domingo, 6 de setembro de 2015

Uma questão de mentalidade

Nos últimos anos, o futebol brasileiro vem sendo marcado por uma ideia bastante clara: Com raras exceções, nossos técnicos vêm se notabilizando por armar equipes voltadas para o contra-ataque. Jogar no erro do adversário costuma ser o caminho mais prático e menos trabalhoso para alcançar as vitórias. E isso passa a fazer mais sentido quando constatamos que nossos treinadores precisam defender seu emprego a cada rodada. Nesse cenário, tornou-se comum vermos times defendendo a vantagem mínima a partir do momento em que ela se estabelece. O problema é quando tal mentalidade se estende também à Seleção.
No amistoso de sábado diante da Costa Rica, tal prática ficou bastante evidente. Após um início onde o pressing foi aplicado com relativo sucesso, o gol de Hulk fez o Brasil passar a se defender com todos os jogadores no campo de defesa especulando contragolpes em bolas longas. Deste modo, nem mesmo a grande fase vivida por Douglas Costa pôde ser aproveitada, uma vez que sua maior qualidade é o excepcional desempenho no um contra um. No Bayern, Guardiola organiza seu time de forma que a posse de bola é utilizada para atrair os oponentes para o lado oposto do campo até que alguém inverta a jogada para o ponteiro decidir contra, invariavelmente, um único adversário.
Douglas, mesmo se quisesse, não encontraria tal situação na Seleção Brasileira porque a equipe trabalha pouco a bola. A carta de intenções de Dunga é claramente voltada para a verticalização das jogadas e o problema crônico na saída de bola – algo observado desde os tempos de Felipão – não só é um empecilho na criação como uma das razões para os frequentes apuros defensivos. Sem dúvida, um aspecto que deveria ser trabalhado após a pífia participação na Copa América. Mas, ao que tudo indica, o principal diagnóstico realizado pela comissão técnica diz respeito ao lado psicológico de alguns atletas e isso explica a ausência de Thiago Silva na última lista de convocados.

Todavia, o real motivo para a Seleção atuar abaixo das expectativas está na mentalidade de Dunga, que é a mesma marca da esmagadora maioria dos treinadores brasileiros. O trabalho é voltado para o resultado imediato e nunca para o aperfeiçoamento do futebol praticado. Durante a partida contra os costa-riquenhos, houve um breve instante de alento quando o comandante mandou o meia Rafinha a campo no lugar do volante Luiz Gustavo. Acostumado ao toque de bola barcelonista, o filho do tetracampeão Mazinho fez o jogo fluir e a Seleção melhorou sensivelmente. Resta saber se o técnico fez a mesma leitura de um momento tão fugaz e, ao mesmo tempo, tão auspicioso. Ainda há tempo para mudar.  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito das imagens: Leo Correa/Mowa Press e Rafael Ribeiro/CBF

sábado, 15 de agosto de 2015

Entendendo a convocação

Entrevistas coletivas com treinadores não costumam ser fáceis de interpretar. Sempre existirá a intenção do profissional de não trazer à tona todos os aspectos que cercam sua equipe e, por parte da mídia, informações que se convertam em manchetes se tornaram mais requisitadas do que as notícias sobre o esporte em si. Trata-se então de outro jogo, este travado fora das quatro linhas, algo que no caso de Dunga se torna mais ainda disputado devido ao histórico de rusgas do técnico com a imprensa esportiva desde os tempos de jogador.
Portanto, entender todas as decisões que culminaram na convocação dos 24 nomes para os amistosos da Seleção Brasileira diante da Costa Rica (5 de Setembro em Boston) e Estados Unidos (8 de setembro em Nova Jersey) não é uma tarefa simples, uma vez que ficou evidente que, ao contrário do que disse Dunga, as decisões não seguiram uma linha exclusivamente técnica. Para facilitar o trabalho, vamos dividir as observações pelas posições da lista divulgada na última quinta-feira:
Goleiros: Alisson (Internacional), Jefferson (Botafogo) e Marcelo Grohe (Grêmio);
Na meta, Jefferson e Marcelo Grohe mantêm a confiança do treinador enquanto Diego Alves se recupera de séria lesão nos ligamentos do joelho direito. Contudo, Dunga revelou a alguns jornalistas após a coletiva que deve conceder a titularidade a Grohe visando testes para as Eliminatórias. Falando no gremista, chamou a atenção o chamado dos goleiros da dupla Gre-Nal, fato inédito em toda história da Seleção. Aos 22 anos e muito seguro, Alisson possivelmente será uma das apostas do técnico para os Jogos Olímpicos de 2016.  
Zagueiros: David Luiz (PSG), Gabriel Paulista (Arsenal), Marquinhos (PSG) e Miranda (Internazionale de Milão);
Os zagueiros são um caso à parte. As convocações anteriores mostraram que David Luiz, Marquinhos e Miranda estão entre os preferidos do treinador, mas a ausência de Thiago Silva diz muito sobre a nova lista. No entanto, ao contrário do que escreve o ex-jogador Juninho Pernambucano em seu perfil no Twitter, acredito que a exclusão está muito mais ligada ao conjunto da obra do que ao pênalti cometido na eliminação para o Paraguai na Copa América. Defensor experiente, Thiago vem demonstrando sistematicamente uma instabilidade emocional, no mínimo, preocupante desde o Mundial. Por enquanto, ao contrário de Maicon, não é possível afirmar que chegou o fim da linha para ele, porém, ficou bastante claro que a confiança foi momentaneamente perdida.
Laterais: Daniel Alves (Barcelona), Danilo (Real Madrid), Douglas Santos (Atlético) e Filipe Luis (Atlético de Madrid);
Assim como ocorre com os centrais, as laterais também abrem um bom espaço para debate. Mesmo com as críticas à capacidade dos treinadores brasileiros, Daniel Alves permaneceu entre os chamados, assim como Filipe Luis, consolidado como titular da lateral esquerda. Recuperado da lesão que o tirou da Copa América, Danilo volta ao grupo. Destaque no Atlético Mineiro e com idade olímpica, Douglas Santos completa o setor. O que chama a atenção, entretanto, são as ausências. Uma eterna incógnita em termos de Seleção, Marcelo, aparentemente, continua fora dos planos. É possível que o estilo mais ousado seja um problema num time que tenta se estabelecer defensivamente, mas a relação do vice-capitão do Real Madrid com os técnicos recentes do Brasil nunca foi das melhores. Outra ausência notável é a de Geferson do Internacional. Convocado para a Copa América, o lateral surpreendeu a todos que esperavam nomes mais consolidados. Sem nenhuma aparição no torneio, também não figura entre os alas chamados na última sexta-feira para a Seleção Sub-23. Realmente, o caso mais estranho neste retorno de Dunga.         
Volantes: Elias (Corinthians), Fernandinho (Manchester City), Luiz Gustavo (Wolfsburg) e Ramires (Chelsea);
Ao que tudo indica, Dunga não viu na Copa América os mesmos problemas constatados por este colunista. Afinal, embora a transição defensiva seja um processo coletivo, os volantes escolhidos deixaram muito a desejar nessa tarefa. Esperava-se agora a opção por centro-campistas capazes de distribuir o jogo com mais fluidez. Todavia, as escolhas recaíram sobre Elias e Ramires que são muito mais condutores/infiltradores do que passadores. Por outro lado, o retorno de Luiz Gustavo deve ser celebrado por sua maior presença física em campo e bom passe. Pelo que depender de Dunga, o volante do Wolfsburg será titular até o Mundial da Rússia.    
Meias: Kaká (Orlando City), Lucas Lima (Santos), Oscar (Chelsea) e Willian (Chelsea);
Dentre os diversos equívocos de Felipão antes e durante a Copa do Mundo estava a ausência de alguém capaz de dividir a responsabilidade com Neymar. Desnecessário explicar por que isso foi um complicador diante da Alemanha. No entanto, chamar o meia do Orlando City, neste momento, é discutível. Está certo que os jovens da Seleção precisam de uma referência, mas se isto estiver custando a vaga de Philippe Coutinho – um dos poucos capazes de suprir Neymar em termos de talento – alguma coisa está errada. Sem falar que a presença de Kaká em amistosos nos EUA num momento em que se contesta a interferência de patrocinadores na Seleção não pega nada bem. De positivo, o retorno de Oscar e o primeiro teste de Lucas Lima, um dos melhores meias do futebol brasileiro na atualidade.   
Atacantes: Douglas Costa (Bayern de Munique), Hulk (Zenit), Lucas (PSG), Neymar (Barcelona) e Roberto Firmino (Liverpool).
Não ocorreu desta vez a volta de Alexandre Pato à Seleção. Mesmo com as exclusões de atletas que militam na China e no Oriente Médio, Dunga preferiu incluir Hulk e Lucas Moura e a manutenção de Roberto Firmino e Douglas Costa, este em ótima fase no Bayern de Munique. Inclusive, assim como houve na Copa América, não há nenhum centroavante típico entre os convocados. Recuperando-se de caxumba e suspenso nas duas primeiras partidas das Eliminatórias, Neymar é o 24º jogador da lista e, assim como Kaká, uma presença que levanta dúvidas sobre ingerências na convocação. Não que este colunista duvide da honestidade de Dunga, mas técnico de Seleção é como mulher de César: Não basta ser honesto é preciso parecer honesto.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Getty

