
O tempo passou e hoje sabemos que alguns
conceitos do futebol mudaram. O terreno de jogo foi “encurtado” e pressionar no
campo do rival faz parte da estratégia de se obter a posse o mais próximo possível
da meta inimiga. Para que chegássemos a esse entendimento, vimos seleções como
a Holanda de 1974, times como o Milan de Arrigo Sacchi e, mais recentemente, o
Barcelona de Pep Guardiola. Mesmo assim, a proposta simplificada pelo chamado
Príncipe Etíope continua viva em equipes como o Chelsea de José Mourinho e o
Atlético de Madrid comandado por Diego Simeone.
Discutir conceitos faz bem ao futebol.
Curiosamente, isso é o que menos se faz no Brasil. É como se o esporte fosse encerrado
em si mesmo, sem grande necessidade de se debater sua filosofia. Após o
fatídico 7 a 1, o mínimo que se poderia esperar da CBF era a organização de um
grande simpósio para que os maiores nomes do nosso futebol pudessem se reunir
com seus pares estrangeiros com o objetivo de entender tanto o que aconteceu no
Mineirão como os rumos do futebol brasileiro a partir dali. Do mesmo modo,
seria interessante ver algo semelhante na imprensa. É triste constatar que o
primeiro SporTV Repórter sobre o tema teve Valesca Popozuda como convidada.
A ausência de debates mais sérios
possivelmente é a razão para tantos pensamentos soltos e tantas analogias
forçadas. Hoje, quando se mostra qualquer problema do futebol brasileiro ele
invariavelmente é seguido de alguma referência ao revés de 8 de julho como se
tudo estivesse num só pacote e não pudesse ser observado separadamente. Se a
ligação entre a estrutura do país e a seleção nacional fosse tão intrínseca em
países exportadores de talento, dificilmente a Argentina teria feito frente à
Alemanha na decisão da última Copa.
Quanto mais
o tempo passa, maior se torna a sensação de que uma oportunidade única está
sendo perdida. Com as vitórias da Seleção de Dunga nos amistosos e
provavelmente nas Eliminatórias, o 7 a 1 começará a se tornar apenas um grande ferimento
mal cicatrizado. Lembraremos do que o causou, mas não do que fizemos para que aquilo
não se repetisse. Enquanto nada acontece, a impressão é que toda vez que alguém
usa o 7 a 1 em vão, um panda morre. E como eu gostaria que preservassem o
simpático urso.
Imagem: Wikipédia e Vipcomm
4 comentários:
Só vão mudar algo se o Brasil não for para Copa do Mundo e olhe lá.
Parece clichê, mas para qualquer sistema devem ser levadas em consideração as características dos jogadores. Caso os laterais sejam mais eficientes na defesa ou no ataque; se os volantes conseguem só defender ou se defendem e atacam de intermediária à intermediária; se os atacantes são dinâmicos e rápidos ou se são finalizadores e jogam de costas para o gol; se tem zagueiros rápidos e inteligentes ou se são mais lentos; se joga com ponta-de-lança ou com armador cerebral, mas que corre pouco etc.
O cerne da questão está no fato do Brasil não tirar o máximo proveito da enormidade de talentos que existem e se formam no país, para aí sim poder ter todos os tipos de opções para montar a equipe no esquema que quiser.
Vou dar 1 exemplo, que acho que exemplifica isso. Olha o que o Heverton Guimarães, que participa do circo do Jogo Aberto da Bandeirantes disse sobre o programa, no UOL:
"“A gente sabe para quem faz televisão, a gente não faz pra ensinar o que é 4-4-2, 3-5-2, lateral entrando pela direita, volantes que avançam, fulano que entra enfiado. O povão não quer isso, ele gosta daquilo que a gente faz. A gente chegou à conclusão que aquilo que era a ideia. Não temos a pretensão de ensinar, ninguém tem a pretensão de ser técnico, de ser o Muricy, o Tite ou o Levir. E isso se transformou numa resenha de boteco, numa roda de amigos, num bate papo sobre futebol”."
O pior é que esse pensamento chega cada vez mais forte na TV paga, com os "embaixadores" da Libertadores na ESPN, por exemplo...
Tem razão, Alexandre. O público em geral não está tão interessado em discutir futebol mais a fundo. Mesmo assim, acredito que um fórum ou algo do tipo atrairia atenções suficientes. De qualquer modo, mais importante do que abrir essa discussão é realizá-la em âmbito profissional com treinadores (daqui e de fora) e demais interessados. Outro dia, Parreira, um dos protagonistas do fiasco, criticou a ausência dessa grande reunião e cobrou essa iniciativa da CBF. Quanto mais tarde isso acontecer, pior.
Abraço!
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