domingo, 21 de setembro de 2014

A Seleção não tem culpa

Na última quarta-feira, Dunga, técnico da Seleção Brasileira, divulgou a lista contendo os 22 convocados para os amistosos diante de Argentina, 11 de outubro em Pequim, e Japão, dia 14 em Cingapura. Como se esperava, a presença de nomes que atuam no Brasil provocou revolta nos torcedores dos times que irão ceder jogadores aos seus respectivos selecionados. Contando com a apresentação, as ausências serão sentidas na 27ª e 28ª rodadas do Brasileirão. Desfalques que, em alguns casos, podem fazer a diferença.
Embora a reação automática dos torcedores seja reclamar da comissão técnica da Seleção e da CBF, é preciso saber que a questão é mais profunda do que parece. Desde os anos 1990, a FIFA instituiu datas específicas para jogos de seleções dentro de um calendário previamente definido. Todas as federações nacionais têm conhecimento do mesmo e se planejam para que esses períodos não coincidam com a temporada regular dos clubes. Ou melhor, quase todas.
Graças à ligação entre CBF e federações estaduais, simplesmente não há datas suficientes para a instituição de um calendário decente no Brasil sem que interesses sejam atingidos. A CBF não quer desagradar seus membros que, por sua vez, só existem porque alimentam a própria entidade. Por sua vez, os clubes são subservientes tanto às suas federações quanto à cúpula ora dirigida por José Maria Marin. Sendo assim, na maioria das vezes, a reclamação se restringe a técnicos, jornalistas e torcedores. Qualquer outro barulho não passa de pirotecnia.
Não resta dúvida de que os atletas não se incomodam com o chamado. Eles têm absoluta ciência do quão benéfico para suas carreiras é a chancela da Seleção. Mesmo que desfalquem suas agremiações, as ambições pessoais estão sempre à frente. Em todo o caso, Dunga já deixou aberta a possibilidade do envio de uma carta solicitando a dispensa de algum convocado. Obviamente, tais missivas nunca serão enviadas. Dirigentes e jogadores sabem que esse não é o caminho.
Curiosamente, a nova lista traz um raro nome que um dia recusou a Seleção. Em 2011, quando ainda defendia o Grêmio, Mario Fernandes protagonizou um estranho episódio de recusa de convocação. À época, o atual lateral-direito do CSKA, declarou problemas particulares e não se apresentou para o amistoso contra a Argentina em Belém. Justamente o primeiro adversário na turnê pela Ásia. Como disse o técnico Dunga, todos merecem uma segunda chance. Mas nunca é bom arriscar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: André Brant/Hoje em Dia

domingo, 14 de setembro de 2014

Deixem o homem trabalhar

Quando o posto de técnico da Seleção Brasileira ficou vago, quase ninguém pensou no retorno de Dunga. Apesar da hipótese de um nome estrangeiro ter sido admitida pela CBF, todas as direções apontavam para a escolha de Tite, o mais vitorioso e atualizado profissional brasileiro dos últimos tempos. Todas menos uma: a política. Segundo a cúpula da entidade, o ex-comandante do Corinthians era figura ligada ao desafeto Andrés Sanchez e, portanto, carta fora do baralho.
Não há dúvida que a volta de Dunga não atendeu os anseios da torcida brasileira. Depois do que houve na última Copa do Mundo, esperava-se uma mudança de rumo na condução da Seleção. Apesar do time dirigido no ciclo 2006/2010 ter sido competitivo, o ex-volante sempre o organizou visando o contra-ataque. Nunca houve uma demonstração de busca por um futebol protagonista. Na visão do capitão do Tetra, só a vitória interessava e o resto não passava de perfumaria.
E parte dessa mentalidade se mantém. Como é de sua natureza, Dunga é obcecado por vencer. Como disse Neymar, é o tipo de pessoa que “não gosta de perder nem cara ou coroa” e isso se reflete em suas equipes. No entanto, algumas mudanças em relação ao trabalho anterior já foram notadas. Diferente de sua primeira passagem e do que era visto com Felipão, esta Seleção tem um apreço maior pela troca de passes e pela posse, sem falar na ausência de um centroavante clássico. Os lançamentos longos desde os zagueiros foram repreendidos e a bola também não é alçada das laterais do campo de qualquer maneira. Por outro lado, a recomposição defensiva segue a mesma linha que um dia arrancou elogios de Fabio Capello.
Logicamente, é muito cedo para dizer que este novo trabalho dará certo. Do mesmo modo, também não é possível falar em fracasso antecipado. Durante o caso que resultou no desligamento de Maicon muitos se anteciparam para dizer que o técnico errou na condução do episódio. Alguns dizendo que o motivo da dispensa deveria ser divulgado, outros afirmando que o melhor era manter o lateral no grupo e só depois não convocá-lo mais. Curiosamente, o próprio jogador agradeceu a maneira como tudo foi conduzido. E ninguém melhor do que ele para saber o tamanho do seu ato de indisciplina. No fim, acabou ficando a impressão de que o julgamento à distância não foi o mais correto. Do mesmo modo que falar em sucesso ou fracasso de Dunga baseando apenas pelo gosto pessoal não parece a maneira mais justa e inteligente.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: AFP

