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domingo, 6 de setembro de 2015

Uma questão de mentalidade

Nos últimos anos, o futebol brasileiro vem sendo marcado por uma ideia bastante clara: Com raras exceções, nossos técnicos vêm se notabilizando por armar equipes voltadas para o contra-ataque. Jogar no erro do adversário costuma ser o caminho mais prático e menos trabalhoso para alcançar as vitórias. E isso passa a fazer mais sentido quando constatamos que nossos treinadores precisam defender seu emprego a cada rodada. Nesse cenário, tornou-se comum vermos times defendendo a vantagem mínima a partir do momento em que ela se estabelece. O problema é quando tal mentalidade se estende também à Seleção.
No amistoso de sábado diante da Costa Rica, tal prática ficou bastante evidente. Após um início onde o pressing foi aplicado com relativo sucesso, o gol de Hulk fez o Brasil passar a se defender com todos os jogadores no campo de defesa especulando contragolpes em bolas longas. Deste modo, nem mesmo a grande fase vivida por Douglas Costa pôde ser aproveitada, uma vez que sua maior qualidade é o excepcional desempenho no um contra um. No Bayern, Guardiola organiza seu time de forma que a posse de bola é utilizada para atrair os oponentes para o lado oposto do campo até que alguém inverta a jogada para o ponteiro decidir contra, invariavelmente, um único adversário.
Douglas, mesmo se quisesse, não encontraria tal situação na Seleção Brasileira porque a equipe trabalha pouco a bola. A carta de intenções de Dunga é claramente voltada para a verticalização das jogadas e o problema crônico na saída de bola – algo observado desde os tempos de Felipão – não só é um empecilho na criação como uma das razões para os frequentes apuros defensivos. Sem dúvida, um aspecto que deveria ser trabalhado após a pífia participação na Copa América. Mas, ao que tudo indica, o principal diagnóstico realizado pela comissão técnica diz respeito ao lado psicológico de alguns atletas e isso explica a ausência de Thiago Silva na última lista de convocados.

Todavia, o real motivo para a Seleção atuar abaixo das expectativas está na mentalidade de Dunga, que é a mesma marca da esmagadora maioria dos treinadores brasileiros. O trabalho é voltado para o resultado imediato e nunca para o aperfeiçoamento do futebol praticado. Durante a partida contra os costa-riquenhos, houve um breve instante de alento quando o comandante mandou o meia Rafinha a campo no lugar do volante Luiz Gustavo. Acostumado ao toque de bola barcelonista, o filho do tetracampeão Mazinho fez o jogo fluir e a Seleção melhorou sensivelmente. Resta saber se o técnico fez a mesma leitura de um momento tão fugaz e, ao mesmo tempo, tão auspicioso. Ainda há tempo para mudar.  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito das imagens: Leo Correa/Mowa Press e Rafael Ribeiro/CBF

sábado, 15 de agosto de 2015

Entendendo a convocação

Entrevistas coletivas com treinadores não costumam ser fáceis de interpretar. Sempre existirá a intenção do profissional de não trazer à tona todos os aspectos que cercam sua equipe e, por parte da mídia, informações que se convertam em manchetes se tornaram mais requisitadas do que as notícias sobre o esporte em si. Trata-se então de outro jogo, este travado fora das quatro linhas, algo que no caso de Dunga se torna mais ainda disputado devido ao histórico de rusgas do técnico com a imprensa esportiva desde os tempos de jogador.
Portanto, entender todas as decisões que culminaram na convocação dos 24 nomes para os amistosos da Seleção Brasileira diante da Costa Rica (5 de Setembro em Boston) e Estados Unidos (8 de setembro em Nova Jersey) não é uma tarefa simples, uma vez que ficou evidente que, ao contrário do que disse Dunga, as decisões não seguiram uma linha exclusivamente técnica. Para facilitar o trabalho, vamos dividir as observações pelas posições da lista divulgada na última quinta-feira:
Goleiros: Alisson (Internacional), Jefferson (Botafogo) e Marcelo Grohe (Grêmio);
Na meta, Jefferson e Marcelo Grohe mantêm a confiança do treinador enquanto Diego Alves se recupera de séria lesão nos ligamentos do joelho direito. Contudo, Dunga revelou a alguns jornalistas após a coletiva que deve conceder a titularidade a Grohe visando testes para as Eliminatórias. Falando no gremista, chamou a atenção o chamado dos goleiros da dupla Gre-Nal, fato inédito em toda história da Seleção. Aos 22 anos e muito seguro, Alisson possivelmente será uma das apostas do técnico para os Jogos Olímpicos de 2016.  
Zagueiros: David Luiz (PSG), Gabriel Paulista (Arsenal), Marquinhos (PSG) e Miranda (Internazionale de Milão);
Os zagueiros são um caso à parte. As convocações anteriores mostraram que David Luiz, Marquinhos e Miranda estão entre os preferidos do treinador, mas a ausência de Thiago Silva diz muito sobre a nova lista. No entanto, ao contrário do que escreve o ex-jogador Juninho Pernambucano em seu perfil no Twitter, acredito que a exclusão está muito mais ligada ao conjunto da obra do que ao pênalti cometido na eliminação para o Paraguai na Copa América. Defensor experiente, Thiago vem demonstrando sistematicamente uma instabilidade emocional, no mínimo, preocupante desde o Mundial. Por enquanto, ao contrário de Maicon, não é possível afirmar que chegou o fim da linha para ele, porém, ficou bastante claro que a confiança foi momentaneamente perdida.
Laterais: Daniel Alves (Barcelona), Danilo (Real Madrid), Douglas Santos (Atlético) e Filipe Luis (Atlético de Madrid);
Assim como ocorre com os centrais, as laterais também abrem um bom espaço para debate. Mesmo com as críticas à capacidade dos treinadores brasileiros, Daniel Alves permaneceu entre os chamados, assim como Filipe Luis, consolidado como titular da lateral esquerda. Recuperado da lesão que o tirou da Copa América, Danilo volta ao grupo. Destaque no Atlético Mineiro e com idade olímpica, Douglas Santos completa o setor. O que chama a atenção, entretanto, são as ausências. Uma eterna incógnita em termos de Seleção, Marcelo, aparentemente, continua fora dos planos. É possível que o estilo mais ousado seja um problema num time que tenta se estabelecer defensivamente, mas a relação do vice-capitão do Real Madrid com os técnicos recentes do Brasil nunca foi das melhores. Outra ausência notável é a de Geferson do Internacional. Convocado para a Copa América, o lateral surpreendeu a todos que esperavam nomes mais consolidados. Sem nenhuma aparição no torneio, também não figura entre os alas chamados na última sexta-feira para a Seleção Sub-23. Realmente, o caso mais estranho neste retorno de Dunga.         
Volantes: Elias (Corinthians), Fernandinho (Manchester City), Luiz Gustavo (Wolfsburg) e Ramires (Chelsea);
Ao que tudo indica, Dunga não viu na Copa América os mesmos problemas constatados por este colunista. Afinal, embora a transição defensiva seja um processo coletivo, os volantes escolhidos deixaram muito a desejar nessa tarefa. Esperava-se agora a opção por centro-campistas capazes de distribuir o jogo com mais fluidez. Todavia, as escolhas recaíram sobre Elias e Ramires que são muito mais condutores/infiltradores do que passadores. Por outro lado, o retorno de Luiz Gustavo deve ser celebrado por sua maior presença física em campo e bom passe. Pelo que depender de Dunga, o volante do Wolfsburg será titular até o Mundial da Rússia.    
Meias: Kaká (Orlando City), Lucas Lima (Santos), Oscar (Chelsea) e Willian (Chelsea);
Dentre os diversos equívocos de Felipão antes e durante a Copa do Mundo estava a ausência de alguém capaz de dividir a responsabilidade com Neymar. Desnecessário explicar por que isso foi um complicador diante da Alemanha. No entanto, chamar o meia do Orlando City, neste momento, é discutível. Está certo que os jovens da Seleção precisam de uma referência, mas se isto estiver custando a vaga de Philippe Coutinho – um dos poucos capazes de suprir Neymar em termos de talento – alguma coisa está errada. Sem falar que a presença de Kaká em amistosos nos EUA num momento em que se contesta a interferência de patrocinadores na Seleção não pega nada bem. De positivo, o retorno de Oscar e o primeiro teste de Lucas Lima, um dos melhores meias do futebol brasileiro na atualidade.   
Atacantes: Douglas Costa (Bayern de Munique), Hulk (Zenit), Lucas (PSG), Neymar (Barcelona) e Roberto Firmino (Liverpool).
Não ocorreu desta vez a volta de Alexandre Pato à Seleção. Mesmo com as exclusões de atletas que militam na China e no Oriente Médio, Dunga preferiu incluir Hulk e Lucas Moura e a manutenção de Roberto Firmino e Douglas Costa, este em ótima fase no Bayern de Munique. Inclusive, assim como houve na Copa América, não há nenhum centroavante típico entre os convocados. Recuperando-se de caxumba e suspenso nas duas primeiras partidas das Eliminatórias, Neymar é o 24º jogador da lista e, assim como Kaká, uma presença que levanta dúvidas sobre ingerências na convocação. Não que este colunista duvide da honestidade de Dunga, mas técnico de Seleção é como mulher de César: Não basta ser honesto é preciso parecer honesto.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Getty