sábado, 1 de agosto de 2015

A revolução silenciosa

Alguma coisa está mudando no futebol brasileiro. Lentamente, como tudo costuma ser, mas existem forças positivas em andamento dentro de uma estrutura historicamente arcaica. É verdade que o nível de endividamento dos clubes continua alarmante, que a política demissionária de técnicos segue imperando e que a cartolagem – sobretudo de federações estaduais e CBF – continua sendo um entrave. No entanto, em diversos aspectos podemos constatar avanços consideráveis que não podem ser ignorados. Pontos que, reunidos, formam uma pequena e silenciosa revolução que chama a atenção de quem sempre manteve um espírito crítico em relação ao futebol local.
Dentro de campo, já é visível a maior compactação e intensidade nas partidas. A imagem de um futebol brasileiro moroso e espaçado vem dando lugar a jogos mais rápidos e dinâmicos. Com isso, boas partidas vêm deixando de ser algo raro no Brasileirão. É certo que as longas viagens e o calendário inchado são um empecilho quando se pensa na aplicação de velocidade Premier League, porém, nota-se que a referência mudou. Os times nacionais ainda não são intensos como as principais equipes europeias, mas o Brasil não tem sido mais uma ilha isolada no planeta.
E tal mudança não passa apenas pelos jogadores e treinadores. Embora essa questão não tenha sido tratada de forma aberta pela Comissão de Arbitragem da CBF é nítida a existência de uma orientação para que os árbitros deixem o jogo “correr” mais. Os choques têm sido considerados normais e nem todo esbarrão é interpretado como falta. E isso tem contribuído de forma sensível para o aumento da dinâmica nas partidas. Mesmo a polêmica punição severa das reclamações pode se tornar algo positivo a médio/longo prazo. Existe uma cultura enraizada no Brasil que coloca o árbitro como outro adversário a ser derrotado. Quanto menos os atletas se preocuparem com os árbitros, maior a possibilidade de se concentrarem exclusivamente na partida que estão disputando. Logicamente, ainda veremos expulsões exageradas até que o novo sistema encontre seu equilíbrio, contudo, quando isso acontecer, a tendência é que todos saiam ganhando.
Outro movimento bastante positivo é a evolução da média de público dentro do campeonato. Apesar dos 16.392 pagantes desta temporada ainda não ter ultrapassado os 16.537 de média total registrada em 2014, a curva que determina o aumento de público é visível e auspiciosa. São mais de 20 mil em julho, sendo que a décima sexta rodada tem tudo para ser a de maior público até o momento com quebra de recorde do campeonato na partida entre Flamengo e Santos no Maracanã. Difícil especificar todos os fatores para o aumento do público, uma vez que o preço médio do ingresso continua alto. Mas é possível citar alguns como o novo horário das 11 da manhã, a presença de Atlético Mineiro e Corinthians nas primeiras colocações da tabela, o fantástico apoio da torcida do Palmeiras (dono da maior média) e a chegada do atacante Paolo Guerrero inflamando os torcedores do rubro-negro carioca.
Enquanto algumas coisas se transformam internamente, boas notícias surgem do meio externo ao esporte. Quase que simultaneamente às ações do FBI que desmantelaram um esquema de corrupção na FIFA e culminaram com a prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, houve a aprovação no Senado Federal da Medida Provisória 671, também conhecida como MP do Futebol, na prática, trata-se do primeiro passo para o fim das gestões temerárias que tantos danos causaram ao nosso futebol. Evidentemente, a chamada Bancada da Bola trabalha para diminuir os impactos da MP, entretanto, dificilmente conseguirão barrar o cerne da matéria. Não há dúvidas de que o futebol brasileiro deveria ser mais autônomo, mas se não é capaz de se auto-regular, que a moralização venha de fora.
Paralelamente, não se nota grandes mudanças em nossa imprensa esportiva. A perigosa mistura entre esporte e entretenimento está mais presente do que nunca e isso se nota até em espaços onde a informação ainda sobrevive como o principal ativo. Está claro que a audiência norteia a mídia e isso não seria diferente no esporte, porém, a busca pela qualidade não pode ser deixada em segundo plano. Análises táticas mais profundas e debates mais elevados não deveriam ser exceções num grande universo de mesas redondas que levam do nada a lugar nenhum. Do mesmo modo, as entrevistas deveriam questionar muito mais sobre o jogo, em vez de alimentar intrigas e fomentar a eterna corda bamba em que vivem os treinadores. Não há dúvida que todos sairiam ganhando com isso. Sobretudo, o futebol tão massacrado no país que um dia o classificou como casa. 
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

domingo, 12 de julho de 2015

Precisamos falar sobre projeto esportivo

Este post está sendo escrito poucas horas antes de Flamengo e Corinthians entrarem em campo pela 13ª rodada do Campeonato Brasileiro. Como vivemos no país dos resultados, as ausências de Paolo Guerrero e Emerson pelo lado rubro-negro terão o peso do que apontar o placar ao final da partida. Em caso de derrota, o mais provável é que a culpa recaia sobre os ombros do presidente Eduardo Bandeira de Mello que aceitou a solicitação dos representantes corintianos para que os dois atacantes não participassem do confronto de hoje. Como os detalhes da negociação não vieram a público, provavelmente nunca saberemos em quais circunstâncias Bandeira acatou tais condições. Sendo assim, o melhor julgamento não se viabiliza nesta questão.
Contudo, é possível dizer que, como um todo, o planejamento esportivo da atual gestão do Flamengo deixa a desejar. E isso, que fique bem claro, não tem a ver com a gestão financeira exemplar do clube, mas com a maneira como o futebol vem sendo gerenciado. Antes de Cristóvão Borges e Rodrigo Caetano, nada menos que seis treinadores e dois gerentes de futebol passaram pelo Flamengo em dois anos e meio. Dentre eles, apenas Mano Menezes saiu por decisão própria. O restante foi demitido sem conseguir concluir seus projetos. Em outras palavras, não é preciso ser um gênio esportivo para perceber que alguma coisa está fora da ordem na Gávea. Embora os dirigentes rubro-negros sejam profissionais de sucesso em outras áreas, ainda são amadores em sua nova empreitada.
Pouco depois de deixar o Flamengo, Mano Menezes disse que os dirigentes brasileiros não sabiam responder qual era o seu projeto esportivo. Questões básicas como que tipo de futebol se almejava não encontravam eco. Não foi uma crítica direta, mas era bastante cabível ao seu ex-clube. Sem a mesma capacidade argumentativa do gaúcho, Vanderlei Luxemburgo, em sua entrevista coletiva de despedida, foi mais direto ao dizer que a diretoria rubro-negra não entendia nada de futebol. Lamentavelmente, os fatos têm dado razão ao novo técnico do Cruzeiro.
Companheiros de Bandeira de Melo já disseram algumas vezes que “A bola não entra por acaso” do espanhol Ferran Soriano é o livro de cabeceira do grupo. Para quem não conhece, a obra conta como o Barcelona se reorganizou para brigar num mercado globalizado e chegou ao topo. Todavia, os admiradores locais parecem não ter notado que o êxito dos catalães se baseou tanto na gestão financeira quanto no planejamento esportivo. No futebol, esses são pontos que se entrelaçam a todo instante. Um não caminha bem sem o outro. E enquanto esse entendimento não ocorrer, reportagens como a que saiu no “The New York Times” serão o único motivo de orgulho.
Imagem: Lancenet