domingo, 7 de setembro de 2014

Primeiros passos

Como reza o manual dos treinadores precavidos, Dunga fez questão de dar o favoritismo do amistoso entre Brasil e Colômbia aos rivais. Sem dúvida, o técnico tinha conhecimento da força do elenco comandado há dois anos pelo argentino José Pékerman, mas também havia a percepção de que não se coloca pressão sobre um grupo recém-formado, ainda mais quando boa parte deste acaba de emergir do pior momento da história do selecionado nacional. Contudo, Dunga sabia que poderia vencer a partida e trabalhou para isso.
Durante a última semana, noticiou-se que os treinos da Seleção estavam mais longos e intensos do que se via com Luiz Felipe Scolari. As atividades duram agora mais de duas horas e foram sempre com bola. Perguntados sobre a diferença entre os dois técnicos, alguns jogadores, com os rodeios de praxe, disseram que o novo técnico é mais detalhista que seu antecessor. O espírito aguerrido e vencedor do capitão do Tetra também foi mencionado. Restava saber como o curto período de treinos se refletiria em campo.
Previamente, a lista de convocados indicava um time montado para o presente. Nomes como Maicon – cortado por indisciplina neste domingo – Filipe Luís, Ramires, Elias e Diego Tardelli dão a certeza de que as vitórias precisam voltar a fazer parte do dicionário canarinho. Ao contrário do que ocorreu na reformulação total promovida por Mano Menezes há quatro anos, com Dunga as alterações devem se dar de maneira gradual. Embora seja muito cedo para análises mais profundas, vimos uma Seleção Brasileira preocupada em fechar os espaços, marcar forte e contra-atacar rápido. A mesma fórmula que o técnico usou durante sua primeira passagem.
Taticamente, duas mudanças se fizeram notar. A primeira, bastante auspiciosa, mostra que o maior dilema da Era Felipão pode ser solucionado com treinamento e posicionamento. A transição defensiva, antes marcada pela inoperância dos volantes e por lançamentos longos que normalmente devolvia a posse ao adversário foi substituída, por orientação de Dunga, por uma saída de pé em pé com participação dos dois volantes e laterais bem abertos (abaixo).

A segunda, que pode se tornar usual neste ciclo, foi a ausência de um centroavante fixo. Como é sua característica, Diego Tardelli movimentou-se bastante, buscou jogo e aliviou Neymar da tarefa de recuar para marcar. Na prática, o leve quarteto ofensivo não deixou referência para os zagueiros rivais, porém, era constante a presença de alguém para concluir as jogadas. Uma solução interessante para a falta de um finalizador nato.
Autor do gol da vitória, seu 36º em 55 jogos, Neymar continua sendo a principal referência da equipe. Movimentando-se por todo o campo de ataque, o camisa 10 teve liberdade para carregar a bola e tentar jogadas individuais. Por exercer a chamada “liderança técnica”, recebeu a missão de ser o mais novo capitão da história da Seleção. Uma demonstração de perda confiança em Thiago Silva, devido ao descontrole emocional mostrado durante o Mundial, e em David Luiz, pelos rompantes ofensivos. Por outro lado, fica evidente que o protagonismo de Neymar continua em alta. Resta saber como será o time que lhe dará suporte.   
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagens: Bruno Domingos/Mowa Press e Sportv

