagem dos brasileiros no exterior

Um dos principais reforços do São Paulo em 2015, Matheus Dória foi o convidado da terceira edição do programa Bate-Bola, da ESPN Brasil, na última quinta-feira. Em dado momento, o zagueiro foi perguntado sobre sua passagem pelo Olympique de Marselha e as dificuldades que enfrentou sob o comando do argentino Marcelo Bielsa. Aproveitando a ocasião, Dória falou a respeito de seu não aproveitamento no time francês e do comportamento do técnico com auxiliares e com ele mesmo. Ali estava apenas a versão do jovem brasileiro, mas as reações que vieram a seguir surpreenderam este blogueiro. Com poucas ressalvas ou contextualização, a maior parte das pessoas que se manifestaram sobre o tema optou por criticar Dória. É como se o jogador brasileiro fosse o único culpado por seus infortúnios no Olympique independente do que lá aconteceu.
Antes de tudo, é preciso recordar como se deu a contratação de Dória pelo OM. Figura de destaque no Botafogo desde 2013, embora não fosse unanimidade entre os torcedores, o zagueiro tornou-se objeto de cobiça de importantes clubes europeus e acabou desembarcando na França por cerca de oito milhões de euros. No entanto, antes mesmo de se apresentar ao seu novo treinador, Dória se deparou com a entrevista coletiva de El Loco dizendo que sua diretoria não o consultou sobre a contratação, que não tinha avaliado o defensor e que era contra a sua chegada. Não é preciso ser um gênio para perceber que a vida do garoto, então com 19 anos, não seria fácil em Marselha. Como era de se esperar, Dória ficou encostado no clube até que o São Paulo o repatriasse.
Reunindo esses fatos, o depoimento de Dória e refletindo sobre o histórico de loucuras de Marcelo Bielsa é possível chegar à conclusão de que pode não se tratar do clássico caso do jogador que não conseguiu seu espaço e saiu atirando contra o seu ex-técnico. Bielsa nunca quis a chegada de Dória, não fez questão de esconder isso e nunca concedeu chances reais para o jogador se firmar. Analisando a questão, ela remete muito mais a uma típica queda de braço entre dirigente e técnico do que propriamente a reprovação de um atleta após um período de trabalho e convivência.
Contudo, é possível dizer que há, por parte de algumas pessoas, uma pré-disposição em considerar os brasileiros culpados por qualquer situação negativa no exterior independente dos fatores que esta envolver. Possivelmente baseada em episódios onde os brasileiros realmente erraram, criou-se por aqui uma regra geral onde o profissional brasileiro, seja ele técnico ou jogador, está sempre errado. Um provável resultado da soma de pouco pensamento crítico somado ao atávico complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues definiu tão bem. Esta sim, uma típica conduta com ares de regra geral.

Imagem: Divulgação

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O otimismo para escanteio

Neste fim de semana, a bola voltou a rolar em partidas oficiais nos gramados brasileiros. É o retorno dos campeonatos estaduais, competições que ocupam um terço da temporada e que, ano após ano, perdem mais um pouco do prestígio que ainda resta. E, ao contrário do que recomendaria a lógica, seus dirigentes não se mostram interessados e transformá-los em algo muito diferente de um estorvo num calendário que precisa ser revisto com urgência.
O argumento da tradição dos Estaduais não se sustenta na prática. Com folhas de pagamento milionárias, os clubes precisam buscar receitas maiores a cada dia e enfrentar adversários fracos em estádios vazios tornou-se algo absurdamente contraproducente. Neste momento, apenas a cota de TV justifica em parte a existência desses torneios. No entanto, as televisões pagam para transmitir partidas das agremiações mais conhecidas. São as exibições de times como Corinthians, Flamengo, Cruzeiro, Internacional e demais grandes que movem o interesse do público. Por consequência, é óbvio supor que esse pagamento seria potencialmente maior num cenário onde o Brasileirão começasse em fevereiro ou março.
Paralelamente, muitos temem que o fim dos Estaduais representaria também o fim dos pequenos clubes que tanto contribuem para a grandeza do futebol brasileiro. Entretanto, é justamente o contrário. Grande parte dos times menores não tem atividades após o encerramento de suas etapas regionais. Para muitos atletas, quase todos mal remunerados, o ano termina antes de sua metade. Não há nem ao menos a chance de atuar durante toda a temporada regular. Uma triste realidade que CBF e federações ignoram quando elaboram o calendário.
Bem mais significativo do que a proposta redução de datas dos Estaduais seria a saída dos grandes clubes e a transformação em campeonatos regionais extensos que preencham todo o calendário dos times de menor investimento. Uma iniciativa que iria ao encontro das reivindicações do movimento Bom Senso FC, como uma proposta de um futebol melhor para todos. Ou, pelo menos, melhor para quem realmente se preocupa com ele, algo que, em princípio, não parece ser o caso dos dirigentes da Federação do Rio de Janeiro e de Eurico Miranda, novo/velho presidente do Vasco da Gama.
Numa decisão claramente arbitrária, a Ferj estipulou entre R$ 5 e R$ 50 os preços dos ingressos para o Campeonato Carioca em 2015. Se a intenção fosse apenas defender os interesses do torcedor seria perfeito, mas há indícios de que não se trata disso. A começar pela falta de diálogo com seus filiados, aqueles que são a razão da existência de qualquer federação. Com a decisão unilateral, Flamengo e Fluminense terão prejuízo em jogos no Maracanã, estádio cujo custo médio de cada torcedor atinge R$ 12. Com as famigeradas meias-entradas, uma máfia em nosso país, grande parte da torcida adentra o estádio pagando metade do ingresso. Ou seja, na prática, é como se a Ferj estivesse estipulando parte da carga de ingressos em R$ 2,50 a R$ 25, ignorando os reflexos dessa decisão nas finanças dos clubes.
Outro indício é a influencia de Eurico Miranda junto à presidência da Ferj. Quem acredita que o cartola não tem calculado na ponta do lápis os danos provocados aos rivais pela precificação, sinceramente, acredita em tudo. Quando Eurico foi reeleito, estava claro que a situação do futebol carioca e brasileiro pioraria de forma significativa. Ao contrário de Roberto Dinamite, seu antecessor, Eurico não é danoso apenas ao Vasco. Sua influência se estende a outros dirigentes, federações e até a CBF. A volta do ex-deputado representa retrocesso num futebol que deveria olhar para frente, ainda mais após sediar uma Copa do Mundo e ver tantas arenas construídas e reformadas. Por essas e outras, não há razão para otimismo com o futebol brasileiro. Pelo menos, não neste momento.
Texto escrito originalmente para o site Barroso em Dia
Imagem: CNN

sábado, 9 de agosto de 2014

Por linhas tortas

Quem acompanha a luta diária pela audiência na televisão aberta brasileira provavelmente leu alguma coisa a respeito da queda dos números da TV Globo. Ano após ano, as principais atrações da maior emissora do país veem seus índices despencarem vertiginosamente. Novelas, reality shows, séries e outros programas perderam pontos para outras mídias ou, em alguns casos, para a concorrência. Quando uma paixão nacional como o automobilismo começa a ser vista atrás de um desenho animado repetido à exaustão é sinal de que algo não vai bem. No caso da Fórmula 1, a principal razão provavelmente é a longa ausência de um piloto brasileiro capaz de ser competitivo na categoria. Mas qual será a razão para a queda de audiência do futebol?
Automaticamente, há quem diga que a explicação está na má qualidade dos jogos. Acabamos de sair de uma Copa do Mundo aonde vimos estádios lotados, com público animado, grandes craques e emocionantes partidas. No retorno do Campeonato Brasileiro, o choque de realidade: Arenas bem menos cheias, jogos com pouca qualidade técnica e coletiva e uma quantidade assombrosa de faltas sendo marcadas a cada cotejo. Todavia, se a explicação está na qualidade, a queda deveria ter se dado há muito mais tempo, pois o êxodo dos melhores atletas e as discussões sobre atraso tático tiveram início há, pelo menos, duas décadas, enquanto os públicos médios foram relativamente baixos em quase toda a história dos nossos campeonatos.
A conclusão inicial, aparentemente precipitada, se deve ao fato de que desde o Mundial paira uma ânsia de mudarmos nossos torneios. Um sentimento de inconformismo diante da possibilidade de termos um campeonato nacional muito mais forte do que atualmente é. O resgate de um futebol que nos identifica e que foi deixado para trás em algum momento. No entanto, é preciso ter em mente que tais mudanças não se darão do dia para a noite e não dependem exclusivamente da decisão dos treinadores montarem equipes ofensivas. Trata-se de um processo relativamente lento que precisa ter o respaldo de diversos setores (imprensa esportiva, inclusive) para funcionar. Não fomentar a prática demissionária dos clubes é um bom começo. Normalmente, os melhores trabalhos são os duradouros.
Nesse contexto, a simples hipótese de termos a fórmula do Brasileirão alterada para o velho mata-mata já é um retrocesso. Por um calendário racional entende-se que todos os times devem ter uma temporada repleta de atividades e ter apenas dois chegando ao fim do ano é destruir o planejamento das agremiações e gerar desconfiança nos patrocinadores. Noutras palavras, é um tiro no pé. Algo assim só interessa a quem só tem compromisso com seus índices de audiência. Por ser o maior cliente, é justo e saudável que a Globo cobre um produto de maior qualidade. Porém, qualquer tipo de ingerência que se sobreponha à necessidade dos clubes não contribui em nada com o objetivo de termos um futebol brasileiro melhor, algo que todos desejamos.

Imagem: Veja

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

7 x 1 eterno


Ele está em toda parte. Nas ruas, no trabalho, na fila do banco, na padaria. Durante qualquer assunto mais prolongado, alguém toca no tema. Não adianta. Anos, décadas irão se passar e os 7 x 1 sofridos para a Alemanha serão como uma ferida aberta na alma do torcedor brasileiro. Contudo, no que tange o comando do futebol nacional e a imprensa esportiva, mais importante do que relembrar o massacre de 8 de julho é ter a percepção do que aconteceu naquela tarde em Belo Horizonte.

A CBF agiu rápido. Ao que tudo indica, sua cúpula entendeu que o único problema estava em Luiz Felipe Scolari e demais profissionais. Ao demitir o treinador e anunciar Dunga como seu substituto pouco tempo depois, Marin deu mostras de que a Seleção Brasileira não carece de grandes reparos. Basta nomear alguém capaz de manter a ordem e controlar as vaidades que tudo se resolve. Mexer na estrutura local, nem pensar. Afinal, foi exatamente ela que o colocou ali.

Por sua vez, grande parte da imprensa esportiva preferiu voltar seus canhões para o futebol brasileiro. A goleada alemã foi explicada de diversas formas, como a qualidade do jogo aqui praticado, o baixo público nos estádios, até chegar a uma suposta defasagem de nossos técnicos. Do jogo em si, da apresentação dos jogadores, da formação do grupo que disputou o Mundial, falou-se pouco ou menos do que deveriam. Era como se as justas reivindicações do dia a dia tivessem encontrado o terreno fértil de que se buscava. E que, portanto, não deveríamos perder tempo analisando a equipe quando uma grande oportunidade de mudança se faz presente.

Impossível aceitar integralmente as duas posturas. A primeira, obviamente, pela ausência de qualquer projeto esportivo. A ideia de promover um seminário ou algo parecido para se rediscutir os rumos do futebol brasileiro, incluindo a Seleção, provavelmente nunca foi discutida. Desse modo, não há a adoção de uma filosofia, mas de um escudo contra críticas. No máximo, oferecem apoio logístico e não economizam com instalações. Todo o resto é por conta da comissão técnica. Foi assim com Felipão e assim será com Dunga.
No que se refere ao time canarinho, é preciso observar que sua ligação com o que acontece no Brasil é bem menos estreita do que os analistas afirmam. A maior parcela dos convocados atua com destaque nas maiores equipes da Europa sob as ordens dos principais técnicos. Em entrevista concedida à ESPN há alguns meses, Jürgen Klinsmann, treinador dos Estados Unidos, disse que o que falta ao seu selecionado é justamente o que os brasileiros têm de sobra: Experiência e relevância nas maiores ligas. Sem isso, o alemão acredita ser difícil competir no mais alto nível.

A nova missão do capitão 1994 no ciclo que se inicia está muito mais atrelada ao desempenho dos principais atletas brasileiros espalhados pelo mundo – e isso também inclui avaliar nomes da Série A – do que ao desenvolvimento do futebol praticado no Brasil. Ambas são questões importantes, porém distintas. Essa jornada se assemelha muito mais a de Alejandro Sabella na Argentina do que a de Joachim Löw na campeã mundial. Assim como Sabella, Dunga precisa reunir jogadores que militam nos mais diferentes campeonatos e transformá-los num time. Löw, ao contrário, pode se concentrar mais na Bundesliga e monitorar um grupo mais restrito fora da Alemanha.

Logicamente, não se trata de desconsiderar as mudanças fundamentais pelas quais o futebol nacional deverá passar caso pretenda atingir um maior grau de desenvolvimento. Os 7 x 1 não revelaram atraso nenhum, pois, para quem queria enxergar, ele estava lá há uns bons anos. Para recuperá-los, faz-se primordial um plano de reestruturação que, provavelmente, nossos atuais dirigentes são incapazes de organizar. Por outro lado, Dunga, de volta à condição de técnico da Seleção, tem obrigações de curto prazo que independem dos passos de cágado da cartolagem. Esquecer a vexatória campanha no Mundial ninguém vai. Todavia, poucos remédios surtirão melhor efeito do que vermos uma Seleção Brasileira competitiva novamente.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

O outro lado da queda

Da mesma forma que é impossível falar em futebol brasileiro como uma coisa única, também não é correto representar a imprensa esportiva de maneira singular. Tite, possível sucessor de Scolari, não pode ser colocado no mesmo pacote de outros treinadores brasileiros que aparentam não fazer ideia do que está acontecendo no mundo. Deste modo, cabe a ressalva para os profissionais que cobrem o esporte de maneira séria e que refutam qualquer parcela de “achismo” nos seus trabalhos. O que vem a seguir não é para eles.

Ao mesmo tempo em que futebol é paixão, algo que qualquer pessoa pode apreciar, sua compreensão não é algo tão simples. Não em seu nível profissional. Para entendê-lo em sua totalidade, assim como um treinador faz com sua equipe e seus adversários, é preciso estudar, se aprofundar no tema. Talvez por ter nascido a partir de uma costela das antigas crônicas de jornal, grande parte da imprensa brasileira ainda enxerga o futebol como uma coisa lúdica, uma espécie de arte cuja finalidade é encantar pessoas. Se ele foi assim um dia, não é mais. Trata-se de um esporte de alto rendimento e se nele encontramos beleza e emoção, isso está muito mais ligado à sua natureza, ao manejo habilidoso da bola do que algo previamente estabelecido.

Piadas do tipo descrever o sistema 4-2-3-1 como linha de ônibus sempre esbarraram no ridículo, assim como a pilhéria com termos técnicos como “triângulo de base alta”. Não que esses termos sejam obrigatórios no vocabulário jornalístico, mas a percepção de que eles fazem parte do dialeto técnico, sim. Não por acaso, após a massacrante derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha, poucas foram as análises realmente consistente do que aconteceu no Mineirão. Um jovem e bom comentarista, cujo nome não será citado por respeito, passou as 24 horas seguintes fazendo toda sorte de gracinhas com o acontecido. Do que houve em campo, pouco ou quase nada disse.

Ao longo da história, nossa Seleção – aqui entendida como o topo da pirâmide do futebol brasileiro – se reinventou algumas vezes. 1970 e 1994 são dois casos onde o problema da época foi compreendido e corrigido com resultado satisfatório. Se isso ocorrerá novamente agora só saberemos no futuro, mas seria providencial que no decorrer desse processo os profissionais de imprensa caminhassem juntos nesse sentido. Até para que possam tratar desse assunto com a seriedade e propriedade que o tema merece.

domingo, 25 de maio de 2014

Contagem Regressiva: Maio de 2014

Para um fanático por futebol, a Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Vai ter Copa, mas não como gostaríamos
A última edição da coluna “Contagem Regressiva” abre mão de analisar o apronto final das 32 seleções que disputarão o Mundial e viaja ao passado. Quando o Brasil foi anunciado em 2007 como o país-sede da Copa do Mundo de 2014 havia a promessa e a realidade. Promessas de um torneio custeado por recursos privados que se somariam a recursos oriundos de parcerias público-privadas e deixariam um imenso legado para as cidades-sede como melhorias nos aeroportos, no transporte urbano, na rede hoteleira e nas estruturas anexas aos novos estádios. Mesmo com um olhar desconfiado, era impossível que um fanático por futebol não se empolgasse com a ideia de um evento tão grandioso em seu território e ainda mais com os benefícios dos legados.
Infelizmente, a realidade não demorou a surgir no horizonte. Assim como o malfadado Pan-Americano do Rio de Janeiro, foi se tornando cada vez mais evidente que os verdadeiros legados seriam apenas as novas arenas construídas ou reformadas para a Copa. No entanto, a oportunidade inerente de se fomentar o futebol em estados como Amazonas, Mato Grosso e Distrito Federal não passou de um sonho. Com isso, salvo por esporádicas visitas de grandes equipes brasileiras, é muito provável que os estádios de Manaus, Cuiabá e Brasília se tornem pesados elefantes brancos.
Há, contudo, a necessidade de se distinguir o que de fato existe em relação aos gastos públicos envolvidos nesse processo e o que não passa de desinformação. Ao contrário do que se diz, os recursos financeiros investidos não vão “quebrar o País”. Há alguns dias, a Folha de São Paulo publicou uma matéria indicando que os investimentos naCopa (aproximadamente R$ 26 bilhões) equivalem a um mês de gastos com educação. Além disso, dentro desse montante encontram-se os valores referentes aos empréstimos do BNDES que deverão ressarcidos. Paralelamente, também haverá o retorno desses investimentos com a movimentação de inúmeros setores de nossa economia, onde estudos apontam cifras que giram entre 142 e 183 milhões de reais. Obviamente, apesar o otimismo nas projeções, é evidente que haverá retorno.
Mas a questão central não é essa. Ou melhor, não deveria ser essa. O Brasil teve em suas mãos a maior oportunidade de sua história para fazer algo extremamente relevante para sua infraestrutura e seu futebol. Em termos estruturais, começam a surgir informações mais concretas do que todos desconfiavam. Um relatóriopreliminar do Tribunal de Contas do Distrito Federal indicou um sobrepreço deR$ 431 milhões na reforma do Mané Garrincha, o estádio mais caro do Mundial. Porém, também por pressão política, tais investigações não foram para frente e ficaram apenas no âmbito do edital da obra.
No que tange o esporte, tivemos a chance de organizar um calendário mais racional, de traçar projetos que estimulassem o futebol nas regiões onde o esporte não é tão desenvolvido e ainda apresentar à população estádios adaptados aos novos tempos e demandas. De tudo isso, somente as arenas estão presentes. No entanto, sem a contrapartida de ações que reaproximassem o público dos campos, sobretudo da população menos favorecida, o objetivo final não foi alcançado. Numa declaração bastante infeliz, o coordenador técnico da Seleção, Carlos AlbertoParreira, definiu a CBF como o “Brasil que dá certo”. Depende do ponto de vista. No que diz respeito ao faturamento da entidade, sem dúvida é um sucesso. Para o futebol brasileiro ela continua dando errado. E há muito tempo.   
Imagem: Página do Partido dos Trabalhadores

sábado, 8 de março de 2014

A audácia de Fernando Diniz

Como jogador, Fernando Diniz teve uma trajetória relativamente discreta. Defendeu clubes importantes do futebol brasileiro, alternando muitas vezes a titularidade e o banco de reservas. Foi um meia de boa técnica, que agradava seus treinadores pela inteligência tática que demonstrava em campo. Fora dos gramados, fugia do estilo boleiro, chegando a ser objeto de matérias na imprensa esportiva que realçavam um perfil intelectual pouco comum no meio. À distância, Diniz se parecia mais com um estudante universitário do que com um jogador profissional.
Agora treinador, Fernando Diniz também se diferencia de seus novos pares. Comandando atualmente o Grêmio Osasco Audax, time que disputa a primeira divisão paulista, tem chamado a atenção do meio esportivo pelo estilo implantado em sua equipe. Com clara inspiração no Barcelona de Pep Guardiola, o Audax preserva o toque de bola acima de tudo e não apela para chutões nem em momentos de alta pressão dos adversários. Uma prática que não deve garantir a classificação para as oitavas de final do campeonato estadual e que talvez careça de mais qualidade dos atletas, mas que já deixou sua marca. Nem que seja pela distinção dos demais.
Ex-comandante de Fernando no Fluminense, Flamengo e Santos, Oswaldo de Oliveira tem uma opinião não muito esperançosa quando o assunto é a aplicação desse estilo nos grandes times do País: “Lá a chinelada não arde tanto quanto arde nos nossos jogadores. Mas realmente é uma forma inteligente e ousada de jogar”, diz o atual técnico do Santos, ciente da pressão por resultados imediatos tão típica de nosso futebol.
Logicamente, o técnico do Audax discorda. Para Fernando Diniz, os grandes times podem apostar nesse estilo desde tenham paciência e confiança no trabalho. No entanto, o jovem treinador tem consciência de que tudo está ligado à performance da equipe: "Não tem sustentação de jogo sem resultado, mas ele não caminha separado da produtividade, do jogar bem, jogar bonito. Se eu começo a ganhar com o time jogando muito mal, eu tenho muito mais preocupação do que empatar ou perder jogando bem. Não olho só resultado, mas acaba sendo essencial", afirma.
Não restam dúvidas de que a mentalidade expressa acima se difere do que pensa a maioria dos nossos treinadores. E isso só faz aumentar a expectativa de um dia vermos Diniz chefiando algum time tradicional do Brasil. Todavia, como o próprio técnico assegura, toda e qualquer estratégia do futebol tem compromisso com o resultado. Antes de tudo, um treinador monta sua equipe com o objetivo de vencer e isso não deve ficar em segundo plano. E não há maneira melhor de se obter as vitórias almejadas do que jogar bem.
Fonte: Terra
Foto: Eric Mantuan/GE   