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O primeiro ano do resto de nossas vidas

Doze meses nos separam daquela que ficou conhecida como “a Copa das Copas” – definição que antes parecia ser apenas um exagero do Governo Federal para o evento que organizava, mas que acabou se tornando realidade quando a bola começou a rolar. Partidas empolgantes, craques desfilando categoria pelos nossos gramados, a festa das torcidas, a comprovação de nossa hospitalidade e muito drama fizeram da última edição do Mundial algo inesquecível – no caso específico dos anfitriões, por uma razão bastante amarga.
Um ano após o revés mais doloroso da história da Seleção Brasileira, é possível classificar o 7 a 1 aplicado pela Alemanha como um divisor de águas em nosso futebol. Embora a elasticidade do placar tenha especificidades pontuais, pode-se dizer que ali foi sepultada toda uma forma de se jogar. Em 90 minutos, os alemães comprovaram como um coletivo forte está a um abismo de distância de um bando de jogadores cuja única arma era a vontade. Foi o triunfo da organização e do planejamento sobre o imediatismo e a negligência, confirmando em 2014 o que a Espanha já havia sinalizado em 2010. Mesmo sem supercraques, mostraram ser possível formar um time capaz de ser encantador e, ao mesmo tempo, altamente competitivo. Uma lição que o Brasil poderia e deveria ter assimilado.
Naquele momento, restava a oportunidade de juntar os cacos e recomeçar a partir da direção apontada por seus adversários. Todavia, lamentavelmente, a primeira ação da CBF foi tentar varrer a tragédia esportiva para debaixo do tapete. A palavra “apagão” surgiu para batizar o massacre, e tudo permaneceu como era antes. Para tentar recolocar o escrete verde-amarelo nos trilhos, Dunga foi reconduzido ao posto de técnico. Estava implícita a ideia de que o capitão do Tetra poderia colocar ordem na casa e reeditar a equipe empenhada que marcou a sua passagem anterior até a fatídica derrota para a Holanda na Copa da África do Sul.
Dunga, por tudo o que tem demonstrado, mudou pouco durante o hiato de quatro anos que o afastou da Seleção. A sede de vitórias permanece a mesma e a sua concepção tática ainda prioriza o contra-ataque em detrimento da proposição. Sem a bola, os seus comandados continuam fechando os espaços de forma eficiente, com uma compactação defensiva que está de acordo com a cartilha do futebol moderno. Mas o problema maior se apresenta quando o seu time tem a bola nos pés.
Por ironia do destino – e pelos caminhos tortuosos tomados pela escola brasileira nas últimas décadas –, o país que um dia ficou mundialmente conhecido pela fantasia e pelo bom trato com a bola hoje não sabe mais o que fazer com ela. Assim como ocorreu com Luiz Felipe Scolari, a Seleção continua sofrendo na transição entre defesa e meio de campo, e sendo obrigada a assistir adversários teoricamente inferiores assumindo as rédeas das partidas, deixando claro que um dos principais objetos de crítica durante a Copa de 2014 permanece intacto.
O segundo fracasso consecutivo em competições oficiais trouxe consigo o fortalecimento da dúvida sobre a verdadeira qualidade da atual safra de jogadores brasileiros. Exceção feita a Neymar, todos os atletas vêm sofrendo questionamentos acerca de suas capacidades, e as comparações com gerações passadas se tornaram inevitáveis. Nem mesmo a massiva presença nos principais clubes do planeta e as enormes cifras que suas transações têm movimentado são suficientes para demover a ideia de que os talentos estão cada vez mais escassos. E o fato de ninguém ter apresentado um comparativo minimamente decente entre as épocas só indica como tal discussão soa vazia, muito mais presente no âmbito das sensações do que das análises.
O que nem todos percebem é que a realidade do futebol mundial mudou. Com a intensidade cada vez maior do jogo e a redução do tempo e do espaço, o craque só continuará fazendo a diferença se houver um coletivo forte em torno de si. Com os nomes que possui, esta geração e provavelmente as vindouras podem se tornar competitivas desde que sejam adequadas às demandas atuais do esporte. Para isso, é necessário tanto que se corrijam os rumos do trabalho de Dunga quanto que se planeje o nosso futebol como um todo, da base à ponta da pirâmide.
De um ponto de vista mais restrito, em que se analisa separadamente a Seleção Brasileira, o primeiro passo é reestruturá-la em busca do protagonismo perdido. Embora o estilo de nossos meias e atacantes esteja mais voltado para a verticalização e o ataque aos espaços, não se pode perder de vista que o jogo inteligente deve ser gerado a partir dos volantes. Sem uma participação efetiva dos homens mais recuados do meio de campo, a construção de jogo passa a ficar dramaticamente comprometida – o que, naturalmente, faz com que cabeças-de-área puramente marcadores e meias ofensivos que apenas realizam infiltrações não cumpram de forma satisfatória essa missão.
Outro aspecto fundamental é o entrosamento do novo grupo brasileiro, que, embora tenha tido uma reformulação menos drástica em comparação a ciclos anteriores, sofreu uma quantidade de alterações bem superior a Chile e Argentina, por exemplo, finalistas da Copa América de 2015. Além disso, há ainda a questão psicológica, que começa no craque Neymar, com imbróglios jurídicos em Barcelona, passa pelos rompantes “heroísticos” de David Luiz e chega à instabilidade de Thiago Silva. E tudo isso em meio a uma onda da palavra “decadência” e de visões autodestrutivas sobre tudo.
Na verdade, as deficiências estruturais do futebol brasileiro mudaram pouco nas últimas décadas. Os dirigentes corruptos, o calendário inchado, os péssimos gramados, a violência das organizadas e o baixo público nos estádios sempre foram características marcantes do futebol local. Os nossos problemas não se tornaram subitamente maiores, mais profundos ou até mesmo insolúveis devido ao que aconteceu na Copa de 2014.
Independentemente de tudo isso, debater as demandas do nosso futebol continua a ser algo fundamental para a sua saúde – e a tentativa da cúpula da CBF de promover uma agenda acerca do assunto, apesar de ainda ser insuficiente e acontecer com pelo menos um ano de atraso, não deixa de ser uma sinalização. Para que sejamos capazes de cicatrizar as nossas feridas e pavimentar um futuro melhor, o primeiro passo é compreender os equívocos do passado. A tragédia esportiva do dia 8 de julho de 2014 só terá um significado positivo se, mais do que escancarar os nossos defeitos, ajudar a impulsionar as melhorias que o futebol brasileiro tanto precisa.
Texto escrito originalmente para o site Conexão Fut
Imagem: AFP