domingo, 31 de agosto de 2014

As aventuras de David Luiz

A declaração de José Mourinho foi sintomática: “David Luiz fez coisas importantes aqui, foi sempre um bom profissional. Vamos sentir sua falta como um cara legal. Mas, do ponto de vista do futebol, acredito que nossa equipe é mais forte nesta temporada do que era.” E completou: “Na última temporada, ele não foi nossa primeira opção regularmente. Como zagueiro, definitivamente, foram John Terry e Gary Cahill na temporada inteira. No meio de campo, ele tem presença física e nos proporcionou coisas importantes, especialmente na Champions, quando Matic não pôde jogar. Mas agora Matic pode jogar a Champions, então, não perdemos tanto fisicamente”, concluiu.
Quem acompanhou a temporada passada do Chelsea, sabe que o técnico não está mentindo. Com Mourinho, o zagueiro brasileiro não era a primeira opção e sua saída estava delineada antes mesmo da Copa do Mundo. Conhecido pelo sólido padrão tático que oferece às equipes que comanda, o português dificilmente seria adepto de um defensor que se lança ao ataque sem muita preocupação com a retaguarda, mesmo que fosse tecnicamente superior aos seus titulares. Crítico feroz da nova contração do Paris Saint-Germain, o ex-lateral Gary Neville costumava defini-lo como “um jogador de Playstation controlado por um garoto de 10 anos.”
Jornalista radicado no Brasil, o inglês Tim Vickery, embora mais comedido do que Neville, também faz coro às críticas do compatriota ao reconhecer as qualidades de David Luiz, mas lembrar que ele está sempre “em busca da glória 30 metros à frente”. Tim foi um dos poucos a perceber que o zagueiro descumpriu suas obrigações defensivas durante a Copa do Mundo: “Ele não estava jogando para o time, estava jogando para a galera”, explicou. Embora o carisma e o estilo aguerrido tenham feito sucesso com a torcida, as atuações contra Alemanha e Holanda ultrapassaram com folga o limite da irresponsabilidade.
Contratado pelo PSG como o zagueiro mais caro da história (cerca de € 49,5 milhões), David Luiz tem um horizonte favorável pela frente. Vai atuar ao lado de Thiago Silva, seu parceiro na Seleção Brasileira, e será chefiado por Laurent Blanc, um dos maiores defensores que o futebol francês já produziu. Do amigo, poderá ouvir os sábios conselhos oferecidos por Alessandro Nesta nos tempos de Milan. Com o técnico, líbero dos bons, pode adquirir o timing certo para apoiar o ataque. Sem dúvida, um panorama bem mais interessante do que aquele que vivia em Londres.
Nome confirmado na primeira convocação de Dunga, David tem agora uma grande oportunidade de se redimir. Avesso a fanfarronices, o novo treinador da Seleção Brasileira certamente está atento ao que ocorreu no Mundial. Para muitos, os recados deixados nas entrelinhas durantes as coletivas estavam direcionados ao o zagueiro e não a Neymar, como se pensou. Sem a presença do lesionado Thiago nos amistosos diante de Colômbia e Equador, é provável que a faixa de capitão retorne ao braço de David. Caso isso se confirme, seria um voto de confiança do comandante. E, pelo que se conhece do exigente ex-volante, é bom ele não decepcionar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Dean Mouhtaropoulos/Getty Images

domingo, 24 de agosto de 2014

O rei do deserto


Após a conquista da Euro 2008, o lendário Luis Aragonés assumiu o Fenerbahçe naquele que seria seu último trabalho como técnico. Na equipe turca, uma das primeiras alterações táticas promovidas pelo experiente treinador foi recuar o meia-atacante Alex para ser o armador do time. Acostumado a atuar próximo à meta adversária, o brasileiro, a princípio, estranhou a medida, mas logo ouviu do treinador que a ideia era qualificar o passe no meio-campo do Fener. Era o mesmo princípio usado na Seleção Espanhola sendo aplicado em seu novo clube.

A partir daquele momento, Alex se tornou o armador do Fenerbahçe assim como Xavi era na Roja. Uma função tão bem representada por nomes do calibre de Stefan Effenberg, Steven Gerrard e Frank Lampard e consolidada nos pés de Luka Modric, Toni Kroos e Thiago Alcântara, mas que encontrou sua quase extinção no Brasil. Logo no país que um dia aplaudiu a classe de Didi, Gérson e Paulo Roberto Falcão. Hoje, dividimos o meio-campo entre jogadores que marcam e os que atacam. No meio, abriu-se uma cratera. Não por acaso, vivemos uma das maiores crises criativas de nossa história futebolística.

Taticamente, a explicação não é das mais complexas. Nos anos 1980, nossos antigos ponteiros perderam espaço para a inclusão de mais um meio-campista defensivo. Consequentemente, os alas passaram a atuar por, praticamente, toda a faixa lateral do gramado. Escrevo “praticamente”, porque suas subidas precisavam de uma cobertura que só dois volantes poderiam realizar. Desse modo, nasceu o chamado 4-2-2-2 que ainda serve como base para equivocadas ilustrações táticas na televisão e para premiações como a Bola de Prata da revista Placar.

Tempos depois, uma decisão que parecia acertada há 30 anos, tornou-se o grande dilema do futebol brasileiro. Com a compactação dos times, ora uma regra mundial, o que antes era uma zona de destruição passou a ser o centro das equipes. Isso significa que o jogo passou a ser gerado a partir dos volantes e estes precisam agir de forma intensa com e sem a bola. O crônico problema na transição defensiva e na proposição da Seleção Brasileira nos últimos anos é resultado direto desse ultrapassado conceito. Sem jogadores capazes de organizar de trás e sem, aparentemente, haver treinamentos voltados para sanar essa deficiência, a solução encontrada foi a mais pobre possível: Lançamentos diretos desde os zagueiros. Não por acaso, raros foram os lances que obtiveram êxito na Copa.
Num primeiro momento, a convocação realizada pelo técnico Dunga na última terça-feira segue o antigo modelo. Dos quatro volantes chamados, somente Fernandinho se aproxima da figura de um armador. Apesar de ter um passe correto, Luiz Gustavo é, basicamente, um marcador. Ramires é um condutor de bola e Elias pode ser descrito como um volante de infiltração. Na prática, a organização seria realizada por Oscar e Philippe Coutinho, se este jogar. Contudo, ambos atuam, prioritariamente, como meia-atacantes, oferecendo o último passe. Não são construtores de fato. No Chelsea e no Liverpool, os principais armadores são Fábregas e Gerrard, respectivamente.

Entre todos os jogadores brasileiros nenhum se encaixa melhor na definição de armador do que Paulo Henrique Ganso. Dotado de uma visão de jogo incomum e técnica refinada, o meia do São Paulo consegue ditar o ritmo e descobrir companheiros onde ninguém mais enxerga. Impregnado com a noção de que meias devem se aproximar mais do gol, Muricy Ramalho costuma dizer em entrevistas que seu comandado deve entrar mais vezes na área. Talvez não tenha percebido que o habitat de Ganso é justamente o meio-campo. Para ele, finalizar em área deveria ser muito mais uma situação dentro de determinados lances do que uma obrigação frequente. Suas maiores qualidades sempre se mostraram mais úteis no meio-campo, construindo jogadas.

Em seu início de carreira, Andrea Pirlo foi um meia-atacante apenas razoável. Não tinha velocidade e habilidade para se livrar dos marcadores, embora tivesse muita técnica. Um dia, sem poder contar com o lesionado Fernando Redondo, Carlo Ancelotti perguntou se Pirlo não gostaria de fazer um teste na função. E o mundo conheceu um dos maiores registas da história. Todavia, como bem define o jornalista André Rocha, o conceito de meio-campista ainda não chegou ao Brasil. Muitos que não veem a hipótese de Ganso atuar mais recuado possivelmente não sabem que o meia foi o líder de desarmes do Tricolor por um bom tempo. A contribuição defensiva existe, o que não existe é a compreensão de que estamos desperdiçando um potencial craque tentado transformá-lo em algo que ele não é. Enquanto esse entendimento não acontece, continuamos a ver um deserto de ideias no círculo central.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Alexandre Battibugli/Placar

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Pistas de um novo caminho

Nesta terça-feira, o técnico da Seleção Brasileira, Dunga, realizou sua primeira convocação visando os amistosos diante da Colômbia, dia 5 de setembro em Miami, e Equador, 9 de setembro em Nova Jérsei. Entre os 22 chamados, apenas 10 que disputaram a Copa de 2014. Uma prova de que mesmo dentro de um discurso de mudança gradual, alguns nomes provavelmente serão suprimidos deste novo ciclo.
Como era esperado, veteranos como Júlio César (34), Maxwell (32) e Fred (30) não foram ser chamados. A idade também seria ser um complicador para Daniel Alves (31) e Dante (30). Por outro lado, a ausência de Marcelo pode estar ligada a antigos problemas disciplinares com Dunga, algo que significaria um equívoco, uma vez que se pressupõe um momento de reinício.
Paralelamente, segundo palavras do treinador, as portas não estão fechadas para quem disputou o Mundial. Com isso, nomes como o goleiro Victor, o volante Paulinho e os meias Hernanes e Bernard poderão reaparecer em futuras listas, desde que façam por merecer em seus clubes. Por outro lado, figuras mais questionadas como Henrique e Jô dificilmente retornarão. Atualmente lesionado, Thiago Silva é presença certa para a sequência do trabalho.
Observando mais de perto a convocação, alguns detalhes chamam a atenção. Primeiro, a ausência de centroavantes de ofício. Com o baixo desempenho de Fred e Jô e sem nenhum jogador brasileiro de estilo pivô se destacando, nada mais normal do que apostar em atacantes de mobilidade na frente. Existe então a possibilidade real de vermos Neymar novamente atuando como o homem mais avançado da Seleção, tendo liberdade de movimentação, assim como ocorria com Mano Menezes. Na verdade, uma tendência que finalmente poderemos ter no Brasil.
Outro ponto, este pouco auspicioso, é a falta armadores natos entre os meio-campistas presentes na convocação. Ganso, reencontrando sua melhor forma no São Paulo, segue esquecido. Em vez disso, temos a velha fórmula do cabeça de área ao lado do volante de infiltração, atrás de meias que são mais carregadores de bola do que construtores. Quem sabe, o fato de ter sido um volante de boa saída de bola possa fazer com que Dunga corrija a crônica deficiência de transição que tanto afligiu o período que o antecedeu. A conferir...
Confira a lista completa a seguir:
Goleiros: Jefferson (Botafogo) e Rafael Cabral (Napoli);
Laterais: Alex Sandro (Porto), Danilo (Porto), Filipe Luís (Chelsea), e Maicon (Roma);
Zagueiros: David Luiz (PSG), Gil (Corinthians), Marquinhos (PSG), e Miranda (Atlético de Madrid);
Volantes: Elias (Corinthians), Fernandinho (Manchester City), Luis Gustavo (Wolfsburg) e Ramires (Chelsea);
Meias: Éverton Ribeiro (Cruzeiro), Oscar (Chelsea),  Philippe Coutinho (Liverpool), Ricardo Goulart (Cruzeiro) e Willian (Chelsea);
Atacantes: Neymar (Barcelona), Diego Tardelli (Atlético Mineiro) e Hulk (Zenit).
E você, gostou da convocação? Comente!
Coluna escrita originalmente para o site Doentespor Futebol.
Imagem: Tarcisio Badaró/Globo Esporte

domingo, 10 de agosto de 2014

Brasil em duas frentes

O saudoso Millôr Fernandes costumava dizer que imprensa é oposição e que o resto é armazém de secos e molhados. Particularmente, costumava preferir a versão de que a imprensa deveria ser imparcial e isenta, mas os anos me ensinaram que isso não passa de utopia. Em cada análise sempre há uma opinião implícita e um julgamento de valor que muitas vezes não é o mais correto. No caso do nosso jornalismo esportivo, a posição está clara: A CBF está errada até quando acerta. Não que isso seja comum, obviamente.

Um desses raros acertos é o anúncio de uma Seleção Brasileira Olímpica que caminhe paralelamente à principal. O plano arquitetado por Alexandre Gallo e Dunga, os respectivos técnicos, e o coordenador Gilmar Rinaldi é que 46 jogadores sejam chamados a cada convocação. Serão duas equipes com objetivos diferentes. A primeira, composta por atletas com idade olímpica, será comandada por Gallo e terá como meta preparar o grupo que disputará os Jogos do Rio de Janeiro em 2016. Um time que fará uso das mesmas datas FIFA e mandará suas partidas, prioritariamente, nos estádios utilizados na Copa do Mundo. A segunda, treinada por Dunga, cumprirá o ciclo até 2018.


Responsável pela base da Seleção desde 2013, Gallo foi o único “sobrevivente” da hecatombe que atingiu a comissão técnica. Durante o Mundial, assumiu o papel de observador de Luiz Felipe Scolari, mas não foi incluído na lista de dispensas da CBF. Com dois títulos do Torneio de Toulon no currículo, ouve de seus críticos que sua filosofia privilegia a participação de jovens altos e fortes, preferencialmente mais velhos, em detrimento dos mais talentosos. Um erro, uma vez que o primeiro objetivo das categorias menores sempre será revelar jogadores de qualidade.

Discussões à parte, caberá ao treinador a exclusiva montagem de um selecionado voltado para os Jogos tendo datas e estrutura para isso. Algo inédito em se tratando de Seleção Brasileira. Desde os Jogos de Los Angeles em 1984, nossos elencos olímpicos são montados no apagar das luzes, no máximo com a convocação alguns nomes para a composição do grupo principal. Inseridos num contexto distinto, os garotos não moldam um time, apenas passam a fazer parte de um ambiente estelar que, em alguns casos, nem corresponde à realidade.     

Ouro em Londres, o México foi fartamente elogiado justamente por essa estratégia executada pelo técnico Luis Fernando Tena. Chegou a hora de o Brasil ter um planejamento semelhante. Mesmo que a razão seja o fato do torneio acontecer em nosso território, a iniciativa não deixa de ser louvável. Frequentemente, estamos dispostos a criticar a CBF. Talvez seja este o momento de elogiar sem, necessariamente, sermos tachados de armazém de secos e molhados.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Claude Paris/AP

sábado, 9 de agosto de 2014

Por linhas tortas

Quem acompanha a luta diária pela audiência na televisão aberta brasileira provavelmente leu alguma coisa a respeito da queda dos números da TV Globo. Ano após ano, as principais atrações da maior emissora do país veem seus índices despencarem vertiginosamente. Novelas, reality shows, séries e outros programas perderam pontos para outras mídias ou, em alguns casos, para a concorrência. Quando uma paixão nacional como o automobilismo começa a ser vista atrás de um desenho animado repetido à exaustão é sinal de que algo não vai bem. No caso da Fórmula 1, a principal razão provavelmente é a longa ausência de um piloto brasileiro capaz de ser competitivo na categoria. Mas qual será a razão para a queda de audiência do futebol?
Automaticamente, há quem diga que a explicação está na má qualidade dos jogos. Acabamos de sair de uma Copa do Mundo aonde vimos estádios lotados, com público animado, grandes craques e emocionantes partidas. No retorno do Campeonato Brasileiro, o choque de realidade: Arenas bem menos cheias, jogos com pouca qualidade técnica e coletiva e uma quantidade assombrosa de faltas sendo marcadas a cada cotejo. Todavia, se a explicação está na qualidade, a queda deveria ter se dado há muito mais tempo, pois o êxodo dos melhores atletas e as discussões sobre atraso tático tiveram início há, pelo menos, duas décadas, enquanto os públicos médios foram relativamente baixos em quase toda a história dos nossos campeonatos.
A conclusão inicial, aparentemente precipitada, se deve ao fato de que desde o Mundial paira uma ânsia de mudarmos nossos torneios. Um sentimento de inconformismo diante da possibilidade de termos um campeonato nacional muito mais forte do que atualmente é. O resgate de um futebol que nos identifica e que foi deixado para trás em algum momento. No entanto, é preciso ter em mente que tais mudanças não se darão do dia para a noite e não dependem exclusivamente da decisão dos treinadores montarem equipes ofensivas. Trata-se de um processo relativamente lento que precisa ter o respaldo de diversos setores (imprensa esportiva, inclusive) para funcionar. Não fomentar a prática demissionária dos clubes é um bom começo. Normalmente, os melhores trabalhos são os duradouros.
Nesse contexto, a simples hipótese de termos a fórmula do Brasileirão alterada para o velho mata-mata já é um retrocesso. Por um calendário racional entende-se que todos os times devem ter uma temporada repleta de atividades e ter apenas dois chegando ao fim do ano é destruir o planejamento das agremiações e gerar desconfiança nos patrocinadores. Noutras palavras, é um tiro no pé. Algo assim só interessa a quem só tem compromisso com seus índices de audiência. