Mostrando postagens com marcador Taticamente Falando. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Taticamente Falando. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de novembro de 2012

Taticamente Falando

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas tido por muitos como aborrecedor ou difícil de ser assimilado. Todavia, sem o mínimo conhecimento desse aspecto, o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Febre 3-5-2 invade a Itália
Quando Pep Guardiola adotou temporariamente uma linha de três na defesa do Barcelona a ideia era aumentar ainda mais o domínio do time catalão sobre seus adversários. Deste modo, o meio-campo blaugrana ganhou mais um jogador e o toque de bola tornou-se ainda mais irrefreável. Enquanto isso, na Itália, os sistemas com três zagueiros vêm se tornando cada vez mais utilizados. A motivação, contudo, não parece ser a mesma.
Antes de a campeã Juventus adotar o sistema, Napoli e Udinese já faziam uso do 3-5-2 (com variações para 3-4-2-1 e 3-4-3). Tanto Walter Mazzarri quanto Francesco Guidolin, os respectivos treinadores, precisavam reequilibrar suas defesas por contarem com laterais/alas que tinham no apoio uma capacidade maior do que na recomposição. Cristian Maggio do lado partenopeu e Pablo Armero do lado friulano são os melhores exemplos de jogadores que são fortes no apoio, mas deixam a desejar na defesa.
É muito provável que parte da iniciativa do técnico bianconero Antonio Conte em adotar o 3-5-2 tenha nascido dos bons resultados que os rivais tiveram. A outra parte se encontrava na fragilidade defensiva de seus próprios laterais Stephan Lichtsteiner e Paolo De Ceglie e da não readaptação de Giorgio Chiellini à lateral esquerda. Convicto de que a nova formação era a ideal, Conte moldou a equipe que conquistaria seu 28º scudetto de forma invicta. Com três zagueiros e um consistente meio-campo formado por Andrea Pirlo, Claudio Marchisio e Arturo Vidal, as alas tiveram diversos donos nos últimos meses e são ocupadas pelos ex-Udinese Mauricio Isla e Kwadwo Asamoah (figura 1).
Como no futebol quem vence dita a tendência, não demoraram a surgir cópias do sistema juventino por toda Itália. Segundo o site da Gazzetta dello Sport, metade das 20 equipes da Seria A (Bologna, Fiorentina, Internazionale, Juventus, Napoli, Palermo, Parma, Pescara, Siena e Udinese) alinham-se com três defensores. Até mesmo o Milan, que por anos atuou no módulo 4-3-1-2, chegou a ser escalado, sem sucesso, no 3-5-2 por Massimiliano Allegri.
O que realmente não parece lógico é a adoção de um sistema em desuso como o 3-5-2 no momento em que o mundo adota o 4-2-3-1 (figura 2) como default system. Com três zagueiros, como efetuar o encaixe na marcação diante de equipes que atuam com um único atacante fixo, mas que pode receber o auxílio dos wingers pelos lados do campo, tornando-se um 4-3-3? Com três atacantes, há a indefinição da marcação, pois se os zagueiros saírem da área um rombo será aberto e se os alas recuarem para marcar dos pontas, o meio-campo ficará em três contra três. Ou seja, se o 3-5-2 surgiu como uma resposta inteligente ao 4-4-2, o mesmo não pode ser dito sobre o seu retorno. A não ser que os italianos convençam o restante da Europa a adotar seu novo sistema. Porém, como foi dito acima, se quem vence dita a tendência, o atual momento das equipes da Bota em gramados internacionais não parece inspirar ninguém.

sábado, 28 de julho de 2012

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas tido por muitos como aborrecedor ou difícil de ser assimilado. Todavia, sem o mínimo conhecimento desse aspecto, o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Compactação
Estão se tornando cada vez mais comuns os comentários sobre a defasagem tática do futebol brasileiro em comparação ao que vem sendo feito na Europa. Para exemplificar, técnicos como Mano Menezes costumam dizer que enquanto no Brasil os times ocupam 50, 60 metros, as equipes do Velho Continente atuam em apenas 30. Obviamente, tal discrepância resulta em maior quantidade de passes errados – quanto maior a distância entre os jogadores, maior a chance de errar o passe – menor intensidade de marcação, além de provocar alterações no que diz respeito à distribuição de funções em campo.
No sistema ilustrado ao lado, vemos a distribuição tática em 60 metros de uma equipe tipicamente brasileira, ora alinhada num 4-2-3-1 (figura 1) onde os volantes precisam cobrir as subidas constantes dos laterais e a armação fica a cargo de um único meia central assessorado por dois meias abertos pelos flancos. Como é possível notar, existe uma grande distância entre os setores, o que muitas vezes provoca tentativas de ligação direta entre defesa e ataque. Do mesmo modo, tal distância também pode resultar num demasiado espaçamento entre os setores, algo que, na prática, pode significar hiatos entre o setor defensivo (no Brasil, claramente composto pela linha de zagueiros e os volantes) e o ataque (meias ofensivos e centroavante); ou entre defesa, meio-campo e o único atacante que fica isolado do time.
Tento em vista as citadas questões, a compactação presente no futebol praticado fora do País é o caminho mais lógico a ser seguido. Fazendo uso do mesmo 4-2-3-1 (figura 2), agora em 30 metros e sob uma ótica mais europeia, temos um time atuando praticamente num só bloco, defendendo quando não tem a bola e atacando quando tem a posse. Nesse cenário, os zagueiros precisam saber sair jogando, os laterais atuam de maneira mais fixa na defesa dando funções de armação aos volantes que antes eram quase exclusivas dos meias. Não por acaso, jogadores como Schweinsteiger, Xabi Alonso, Khedira e Xavi, representam o modelo de volante ideal para essa forma de atuar, pois são capazes de marcar, armar e ainda chegar com qualidade ao ataque. Com isso, quem perde espaço são os volantes unidimensionais que só entravam em campo para retomar a bola e tocar de lado. Mas, afinal, quem precisa deles?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas tido por muitos como aborrecedor ou difícil de ser assimilado. Todavia, sem o mínimo conhecimento desse aspecto, o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Líbero, a função extinta.
No Brasil, convencionou-se chamar o zagueiro de sobra do sistema 3-5-2 de líbero. É com essa nomenclatura que técnicos, jornalistas e também torcedores definem o defensor central da linha três. No entanto, embora o raciocínio de se referir a um zagueiro que atua na sobra de outros dois incumbidos do combate direto aos atacantes como líbero não esteja de todo equivocado, é importante corrigir o erro histórico contido nessa informação.
Antes de mais nada, como o próprio nome diz, líbero é um jogador que atua livre em campo. Obviamente, isso não significa atuar sem obrigações, mas ter a liberdade para se deslocar por outros setores do gramado de acordo com a posição da bola e a necessidade da jogada. Os últimos líberos de verdadeiro impacto mundial foram Franco Baresi e Lotthar Matthäus. O primeiro, considerado um dos maiores defensores da história, fazia uso de seu posicionamento e capacidade de antecipação para dar início aos contragolpes do Milan. O vídeo abaixo traz uma boa noção de como o italiano jogava.
Por sua vez, Matthäus surgiu como um meio-campista completo, mas, com o passar do tempo, o peso da idade o fez recuar e assumir o papel de líbero tanto no Bayern quanto na seleção alemã. Nessa fase de sua carreira, era capaz de atuar como líbero tanto atrás como à frente da defesa. Todavia, nenhum líbero alemão alcançou o sucesso de Franz Beckenbauer (figura 1). Inspirando-se nos avanços do lateral-esquerdo italiano Giacinto Facchetti, o Kaiser, considerou que se fizesse o mesmo a partir de uma posição central do gramado teria uma amplitude maior para armar e atacar.       