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O primeiro ano do resto de nossas vidas

Doze meses nos separam daquela que ficou conhecida como “a Copa das Copas” – definição que antes parecia ser apenas um exagero do Governo Federal para o evento que organizava, mas que acabou se tornando realidade quando a bola começou a rolar. Partidas empolgantes, craques desfilando categoria pelos nossos gramados, a festa das torcidas, a comprovação de nossa hospitalidade e muito drama fizeram da última edição do Mundial algo inesquecível – no caso específico dos anfitriões, por uma razão bastante amarga.
Um ano após o revés mais doloroso da história da Seleção Brasileira, é possível classificar o 7 a 1 aplicado pela Alemanha como um divisor de águas em nosso futebol. Embora a elasticidade do placar tenha especificidades pontuais, pode-se dizer que ali foi sepultada toda uma forma de se jogar. Em 90 minutos, os alemães comprovaram como um coletivo forte está a um abismo de distância de um bando de jogadores cuja única arma era a vontade. Foi o triunfo da organização e do planejamento sobre o imediatismo e a negligência, confirmando em 2014 o que a Espanha já havia sinalizado em 2010. Mesmo sem supercraques, mostraram ser possível formar um time capaz de ser encantador e, ao mesmo tempo, altamente competitivo. Uma lição que o Brasil poderia e deveria ter assimilado.
Naquele momento, restava a oportunidade de juntar os cacos e recomeçar a partir da direção apontada por seus adversários. Todavia, lamentavelmente, a primeira ação da CBF foi tentar varrer a tragédia esportiva para debaixo do tapete. A palavra “apagão” surgiu para batizar o massacre, e tudo permaneceu como era antes. Para tentar recolocar o escrete verde-amarelo nos trilhos, Dunga foi reconduzido ao posto de técnico. Estava implícita a ideia de que o capitão do Tetra poderia colocar ordem na casa e reeditar a equipe empenhada que marcou a sua passagem anterior até a fatídica derrota para a Holanda na Copa da África do Sul.
Dunga, por tudo o que tem demonstrado, mudou pouco durante o hiato de quatro anos que o afastou da Seleção. A sede de vitórias permanece a mesma e a sua concepção tática ainda prioriza o contra-ataque em detrimento da proposição. Sem a bola, os seus comandados continuam fechando os espaços de forma eficiente, com uma compactação defensiva que está de acordo com a cartilha do futebol moderno. Mas o problema maior se apresenta quando o seu time tem a bola nos pés.
Por ironia do destino – e pelos caminhos tortuosos tomados pela escola brasileira nas últimas décadas –, o país que um dia ficou mundialmente conhecido pela fantasia e pelo bom trato com a bola hoje não sabe mais o que fazer com ela. Assim como ocorreu com Luiz Felipe Scolari, a Seleção continua sofrendo na transição entre defesa e meio de campo, e sendo obrigada a assistir adversários teoricamente inferiores assumindo as rédeas das partidas, deixando claro que um dos principais objetos de crítica durante a Copa de 2014 permanece intacto.
O segundo fracasso consecutivo em competições oficiais trouxe consigo o fortalecimento da dúvida sobre a verdadeira qualidade da atual safra de jogadores brasileiros. Exceção feita a Neymar, todos os atletas vêm sofrendo questionamentos acerca de suas capacidades, e as comparações com gerações passadas se tornaram inevitáveis. Nem mesmo a massiva presença nos principais clubes do planeta e as enormes cifras que suas transações têm movimentado são suficientes para demover a ideia de que os talentos estão cada vez mais escassos. E o fato de ninguém ter apresentado um comparativo minimamente decente entre as épocas só indica como tal discussão soa vazia, muito mais presente no âmbito das sensações do que das análises.
O que nem todos percebem é que a realidade do futebol mundial mudou. Com a intensidade cada vez maior do jogo e a redução do tempo e do espaço, o craque só continuará fazendo a diferença se houver um coletivo forte em torno de si. Com os nomes que possui, esta geração e provavelmente as vindouras podem se tornar competitivas desde que sejam adequadas às demandas atuais do esporte. Para isso, é necessário tanto que se corrijam os rumos do trabalho de Dunga quanto que se planeje o nosso futebol como um todo, da base à ponta da pirâmide.
De um ponto de vista mais restrito, em que se analisa separadamente a Seleção Brasileira, o primeiro passo é reestruturá-la em busca do protagonismo perdido. Embora o estilo de nossos meias e atacantes esteja mais voltado para a verticalização e o ataque aos espaços, não se pode perder de vista que o jogo inteligente deve ser gerado a partir dos volantes. Sem uma participação efetiva dos homens mais recuados do meio de campo, a construção de jogo passa a ficar dramaticamente comprometida – o que, naturalmente, faz com que cabeças-de-área puramente marcadores e meias ofensivos que apenas realizam infiltrações não cumpram de forma satisfatória essa missão.
Outro aspecto fundamental é o entrosamento do novo grupo brasileiro, que, embora tenha tido uma reformulação menos drástica em comparação a ciclos anteriores, sofreu uma quantidade de alterações bem superior a Chile e Argentina, por exemplo, finalistas da Copa América de 2015. Além disso, há ainda a questão psicológica, que começa no craque Neymar, com imbróglios jurídicos em Barcelona, passa pelos rompantes “heroísticos” de David Luiz e chega à instabilidade de Thiago Silva. E tudo isso em meio a uma onda da palavra “decadência” e de visões autodestrutivas sobre tudo.
Na verdade, as deficiências estruturais do futebol brasileiro mudaram pouco nas últimas décadas. Os dirigentes corruptos, o calendário inchado, os péssimos gramados, a violência das organizadas e o baixo público nos estádios sempre foram características marcantes do futebol local. Os nossos problemas não se tornaram subitamente maiores, mais profundos ou até mesmo insolúveis devido ao que aconteceu na Copa de 2014.
Independentemente de tudo isso, debater as demandas do nosso futebol continua a ser algo fundamental para a sua saúde – e a tentativa da cúpula da CBF de promover uma agenda acerca do assunto, apesar de ainda ser insuficiente e acontecer com pelo menos um ano de atraso, não deixa de ser uma sinalização. Para que sejamos capazes de cicatrizar as nossas feridas e pavimentar um futuro melhor, o primeiro passo é compreender os equívocos do passado. A tragédia esportiva do dia 8 de julho de 2014 só terá um significado positivo se, mais do que escancarar os nossos defeitos, ajudar a impulsionar as melhorias que o futebol brasileiro tanto precisa.
Texto escrito originalmente para o site Conexão Fut
Imagem: AFP