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Saudade, palavra triste


Nesta semana, o ex-jogador Roberto Rivellino voltou à cena paracriticar a atual geração brasileira. Para o campeão mundial em 1970, o momento do futebol brasileiro é péssimo em termos de qualidade e só Neymar se destaca. Indo além, Rivellino criticou a presença do atacante Hulk na equipe, atleta que, para ele, só atua na Seleção Brasileira por questões táticas. Completando seu raciocínio, menciona a ausência de grandes centroavantes e afirma que a qualidade do time comandado por Luiz Felipe Scolari está na defesa e não no ataque.
A exceção da dificuldade de se encontrar boas opções para a camisa 9 do Brasil, posição onde nem o titular Fred é unanimidade, não é possível concordar com a opinião do antigo meia. Não quando se acompanha com atenção o que se passa fora do Brasil. Citado nominalmente, Hulk é um bom exemplo. Desde os tempos de Porto, o paraibano se mostra um atacante moderno, capaz de marcar gols fantásticos e, ao mesmo tempo, auxiliar defensivamente. Para Hulk, a velha desculpa do “se eu marcar não tenho força para chegar à frente” nunca foi válida. A única explicação para a implicância sofrida pelo jogador do Zenit é quando ela parte de alguém que só o vê em esporádicas aparições pela Seleção. Provavelmente, caso de Rivellino.
Outra observação curiosa do ex-craque diz respeito à carência de centroavantes. A lendária Seleção de 1970 também sofria dessa carência e viu Zagallo solucioná-la adiantando o meia-atacante Tostão. Uma equipe que contava com outros improvisos como o do próprio Rivellino aberto pela ponta esquerda e o volante Piazza recuado para o centro da zaga. Não faltava talento no meio-campo liderado por Gérson e Pelé, porém, nem todas as posições estiveram bem servidas quando o Brasil se sagrou tricampeão no México.
Roberto Rivellino possivelmente não sabe, mas a “péssima geração” atualmente ocupa a liderança quantitativa de atletas tanto nas grandes ligas europeias quanto na UEFA Champions League. Segundo o Cies Football Observatory, 471 atletas brasileiros atuam nos principais campeonatos do Velho Continente seguidos à distância pelos franceses e seus 306 representantes. Na Champions League, topo do futebol mundial, são 86 brazucas contra 80 franceses e 65 espanhóis. Além de Neymar, jogadores como Oscar, Willian, Ramires, Daniel Alves, Marcelo e outros são titulares das principais agremiações do planeta. Se fossem péssimos, esses dados nunca seriam possíveis.
Embora tenha sido um jogador excepcional, Rivellino sempre fez coro ao discurso de que tudo no passado era melhor e o que vivemos hoje não presta. Diferente de Tostão, que não fecha os olhos para o presente, Riva prefere alimentar a visão saudosista de um perfeito futebol de sonhos que não se sustenta quando as antigas imagens em preto e branco revelam um esporte mais lento, menos intenso e nem por isso desprovido de erros. Talvez por saber que parte de sua idolatria se baseia nos melhores momentos de antigos VTs, privilégio que os jogadores do presente não podem contar.
Foto: Marcos Guerra/Globo.com  

domingo, 9 de fevereiro de 2014

As razões do meu desafeto

Pouco mais de 15 mil pessoas pagaram ingresso para ver o primeiro Fla-Flu de 2014. Um pequeno público para assistir à vitória por 3 a 0 do Tricolor sobre seu histórico rival. Além do placar elástico e da estreia do atacante Walter pelo Fluminense, chamou a atenção a enorme faixa levada por torcedores do Flamengo contra os abusivos preços dos ingressos. Para o clássico, 100 reais foram cobrados pela entrada mais barata, um preço que poderia chegar a 300. O resultado disso foi um Maracanã vazio, bem longe de sua capacidade máxima. Como justificativa, a diretoria rubro-negra alega que o uso de carteirinhas de estudante – muitas vezes falsas – que conferem o direito da meia-entrada inviabiliza valores mais compatíveis com a realidade brasileira.
No entanto, não é preciso ser especialista no ramo para enxergar o óbvio: Se o Maracanã comporta 73531 torcedores, então alguma coisa está errada. Apesar dos campeonatos estaduais estarem longe do prestígio de outrora, o público presente ao estádio Mário Filho esteve muito aquém do que deveria. Uma das razões ficou estampada nas arquibancadas por mais de 90 minutos. Chegar às outras também não é difícil. A obsolescência à qual os campeonatos regionais ficaram expostos nas últimas décadas é outra delas. De torneio mais importante para os clubes, hoje não passam de um estorvo num inchado calendário, amparado apenas por sua importância política e pelo saudosismo de quem acompanhou seus melhores dias.
A violência dentro e fora dos estádios é a terceira razão, embora talvez seja a mais importante. As imagens dos 200 torcedores corintianos invadindo o CT “Dr. Joaquim Grava” há uma semana são mais uma prova de que as torcidas organizadas ultrapassaram todos os limites possíveis. Como se não bastasse o prejuízo causado por essas gangues que nada contribuem com o futebol e vivem do dinheiro das agremiações, elas ainda se acham no direito de agredir física e verbalmente os atletas em seu ambiente de trabalho. Uma vergonha muitas vezes acobertada pelos próprios clubes, como ocorreu no alvinegro paulista. A desculpa de que “só as organizadas sabem torcer” é uma estupidez histórica que não merece maiores comentários.
Outros fatores como horários das partidas, o fácil acesso aos jogos pela TV e a baixa qualidade do espetáculo oferecido podem ser incluídos nessa equação que resultou no colapso da cultura de se frequentar estádios no Brasil. Assistir a uma partida em in loco se tornou uma aventura arriscada e dispendiosa. Minimizar tais fatores para dizer que brasileiro não gosta de futebol ou que tem preguiça de ir a um estádio é, sem sombras de dúvidas, um desserviço ao que deveria ser um movimento conjunto para se reverter essa situação. E um dos passos para que os times brasileiros sigam sem ver suas torcidas lotando as arquibancadas.      
Foto: Rosana Fraga / Lance!Press

sábado, 18 de janeiro de 2014

Tempo perdido

Duas semanas. Parece absurdo, mas esse é o tempo que as principais equipes do futebol brasileiro tiveram de preparação para o início da temporada 2014. Não por acaso, muitas irão começar a disputa dos campeonatos estaduais com times alternativos atuando em campos bizarros – ao lado, o estado do gramado do Estádio de Moça Bonita – enquanto os grupos principais treinam da melhor forma possível dentro de nossa realidade esdrúxula. No mundo ideal, planeta distante e desconhecido da cartolagem local, os mesmos times deveriam treinar por pelo menos um mês, completar a pré-temporada com amistosos para só então iniciar a temporada de fato. Ligas importantes do mundo inteiro funcionam assim e vão muito bem, por sinal.
Em suas entrevistas coletivas, os quatro técnicos dos maiores clubes de São Paulo não fugiram do tema. Nenhum deles considera suficiente o tempo destinado à pré-temporada e disseram que isso compromete a qualidade do que veremos ao longo do ano. Estreando uma coluna na versão brasileira do site da BBC, o jornalista inglês Tim Vickery reafirmou sua opinião de que os Estaduais deveriam acabar, pois, no atual momento, servem apenas para manter acesa uma chama histórica que não se justifica mais. E ele tem razão.
Muitos temem que o fim dos Estaduais representaria também o fim dos pequenos clubes que tanto contribuem para a grandeza do futebol brasileiro. Entretanto, é justamente o contrário. Grande parte dos times menores não tem atividades após o encerramento de suas etapas regionais. Para muitos atletas, quase todos mal remunerados, o ano termina em sua metade. Não há nem ao menos a chance de atuar durante toda a temporada regular. Uma triste realidade que CBF e federações ignoram quando pensam no calendário.
Bem mais significativo do que a sempre proposta redução de datas dos Estaduais seria a retirada dos grandes clubes deles e transformação dos mesmos em campeonatos regionais extensos que preenchessem todo o calendário dos times menores. Uma iniciativa que iria ao encontro das reivindicações do movimento Bom Senso FC, como uma proposta de um futebol melhor para todos. Ou, pelo menos, melhor para quem realmente se preocupa com ele.
Imagem: CBN

sábado, 11 de janeiro de 2014

Feliz 2014, futebol brasileiro

O ano de 2014 começou quente no futebol brasileiro. Oficialmente, a bola ainda não rolou nos campeonatos estaduais, porém, assunto é o que não falta. Começando pela disputa judicial envolvendo Fluminense, Portuguesa, Flamengo e CBF que ainda reserva muitos capítulos. Caso o tricolor carioca permaneça na primeira divisão, será uma derrota do futebol dentro de campo para o legalismo. Se Portuguesa e Flamengo recuperem os pontos perdidos, ficará a impressão que o regulamento foi descumprido, mas que a justiça prevaleceu. Todavia, se a CBF decidir “salomonicamente” por manter todos os times na Série A, criando algum monstrengo que reúna 24 clubes, teremos um retrocesso de dez anos de conquistas esportivas. Independente do resultado final, o futebol brasileiro já perdeu.
Auspiciosas estão sendo as movimentações dos clubes nesta janela de contratações. A maior preocupação vem sendo o enxugamento das folhas salariais e as contratações desmedidas que na maioria das vezes davam pouco resultado estão mais escassas. Outro ponto positivo é a ascensão de técnicos jovens como Enderson Moreira, agora no Grêmio, e Dado Cavalcanti que assumiu o Coritiba. Quem sabe, um sopro de renovação e modernidade num mercado de profissionais que, salvo raras exceções, há tempos dá sinais de estagnação.
Paralelamente, o Bom Senso FC surge como um alento. Ainda mais do que a Copa do Mundo. Todavia, que não se espere desse grupo um envolvimento com tudo. O movimento liderado por Paulo André & Cia. tem pautas bem definidas e, caso não se restrinja a elas, correrá o risco de mirar em tudo e não acertar em nada. Algo parecido com o que houve nas manifestações populares de 2013, onde havia muita revolta e pouco foco. A boa notícia é que o Bom Senso sabe o que deseja e parece firme diante das bravatas que vem recebendo como resposta.  
O ano de 2014 promete.

Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press/Folhapress

sábado, 12 de outubro de 2013

Três anos em (menos de) um

A segunda passagem de Luiz Felipe Scolari como técnico da Seleção Brasileira foi anunciada no fim de novembro de 2012. Em pouco mais de dez meses, o gaúcho de Passo Fundo conseguiu transformar uma equipe desacreditada em um dos favoritos ao título mundial que será disputado em 2014. Para tanto, escolheu a fórmula mais simples: Convocou os melhores e mais experientes e pediu-lhes que jogassem como fazem em seus clubes. Simples, não? Bem, não para seu antecessor. Segundo Mano Menezes, o futebol brasileiro estava defasado e isso se refletia na Seleção. O ex-técnico observava que as linhas mais espaçadas dos nossos times impediam que houvesse a intensidade necessária atualmente e não acreditava na eficiência de um primeiro volante que protegesse a defesa. De quebra, chegou a retirar do onze inicial a figura do centroavante clássico, centralizando o móvel Neymar na posição.
Em campo, é fato que o trabalho de Mano não se refletia em resultados, mas sua demissão esteve mais ligada ao orgulho do presidente da CBF, José Maria Marin, que não queria seguir com um treinador escolhido por Ricardo Teixeira do que por preocupação com os rumos de um projeto ineficiente. Alheio a essa questão, bastaram alguns amistosos para que Felipão percebesse que o futebol brasileiro não seria revolucionado de cima para baixo. Era mais simples aproveitar as características dos atletas brasileiros já formados do que tentar adaptá-los a um estilo de jogo importado. Deste modo, o bom e velho camisa 5 entrou no time para dar suporte a uma defesa que possui dois típicos laterais apoiadores, o centroavante voltou para marcar gols importantes e Neymar retornou ao conforto da ponta-esquerda. Na prática, era o 4-2-3-1 mundialmente difundido permeado com a marcação e intensidade imprescindíveis hoje, mas com a pitada de futebol tupiniquim que nos torna singulares. Tudo isso sob as asas paternais de um comandante que defende seu grupo a todo custo.
O Brasil que venceu a Coreia do Sul por 2 a 0 em Seul é a continuidade de uma sequência positiva de boas apresentações e resultados. Cada vez que entra no gramado, a Seleção Brasileira demonstra a organização e confiança adquiridas em apenas dez meses desde a chegada de Felipão. Não é uma esquadra perfeita e nem poderia ser, dado o pouco tempo disponível para treinamentos e ajustes. A saída de bola ainda inspira cuidados, os laterais precisam ser mais regulares e não há a certeza de que Fred estará em forma quando o momento chegar. Mesmo assim, não se contesta a evolução da equipe desde a chegada de Scolari. O que não significa, em absoluto, que o hexacampeonato está garantido. Contudo, é inegável a constatação de que os tempos de instabilidade ficaram para trás.

Imagem: Mowa Press

domingo, 6 de outubro de 2013

Toda arrogância será castigada

As últimas 20 edições de La Liga tiveram Real Madrid ou Barcelona como campeões e vice-campeões. Nessas duas décadas, o título só não ficou com um dos dois gigantes em 1996, último título do Atlético de Madrid, 2000, primeira e única conquista do Deportivo La Coruña, 2002 e 2004, quando a primazia coube ao Valencia. Nesse período, a pior colocação da dupla foi o sexto lugar do Barcelona em 2003. Indubitavelmente, seus torcedores não têm grandes motivos para se queixarem da vida. No outro lado do oceano atlântico, mais precisamente no Brasil, as coisas não funcionam assim.
Talvez por (ainda) não haver um abismo financeiro como ocorre na Espanha, talvez pela atávica falta de planejamento dos cartolas locais ou, simplesmente, pela distribuição geográfica de nossos centros do futebol, o fato é que nenhum clube brasileiro consegue estabelecer uma supremacia que dure muitos anos. Do fantástico São Paulo de Telê Santana do início dos anos 1990 ao atual Corinthians de Tite, não houve uma equipe capaz de dominar o País por mais de três, quatro anos. Isso é, ao mesmo tempo, nossa maior virtude e maior fraqueza.
Virtude por apresentar um campeonato com alta dose de imprevisibilidade e emoção. O campeão de hoje pode lutar pelo rebaixamento amanhã, enquanto o rebaixado de ontem pode chegar ao topo pouco tempo depois. E fraqueza pela quase que total ausência de projetos esportivos consistentes que sejam capazes de se sustentar em longo prazo. No Brasil, quem carrega seu próprio projeto esportivo na bagagem é o técnico. É ele quem traz a filosofia de jogo que muitas vezes está “contaminada” pelo medo de perder seu cargo após três derrotas seguidas. Não são raros os casos de clubes que demitem um técnico de determinado estilo e contratam outro com ideias totalmente diferentes na sequência.

Nesse cenário, é curioso observar torcedores que outrora despejavam gozações sobre os rivais agora fazendo as contas para ver se o seu time foge da degola. O futebol brasileiro é cíclico em seu DNA. Exatamente por isso, os sacanas deste momento podem ser os zoados de amanhã. A arrogância de um instante pode ser punida pouco tempo depois. Para isso, basta que seus amigos tenham boa memória. 
Foto: Agência Estado

domingo, 22 de setembro de 2013

Planejamento?

Nesta semana, o pedido de demissão de Mano Menezes do Flamengo pegou a todos de surpresa. Adepto de trabalhos longos, o técnico gaúcho sempre primou por cumprir seus contratos e por acreditar que um bom planejamento é o melhor caminho para o sucesso. Até que, após a derrota do rubro-negro carioca por 4 a 2 para o Atlético Paranaense, declarou que o elenco não estava assimilando o que era pedido e abandonou o clube. Por enquanto, qualquer afirmação sobre outros motivos para a sua intempestiva saída não passam de especulação, algo que não será abordado aqui. Mais importante do que descobrir as razões de Mano é entender por que não existe nenhum tipo de respeito pelos trabalhos dos técnicos no Brasil. E isso por parte dos clubes, dos técnicos e também por grande parte da imprensa esportiva. Existe uma cultura enraizada em nosso futebol que faz parecer normal um treinador trabalhar por alguns meses num clube e sair caso os resultados não surjam em pouco tempo.
Um dos casos mais emblemáticos dos últimos tempos ocorreu com Paulo Autuori. Com apenas três meses no Vasco da Gama, alegou o não cumprimento de acordos pré-estabelecidos com a diretoria e pediu o boné. Dois dias depois, assinava com o São Paulo, clube pelo qual foi campeão mundial em 2005. De forma quase surreal, sem ter tido quase nenhum tempo para treinar seus atletas graças a um calendário sufocante, Autuori foi desligado do tricolor paulista com oito semanas no Morumbi. Em questão de horas, Muricy Ramalho foi confirmado como seu sucessor.
O que mais chama a atenção é a maneira como situações absurdas como essas são tratadas com naturalidade por aqui. É certo que as chegadas e partidas desses profissionais rendem manchetes e cliques, mas a complacência em relação a essas notícias remete à aceitação de que tais condutas são normais quando, na verdade, não deveriam ser. Paulo Vinícius Coelho, jornalista da ESPN, defende a adoção de uma regra que não permita que um técnico assuma outra equipe de uma mesma liga com a temporada em andamento. É possível que tal medida seja capaz de amenizar a rotatividade, porém, nada vai mudar se nossa mentalidade continuar a mesma. Com o atual entendimento, ao final do campeonato, é capaz de termos metade dos times comandados por interinos em vez de uma liga que valorize seus treinadores. Antes de mudar as regras, é preciso a compreensão de que trabalhos duradouros e organizados são melhores do que experimentos passageiros. Difícil é enxergarem algo tão óbvio.
Imagem: Wagner Meier - Estadão

domingo, 4 de agosto de 2013

Um velho tema


Retorno excepcionalmente ao blog para tratar de um assunto que tantas vezes foi objeto de debate neste espaço: Duelos entre times brasileiros e times europeus. Após o novo massacre sofrido pelo Santos diante do Barcelona, desta vez por humilhantes 8 a 0, vozes surgiram para afirmar que esse placar assombroso dá a exata medida da diferença entre uma grande equipe nacional e um gigante europeu. Isso mesmo. Um amistoso, na casa do Barcelona, diante de um Santos que ainda procura se encontrar após a perda de seu melhor jogador – justamente para o Barça – define tudo o que foi visto nas últimas décadas.

É óbvio que essa afirmativa está equivocada. Uma única partida nunca poderia significar tudo o que envolve duas realidades tão distintas apesar de ser o mesmo esporte. Se existe alguma forma de se medi-las, ela se dá pela observação de todos os confrontos entre brasileiros e europeus após a vigência da chamada Lei Bosman, o momento na história do futebol onde o dinheiro passou a falar mais alto do que os projetos esportivos por melhores que fossem. Ou seja, em condições normais de temperatura e pressão, quanto mais recursos uma agremiação pode investir em sua equipe, maiores serão as chances de se produzir um time competitivo.

Posto isso, é evidente que os gigantes do Velho Continente são, em teoria, mais fortes do que os grandes times brasileiros. Contudo, o histórico indica que essa distância não só é menor do que os oito gols sofridos pelo time praiano como mostra que muitas vezes essa diferença pode ser suplantada com estratégia, dedicação e até uma pitada de sorte. Como o Corinthians, atual campeão mundial, derrotando o Chelsea numa partida em que não foi superior, mas conseguiu equilibrar as ações em diversas ocasiões durante os 90 minutos e fez por merecer a vitória. Talvez sucessos como o do Timão entrem para a galeria dos mais fracos vencendo os mais fortes, porém, não foi um triunfo que causasse o espanto diante de um absurdo. Quem conhecia o campeão sul-americano sabia que poderia dar jogo. E deu.

Como também houve jogo quando o Ajax, em intertemporada, veio ao Brasil e foi derrotado por Palmeiras e no ano seguinte pelo Vasco. Naquelas partidas, eram equipes de poderio financeiro semelhante se enfrentando de igual para igual, e mostrando limitações que só poderiam ser compensadas com reforços nada baratos. No fundo, o mais provável é que times brasileiros estejam mais próximos das equipes médias da Europa que possuem poder aquisitivo parecido. Times que não estão no topo do mundo, mas que também não estão a oito impiedosos degraus de distância.

Getty Images

domingo, 26 de maio de 2013

Sim, talvez, não

É oficial. Neymar anunciou que será jogador do Barcelona pelas próximas cinco temporadas e agora as especulações vão girar apenas em torno de seu desempenho na Europa. Além de ser um importante objetivo de mercado do clube catalão, a transferência também agradou àqueles que consideram fundamental atuar diante dos melhores atletas do mundo para se consolidar como um deles. Nesse cenário, três perguntas se fazem pertinentes em relação ao futuro do craque, de sua participação na Seleção Brasileira e do futebol nacional.
A primeira diz respeito ao atacante. De “dono” do Santos, Neymar passará a ser apenas “mais um” no Barcelona. Diante do declínio de David Villa, é provável que o brasileiro ocupe a faixa esquerda do setor ofensivo com frequência de titular. Nada garante que sua adaptação ao futebol europeu e ao jogo coletivo do Barça será rápida, mas deixar o frágil time santista, ter mais responsabilidades táticas e não contar com a benevolência da arbitragem local tem tudo para se configurar como os obstáculos que restam para um nível mais alto de exigência.
A segunda se refere à Seleção e como seu jogador mais talentoso pode evoluir ao encontrar desafios próximos ao que terá pela frente na Copa do Mundo. Se por esse prisma trata-se de algo positivo, por outro Neymar chegará ao Mundial de 2014 tendo atuado praticamente uma temporada e meia sem descanso, uma vez que a presença na Copa das Confederações ocupará boa parte do espaço destinado às férias de quem atua no futebol europeu. Caso ficasse em Santos, chegaria à Copa no estágio físico de meia temporada, enquanto seus principais rivais estariam em fim de temporada. Em outras palavras, se Neymar ganha por um lado, perde por outro.
Por fim, o terceiro questionamento vai para o futebol brasileiro. Em clara ascensão, o Campeonato Brasileiro acaba de perder seu principal atrativo. Aos olhos do mundo isso significa que, por mais dinheiro que movimentemos neste momento, o Brasil continua sendo um mercado periférico cuja maior qualidade é a produção de jogadores em série. Para que o futebol brasileiro volte a ser a Meca de outrora é preciso criar mecanismos para que atrair nomes importantes de volta e conservar os jovens formados aqui.  Ser uma liga internacionalmente competitiva envolve, além de dinheiro, mobilização do interesse dos atletas e do público em geral. Neste aspecto, a saída de Neymar é um duro golpe.     
Imagem: Sergio Lima/Folhapress

sábado, 18 de maio de 2013

As definições de modernidade foram atualizadas

Participando do programa Bate-Bola 2 há alguns dias, o folclórico Valdir Bigode foi mais um a comentar sobre a polêmica da desatualização dos técnicos brasileiros quando disparou: “Se ganha está atualizado, se perde está desatualizado.” Na declaração simplória estava a constatação de que o ex-atacante não concordava com a ideia de atraso dos profissionais locais, o que fez este blogueiro ter uma rápida conversa via Twitter com um jornalista que estava no programa. Logicamente, ambos discordando de Valdir.
O curioso dessa história é que muitas vezes é possível notar que nem todas as pessoas que comentam sobre esse atraso têm condições de avaliar esse problema mais a fundo, embarcando apenas na onda de críticas que varre a classe em questão. Talvez o maior exemplo disso sejam as observações sobre o bom trabalho do técnico Cuca à frente do Atlético Mineiro. É muito comum ouvirmos frases do tipo “o Corinthians e o Atlético são os times que praticam o futebol mais moderno do Brasil”. Sobretudo no caso do Galo, não poderia haver equívoco maior.
Como explica (no 4º frame) o analista de desempenho das categorias de base do Grêmio, Eduardo Cecconi, o Atlético faz uso de um tipo de marcação muito conhecido do público brasileiro, o velho “cada um pega o seu e um fica na sobra”. Algo que, pelo menos em tese, não deveria ser mais usado neste país desde que Carlos Alberto Torres aproveitou os defeitos desse tipo de encaixe para marcar o quarto gol do Brasil sobre a Itália na final do Mundial de 1970. Outra característica do time mineiro que nos remete ao futebol do passado é a iniciativa de Cuca de ter um esquema que busca dar a Ronaldinho Gaúcho toda a liberdade para jogar e só marcar quando quiser. E um dos escalados para essa missão é Pierre, esforçado volante unidimensional que foi afastado do Palmeiras pelo “anacrônico” Luiz Felipe Scolari. Evidentemente, isso não significa que o Atlético não possa ser eficaz atuando dessa maneira. Sua campanha na Copa Libertadores mostra que competitividade é o que não falta. Agora, para chamar de moderno vai uma longa distância.
O caso do Corinthians é um pouco diferente. Ao contrário de praticamente todas as equipes brasileiras, os comandados de Tite se alinham de forma adiantada e compactada marcando por zona e com pressão. Em termos de filosofia de jogo lembra bastante a Juventus de Fabio Capello que o treinador gaúcho foi conferir in loco quando viajou à Itália em meados dos anos 2000. Ou seja, há quase uma década. Na prática, aquela Juve também era extremamente forte na marcação, mas, como quase todos os times de Capello, carecia de criatividade. Coincidência ou não, um problema semelhante ao que o time de Parque São Jorge enfrenta por marcar poucos gols justamente por não funcionar tão bem quando tem a posse. Se considerarmos que o futebol praticado pelos principais times do mundo busca defender e atacar com a máxima intensidade, notaremos que a segunda parte não faz parte do repertório alvinegro. Então, quando alguém vier falar em modernidade no Brasil, desconfie. Pelo menos por enquanto.
Crédito da imagem: Terceiro Tempo

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Com algum sofrimento, brasileiros confirmam favoritismo na Libertadores

Virou lugar comum analisar as chances de títulos dos clubes brasileiros a cada início de Copa Libertadores da América. Com receitas superiores em relação aos seus pares sul-americanos, as equipes locais precisam lidar também com a pressão de ter que confirmar em campo um favoritismo imposto por terceiros. Logicamente, as agremiações brasileiras projetam chegar à final da competição, mas, a princípio, a única obrigação evidente é avançar para as oitavas-de-final. E foi exatamente isso o que ocorreu nesta semana.
Atlético Mineiro, Corinthians, Fluminense, Grêmio, Palmeiras e São Paulo estão entre os 16 melhores times da Libertadores. Os seis brasileiros que disputaram o torneio cumpriram seu objetivo mínimo e se classificaram. A eles se juntaram quatro (de cinco) argentinos, um colombiano, um equatoriano, um mexicano, um paraguaio, um peruano e um uruguaio, proporção que indica a melhor performance dos times nacionais. Em termos percentuais, tivemos os seguintes aproveitamentos por país:
Argentina: 52,20%
Brasil: 58,17%
Bolívia: 30,50%
Chile: 37,00%
Colômbia: 46,33%
Equador: 44,50%
México: 58,00%
Paraguai: 40,67%
Peru: 50,00%
Uruguai: 53%
Venezuela: 27,50%
Os números acima mostram que os brasileiros realmente tiveram a melhor performance da competição e que foram seguidos de perto pelos mexicanos do Tijuana e do Toluca. Curiosamente, só o primeiro se classificou para as oitavas. Outro país que apresentou desempenho interessante foi a Argentina, embora um dos seus representantes, o Arsenal de Sarandí, tenha ficado pelo caminho. Outra constatação que chama a atenção é o baixíssimo aproveitamento dos venezuelanos, cujo futebol melhorou consideravelmente nos últimos anos, inclusive em nível de seleção, mas que não se refletiu nas campanhas de Caracas e Deportivo Lara.
Como pode ser observado no chaveamento abaixo, existe a chance de até quatro times brasileiros chegarem às semifinais, o seria um feito inédito. De mesmo modo, todos eles podem ficar pelo caminho e não alcançar essa fase. Contudo, pelo menos por enquanto, todos cumpriram seu objetivo.
Arte: ESPN

quinta-feira, 4 de abril de 2013

(Coloque um número grande aqui) tons de cinza

O texto abaixo foi gentilmente enviado por Felipe dos Santos Souza, colunista do site Trivela e um grande apaixonado pelo futebol holandês, o que não o impede de gostar do futebol brasileiro. Leitura mais do que recomendada...
Quem acompanha futebol por razões não profissionais sabe melhor do que os integrantes analíticos do meio (leia-se jornalistas, respeitáveis ou não): está cada vez mais chato discutir futebol com quem quer que seja. Parece que as ideias sobre respeitar opiniões diferentes, saber que nem sempre você precisa meter o bedelho em tudo que lê, e que discussões não necessariamente precisam ter um fim – afinal, não são lutas para uma ideia vencer a outra na base dos pescoções – estão cada vez menos populares.
E um dos assuntos que mais sofre desse mal é a tradicional “briga” que opõe “eurocêntricos” a “pachecos”. Infelizmente, os dois lados estão cada vez mais separados. Apagou-se a ideia de que você pode ter características de um e de outro: gostar de um determinado país e seu futebol, sem deixar de lado o que ocorre no Brasil. Mais do que isso: mantendo o respeito pelos dois lados. Ainda mais: dando-se o direito de comemorar o resultado bom de outro, sem necessariamente “torcer contra o seu país”.
Aqui, cabe citar um monte de experiências pessoais. Não sou jornalista, apenas vivi e exerci tal função em um momento da minha vida. Sequer tenho diploma (embora a obrigatoriedade dele seja discutível – mas aí é outra história, cuja discussão não é o foco desse texto). Mas posso dizer que ainda tenho leve relação com o jornalismo, como colunista de futebol holandês do site Trivela. E posso comentar algo sobre o assunto.
Quem me conhece – por mídias sociais, pessoalmente – sabe do meu fanatismo pelo futebol holandês. E gosto mesmo: acho engraçado e bacana ver como um país minúsculo colocou um estilo de jogar bola com tanta força e influência no mundo do futebol. Além disso, o país parece não levar a sério o esporte, do jeito certo. É como se dissesse ao mundo “sim, temos zagueiros ingênuos, goleadas obscenas, nosso campeonato é nivelado por baixo, não fazemos questão de ganhar campeonatos, mas de divertir nosso público com o futebol”.
O que não quer dizer que eu ache o futebol holandês de maior qualidade que o brasileiro. Longe disso. Supor algo assim estaria perto da loucura. Coloquemos em termos mais concretos: um jogo como o eletrizante Atlético-MG 3x2 Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro do ano passado, tem maior qualidade técnica do que 95 por cento dos jogos do Campeonato Holandês. Talvez essa percentagem seja ainda maior.
Mais do que isso: no último grande momento em que essas duas escolas de futebol se cruzaram, a Copa do Mundo de 2010, eu acreditava piamente na vitória brasileira. Não porque o time de Dunga fosse exuberante tecnicamente, mas por esbanjar o que se chama “cara de campeão”, aquela autoconfiança de um time cascudo, que se sabe capaz de superar os maiores desafios na busca de um título. Como bem comentou o jornalista Raphael Zarko, blogueiro do site YouGol, era “um time de Capitães Nascimento. Todos olhavam com cara de mau e falavam ‘não vai subir ninguém’”.
O gol de Wesley Sneijder que empatou aquela partida foi muito surpreendente, reduziu toda a autoconfiança brasileira a pó. E, enfim, a Holanda superou o Brasil. Mérito dela, por ter aproveitado as oportunidades: o que há de time que fica com um jogo em suas mãos, tendo condições favoráveis como um homem a mais, e nem assim as aproveita... Mas era surpreendente. De todo modo, fiquei feliz com a vitória da Oranje. E até dei alguns socos no ar – logo eu, que pouco me manifesto em jogos de futebol (sério!).
O que não significa que eu torcesse para que o Brasil perdesse. Apenas celebrava o fato de experimentar a Holanda estando em uma situação de favoritismo rara, na história de sua seleção. E aí entra o pulo do gato: querer que uma das seleções ou times de sua preferência tenha melhor resultado que o do outro não significa que você odeia o outro.
Além disso, particularmente, ao gostar do futebol de um outro país, não me contento só com isso. No caso holandês, corri atrás de aprender o idioma, de comprar bibliografia sobre o tema, de acompanhar jogos etc. Exatamente para não cometer distorções, dizer aquelas frases horrorosas como “fulano não jogava no Guarani” ou “sicrano do Corinthians não daria certo no VVV-Venlo”, para ter uma sobriedade na análise etc.
E é preciso ressaltar: o fato de eu acompanhar com mais proximidade o Campeonato Holandês do que a maioria esmagadora dos campeonatos estaduais periféricos do Brasil não significa que eu não conheça a existência desses clubes. Não só conheço, como respeito cada clube brasileiro, suas histórias, suas torcidas. Do Corinthians ao União São João. Do Flamengo ao Mangaratibense, que atua na Série C do Campeonato Carioca. Do Internacional ao SC Gaúcho, de Passo Fundo, último colocado da Série B gaúcha.
Posso não acompanhá-los, mas respeito, de longe. E acho que qualquer mudança de calendário, qualquer readequação de campeonatos no futebol brasileiro, tem de pensar também nos envolvidos com clubes pequenos, levar em conta a importância deles – que pode não ser tanta quanto a dos grandes, mas que existe e é tão digna quanto qualquer outra. Mas também é outra história.
E a manutenção de meus vínculos com o Brasil é intacta a ponto de eu ter ficado profundamente feliz com o título mundial sub-20 conquistado pela Seleção Brasileira, em 2011. Não só pela identidade nacional, mas também por ver um bom trabalho sendo coroado com o que merecia – e que dava mostras de que poderia render ainda mais. Não rendeu, por razões que não vêm ao caso.
E mais: ao ver o momento atual da Seleção Brasileira, pelejando para se colocar numa situação minimamente sólida, minha reação é de... tristeza. É meio como se fosse ver um ente querido sofrendo com uma situação aflitiva, sem poder fazer muito para resolver isso, e torcendo para que um dia ele resolva a situação. Francamente, alguém que sinta isso pode ser chamado de “eurocêntrico”, mesmo que acompanhe o futebol holandês e tenha por ele respeito e até carinho?
Enfim, ficam aqui algumas reflexões lamuriosas de um sujeito que gostaria de ver as pessoas aceitando melhor que acompanhar o futebol de um país não significa necessariamente deixar de lado e até maldizer o futebol de outro, como pode parecer vendo o comportamento de certos jornalistas. Trocando em miúdos: entre o branco e o preto há vários tons de cinza (está na moda, né?).
Crédito da Imagem: FIFA