Outra figura lendária da posição foi Gaetano Scirea. Tido por muitos como o mais completo jogador a exercer essa função, Scirea (figura 2) era, ao mesmo tempo, zagueiro, armador e, por vezes, aparecia no ataque da Juventus. Defendendo a Azzurra, Scirea fez parte do time tricampeão mundial em 1982. Em terras espanholas, formou com Gentile, Oriali, Collovati e Cabrini uma das defesas mais sólidas da história das Copas. E ainda sobrava tempo para o saudoso líbero apoiar o ataque, como na jogada que originou o segundo gol na vitória por 3x1 contra a Alemanha na final.   
Na memória dos brasileiros, nossa Seleção também teve a presença de um líbero em duas ocasiões. Entretanto, em 1990, Mauro Galvão atuou basicamente como um zagueiro no 3-5-2 de Lazaroni. Doze anos depois, o versátil Edmílson (figura 3) foi quem mais se aproximou da função ao deixar o alinhamento com Lúcio e Roque Júnior para fazer companhia aos volantes Gilberto Silva e Kléberson. Tal medida se dava quando o adversário tinha apenas um atacante mais adiantado, o que, segundo o técnico Luiz Felipe Scolari, preteria a necessidade de um trio de zagueiros.
Apesar da influência de dois mundiais, não é possível dizer que a cultura do líbero se consolidou no Brasil. No restante do planeta bola, a função ainda foi desempenhada com brilho por nomes como Matthias Sammer, mas logo perdeu espaço em sistemas mais rígidos. Atualmente, poucos atletas reúnem qualidades suficientes para exercer esse papel, embora seja possível dizer que os barcelonistas Piqué e Busquets poderiam ser testados se o técnico Josep Guardiola assim o desejasse.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas tido por muitos como aborrecedor ou difícil de ser assimilado. Todavia, sem o mínimo conhecimento desse aspecto, o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
4-2-3-1, o esquema da moda.
No futebol, além dos grandes times e dos grandes craques, as eras também são marcadas pelos sistemas táticos. Do revolucionário “WM” de Herbert Chapman nos anos 1920 e 1930 até os nossos dias, muita coisa aconteceu. Tivemos o 4-2-4 eternamente ligado a um período dourado do futebol brasileiro, o 4-3-3 que é usado até hoje, o 4-4-2 difundido pelos ingleses, o 3-5-2 dinamarquês, o 4-2-2-2 que se tornou febre no Brasil nos anos 1990, até chegarmos ao 4-2-3-1 dos dias atuais.
Ao lado do eterno 4-4-2 com meio-campo em linha, o 4-2-3-1 (figura 1) é o sistema tático mais utilizado no futebol moderno. Popularizado no Mundial de 2006, quando as finalistas Itália (que também se alinhava num 4-4-1-1 com Totti à frente do meio-campo) e França encontraram nesse módulo a melhor forma de escalar seus times, o 4-2-3-1 se consolidou nas principais ligas do planeta e hoje é o esquema preferido de boa parte dos técnicos brasileiros. Na Seleção, foi o sistema default de Dunga - à época, descrito como “4-2-3-1 torto” (figura 2), pois tinha o armador Elano pela direita e o atacante Robinho pela esquerda - e foi usado por Mano Menezes em diversos momentos.
Basicamente, o sistema em questão pode ser definido como uma linha de quatro na defesa, com uma dupla de centrais e laterais que apóiam moderadamente, dois volantes que, preferencialmente, precisam saber o que fazer com a bola nos pés, uma linha de três formada por um armador central e dois meio-campistas laterais (também chamados de pontas, dada a similaridade das funções), além do centroavante, não necessariamente fixo entre os zagueiros.
Dentre os pontos positivos do sistema, podemos destacar o bom preenchimentos dos espaços defensivos com o recuo dos pontas e a chegada dos mesmos ao ataque assim como o do meia central. De negativo, o possível isolamento do único atacante caso os três meias não consigam se aproximar de maneira constante, além da hipotética sobrecarga do meia central caso a armação não seja divida com os volantes e os ponteiros. Em outras palavras, não existe esquema perfeito. Assim como outros sistemas, o 4-2-3-1 também reúne prós e contras. Adaptar os jogadores ao melhor sistema e promover os devidos ajustes é tarefa do técnico. O que nem sempre é fácil.