sábado, 27 de junho de 2015

A cultura do sofrimento

Como velha raposa do futebol que é, Ramón Díaz sabia o que fazer para anular a Seleção Brasileira. Observou o que o compatriota José Pékerman havia feito com a Colômbia e adiantou sua marcação para explorar o crônico problema brasileiro na transição entre defesa e meio-campo. Como ocorria com Luiz Felipe Scolari, a equipe de Dunga sofre tanto para sair jogando quanto para manter a bola em seus pés. Sem conseguir usufruir da posse, restava apenas a tentativa dos contragolpes que se tornaram a única alternativa após o gol nascido na primeira boa escapada.
Numa de suas entrevistas coletivas, Dunga declarou que o sofrimento daria a tônica do percurso de seu selecionado na Copa América. E assim foi. Sofreu diante de Peru, Colômbia, Venezuela a na eliminação diante do Paraguai. Desses quatro, apenas os colombianos eram rivais de destaque no atual cenário mundial. Nos outros casos o Brasil penou justamente por não conseguir transformar sua superioridade técnica em domínio e, sobretudo, em gols que dariam a tranquilidade necessária. Um episódio emblemático ocorreu diante da Venezuela, quando Dunga optou pela entrada de mais dois zagueiros e viu um adversário que estava praticamente batido ressuscitar e quase empatar.  
Sofrimento normalmente gera pressão. E pressão pode provocar nervosismo. E isso provavelmente explica o pênalti absolutamente desnecessário cometido por Thiago Silva e que acabou resultando no gol paraguaio. Uma instabilidade preocupante ainda mais por se tratar de um zagueiro experiente e que figura entre os mais valiosos do planeta. Não é absurdo dizer que o Paraguai não levava perigo suficiente para chegar ao empate sem uma mãozinha do defensor. E não há dúvida de que daqui em diante seu nome sempre será questionado por imprensa e torcida.
Quem também sofre é o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Acuado pelas investigações do FBI e da Polícia Federal, o dirigente pode tentar desviar o foco de si para a escolha de um novo treinador para substituir Dunga. Muitos dirão que não faltam motivos para a troca, o que até pode ser verdade. No entanto, em nome da continuidade do trabalho, recomenda-se que o técnico permaneça. Independente do nome escolhido para a sequência, os problemas indicam que o sofrimento deve dar a tônica até a Copa do Mundo de 2018. Talvez Dunga não esteja tão errado assim.    
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Reuters

domingo, 21 de junho de 2015

Sobrou vontade. Faltou futebol

Horas antes da partida em que a Seleção Brasileira bateu a Venezuela por 2 a 1, Lédio Carmona, comentarista do canal SporTV, falou sobre a obrigação de vitória diante do selecionado viñotinto como uma demonstração de respeito à camisa “tão pisada nos últimos meses”. Naquele momento, de certo modo, o jornalista estava condicionando o triunfo à vontade dos jogadores brasileiros. Respeitosamente discordo dessa visão. O futebol já provou sobejamente que vontade é um componente importante, mas está longe de ser o aspecto mais relevante do jogo.
Como se trata de um esporte coletivo, arrisco dizer que o aspecto mais importante é a organização. Para ser considerada eficiente, uma equipe precisa se defender bem, armar suas jogadas com inteligência e ser contundente no ataque. Por consequência, intensidade e compactação se tornaram palavras de ordem quando se pensa em modernidade no futebol. E, embora a Seleção de Dunga seja compacta e intensa sem a bola, com ela nos pés a história é outra. Obviamente, a melhoria na fase ofensiva depende do entrosamento do novo time. Todavia, também cabe discutir as escolhas do treinador.
Desde os tempos de Felipão, a transição defesa/meio-campo tem sido um tormento para a Seleção. A bola circula de uma lateral a outra sem que os volantes assumam sua função de armar as jogadas. Por diversas vezes, o meia Willian precisou recuar para receber dos pés dos zagueiros que iniciar as manobras de armação enquanto Fernandinho permanecia preso à frente dos defensores e Elias se entregava à marcação. Do banco, Casemiro, um dos melhores passadores do grupo convocado para a Copa América, assistia a tudo sem receber uma oportunidade do técnico.
O grande ponto de inflexão da partida se deu após o gol de Roberto Firmino. O confortável placar de 2 a 0 propiciou a Dunga a possibilidade de colocar em campo o volante recém-incorporado ao Real Madrid e tentar ficar mais com a bola. Porém, o caminho escolhido foi colocar David Luiz no meio-campo pensando em vencer mais duelos aéreos e, quem sabe, especular lançamentos. Instantes depois, a entrada de Marquinhos no lugar de Robinho deu a certeza de que o treinador estava muito mais preocupado em defender o placar do que construir uma vitória mais contundente. Não por acaso, a Venezuela descontou após o rebote de uma cobrança de falta cometida pelo mesmo Marquinhos e o Brasil tomou um esperado sufoco nos minutos finais.
E assim, o torcedor brasileiro experimentou a sensação de ver sua seleção escalando quatro zagueiros para se defender da Venezuela. Mesmo que Marquinhos tenha ido para a lateral-direita e David Luiz para o meio, as alterações simbolizaram a maneira como Dunga enxerga o futebol. Embora o técnico tenha dito que acompanhou de perto a Copa do Mundo, restou a dúvida se observou a campeã Alemanha e seus volantes construtores. Neste ponto, e apenas neste, poderíamos seguir a linha de Lédio Carmona e dizer que se sobrou vontade durante os 90 minutos, faltou outro elemento abstrato tão importante quanto: Coragem.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O saudosismo e outras drogas

A derrota da Seleção Brasileira para a Colômbia na última quarta-feira despertou na imprensa e na torcida uma fúria e um fatalismo que andavam parcialmente adormecidos desde o final da Copa do Mundo de 2014. Obviamente, o descontentamento foi potencializado pela maneira como os comandados de Dunga foram subjugados durante quase toda a partida que decretou o fim da sequência de onze vitórias desde que o capitão do Tetra reassumiu o posto, porém, o exagero nas reações e nas “avaliações” fez lembrar por que o jornalista inglês Tim Vickery nos define como maníaco-depressivos.
Naturalmente, existem pontos em que pouco há o que se discutir. O primeiro deles é que o futebol brasileiro precisa rever determinados conceitos como, por exemplo, a função exercida pelos meio-campistas. Atualmente, com a compactação dos setores, não cabe mais a divisão entre os volantes que apenas marcam e os meias que só atacam. Portanto, os jogadores que atuam na faixa central de nosso 4-4-2 (4-4-1-1) devem participar da saída de bola, da criação da jogada e do avanço até a intermediária ofensiva. Esse possivelmente foi o maior pecado da Seleção em sua derrota. Com a marcação alta da Colômbia bloqueando as laterais, Elias e Fernandinho não conseguiam executar a transição de forma adequada e a bola voltava aos pés adversários em forma de perigosos contragolpes. Uma pressão que acabou resultando no único gol do cotejo.
O segundo ponto (quase) pacífico é que não possuímos uma grande geração neste momento. Excetuando Neymar, os outros convocados possuem bom nível, mas poucos são realmente capazes de dividir o protagonismo com o craque do Barcelona. Quando o atacante não consegue atuar em seu mais alto nível, ninguém se mostra capaz de compensar tecnicamente, assim como não há um jogo coletivo que possa sustentar a performance da equipe em momentos de pouco brilho do ídolo. Construir uma Seleção capaz de se impor mesmo sem seu maior astro – ora suspenso pela Conmebol por quatro partidas – talvez seja a grande missão de Dunga em sua segunda passagem.
No entanto, agir como se este fosse o pior período de nossa história futebolística colocando-o abaixo de entressafras similares ou fazendo recortes de períodos específicos não parece a avaliação mais justa. Nem sempre tivemos Romário e Ronaldo em nosso ataque. Inclusive, a rigor, só reunimos dupla Ro-Ro em 1997. E o próprio Rivaldo, coadjuvante de luxo à época ainda não havia se firmado com a camisa amarela. Isso faz lembrar o período que se seguiu ao fim da geração de Zico, Falcão & Cia quando as pessoas viam um jovem Bebeto como prova definitiva da decadência do futebol brasileiro.
Constatar as questões acima de modo algum quer dizer que o futebol brasileiro vive um mar de rosas ou que os profissionais da área não precisam se mexer. Temos muito que repensar em diversas áreas e o massacre no Mundial deveria ser um marco dessa conclusão. Contudo, discursos preguiçosos ou apocalípticos contribuem pouco para esse debate. Ou quem sabe, apenas façam parte do que deveríamos ter sepultado em 8 de julho de 2014.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os primeiros três pontos

Após dez vitórias seguidas em amistosos, a Seleção Brasileira entrou em campo na noite deste domingo para a primeira partida oficial após a Copa do Mundo. Como não poderia deixar de ser, tratava-se de um jogo cercado de expectativa, uma vez que uma sombra da desconfiança pairava – e ainda paira – sobre a equipe do técnico Dunga. Não havia dúvida que recolher os cacos do maior fracasso da história do futebol nacional e recomeçar não seria uma tarefa fácil. E isso ficou bastante evidente na estreia na Copa América diante do Peru.
Nesse cenário, sofrer um gol pouco depois do pontapé inicial em seguidas falhas da defesa está longe de ser o melhor dos mundos. Apesar da resposta de Neymar ter ocorrido rapidamente, ficou claro ali que o nervosismo deu a tônica da Seleção daquele momento em diante. A compactação e o sentido mais coletivo que marcaram as partidas anteriores não foram os mesmos e o time buscou a vitória pelo caminho mais complicado, ou seja, aos trancos e barrancos.
Com David Luiz repetindo os abandonos de sua linha para disputar bolas altas no meio e jogadores dando botes precipitados que basicamente serviam para abrir clareiras na defesa, a Seleção lembrou o amontoado de Felipão de tão dolorosa memória. Sem uma geração brilhante, Dunga precisa mais do que nunca transformar seu elenco em um time capaz de ser competitivo e taticamente equilibrado, feito que alcançou no Mundial da África do Sul, embora tenha se perdido em sua gratidão a alguns nomes úteis na conquista da Copa América de 2007, mas que não tinham mais como contribuir três anos depois.
Desta vez, sem Oscar desde a convocação e sem Philippe Coutinho para o cotejo de estreia a criatividade do meio de campo verde-amarelo ficou quase toda a cargo de Willian. Percorrendo todos os lados do campo, o atleta do Chelsea tentou acionar Neymar por diversas vezes e foi uma das poucas peças lúcidas no gramado. Só não foi o melhor do Brasil porque havia Neymar, aquele que continua sendo o fator de desequilíbrio do time. Neymardependência? Melhor depender dele do que não ter ninguém a quem recorrer. Todavia, para as ambições brasileiras, isso talvez não seja o suficiente.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty

terça-feira, 5 de maio de 2015

Uma chance para Coutinho

As surpresas relativas à convocação da Seleção Brasileira para a disputa da Copa América começaram com o anúncio de João Doria Júnior como chefe da delegação brasileira no Chile. Figura conhecida muito mais por sua faceta de apresentador de TV e pelo posicionamento político do que pela afinidade com o futebol, o empresário surge como um recado da cúpula da CBF dizendo ao esporte nacional de que lado a entidade está. Felizmente para a Seleção, o posto de chefe de delegação não guarda a mesma importância dos tempos de Paulo Machado de Carvalho, nome de indiscutível relevância organizacional e logística nas campanhas vitoriosas de 1958 e 1962.
Outra surpresa desagradável, esta dentro de campo, foi a não convocação de Oscar para a competição que se inicia em 11 de junho. Lesionado, o meia tem uma estimativa de lenta recuperação, o que comprometeria o nível de sua participação. Se é que existe a possibilidade de haver uma boa notícia neste caso, vale ressaltar que o atleta do Chelsea atua de forma praticamente ininterrupta desde 2011 e um merecido descanso não só não faz mal como pode garantir uma performance melhor quando as Eliminatórias para a Copa do Mundo tiverem início.

Por outro lado, a ausência de Oscar na lista abre espaço para Philippe Coutinho finalmente alcançar o esperado destaque no elenco do técnico Dunga. Vindo de temporadas brilhantes com a camisa do Liverpool, Coutinho pode ser peça criativa que falta ao meio-campo da Seleção. Além disso, seu bom entrosamento com Neymar nascido ainda nos tempos de sub-17 pode representar um diferencial para o selecionado verde-amarelo.
Em boa fase no Porto, Casemiro aparece como opção de volante com passe mais qualificado. Mesmo que o titular da posição seja Luiz Gustavo, não deixa de ser positivo perceber que Dunga enxerga o que o mundo do futebol pede que o jogador dessa posição desenvolva. Paralelamente, nomes como Everton Ribeiro e Diego Tardelli estão na berlinda por atuarem em ligas periféricas. Preenchendo a cota experiência da Seleção, Robinho também teve seu chamado questionado, apesar do bom momento que atravessa no Santos.
Confira abaixo os 23 jogadores convocados para os amistosos contra México (7 de junho) e Honduras (10 de junho) e para a disputa da Copa América:
Goleiros: Diego Alves (Valencia), Jefferson (Botafogo), e Marcelo Grohe (Grêmio);
Zagueiros: David Luiz (PSG), Marquinhos (PSG), Miranda (Atlético de Madrid) e Thiago Silva (PSG);
Laterais: Danilo (Porto), Fabinho (Monaco), Filipe Luís (Chelsea) e Marcelo (Real Madrid);
Volantes: Casemiro (Porto), Elias (Corinthians), Fernandinho (Manchester City), e Luiz Gustavo (Wolfsburg);
Meias: Douglas Costa (Shakhtar Donetsk), Everton Ribeiro (Al Ahli), Philippe Coutinho (Liverpool) e Willian (Chelsea);
Atacantes: Diego Tardelli (Shandong Luneng), Neymar (Barcelona), Roberto Firmino (Hoffenheim) e Robinho (Santos).
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O 7 a 1 e os pandas