sábado, 27 de junho de 2015

A cultura do sofrimento

Como velha raposa do futebol que é, Ramón Díaz sabia o que fazer para anular a Seleção Brasileira. Observou o que o compatriota José Pékerman havia feito com a Colômbia e adiantou sua marcação para explorar o crônico problema brasileiro na transição entre defesa e meio-campo. Como ocorria com Luiz Felipe Scolari, a equipe de Dunga sofre tanto para sair jogando quanto para manter a bola em seus pés. Sem conseguir usufruir da posse, restava apenas a tentativa dos contragolpes que se tornaram a única alternativa após o gol nascido na primeira boa escapada.
Numa de suas entrevistas coletivas, Dunga declarou que o sofrimento daria a tônica do percurso de seu selecionado na Copa América. E assim foi. Sofreu diante de Peru, Colômbia, Venezuela a na eliminação diante do Paraguai. Desses quatro, apenas os colombianos eram rivais de destaque no atual cenário mundial. Nos outros casos o Brasil penou justamente por não conseguir transformar sua superioridade técnica em domínio e, sobretudo, em gols que dariam a tranquilidade necessária. Um episódio emblemático ocorreu diante da Venezuela, quando Dunga optou pela entrada de mais dois zagueiros e viu um adversário que estava praticamente batido ressuscitar e quase empatar.  
Sofrimento normalmente gera pressão. E pressão pode provocar nervosismo. E isso provavelmente explica o pênalti absolutamente desnecessário cometido por Thiago Silva e que acabou resultando no gol paraguaio. Uma instabilidade preocupante ainda mais por se tratar de um zagueiro experiente e que figura entre os mais valiosos do planeta. Não é absurdo dizer que o Paraguai não levava perigo suficiente para chegar ao empate sem uma mãozinha do defensor. E não há dúvida de que daqui em diante seu nome sempre será questionado por imprensa e torcida.
Quem também sofre é o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Acuado pelas investigações do FBI e da Polícia Federal, o dirigente pode tentar desviar o foco de si para a escolha de um novo treinador para substituir Dunga. Muitos dirão que não faltam motivos para a troca, o que até pode ser verdade. No entanto, em nome da continuidade do trabalho, recomenda-se que o técnico permaneça. Independente do nome escolhido para a sequência, os problemas indicam que o sofrimento deve dar a tônica até a Copa do Mundo de 2018. Talvez Dunga não esteja tão errado assim.    
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Reuters

domingo, 21 de junho de 2015

Sobrou vontade. Faltou futebol

Horas antes da partida em que a Seleção Brasileira bateu a Venezuela por 2 a 1, Lédio Carmona, comentarista do canal SporTV, falou sobre a obrigação de vitória diante do selecionado viñotinto como uma demonstração de respeito à camisa “tão pisada nos últimos meses”. Naquele momento, de certo modo, o jornalista estava condicionando o triunfo à vontade dos jogadores brasileiros. Respeitosamente discordo dessa visão. O futebol já provou sobejamente que vontade é um componente importante, mas está longe de ser o aspecto mais relevante do jogo.
Como se trata de um esporte coletivo, arrisco dizer que o aspecto mais importante é a organização. Para ser considerada eficiente, uma equipe precisa se defender bem, armar suas jogadas com inteligência e ser contundente no ataque. Por consequência, intensidade e compactação se tornaram palavras de ordem quando se pensa em modernidade no futebol. E, embora a Seleção de Dunga seja compacta e intensa sem a bola, com ela nos pés a história é outra. Obviamente, a melhoria na fase ofensiva depende do entrosamento do novo time. Todavia, também cabe discutir as escolhas do treinador.
Desde os tempos de Felipão, a transição defesa/meio-campo tem sido um tormento para a Seleção. A bola circula de uma lateral a outra sem que os volantes assumam sua função de armar as jogadas. Por diversas vezes, o meia Willian precisou recuar para receber dos pés dos zagueiros que iniciar as manobras de armação enquanto Fernandinho permanecia preso à frente dos defensores e Elias se entregava à marcação. Do banco, Casemiro, um dos melhores passadores do grupo convocado para a Copa América, assistia a tudo sem receber uma oportunidade do técnico.
O grande ponto de inflexão da partida se deu após o gol de Roberto Firmino. O confortável placar de 2 a 0 propiciou a Dunga a possibilidade de colocar em campo o volante recém-incorporado ao Real Madrid e tentar ficar mais com a bola. Porém, o caminho escolhido foi colocar David Luiz no meio-campo pensando em vencer mais duelos aéreos e, quem sabe, especular lançamentos. Instantes depois, a entrada de Marquinhos no lugar de Robinho deu a certeza de que o treinador estava muito mais preocupado em defender o placar do que construir uma vitória mais contundente. Não por acaso, a Venezuela descontou após o rebote de uma cobrança de falta cometida pelo mesmo Marquinhos e o Brasil tomou um esperado sufoco nos minutos finais.
E assim, o torcedor brasileiro experimentou a sensação de ver sua seleção escalando quatro zagueiros para se defender da Venezuela. Mesmo que Marquinhos tenha ido para a lateral-direita e David Luiz para o meio, as alterações simbolizaram a maneira como Dunga enxerga o futebol. Embora o técnico tenha dito que acompanhou de perto a Copa do Mundo, restou a dúvida se observou a campeã Alemanha e seus volantes construtores. Neste ponto, e apenas neste, poderíamos seguir a linha de Lédio Carmona e dizer que se sobrou vontade durante os 90 minutos, faltou outro elemento abstrato tão importante quanto: Coragem.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O saudosismo e outras drogas

A derrota da Seleção Brasileira para a Colômbia na última quarta-feira despertou na imprensa e na torcida uma fúria e um fatalismo que andavam parcialmente adormecidos desde o final da Copa do Mundo de 2014. Obviamente, o descontentamento foi potencializado pela maneira como os comandados de Dunga foram subjugados durante quase toda a partida que decretou o fim da sequência de onze vitórias desde que o capitão do Tetra reassumiu o posto, porém, o exagero nas reações e nas “avaliações” fez lembrar por que o jornalista inglês Tim Vickery nos define como maníaco-depressivos.
Naturalmente, existem pontos em que pouco há o que se discutir. O primeiro deles é que o futebol brasileiro precisa rever determinados conceitos como, por exemplo, a função exercida pelos meio-campistas. Atualmente, com a compactação dos setores, não cabe mais a divisão entre os volantes que apenas marcam e os meias que só atacam. Portanto, os jogadores que atuam na faixa central de nosso 4-4-2 (4-4-1-1) devem participar da saída de bola, da criação da jogada e do avanço até a intermediária ofensiva. Esse possivelmente foi o maior pecado da Seleção em sua derrota. Com a marcação alta da Colômbia bloqueando as laterais, Elias e Fernandinho não conseguiam executar a transição de forma adequada e a bola voltava aos pés adversários em forma de perigosos contragolpes. Uma pressão que acabou resultando no único gol do cotejo.
O segundo ponto (quase) pacífico é que não possuímos uma grande geração neste momento. Excetuando Neymar, os outros convocados possuem bom nível, mas poucos são realmente capazes de dividir o protagonismo com o craque do Barcelona. Quando o atacante não consegue atuar em seu mais alto nível, ninguém se mostra capaz de compensar tecnicamente, assim como não há um jogo coletivo que possa sustentar a performance da equipe em momentos de pouco brilho do ídolo. Construir uma Seleção capaz de se impor mesmo sem seu maior astro – ora suspenso pela Conmebol por quatro partidas – talvez seja a grande missão de Dunga em sua segunda passagem.
No entanto, agir como se este fosse o pior período de nossa história futebolística colocando-o abaixo de entressafras similares ou fazendo recortes de períodos específicos não parece a avaliação mais justa. Nem sempre tivemos Romário e Ronaldo em nosso ataque. Inclusive, a rigor, só reunimos dupla Ro-Ro em 1997. E o próprio Rivaldo, coadjuvante de luxo à época ainda não havia se firmado com a camisa amarela. Isso faz lembrar o período que se seguiu ao fim da geração de Zico, Falcão & Cia quando as pessoas viam um jovem Bebeto como prova definitiva da decadência do futebol brasileiro.
Constatar as questões acima de modo algum quer dizer que o futebol brasileiro vive um mar de rosas ou que os profissionais da área não precisam se mexer. Temos muito que repensar em diversas áreas e o massacre no Mundial deveria ser um marco dessa conclusão. Contudo, discursos preguiçosos ou apocalípticos contribuem pouco para esse debate. Ou quem sabe, apenas façam parte do que deveríamos ter sepultado em 8 de julho de 2014.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os primeiros três pontos