domingo, 20 de novembro de 2011

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas tido por muitos como aborrecedor ou difícil de ser assimilado. Todavia, sem o mínimo conhecimento desse aspecto, o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Alas, nosso maior dilema tático - Parte II
Na coluna anterior, o “Taticamente Falando” abordou o surgimento dos alas brasileiros dentro da evolução tática do nosso futebol. Nesta ocasião, analisaremos como a presença dessa função influenciou outras e de que maneira isso prejudicou a formação básica de nossos jogadores...
O 3-5-2 surgiu em 1984 através do alemão Sepp Piontek, técnico da Dinamarca semifinalista da Eurocopa daquele ano. Basicamente, Piontek acreditava que o novo sistema seria ideal diante do mundialmente instaurado 4-4-2, pois tinha três defensores para marcar os dois atacantes adversários e um jogador a mais no meio-campo. Dois anos depois, o técnico chamou a atenção do mundo ao utilizar o mesmo módulo no México e conquistar a primeira colocação de um grupo que contava com Alemanha, Escócia e Uruguai. Embora tenha encantado, a chamada Dinamáquina encontrou seu carrasco logo nas oitavas-de-final daquela Copa ao ser batida pela Espanha de Butragueño por inapeláveis 5x1. Todavia, a semente estava plantada e no Mundial de 1990 nada menos que 20 das 24 seleções usaram o 3-5-2. Entre elas, o Brasil.
Na Itália, a Seleção de Sebastião Lazaroni adotou o 3-5-2 (figura 1) num Mundial marcado pela supremacia dos sistemas defensivos. No esquema brasileiro, o trio de zagueiros tinha à frente o volante Dunga, enquanto os meias Alemão e Valdo se alinhavam aos alas Jorginho e Branco. No ataque, Muller atuava prioritariamente pelos flancos, enquanto o centroavante Careca permanecia mais centralizado. Dada a carência criativa daquela equipe, esse time é lembrado como uma das piores versões do Brasil em Copas.

Todavia, a dinastia dos alas brasileiros estava consolidada. E, com ela, a necessidade de realizar a cobertura dos espaços deixados pelos intrépidos laterais. Em 1994, Zinho, conhecido por seu dinamismo, ficou conhecido como “enceradeira” justamente pelo suporte que precisava dar ao lateral esquerdo. Orientado por Carlos Alberto Parreira, Zinho (figura 2) segurava a bola até a passagem de Branco (ou Leonardo) e geralmente cumpria essa tarefa girando o corpo para protegê-la dos adversários. No lado direito, a obrigação era de Dunga que frequentemente ouvia “Vai Cafu! Vai Cafu! O Dunga te cobre!” e, taticamente obediente como sempre foi, já sabia o que fazer. O apoio simultâneo dos laterais era tão constante àquele time, que Mauro Silva foi muitas vezes era visto em campo como um terceiro zagueiro. Quatro anos depois, Zagallo manteve esquematização semelhante: “Quero meus laterais jogando como pontas”, dizia. Não por acaso, o bloqueio das laterais do campo foi uma das estratégias utilizadas pelo técnico Aimé Jacquet na fatídica final entre Brasil e França. Com as laterais fechadas, o time teve que sair jogando pelo meio e o resto é história: 3x0 para a seleção da casa e o primeiro título nacional dos Bleus.

Em 2002, a maior preocupação de Luiz Felipe Scolari na montagem da futura seleção pentacampeã era justamente como se defender tendo laterais tão ofensivos quanto Cafu e Roberto Carlos. Este último até era acostumado a jogar na primeira linha do Real Madrid. Cafu, porém, atuava na segunda linha da Roma tendo o italiano Panucci atrás de si. Como solução, Felipão escalou um trio de zagueiros formado por Lúcio, Edmilson e Roque Júnior e ainda destacou Gilberto Silva como guardião da defesa. Versátil, Edmilson também atuava como volante de acordo com a postura do adversário, alterando o módulo do time de um 3-4-2-1 para um 4-3-2-1 (figura 3). No fim, a intenção era ter um time capaz de suportar e municiar os três craques do time: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Parreira reassumiu a Seleção em seguida e trocou o sistema com três zagueiros por sua ortodoxa linha de quatro. Nesse 4-3-1-2, a saída de bola era realizada por Roberto Carlos, Cafu e o volante Emerson que, se não era limitado tecnicamente, também não primava pela excelência no passe. Mais à frente, Juninho Pernambucano e Zé Roberto davam a classe que o meio-campo precisava, enquanto Kaká fazia a ligação para o ataque formado pelos os dois Ronaldos. Entretanto, cedendo ao clamor popular, Parreira trocou o equilíbrio tático por uma aventura batizada como “quadrado mágico” (figura 4), onde Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo colaboravam pouco com o sistema defensivo. Na prática, havia uma cisão entre ataque e defesa onde não havia armadores capazes de amarrar as duas partes.

E foi justamente nesse ponto que os laterais começaram a cobrar um alto preço na formação de nossos jogadores. A divisão estava clara: Formávamos volantes essencialmente marcadores – que tinham como uma de suas funções cobrir os avanços dos alas – e meias, quase que exclusivamente ofensivos. Na base e no profissional, qualquer jogador mais criativo é logo adiantado para o campo de ataque sob o pretexto de que o talento não pode se desgastar com a marcação. Naquele momento, o meia clássico capaz de armar o jogo e ainda ser capaz de marcar estava praticamente morto. O melhor exemplo desse “defeito de fabricação” foi visto na Copa de 2010. Na África do Sul, a equipe comandada por Dunga (figura 5) trabalhava com dois volantes marcadores e uma linha de três homens voltada para o ataque (exceção feita ao dinâmico Elano).

Atualmente, esse é o maior dilema dos treinadores brasileiros. Sabem que a tendência mundial é que os volantes joguem, mas não tem matéria-prima para isso. Por anos desenvolvemos jogadores unidimensionais e agora a fatura chegou. Felizmente, ao que tudo indica, esse equívoco histórico já foi detectado. Todavia, solucioná-lo pode demandar algumas gerações.       

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas tido por muitos como aborrecedor ou difícil de ser assimilado. Todavia, sem o mínimo conhecimento desse aspecto, o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Alas, nosso maior dilema tático - Parte I
Sempre considerei os alas brasileiros verdadeiras aberrações táticas. Ninguém consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo e, para cobrir esses avanços, os técnicos precisam escalar mais zagueiros ou volantes para corrigir esse desequilíbrio tático. Ora, se alguém está em campo só para marcar e cobrir laterais, não seria bem mais inteligente ter mantido os laterais e os pontas tradicionais adaptados ao futebol atual? Com este pensamento, o “Taticamente Falando” aborda o surgimento dos nossos alas e por que essa função criou um dilema tático no futebol brasileiro...  
É bastante conhecida a história envolvendo o lendário Nilton Santos na partida contra a Áustria no Mundial de 1958. A Seleção Brasileira já vencia por 1 a 0 quando no começo do segundo tempo o lateral-esquerdo decidiu aproveitar o espaço no flanco canhoto para apoiar o ataque. “Volta, Nilton!” gritou do banco o técnico Vicente Feola. Mas o Enciclopédia não deu ouvidos e continuou a avançar. “Volta, Nilton” repetiu a ordem, novamente ignorada. Eis que Nilton chuta da entrada da área e marca o segundo gol brasileiro. “Boa, Nilton”, murmurou o treinador.

À época, as subidas dos laterais ao ataque eram incomuns, para não dizer, proibidas. Mesmo porque, em tese, um módulo 4-2-4 não precisava de apoio constante de jogadores que tinham como função básica a marcação do ponteiro adversário. No entanto, dentro do esquema brasileiro, as arrancadas do lateral botafoguense até  faziam sentido, afinal, havia a presença do voluntarioso Zagallo (figura 1) que sempre recuava para compor o meio-campo, dando estabilidade ao sistema defensivo. Mesmo assim, a subida de laterais ao ataque era tão rara que aquele foi apenas um dos três gols que Nilton marcou com a camisa amarela.
Doze anos depois, o panorama era diferente. Carlos Alberto Torres, lateral-direito e capitão da Seleção, tinha como uma de suas funções e chegada ao ataque aproveitando o corredor deixado pelas diagonais do atacante Jairzinho (figura 2). O melhor exemplo aconteceu na final contra a Itália, quando o capitão brasileiro aproveitou a marcação homem a homem do lateral-esquerdo Giacinto Facchetti sobre o camisa 7 para marcar o último gol brasileiro na vitória por 4 a 1. Enquanto isso, no outro extremo da defesa, Everaldo tinha ordens para guardar mais a posição, funcionando como lateral tradicional ou até mesmo um terceiro zagueiro.