O ex-jogador Gérson costuma repetir uma lição que recebeu de seu mestre Valdir Pereira, o Didi. Certa vez, atuando juntos no meio-campo do Botafogo, o Canhotinha ouviu que não era necessário adiantar a marcação porque o adversário teria que passar por ali caso quisesse chegar ao gol. Sendo assim, se ficassem posicionados, poderiam recuperar a bola e iniciar o contra-ataque. Com a categoria de ambos, não é difícil imaginar quantas jogadas elaboraram nas 21 ocasiões em que estiveram lado a lado no meio-campo alvinegro.
O tempo passou e hoje sabemos que alguns conceitos do futebol mudaram. O terreno de jogo foi “encurtado” e pressionar no campo do rival faz parte da estratégia de se obter a posse o mais próximo possível da meta inimiga. Para que chegássemos a esse entendimento, vimos seleções como a Holanda de 1974, times como o Milan de Arrigo Sacchi e, mais recentemente, o Barcelona de Pep Guardiola. Mesmo assim, a proposta simplificada pelo chamado Príncipe Etíope continua viva em equipes como o Chelsea de José Mourinho e o Atlético de Madrid comandado por Diego Simeone.
Discutir conceitos faz bem ao futebol. Curiosamente, isso é o que menos se faz no Brasil. É como se o esporte fosse encerrado em si mesmo, sem grande necessidade de se debater sua filosofia. Após o fatídico 7 a 1, o mínimo que se poderia esperar da CBF era a organização de um grande simpósio para que os maiores nomes do nosso futebol pudessem se reunir com seus pares estrangeiros com o objetivo de entender tanto o que aconteceu no Mineirão como os rumos do futebol brasileiro a partir dali. Do mesmo modo, seria interessante ver algo semelhante na imprensa. É triste constatar que o primeiro SporTV Repórter sobre o tema teve Valesca Popozuda como convidada.
A ausência de debates mais sérios possivelmente é a razão para tantos pensamentos soltos e tantas analogias forçadas. Hoje, quando se mostra qualquer problema do futebol brasileiro ele invariavelmente é seguido de alguma referência ao revés de 8 de julho como se tudo estivesse num só pacote e não pudesse ser observado separadamente. Se a ligação entre a estrutura do país e a seleção nacional fosse tão intrínseca em países exportadores de talento, dificilmente a Argentina teria feito frente à Alemanha na decisão da última Copa.

Quanto mais o tempo passa, maior se torna a sensação de que uma oportunidade única está sendo perdida. Com as vitórias da Seleção de Dunga nos amistosos e provavelmente nas Eliminatórias, o 7 a 1 começará a se tornar apenas um grande ferimento mal cicatrizado. Lembraremos do que o causou, mas não do que fizemos para que aquilo não se repetisse. Enquanto nada acontece, a impressão é que toda vez que alguém usa o 7 a 1 em vão, um panda morre. E como eu gostaria que preservassem o simpático urso.  

Imagem: Wikipédia e Vipcomm

domingo, 23 de novembro de 2014

Em obras

Quando se pensa em Seleção Brasileira, o ano de 2014 sempre será lembrado pela tragédia futebolística ocorrida na Copa do Mundo. Daqui a 50 anos ainda encontraremos quem esteja debatendo sobre os motivos que levaram o selecionado mais vitorioso da história a ser massacrado dentro de sua própria casa. Todavia, como o “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” é também um lema do povo brasileiro, nada mais justo do que partir para a ótica da reconstrução da equipe.
Com a saída de Scolari, Dunga não era o nome preferido de imprensa e torcida. A Seleção que o ex-capitão comandou entre 2006 e 2010 era muito competitiva, mas carecia de criatividade. É quase consenso entre os críticos que nosso futebol deveria se inspirar nos exemplos de Espanha e Alemanha e construir um time capaz de propor o jogo como um dia fomos capazes de fazer. Uma questão já debatida neste espaço é se temos jogadores para tal missão. A resposta mais sensata neste momento é não. Durante anos, formamos atletas de estilo vertical, baseando-nos na tese de que os mais talentosos devem ficar mais próximos do gol adversário. Com isso, o meio-campo se tornou uma área muito mais de destruição do que de construção. Sobretudo, pela necessidade de cobertura de laterais apoiadores.
Passou quase despercebida a viagem da comissão técnica pela Europa após os amistosos contra Turquia e Áustria. Na Alemanha e na Inglaterra, Dunga se reuniu com Jürgen Klopp e José Mourinho, técnicos conhecidos pelo estilo intenso e vertical ora visto no Borussia Dortmund e no Chelsea. Alguém provavelmente vai pensar num diálogo com Guardiola, porém, está bastante claro que o tipo de jogo que Dunga enxerga como ideal para os seus comandados certamente não é o tiki-taka. E isso não significa que ele está errado.
É possível aproveitar as qualidades que o jogador brasileiro oferece hoje e ser competitivo ainda assim. Nos seis amistosos realizados depois do Mundial, o novo treinador deu mostras de que teremos uma equipe (ao lado) mais organizada, compacta e intensa do que a anterior. O fato de ter sacado do grupo a figura de um centroavante mais fixo é um indício de que o desejo é que todos participem do jogo. Em entrevista após a vitória sobre os austríacos, o meia Roberto Firmino destacou ao microfone aquele que é o mantra de seu chefe: “Se igualarmos a pegada, nossa qualidade individual vai se sobressair.” Infelizmente, há quatro anos, esse pensamento não se confirmou plenamente.
De qualquer forma, é impossível negar que o saldo deste reinício é positivo. Mais do que as seis vitórias, foi importante resgatar o moral do grupo. Vencer sempre será o melhor remédio para se curar as feridas do futebol. Deste modo, a Seleção encerra seus trabalhos em 2014 e se reúne novamente em março do ano que vem. Embora a CBF não confirme, os rivais devem ser Nigéria e França. Aproveitando a ocasião, este colunista também se despede temporariamente deste espaço e promete retornar às atividades em 2015. Até lá!  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.

Imagem: Getty

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Nuvens sobre os aplausos

A torcida turca sempre foi conhecida por seu fervor, indubitavelmente, um traço da cultura e da alma do povo otomano. Quando as seleções de Turquia e Brasil deram o pontapé inicial do amistoso disputado no Estádio Sukru Saracoglu, os torcedores estavam apoiando seu selecionado como sempre fizeram. Contudo, além da indefectível paixão pelo futebol, os turcos também são fãs do talento brasileiro. Algo que Neymar & Cia estavam dispostos a oferecer em Istambul naquela noite.
Não foram apenas quatro gols e nenhum sofrido. A Seleção Brasileira de Dunga tem realizado boas partidas dentro das possibilidades de um novo ciclo. A intensidade cobrada nos treinamentos é vista em campo e o comportamento tático tem sido o mesmo que marcou a primeira passagem do técnico. Obviamente, ainda se espera um volume maior de jogo no meio-campo, mas a transição afoita que se viu no Mundial deste ano está sendo solucionada com uma saída de bola mais tranquila, de pé em pé, e com a presença dos dois volantes. Os lançamentos longos para o centroavante escorar para quem vem de trás estão ficando cada vez mais no passado.
Todavia, o que realmente transformou o amistoso vencido pelo Brasil foram as atuações de Neymar e Willian. O primeiro somando mais dois gols às suas invejáveis marcas, além de uma série de jogadas que levaram seus marcadores à loucura. O segundo mostrando por que deveria ter tido mais oportunidades com Scolari. Seu “elástico” sensacional sobre dois marcadores e seu dinamismo com e sem a bola serviram para assegurar espaço entre os titulares nesse reinício. Atuações suficientes para trazer os adeptos locais para o lado verde-amarelo da força.
Por razões óbvias, não será tão simples para a Seleção Brasileira reconquistar sua própria torcida. As feridas da Copa do Mundo ainda estão abertas e não serão cinco vitórias em amistosos que transformarão toda a frustração em incentivo. Para essa missão, as Eliminatórias serão muito mais determinantes. Somente diante da torcida brasileira será possível dimensionar até que ponto o revés no Mundial pode ser superado. Para o primeiro momento, o que vimos até agora pode ser classificado como auspicioso.

Porém, como nem tudo são flores, os bastidores da Seleção continuam mais quentes do que o desejado. Após o corte do lateral Maicon por ter se apresentado muitas horas depois do combinado, foi a vez de Thiago Silva polemizar sobre a perda da tarja de capitão para Neymar. À imprensa, o zagueiro disse que se sentia chateado pelo acontecido e que o jovem atacante não o havia procurado para conversar sobre o assunto. Em seguida, diante da enorme repercussão, Thiago recuou, apareceu numa descontraída – e oportuna – foto com Neymar e culpou a imprensa pelo suposto superdimensionamento do episódio. Por sua vez, Dunga procurou sepultar a questão de forma apaziguadora, mas firme. Deixou claro que todos têm o direito de se manifestar, mas que a Seleção possui uma hierarquia.
Se a atitude do defensor terá mais desdobramentos, possivelmente só saberemos em futuras convocações. Ex-atleta do Milan, clube conhecido pelo apreço por seus líderes históricos, e atual dono da braçadeira no PSG, é compreensível que Thiago Silva tenha se apegado à condição de capitão da Seleção Brasileira. No entanto, a crise de choro nas oitavas de final perante o Chile, onde sua fraqueza poderia ter desestabilizado o grupo por completo, foi determinante para que todos percebessem que ele não tinha o perfil para a missão. Ainda entre os melhores zagueiros do planeta, Thiago pode ser muito útil para o Brasil. Nesse cenário, cabe ao próprio jogador entender que sua atual aflição pode ser, no fundo, uma boa notícia. Afinal, ficou bastante evidente que a tarja de capitão da Seleção se tornou um fardo pesado demais para ele.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Mowa Press

domingo, 9 de novembro de 2014

Neymar e a legião estrangeira

Único brasileiro indicado à Bola de Ouro FIFA 2014, artilheiro do Barcelona na temporada, quinto maior goleador da Seleção Brasileira com 40 gols, capa de grandes publicações, Neymar mostra que está alcançando a maturidade com apenas 22 anos. Até mesmo o “file de borboleta” que sempre o caracterizou ficou para trás. Com 4,5 kg a mais, o brasileiro adquiriu a musculatura necessária para o jogo mais físico que encontrou na Europa. “Ele está ganhando massa, ganhando força e, consequentemente, mais potência”, explica o preparador físico da Seleção, Fabio Mahserehdjian.
Que Neymar se tornou o jogador mais importante da Seleção não é nenhuma novidade. Assim como sua quarta aparição como um dos postulantes à premiação máxima da FIFA também não surpreende ninguém. O que vem chamando a atenção é sua estabilização como um dos grandes nomes do futebol mundial. Antes coadjuvante de Lionel Messi, Neymar começa a dividir o protagonismo no Barcelona com o gênio argentino. Logicamente, a maior liberdade recebida do técnico Luis Enrique e o deslocamento de Messi para uma posição onde se tornou mais “arco” do que “flecha” contribuíram para essa notável evolução, mas nada disso faria diferença se Neymar não fosse o craque que muitos duvidavam ser.
Neste momento, as comparações com Robinho ficaram para trás. Além da origem santista e do gosto pelo drible, pouca coisa os une. Negociado ao Real Madrid em 2005 como novo Ronaldinho Gaúcho, Robinho nunca se afirmou no Velho Continente. E, mesmo na Seleção, sempre pairou alguma desconfiança pelos incontáveis gols perdidos. Por sua vez, Neymar tem se notabilizado não só pelo faro de artilheiro, como pela maestria nas cobranças de falta. A faixa de capitão que agora enverga é apenas mais uma prova de que a pressão de ser a referência não incomoda o atacante. Está cada vez mais claro que o seu patamar é entre feras do calibre de Romário, Ronaldo e Rivaldo.
No entanto, cabe a Dunga estruturar uma equipe que dê suporte ao seu melhor jogador. Um time que funcione bem mesmo num dia ruim do camisa 10 ou em sua ausência. Graças ao nosso inchado calendário que não se interrompe em datas FIFA, a lista de convocados para os amistosos diante de Turquia (12 de Novembro em Istambul) e Áustria (18 de Novembro em Viena) não conta com atletas que militam no Brasil. Portanto, esta será a chance para o técnico observar nomes que ainda não tinham recebido oportunidade neste novo ciclo.
Entre os chamados, destacam-se os retornos do zagueiro Thiago Silva, do goleiro Diego Alves e do meia Lucas Moura. Atravessando boa fase no Porto, Casemiro é mais um indício de que Dunga está à procura de volantes que saibam construir o jogo. Também estreante, Roberto Firmino finalmente terá a chance de comprovar na Seleção tudo o que os mais atentos perceberam no Hoffenheim. Artilheiro da atual edição da UEFA Champions League, Luiz Adriano é o primeiro centroavante convocado após as péssimas apresentações de Fred e Jô no Mundial. Mesmo que a intenção inicial seja a manutenção de uma equipe sem a presença de um nove clássico, não deixa de ser válida a opção de um jogador de área no banco de reservas.
Curiosamente, a nova sensação tupiniquim em gramados europeus ficou de fora da lista. Destaque máximo do Benfica nesta temporada, o meia Anderson Talisca vem chamando a atenção pelos gols e arrancadas fulminantes e já despertou o interesse de gigantes como Chelsea e Manchester United. Convocado por Alexandre Gallo para a Seleção Brasileira sub-21, Talisca está no radar de Dunga e possivelmente figurará em futuras convocações do time principal. Mesmo com todos os seus problemas, o futebol brasileiro tem a capacidade de se renovar como nenhum outro. Resta saber se a nova comissão técnica conseguirá conduzir esse processo de forma satisfatória.

Atualização (10/11): Confirmando sua excelente fase, Talisca foi convocado hoje para substituir o lesionado Lucas Moura nos amistosos diante de Turquia e Áustria. Nada mais justo. 
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagens: Reprodução The Times e AFP

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ao (contra-)ataque!

Em quatro partidas, quatro vitórias, oito gols marcados e nenhum sofrido. No caminho, rivais como Colômbia e Argentina foram abatidos. Esse é o saldo da nova Seleção Brasileira novamente sob o comando de Dunga. Mas, por que isso não parece ser suficiente para convencer público e crítica? Quem ouve os principais comentaristas ou lê os maiores colunistas tem a impressão de que os resultados têm pouca ou nenhuma importância dentro do cenário pós-Copa. E não é difícil entender os motivos.
Há anos o Brasil vive o mesmo dilema: Queremos mudança nos rumos do futebol, mas não temos dirigentes e técnicos capacitados para a missão. Para piorar, muitos desses cartolas e profissionais simplesmente não identificaram a existência do problema e seguem como se ainda detivéssemos o principal campeonato do planeta. E, de certo modo, a Seleção representa o consolidado de tudo o que tanto se critica no futebol brasileiro e que precisa ser mudado. E talvez esteja aí o nosso erro.
Desde a era Guardiola no Barcelona, passando pela ascensão da Espanha até o ressurgimento da Alemanha, um modelo de jogo se tornou uma espécie de ideal imaginário para o Brasil. Ou melhor, parece ter se tornado a fórmula única para a retomada do estilo há muito perdido. Era como se a adaptação de jogadores de estilo rápido e vertical que produzimos nas últimas décadas para um estilo voltado para o toque de bola fosse uma simples questão de opção do treinador da vez. Infelizmente, a vida real não funciona dessa forma.
A Seleção é o topo da pirâmide. Uma equipe formada por atletas que militam em diversas partes do mundo, mas com uma característica em comum. São jogadores que, em sua maioria, possuem um estilo de jogo vertical, de condução de bola e afeito ao contra-ataque. Assim são Neymar, Diego Tardelli, Oscar, Philippe Coutinho, Willian, Hulk, Robinho, Kaká e Lucas Moura. Paulo Henrique Ganso é um dos poucos a exibir um repertório diferente. E talvez justamente por isso não faça parte dos planos imediatos de Dunga.
Neste cenário, nada mais lógico do que vermos o técnico estruturando seu time para marcar forte e aproveitar os espaços. Com os jogadores que temos, esse é o caminho mais natural a seguir. Além disso, equipes como Chelsea, Real Madrid, Atlético de Madrid e Borussia Dortmund mostraram, recentemente, que é possível vencer de outras formas, desde que não se perca de vista conceitos básicos do futebol atual como organização, compactação, intensidade e jogo coletivo. Isso não quer dizer que nunca mais haverá uma filosofia propositiva no Brasil, mas essa revolução só será possível a partir da base. De baixo para cima.  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Sportv

domingo, 12 de outubro de 2014

Com a cara de Dunga

Foram apenas três amistosos, algumas horas de treino e períodos de convivência. Contudo, os primeiros jogos da Seleção Brasileira sob as ordens de Dunga deram mostras de que seu estilo de comandar não mudou. Vimos uma equipe aguerrida, buscando fechar os espaços, renunciando à posse de bola em diversos momentos e vencendo com alguma dose de sofrimento. Fora de campo, um técnico vibrante e irritadiço como sempre. De certo modo, é como se os quatro anos que se passaram desde a eliminação para a Holanda em 2010 não tivessem existido. Mas existiram.
Sendo pragmático, é elogiável ver o treinador de um selecionado conseguindo impor suas ideias em tão pouco tempo. A título de comparação, Mano Menezes só conseguiu esboçar algo parecido quando chegou a dois anos no cargo. No entanto, há uma diferença crucial: Enquanto Mano almejava alterar o perfil da Seleção, tentando reimplantar o protagonismo perdido, Dunga optou pelo mais simples, buscando jogar no erro do adversário, algo que corresponde ao tipo de jogador que o Brasil produziu nos últimos anos.
Embora seja difícil saber se Dunga realmente enxerga todo o cenário do futebol brasileiro e mundial ou se apenas implanta sua visão desse esporte, a verdade é que ele conseguiu atingir seu objetivo inicial, ou seja, venceu seus primeiros duelos e viu sua equipe atuar de modo semelhante ao que fazia quando de sua passagem anterior. Dentro desse cenário, melhor impossível. Porém, dentro dos anseios do público, a distância para o modelo tido como ideal é grande.
A começar por sua relação com a imprensa. Pelo menos desde 1990, Dunga vive às turras com os jornalistas esportivos. Nunca digeriu ter visto seu nome batizando o fracasso da Seleção no Mundial da Itália. Tanto que fez questão de “dedicar” o tetracampeonato conquistado nos EUA a esse segmento. E a recíproca é verdadeira. Na última sexta-feira, no programa “Linha de Passe”, o comentarista José Trajano fez questão de lembrar que não gosta do técnico. Pouco depois da vitória por 2 x 0 sobre a Argentina, Mauro Cezar Pereira criticou Dunga pelo entrevero com a comissão técnica rival mesmo sem saber direito o que tinha acontecido.
Todavia, mais importante do que vencer a desconfiança da imprensa é o resgate da competitividade da Seleção. Dunga conseguiu isso em sua primeira passagem, mas sua equipe tinha como ponto fraco a incapacidade de romper defesas mais fechadas, preferindo o contragolpe. O problema é que este provavelmente será o comportamento de 90% dos adversários daqui por diante. Para o Brasil, propor o jogo é também uma obrigação histórica que um peso de cinco estrelas impõe. Sem dúvida trata-se do maior desafio deste ciclo.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Fred Dufour/AFP

domingo, 5 de outubro de 2014

Transição e renovação

Não existe fórmula exata para se promover a renovação de uma seleção. Cada treinador adota as medidas que julga necessárias de acordo com as circunstâncias e suas convicções. Além disso, antes mesmo de se pensar em renovação, é preciso promover a transição entre gerações para que não haja uma lacuna entre jogadores jovens e experientes. Em 2002, Parreira teve a paciência necessária para incorporar novos talentos ao grupo pentacampeão, mas errou ao não identificar focos de desinteresse nas grandes estrelas antes do Mundial de 2006. Em seguida, Dunga respondeu forte ao pedir comprometimento, porém, falhou ao se apegar demasiadamente aos atletas que lhe deram suporte durante a trajetória até a África do Sul. Por sua vez, Mano Menezes cometeu o pecado de romper com tudo o que seu antecessor havia feito, apostou na juventude e caiu sem encontrar seu time ideal.
Quanto a Felipão, sua chegada sempre foi mais uma medida política e uma tentativa de recolocar a Seleção Brasileira nos trilhos do que uma decisão estratégica. Embora não possa ser responsabilizado por tudo o que ocorreu na última Copa, ficou evidente logo no início do torneio que a fórmula da vontade acima da organização dificilmente vingaria no futebol atual. Por seu estilo aguerrido dentro e fora de campo, muitos acreditam que Dunga reza a mesma cartilha, todavia, sua primeira passagem foi marcada muito mais pelo pragmatismo do que por um estilo “vamo-que-vamo”. Sua Seleção poderia ser criticada pela falta de ideias, não pela falta de organização. De certo modo, seu estilo pode ser comparado ao do argentino Diego Simeone. O que não é, necessariamente, um elogio.
Dunga é um obcecado por vitórias. Em seu dicionário, jogar bem é vencer e marcar época significa conquistar títulos. Talvez por isso não entenda por que a Seleção de 1982 é adorada mesmo sem ter vencido nada. Deste modo, não surpreende a iniciativa de trazer de volta à pauta jogadores que dificilmente chegarão com fôlego a 2018. A presença de nomes como Maicon, Elias, Robinho e agora Kaká nas duas primeiras convocações indica que a preocupação com o presente é grande. Embora não tenha deixado nada explícito, Dunga quer espantar logo o fantasma dos 7 x 1. Não por acaso, levará o que tem de melhor para pegar a Argentina e sinalizou positivamente para futuros amistosos contra a Alemanha.
Mesmo diante dessa constatação, a iniciativa chama a atenção. Aos 32 anos e com passagem marcada para defender o Orlando City, é pouco provável que Kaká siga como um atleta de nível de Seleção por muito tempo. Bem mais jovem e vivendo boa fase, Ganso seria uma opção que faria mais sentido tanto pela idade quanto por suas características. Neste momento, o Brasil não tem nenhum meia capaz de cadenciar o jogo. Mesmo que o time idealizado por Dunga não tenha como objetivo reter mais a bola, não deixa de ser interessante ter alguém como o são-paulino como alternativa.
Paralelamente, também existe a percepção de que o radar da comissão técnica segue atento a novos valores. Chamado preventivamente por causa da lesão de Jefferson, o goleiro Marcelo Grohe vem se apresentando em grande forma no Grêmio. Convocados depois dos cortes de Marquinhos, Ramires e Fernandinho, o zagueiro Juan Jesus e os volantes Souza e Rômulo fazem parte de um perfil de renovação. Apesar de Juan ser um defensor não mais que razoável, Souza e Rômulo são opções bastante auspiciosas do comandante brasileiro, uma vez que são exemplos típicos de volantes capazes de marcar e atacar com eficiência, seguindo a tendência mundial. O que indica que, além do momento, Dunga também olha para o futuro.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty Images