Após dez vitórias seguidas em amistosos, a Seleção Brasileira entrou em campo na noite deste domingo para a primeira partida oficial após a Copa do Mundo. Como não poderia deixar de ser, tratava-se de um jogo cercado de expectativa, uma vez que uma sombra da desconfiança pairava – e ainda paira – sobre a equipe do técnico Dunga. Não havia dúvida que recolher os cacos do maior fracasso da história do futebol nacional e recomeçar não seria uma tarefa fácil. E isso ficou bastante evidente na estreia na Copa América diante do Peru.
Nesse cenário, sofrer um gol pouco depois do pontapé inicial em seguidas falhas da defesa está longe de ser o melhor dos mundos. Apesar da resposta de Neymar ter ocorrido rapidamente, ficou claro ali que o nervosismo deu a tônica da Seleção daquele momento em diante. A compactação e o sentido mais coletivo que marcaram as partidas anteriores não foram os mesmos e o time buscou a vitória pelo caminho mais complicado, ou seja, aos trancos e barrancos.
Com David Luiz repetindo os abandonos de sua linha para disputar bolas altas no meio e jogadores dando botes precipitados que basicamente serviam para abrir clareiras na defesa, a Seleção lembrou o amontoado de Felipão de tão dolorosa memória. Sem uma geração brilhante, Dunga precisa mais do que nunca transformar seu elenco em um time capaz de ser competitivo e taticamente equilibrado, feito que alcançou no Mundial da África do Sul, embora tenha se perdido em sua gratidão a alguns nomes úteis na conquista da Copa América de 2007, mas que não tinham mais como contribuir três anos depois.
Desta vez, sem Oscar desde a convocação e sem Philippe Coutinho para o cotejo de estreia a criatividade do meio de campo verde-amarelo ficou quase toda a cargo de Willian. Percorrendo todos os lados do campo, o atleta do Chelsea tentou acionar Neymar por diversas vezes e foi uma das poucas peças lúcidas no gramado. Só não foi o melhor do Brasil porque havia Neymar, aquele que continua sendo o fator de desequilíbrio do time. Neymardependência? Melhor depender dele do que não ter ninguém a quem recorrer. Todavia, para as ambições brasileiras, isso talvez não seja o suficiente.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty

terça-feira, 5 de maio de 2015

Uma chance para Coutinho

As surpresas relativas à convocação da Seleção Brasileira para a disputa da Copa América começaram com o anúncio de João Doria Júnior como chefe da delegação brasileira no Chile. Figura conhecida muito mais por sua faceta de apresentador de TV e pelo posicionamento político do que pela afinidade com o futebol, o empresário surge como um recado da cúpula da CBF dizendo ao esporte nacional de que lado a entidade está. Felizmente para a Seleção, o posto de chefe de delegação não guarda a mesma importância dos tempos de Paulo Machado de Carvalho, nome de indiscutível relevância organizacional e logística nas campanhas vitoriosas de 1958 e 1962.
Outra surpresa desagradável, esta dentro de campo, foi a não convocação de Oscar para a competição que se inicia em 11 de junho. Lesionado, o meia tem uma estimativa de lenta recuperação, o que comprometeria o nível de sua participação. Se é que existe a possibilidade de haver uma boa notícia neste caso, vale ressaltar que o atleta do Chelsea atua de forma praticamente ininterrupta desde 2011 e um merecido descanso não só não faz mal como pode garantir uma performance melhor quando as Eliminatórias para a Copa do Mundo tiverem início.

Por outro lado, a ausência de Oscar na lista abre espaço para Philippe Coutinho finalmente alcançar o esperado destaque no elenco do técnico Dunga. Vindo de temporadas brilhantes com a camisa do Liverpool, Coutinho pode ser peça criativa que falta ao meio-campo da Seleção. Além disso, seu bom entrosamento com Neymar nascido ainda nos tempos de sub-17 pode representar um diferencial para o selecionado verde-amarelo.
Em boa fase no Porto, Casemiro aparece como opção de volante com passe mais qualificado. Mesmo que o titular da posição seja Luiz Gustavo, não deixa de ser positivo perceber que Dunga enxerga o que o mundo do futebol pede que o jogador dessa posição desenvolva. Paralelamente, nomes como Everton Ribeiro e Diego Tardelli estão na berlinda por atuarem em ligas periféricas. Preenchendo a cota experiência da Seleção, Robinho também teve seu chamado questionado, apesar do bom momento que atravessa no Santos.
Confira abaixo os 23 jogadores convocados para os amistosos contra México (7 de junho) e Honduras (10 de junho) e para a disputa da Copa América:
Goleiros: Diego Alves (Valencia), Jefferson (Botafogo), e Marcelo Grohe (Grêmio);
Zagueiros: David Luiz (PSG), Marquinhos (PSG), Miranda (Atlético de Madrid) e Thiago Silva (PSG);
Laterais: Danilo (Porto), Fabinho (Monaco), Filipe Luís (Chelsea) e Marcelo (Real Madrid);
Volantes: Casemiro (Porto), Elias (Corinthians), Fernandinho (Manchester City), e Luiz Gustavo (Wolfsburg);
Meias: Douglas Costa (Shakhtar Donetsk), Everton Ribeiro (Al Ahli), Philippe Coutinho (Liverpool) e Willian (Chelsea);
Atacantes: Diego Tardelli (Shandong Luneng), Neymar (Barcelona), Roberto Firmino (Hoffenheim) e Robinho (Santos).
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty

quinta-feira, 26 de março de 2015

Mais do que um placar

A vitória da Seleção Brasileira sobre a França por 3 a 1 no amistoso desta quinta-feira não foi uma vingança pela derrota na final de 1998. Do mesmo modo, o triunfo no Stade de France também não devolve as eliminações nos Mundiais de 1986 e 2006. Nem apaga da memória o massacre sofrido na última Copa e muito menos soluciona os sérios problemas estruturais do futebol brasileiro que, diga-se, têm pouco a ver com a Seleção e seus inúmeros “estrangeiros”. E qualquer apregoação nessa direção provavelmente resvalará numa euforia que sempre nos fez mal.
No entanto, é preciso observar o momento da Seleção Brasileira sem as amarras do trabalho anterior e olhando para frente.  Após a derrota para Alemanha, o que mais se cobrava da equipe verde-amarela era competitividade e apresentação de um futebol compatível com o que o mundo inteiro pratica. Tratava-se de algo muito mais relevante do que vitórias em amistosos ou recolocação no ranking da FIFA. E é exatamente isso o que está acontecendo sob o comando de Dunga.
A tão malfadada bola longa (ou chutão, como preferir) não faz mais parte do repertório verde-amarelo, a pressão alta está mais coordenada e a compactação está próxima do ideal. Tudo dentro do figurino neste estágio do trabalho. Isso não quer dizer que a Seleção está pronta para vencer seus desafios até 2018, muito menos indica que o trabalho está perto do fim. Ainda existem diversos pontos a serem aperfeiçoados como a bola parada, a velocidade de transição e o entrosamento dos homens de frente. Sem falar que um selecionado nacional nunca é obra pronta. A porta sempre deverá estar aberta para a chegada de novos talentos, sob o risco de repetir 2010.
Contudo, é preciso reconhecer que algo está sendo feito. Inclusive em termos de proposição de jogo, algo cobrado por nove entre dez comentaristas. É notório que a figura de Dunga causa repulsa e que sua retórica pouco adequada aos nossos tempos não é bem aceita num mundo onde o discurso costuma valer tanto quanto a prática. Se deixarmos o preconceito de lado, veremos que existe algo positivo em andamento, mesmo que o autor do trabalho não seja o arquiteto dos sonhos.