A Copa de 1982 marcou o fim da utilização de dois pontas na Seleção Brasileira e a maior liberdade para os laterais. Na Espanha, Leandro e Júnior (figura 3) tinham liberdade para apoiar fazendo uso constante de ultrapassagens. No time concebido por Telê Santana, Éder fazia as funções de ponta-esquerda e segundo atacante, enquanto um acordo previa o revezamento entre Zico, Sócrates e outros no flanco direito. Na prática, o Galinho de Quintino era o que mais caía pelo setor, o que acabou provocando o descontentamento do craque. Naquela época, tornou-se célebre a frase do personagem Zé da Galera, criado por Jô Soares, que dizia “bota ponta, Telê!” um clamor que também partia de parte da torcida e imprensa. Nasciam ali, os futuros alas brasileiros com obrigações de atuar por toda extensão lateral do gramado, tanto na defesa quanto no ataque.
Na próxima coluna, abordarei os desdobramentos do surgimento dos alas e como isso prejudica até hoje a formação de jogadores brasileiros mais completos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas considerado por muitos, aborrecedor ou até mesmo difícil de ser assimilado, mas que sem o mínimo conhecimento desse aspecto o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Após três anos de ausência, a análise tática está de volta ao “Além das Quatro Linhas”. Uma pausa motivada muito mais pela inabilidade deste blogueiro para desenhar os sistemas do que por desinteresse pelo assunto. Neste espaço, pretendo abordar o tema sempre buscando explicar os termos mais utilizados no universo da tática contextualizando-os com acontecimentos atuais e históricos. Todavia, diferentemente do que fazem de maneira brilhante os amigos André Rocha, Eduardo Cecconi e os nobres integrantes de “A Prancheta”, aqui a ideia central é tratar das expressões usadas quando se fala em tática e não mostrar como determinadas equipes jogam atualmente.
O falso nove.
A expressão “falso nove” é relativamente nova do dialeto futebolês. Difícil precisar quando surgiu, mas ganhou força após o técnico do Barcelona, Pep Guardiola, deslocar o atacante Lionel Messi da ponta direita para o centro do ataque motivado pelo baixo rendimento do sueco Zlatan Ibrahimovic, centroavante que chegou com pompas, mas que terminou a temporada 2009/10 amargando o banco de reservas.
Nessa função, ainda desempenhada pelo craque argentino, a posição de centroavante (ou nove) é apenas o ponto de partida para os deslocamentos pelos lados do campo e recuo à intermediária para ajudar na armação das jogadas. Com isso, os zagueiros centrais adversários perdem a referência de marcação e enfrentam o dilema de sair da área à caça de Messi e ver Villa e Pedro entrando em diagonal às suas costas ou ficarem plantados esperando o camisa 10 vindo de trás com a bola dominada.

No entanto, antes de Messi, outro genial jogador já colocava o “falso nove” em prática em gramados italianos. Sob o comando do técnico Luciano Spalletti, Francesco Totti era o “falso 9” de uma Roma que se alinhava num 4-2-3-1. Como o jogador mais adiantado dos Giallorossi, Totti tinha total liberdade para se movimentar pelo ataque e voltar para armar. Não é exagero dizer que o ídolo romanista era o dono do time e via seus companheiros jogando em função de seu talento. Porém, em certos momentos, ter uma equipe inteira em órbita de um único atleta era muito mais problema do que solução.

Os dois exemplos acima citados não são protagonizados por dois jogadores muito acima da média por mero acaso. Fazer bem as funções de “arco” e “flecha” é tarefa para poucos. Talvez por isso, o “nove clássico” ainda seja tão popular no mundo da bola.