domingo, 21 de setembro de 2014

A Seleção não tem culpa

Na última quarta-feira, Dunga, técnico da Seleção Brasileira, divulgou a lista contendo os 22 convocados para os amistosos diante de Argentina, 11 de outubro em Pequim, e Japão, dia 14 em Cingapura. Como se esperava, a presença de nomes que atuam no Brasil provocou revolta nos torcedores dos times que irão ceder jogadores aos seus respectivos selecionados. Contando com a apresentação, as ausências serão sentidas na 27ª e 28ª rodadas do Brasileirão. Desfalques que, em alguns casos, podem fazer a diferença.
Embora a reação automática dos torcedores seja reclamar da comissão técnica da Seleção e da CBF, é preciso saber que a questão é mais profunda do que parece. Desde os anos 1990, a FIFA instituiu datas específicas para jogos de seleções dentro de um calendário previamente definido. Todas as federações nacionais têm conhecimento do mesmo e se planejam para que esses períodos não coincidam com a temporada regular dos clubes. Ou melhor, quase todas.
Graças à ligação entre CBF e federações estaduais, simplesmente não há datas suficientes para a instituição de um calendário decente no Brasil sem que interesses sejam atingidos. A CBF não quer desagradar seus membros que, por sua vez, só existem porque alimentam a própria entidade. Por sua vez, os clubes são subservientes tanto às suas federações quanto à cúpula ora dirigida por José Maria Marin. Sendo assim, na maioria das vezes, a reclamação se restringe a técnicos, jornalistas e torcedores. Qualquer outro barulho não passa de pirotecnia.
Não resta dúvida de que os atletas não se incomodam com o chamado. Eles têm absoluta ciência do quão benéfico para suas carreiras é a chancela da Seleção. Mesmo que desfalquem suas agremiações, as ambições pessoais estão sempre à frente. Em todo o caso, Dunga já deixou aberta a possibilidade do envio de uma carta solicitando a dispensa de algum convocado. Obviamente, tais missivas nunca serão enviadas. Dirigentes e jogadores sabem que esse não é o caminho.
Curiosamente, a nova lista traz um raro nome que um dia recusou a Seleção. Em 2011, quando ainda defendia o Grêmio, Mario Fernandes protagonizou um estranho episódio de recusa de convocação. À época, o atual lateral-direito do CSKA, declarou problemas particulares e não se apresentou para o amistoso contra a Argentina em Belém. Justamente o primeiro adversário na turnê pela Ásia. Como disse o técnico Dunga, todos merecem uma segunda chance. Mas nunca é bom arriscar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: André Brant/Hoje em Dia

domingo, 14 de setembro de 2014

Deixem o homem trabalhar

Quando o posto de técnico da Seleção Brasileira ficou vago, quase ninguém pensou no retorno de Dunga. Apesar da hipótese de um nome estrangeiro ter sido admitida pela CBF, todas as direções apontavam para a escolha de Tite, o mais vitorioso e atualizado profissional brasileiro dos últimos tempos. Todas menos uma: a política. Segundo a cúpula da entidade, o ex-comandante do Corinthians era figura ligada ao desafeto Andrés Sanchez e, portanto, carta fora do baralho.
Não há dúvida que a volta de Dunga não atendeu os anseios da torcida brasileira. Depois do que houve na última Copa do Mundo, esperava-se uma mudança de rumo na condução da Seleção. Apesar do time dirigido no ciclo 2006/2010 ter sido competitivo, o ex-volante sempre o organizou visando o contra-ataque. Nunca houve uma demonstração de busca por um futebol protagonista. Na visão do capitão do Tetra, só a vitória interessava e o resto não passava de perfumaria.
E parte dessa mentalidade se mantém. Como é de sua natureza, Dunga é obcecado por vencer. Como disse Neymar, é o tipo de pessoa que “não gosta de perder nem cara ou coroa” e isso se reflete em suas equipes. No entanto, algumas mudanças em relação ao trabalho anterior já foram notadas. Diferente de sua primeira passagem e do que era visto com Felipão, esta Seleção tem um apreço maior pela troca de passes e pela posse, sem falar na ausência de um centroavante clássico. Os lançamentos longos desde os zagueiros foram repreendidos e a bola também não é alçada das laterais do campo de qualquer maneira. Por outro lado, a recomposição defensiva segue a mesma linha que um dia arrancou elogios de Fabio Capello.
Logicamente, é muito cedo para dizer que este novo trabalho dará certo. Do mesmo modo, também não é possível falar em fracasso antecipado. Durante o caso que resultou no desligamento de Maicon muitos se anteciparam para dizer que o técnico errou na condução do episódio. Alguns dizendo que o motivo da dispensa deveria ser divulgado, outros afirmando que o melhor era manter o lateral no grupo e só depois não convocá-lo mais. Curiosamente, o próprio jogador agradeceu a maneira como tudo foi conduzido. E ninguém melhor do que ele para saber o tamanho do seu ato de indisciplina. No fim, acabou ficando a impressão de que o julgamento à distância não foi o mais correto. Do mesmo modo que falar em sucesso ou fracasso de Dunga baseando apenas pelo gosto pessoal não parece a maneira mais justa e inteligente.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: AFP

domingo, 7 de setembro de 2014

Primeiros passos

Como reza o manual dos treinadores precavidos, Dunga fez questão de dar o favoritismo do amistoso entre Brasil e Colômbia aos rivais. Sem dúvida, o técnico tinha conhecimento da força do elenco comandado há dois anos pelo argentino José Pékerman, mas também havia a percepção de que não se coloca pressão sobre um grupo recém-formado, ainda mais quando boa parte deste acaba de emergir do pior momento da história do selecionado nacional. Contudo, Dunga sabia que poderia vencer a partida e trabalhou para isso.
Durante a última semana, noticiou-se que os treinos da Seleção estavam mais longos e intensos do que se via com Luiz Felipe Scolari. As atividades duram agora mais de duas horas e foram sempre com bola. Perguntados sobre a diferença entre os dois técnicos, alguns jogadores, com os rodeios de praxe, disseram que o novo técnico é mais detalhista que seu antecessor. O espírito aguerrido e vencedor do capitão do Tetra também foi mencionado. Restava saber como o curto período de treinos se refletiria em campo.
Previamente, a lista de convocados indicava um time montado para o presente. Nomes como Maicon – cortado por indisciplina neste domingo – Filipe Luís, Ramires, Elias e Diego Tardelli dão a certeza de que as vitórias precisam voltar a fazer parte do dicionário canarinho. Ao contrário do que ocorreu na reformulação total promovida por Mano Menezes há quatro anos, com Dunga as alterações devem se dar de maneira gradual. Embora seja muito cedo para análises mais profundas, vimos uma Seleção Brasileira preocupada em fechar os espaços, marcar forte e contra-atacar rápido. A mesma fórmula que o técnico usou durante sua primeira passagem.
Taticamente, duas mudanças se fizeram notar. A primeira, bastante auspiciosa, mostra que o maior dilema da Era Felipão pode ser solucionado com treinamento e posicionamento. A transição defensiva, antes marcada pela inoperância dos volantes e por lançamentos longos que normalmente devolvia a posse ao adversário foi substituída, por orientação de Dunga, por uma saída de pé em pé com participação dos dois volantes e laterais bem abertos (abaixo).

A segunda, que pode se tornar usual neste ciclo, foi a ausência de um centroavante fixo. Como é sua característica, Diego Tardelli movimentou-se bastante, buscou jogo e aliviou Neymar da tarefa de recuar para marcar. Na prática, o leve quarteto ofensivo não deixou referência para os zagueiros rivais, porém, era constante a presença de alguém para concluir as jogadas. Uma solução interessante para a falta de um finalizador nato.
Autor do gol da vitória, seu 36º em 55 jogos, Neymar continua sendo a principal referência da equipe. Movimentando-se por todo o campo de ataque, o camisa 10 teve liberdade para carregar a bola e tentar jogadas individuais. Por exercer a chamada “liderança técnica”, recebeu a missão de ser o mais novo capitão da história da Seleção. Uma demonstração de perda confiança em Thiago Silva, devido ao descontrole emocional mostrado durante o Mundial, e em David Luiz, pelos rompantes ofensivos. Por outro lado, fica evidente que o protagonismo de Neymar continua em alta. Resta saber como será o time que lhe dará suporte.   
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagens: Bruno Domingos/Mowa Press e Sportv