Imagem: Getty

domingo, 15 de março de 2015

A era da desinformação

Quando adolescente, ao tentar entender o funcionamento da imprensa em geral, sempre ouvi dizer que imparcialidade era a palavra-chave. Que o jornalismo imparcial era o melhor caminho para a informação. Mais velho, percebi que embora isso seja o ideal, a imparcialidade era algo utópico uma vez que todo profissional possui seus conceitos e que isso inevitavelmente o faria tomar partido do que entendesse ser o mais correto. Ou, na pior das hipóteses, tomaria partido do seu contratante. Deste modo, a imparcialidade deu lugar à isenção, termo parecido, mas que no jornalismo seria o equivalente à liberdade para informar sem estar atado a compromissos de terceiros.
Infelizmente, nesta altura da vida me parece evidente que imparcialidade e isenção, em diferentes escalas, não existem em sua plenitude nos meios de comunicação. E isso acontece porque sempre haverá interesses econômicos, políticos ou ideológicos se sobrepondo à informação. Ou melhor, a informação está lá, mas exposta da forma ou do tamanho que for mais conveniente. Alguém poderia dizer que o diabo mora nas manchetes, mas desconfio que ele sobrevive e se revigora na falta de espírito crítico do público em geral. Com esse espírito seria mais simples buscar a informação mais completa em meio a tanto achismo e indução ao erro.
O que estamos vivendo no Brasil atualmente talvez seja a expressão máxima de como a imprensa pode manipular a opinião pública sem necessariamente mentir. Basta omitir fatos – a alta do dólar no mundo inteiro aqui travestida de desvalorização do real é um bom exemplo – escolher os colunistas cujo posicionamento seja o mais conveniente, além de mascarar dados e temos o cenário perfeito para quem já está predisposto a clamar por impeachment, intervenção militar e retorno da ditadura (alô, professores de História!).
No entanto, ao contrário de outras épocas, o acesso à informação e a diversidade de meios de comunicação e interesses são capazes de suplantar, pelo menos em parte, a venda que alguns tentam colocar na população brasileira. Hoje não é tão fácil manipular num país inteiro como se fez nas décadas de 1960 e 1990, ainda mais com tantos escândalos pipocando por todas as partes. Contudo, restou provado que a regulamentação da mídia é uma necessidade real. Não como forma de interferir na liberdade de expressão ou mesmo censurar, mas para coibir a formação de oligopólios e monopólios e combater à desinformação.
Não permita que alguém pense por você.

Imagem: Reprodução

sábado, 7 de março de 2015

Dória, Bielsa e a imagem dos brasileiros no exterior

Um dos principais reforços do São Paulo em 2015, Matheus Dória foi o convidado da terceira edição do programa Bate-Bola, da ESPN Brasil, na última quinta-feira. Em dado momento, o zagueiro foi perguntado sobre sua passagem pelo Olympique de Marselha e as dificuldades que enfrentou sob o comando do argentino Marcelo Bielsa. Aproveitando a ocasião, Dória falou a respeito de seu não aproveitamento no time francês e do comportamento do técnico com auxiliares e com ele mesmo. Ali estava apenas a versão do jovem brasileiro, mas as reações que vieram a seguir surpreenderam este blogueiro. Com poucas ressalvas ou contextualização, a maior parte das pessoas que se manifestaram sobre o tema optou por criticar Dória. É como se o jogador brasileiro fosse o único culpado por seus infortúnios no Olympique independente do que lá aconteceu.
Antes de tudo, é preciso recordar como se deu a contratação de Dória pelo OM. Figura de destaque no Botafogo desde 2013, embora não fosse unanimidade entre os torcedores, o zagueiro tornou-se objeto de cobiça de importantes clubes europeus e acabou desembarcando na França por cerca de oito milhões de euros. No entanto, antes mesmo de se apresentar ao seu novo treinador, Dória se deparou com a entrevista coletiva de El Loco dizendo que sua diretoria não o consultou sobre a contratação, que não tinha avaliado o defensor e que era contra a sua chegada. Não é preciso ser um gênio para perceber que a vida do garoto, então com 19 anos, não seria fácil em Marselha. Como era de se esperar, Dória ficou encostado no clube até que o São Paulo o repatriasse.
Reunindo esses fatos, o depoimento de Dória e refletindo sobre o histórico de loucuras de Marcelo Bielsa é possível chegar à conclusão de que pode não se tratar do clássico caso do jogador que não conseguiu seu espaço e saiu atirando contra o seu ex-técnico. Bielsa nunca quis a chegada de Dória, não fez questão de esconder isso e nunca concedeu chances reais para o jogador se firmar. Analisando a questão, ela remete muito mais a uma típica queda de braço entre dirigente e técnico do que propriamente a reprovação de um atleta após um período de trabalho e convivência.
Contudo, é possível dizer que há, por parte de algumas pessoas, uma pré-disposição em considerar os brasileiros culpados por qualquer situação negativa no exterior independente dos fatores que esta envolver. Possivelmente baseada em episódios onde os brasileiros realmente erraram, criou-se por aqui uma regra geral onde o profissional brasileiro, seja ele técnico ou jogador, está sempre errado. Um provável resultado da soma de pouco pensamento crítico somado ao atávico complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues definiu tão bem. Esta sim, uma típica conduta com ares de regra geral.

Imagem: Divulgação

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O 7 a 1 e os pandas

O ex-jogador Gérson costuma repetir uma lição que recebeu de seu mestre Valdir Pereira, o Didi. Certa vez, atuando juntos no meio-campo do Botafogo, o Canhotinha ouviu que não era necessário adiantar a marcação porque o adversário teria que passar por ali caso quisesse chegar ao gol. Sendo assim, se ficassem posicionados, poderiam recuperar a bola e iniciar o contra-ataque. Com a categoria de ambos, não é difícil imaginar quantas jogadas elaboraram nas 21 ocasiões em que estiveram lado a lado no meio-campo alvinegro.
O tempo passou e hoje sabemos que alguns conceitos do futebol mudaram. O terreno de jogo foi “encurtado” e pressionar no campo do rival faz parte da estratégia de se obter a posse o mais próximo possível da meta inimiga. Para que chegássemos a esse entendimento, vimos seleções como a Holanda de 1974, times como o Milan de Arrigo Sacchi e, mais recentemente, o Barcelona de Pep Guardiola. Mesmo assim, a proposta simplificada pelo chamado Príncipe Etíope continua viva em equipes como o Chelsea de José Mourinho e o Atlético de Madrid comandado por Diego Simeone.
Discutir conceitos faz bem ao futebol. Curiosamente, isso é o que menos se faz no Brasil. É como se o esporte fosse encerrado em si mesmo, sem grande necessidade de se debater sua filosofia. Após o fatídico 7 a 1, o mínimo que se poderia esperar da CBF era a organização de um grande simpósio para que os maiores nomes do nosso futebol pudessem se reunir com seus pares estrangeiros com o objetivo de entender tanto o que aconteceu no Mineirão como os rumos do futebol brasileiro a partir dali. Do mesmo modo, seria interessante ver algo semelhante na imprensa. É triste constatar que o primeiro SporTV Repórter sobre o tema teve Valesca Popozuda como convidada.
A ausência de debates mais sérios possivelmente é a razão para tantos pensamentos soltos e tantas analogias forçadas. Hoje, quando se mostra qualquer problema do futebol brasileiro ele invariavelmente é seguido de alguma referência ao revés de 8 de julho como se tudo estivesse num só pacote e não pudesse ser observado separadamente. Se a ligação entre a estrutura do país e a seleção nacional fosse tão intrínseca em países exportadores de talento, dificilmente a Argentina teria feito frente à Alemanha na decisão da última Copa.

Quanto mais o tempo passa, maior se torna a sensação de que uma oportunidade única está sendo perdida. Com as vitórias da Seleção de Dunga nos amistosos e provavelmente nas Eliminatórias, o 7 a 1 começará a se tornar apenas um grande ferimento mal cicatrizado. Lembraremos do que o causou, mas não do que fizemos para que aquilo não se repetisse. Enquanto nada acontece, a impressão é que toda vez que alguém usa o 7 a 1 em vão, um panda morre. E como eu gostaria que preservassem o simpático urso.  

Imagem: Wikipédia e Vipcomm

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Anjos brancos à beira de outro inferno

Atual campeão europeu e mundial, o Real Madrid vive uma crise insólita. O futebol que assombrou os gramados em 2014 não tem sido visto neste ano. O contra-ataque avassalador não vem sendo tão eficiente e a defesa antes segura vem apresentando falhas comprometedoras. Nas lesões de jogadores importantes como a do croata Modric está parte da explicação para a queda de produção, mas a atual fase dos merengues faz com que os observadores de futebol mais antigos se lembrem do fracasso da primeira Era Galáctica.
Tudo começou em 2000. Florentino Pérez, em sua primeira passagem pela presidência do Real Madrid, implantou uma filosofia que unia a visão mercadológica do novo século com o romantismo do passado glorioso do clube. O primeiro a chegar foi Luís Figo, com direito ao choque causado pelo pagamento da multa contratual ao Barcelona. Em seguida, foi a vez do gênio francês Zinedine Zidane. Depois do Mundial de 2002, Ronaldo desembarcou para inaugurar definitivamente o período galáctico. Três estrelas que somadas ao prata da casa Raúl e a Roberto Carlos faziam a diferença em campo com o suporte de atletas voluntariosos como Michel Salgado, Claude Makelele e Flávio Conceição.
Como explica o jornalista britânico John Carlin em seu excepcional livro “Anjos Brancos”, a fórmula de Pérez era relativamente simples:
– Um time que reúne as maiores estrelas do futebol é imbatível;
– Este time não precisa de complicados esquemas táticos;
– Mesmo não ganhando sempre, porque o imponderável habita o futebol, a arte e o espetáculo ficam para a eternidade;
– Como o futebol é a maior religião do mundo, um time com estrelas globais tem uma torcida mundial;
– O torcedor é um ser absolutamente fiel;
– Qualquer grande corporação internacional pagará o que for preciso para ter seu nome associado a este super time;
– O time mais caro do mundo é também o mais barato.
As coisas caminharam bem até a chegada de David Beckham em 2003. Astro cuja imagem ultrapassava os limites do esporte, o inglês parecia ser a peça que faltava ao panteão madridista, uma vez que, além da qualidade técnica, trazia consigo uma legião de fãs, sobretudo na Ásia. Contudo, a engenharia financeira proposta por seu mandatário não era capaz de operar milagres. Para a inclusão de Beckham, alguns cortes precisaram ser feitos. Com isso, os alguns dos principais carregadores de piano deixaram o clube e deram lugar à política que ficou conhecida como Zidanes y Pavones, alusão direta aos craques que se juntavam aos jovens da base como o mediano zagueiro Francisco Pavón. No início funcionou. O time liderou boa parte da temporada 2003/4 e Florentino pôde saborear aquilo que julgou ser o crepúsculo dos catedráticos do futebol e seus esquemas mirabolantes. Porém, o fôlego do elenco curto, embora talentosíssimo, arrefeceu após a virada de ano e terminou numa impensável quarta colocação.

Qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência. Embora alguns conceitos tenham mudado – como a necessidade de destruidores no meio-campo – mesmo um time estelar não pode prescindir de boas as condições físicas, táticas e, logicamente, psicológicas. A festa de aniversário promovida por Cristiano Ronaldo após a goleada por 4 x 0 imposta pelo Atlético de Madrid caiu como uma bomba junto à torcida. “Seu riso, nossa vergonha” eram as palavras que estampavam a faixa que alguns torcedores levaram ao centro de treinamento dos blancos. Conhecido por sua capacidade de gerir grupos compostos por jogadores renomados, Carlo Ancelotti terá a dura missão de recolocar sua equipe nos trilhos já neste sábado no estádio Santiago Bernabéu diante do Deportivo La Coruña com a esperança de que a história não se repita mais uma vez.
Imagens: Reproduções Youtube e Instagram

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O otimismo para escanteio

Neste fim de semana, a bola voltou a rolar em partidas oficiais nos gramados brasileiros. É o retorno dos campeonatos estaduais, competições que ocupam um terço da temporada e que, ano após ano, perdem mais um pouco do prestígio que ainda resta. E, ao contrário do que recomendaria a lógica, seus dirigentes não se mostram interessados e transformá-los em algo muito diferente de um estorvo num calendário que precisa ser revisto com urgência.
O argumento da tradição dos Estaduais não se sustenta na prática. Com folhas de pagamento milionárias, os clubes precisam buscar receitas maiores a cada dia e enfrentar adversários fracos em estádios vazios tornou-se algo absurdamente contraproducente. Neste momento, apenas a cota de TV justifica em parte a existência desses torneios. No entanto, as televisões pagam para transmitir partidas das agremiações mais conhecidas. São as exibições de times como Corinthians, Flamengo, Cruzeiro, Internacional e demais grandes que movem o interesse do público. Por consequência, é óbvio supor que esse pagamento seria potencialmente maior num cenário onde o Brasileirão começasse em fevereiro ou março.
Paralelamente, muitos temem que o fim dos Estaduais representaria também o fim dos pequenos clubes que tanto contribuem para a grandeza do futebol brasileiro. Entretanto, é justamente o contrário. Grande parte dos times menores não tem atividades após o encerramento de suas etapas regionais. Para muitos atletas, quase todos mal remunerados, o ano termina antes de sua metade. Não há nem ao menos a chance de atuar durante toda a temporada regular. Uma triste realidade que CBF e federações ignoram quando elaboram o calendário.
Bem mais significativo do que a proposta redução de datas dos Estaduais seria a saída dos grandes clubes e a transformação em campeonatos regionais extensos que preencham todo o calendário dos times de menor investimento. Uma iniciativa que iria ao encontro das reivindicações do movimento Bom Senso FC, como uma proposta de um futebol melhor para todos. Ou, pelo menos, melhor para quem realmente se preocupa com ele, algo que, em princípio, não parece ser o caso dos dirigentes da Federação do Rio de Janeiro e de Eurico Miranda, novo/velho presidente do Vasco da Gama.
Numa decisão claramente arbitrária, a Ferj estipulou entre R$ 5 e R$ 50 os preços dos ingressos para o Campeonato Carioca em 2015. Se a intenção fosse apenas defender os interesses do torcedor seria perfeito, mas há indícios de que não se trata disso. A começar pela falta de diálogo com seus filiados, aqueles que são a razão da existência de qualquer federação. Com a decisão unilateral, Flamengo e Fluminense terão prejuízo em jogos no Maracanã, estádio cujo custo médio de cada torcedor atinge R$ 12. Com as famigeradas meias-entradas, uma máfia em nosso país, grande parte da torcida adentra o estádio pagando metade do ingresso. Ou seja, na prática, é como se a Ferj estivesse estipulando parte da carga de ingressos em R$ 2,50 a R$ 25, ignorando os reflexos dessa decisão nas finanças dos clubes.
Outro indício é a influencia de Eurico Miranda junto à presidência da Ferj. Quem acredita que o cartola não tem calculado na ponta do lápis os danos provocados aos rivais pela precificação, sinceramente, acredita em tudo. Quando Eurico foi reeleito, estava claro que a situação do futebol carioca e brasileiro pioraria de forma significativa. Ao contrário de Roberto Dinamite, seu antecessor, Eurico não é danoso apenas ao Vasco. Sua influência se estende a outros dirigentes, federações e até a CBF. A volta do ex-deputado representa retrocesso num futebol que deveria olhar para frente, ainda mais após sediar uma Copa do Mundo e ver tantas arenas construídas e reformadas. Por essas e outras, não há razão para otimismo com o futebol brasileiro. Pelo menos, não neste momento.
Texto escrito originalmente para o site Barroso em Dia
Imagem: CNN

domingo, 14 de dezembro de 2014

O fim de uma era

O programa Linha de Passe de segunda-feira (08/12) marcou a última aparição ao vivo do comentarista Paulo Vinícius Coelho na ESPN Brasil. Um dos principais nomes do jornalismo esportivo brasileiro, PVC, como é chamado, sempre se destacou dos demais profissionais da casa por sua memória prodigiosa, seu poder de argumentação baseado mais em fatos do que em achismos, sua visão tática, sua rede de informantes que o permite estar quase sempre à frente das notícias e, por que não dizer, por seu carisma. A partir de janeiro de 2015, Paulo será mais um integrante do Fox Sports, um grande reforço, vale ressaltar.
Não cabe neste espaço especular os motivos que levaram à sua saída. Meus breves contatos com ele foram através de e-mails e Twitter. Até mesmo suas bem traçadas linhas na contracapa do livro “É Tetra!” foram por intermédio do amigo André Rocha. Sendo assim, a intenção deste post é tentar dimensionar o que a saída de PVC significa para a ESPN nacional que há poucas semanas também perdeu os direitos da UEFA Champions League para o Grupo Turner/Esporte Interativo, assim como já havia perdido a Serie A italiana e a Bundesliga para a Fox.   
Os fãs do esporte mais atentos devem ter percebido as mudanças ocorridas na ESPN Brasil após João Palomino assumir o posto de diretor de jornalismo antes ocupado por José Trajano. Visando aumentar a audiência, Palomino promoveu diversas alterações na programação deixando de lado o ambiente quase artesanal que tão bem identificava o canal tornando-o mais próximo do que o SporTV, seu maior concorrente, sempre fez. Paralelamente, as edições do aclamado Bate-Bola se espalharam por toda a grade promovendo horas e horas de debates que na maioria das vezes são apenas comentários em sequência sem nenhum tipo de embate de ideias.
Talvez por isso tenha me chamado tanto a atenção a troca de PVC da segunda para a terceira edição do Bate-Bola. Na versão vespertina, Paulo Vinícius e Mauro Cezar Pereira frequentemente confrontavam seus pontos de vistas em acalorados debates nos quais o assinante só tinha a ganhar. Com a separação dos parceiros dos tempos de Placar, as atrações se tornaram cada vez mais estéreis e, por que não dizer, descartáveis. Hoje, o melhor programa diário dos canais esportivos é o Redação SporTV e seu formato ágil e informativo. Justamente o que a ESPN perdeu.
Numa das últimas edições do Linha de Passe, José Trajano, um dos fundadores do canal, disse em tom de lamentação que o jornalismo que ele mais admira é o investigativo, com o repórter indo ao encontro da notícia e não com comentaristas num estúdio. Pelo visto, esse caminho não será mais seguido pela ESPN Brasil, talvez excetuando o notável trabalho investigativo de Lúcio de Castro. Com a perda de tantos campeonatos importantes, a solução mais provável é que os programas de debate ganhem ainda mais destaque. Nem que seja para falar sobre as competições mostradas pela concorrência.

Imagem: Reprodução ESPN

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A melhor fórmula

Quando o Cruzeiro deu sinais de que seria bicampeão brasileiro, ali por volta da virada do primeiro para o segundo turno, um velho discurso voltou à tona: o Brasileirão deveria retornar ao “mata-mata” como fórmula. Afinal, segundo muitos, o formato de disputa por pontos corridos se torna desinteressante a partir do momento em que um time dispara na liderança. Os mais atentos poderiam desconfiar que o tal desinteresse cresce na medida em que o virtual campeão não é um clube do Rio ou de São Paulo, mas essa é outra história. Duvido muito que o torcedor celeste tenha ficado desestimulado.
A verdade é que nosso futebol já deveria ter superado esta discussão. Sobretudo agora que a Copa do Brasil também tem seu desfecho no fim do ano e abriga novamente todas as grandes equipes do país. Quem prefere jogos finais tem seu momento com uma competição que ainda tem como bônus a classificação para a Copa Libertadores do ano seguinte. Enquanto isso, o campeonato nacional tem razões para ser realizado em pontos corridos em turno e returno. E não são poucas.
A começar pelo aspecto financeiro das equipes. Para que se realizem mais três fases – quartas de final, semifinal e final – precisamos de mais seis datas após o término da primeira. E Isso, com a concomitância de competições como Copa do Brasil ou Sul-Americana, representa no mínimo um mês a menos de atividade para os doze times que não se classificarem para as finais. Na prática, esse cenário dificulta negociações com televisão, patrocinadores e significa menos dinheiro de bilheteria. Prejuízos que os quatro eliminados nas quartas de final também sentirão em parte.
Outro aspecto relevante é a meritocracia. Imaginar o vencedor da primeira fase eliminado pelo oitavo colocado, que muitas vezes chega cambaleante, é tudo o que um torneio não precisa. Se a fórmula fosse aplicada atualmente, por exemplo, teríamos Cruzeiro e Atlético Paranaense lutando por uma vaga nas semifinais. Caso os paranaenses avançassem, todo o trabalho e investimento cruzeirense iriam por água abaixo em duas partidas. Difícil encontrar disparate maior.
Por fim, mas não menos importante, está o planejamento. Com a mudança ocorrida em 2003, passou a ficar claro para os dirigentes que o título está muito mais ao alcance de quem se organiza para conquistá-lo. Num país onde o amadorismo ainda impera no esporte, nada melhor do que termos uma liga que por sua natureza fomenta o planejamento dos clubes. Não por acaso, a edição de 2014 premiou a agremiação que fez tudo da forma mais correta possível. Parabéns, Cruzeiro, legítimo campeão brasileiro.
Coluna escrita originalmente para o site Barroso em Dia.
Foto: Cristiane Mattos / Futura Press

domingo, 23 de novembro de 2014

Em obras

Quando se pensa em Seleção Brasileira, o ano de 2014 sempre será lembrado pela tragédia futebolística ocorrida na Copa do Mundo. Daqui a 50 anos ainda encontraremos quem esteja debatendo sobre os motivos que levaram o selecionado mais vitorioso da história a ser massacrado dentro de sua própria casa. Todavia, como o “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” é também um lema do povo brasileiro, nada mais justo do que partir para a ótica da reconstrução da equipe.
Com a saída de Scolari, Dunga não era o nome preferido de imprensa e torcida. A Seleção que o ex-capitão comandou entre 2006 e 2010 era muito competitiva, mas carecia de criatividade. É quase consenso entre os críticos que nosso futebol deveria se inspirar nos exemplos de Espanha e Alemanha e construir um time capaz de propor o jogo como um dia fomos capazes de fazer. Uma questão já debatida neste espaço é se temos jogadores para tal missão. A resposta mais sensata neste momento é não. Durante anos, formamos atletas de estilo vertical, baseando-nos na tese de que os mais talentosos devem ficar mais próximos do gol adversário. Com isso, o meio-campo se tornou uma área muito mais de destruição do que de construção. Sobretudo, pela necessidade de cobertura de laterais apoiadores.
Passou quase despercebida a viagem da comissão técnica pela Europa após os amistosos contra Turquia e Áustria. Na Alemanha e na Inglaterra, Dunga se reuniu com Jürgen Klopp e José Mourinho, técnicos conhecidos pelo estilo intenso e vertical ora visto no Borussia Dortmund e no Chelsea. Alguém provavelmente vai pensar num diálogo com Guardiola, porém, está bastante claro que o tipo de jogo que Dunga enxerga como ideal para os seus comandados certamente não é o tiki-taka. E isso não significa que ele está errado.
É possível aproveitar as qualidades que o jogador brasileiro oferece hoje e ser competitivo ainda assim. Nos seis amistosos realizados depois do Mundial, o novo treinador deu mostras de que teremos uma equipe (ao lado) mais organizada, compacta e intensa do que a anterior. O fato de ter sacado do grupo a figura de um centroavante mais fixo é um indício de que o desejo é que todos participem do jogo. Em entrevista após a vitória sobre os austríacos, o meia Roberto Firmino destacou ao microfone aquele que é o mantra de seu chefe: “Se igualarmos a pegada, nossa qualidade individual vai se sobressair.” Infelizmente, há quatro anos, esse pensamento não se confirmou plenamente.
De qualquer forma, é impossível negar que o saldo deste reinício é positivo. Mais do que as seis vitórias, foi importante resgatar o moral do grupo. Vencer sempre será o melhor remédio para se curar as feridas do futebol. Deste modo, a Seleção encerra seus trabalhos em 2014 e se reúne novamente em março do ano que vem. Embora a CBF não confirme, os rivais devem ser Nigéria e França. Aproveitando a ocasião, este colunista também se despede temporariamente deste espaço e promete retornar às atividades em 2015. Até lá!  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.

Imagem: Getty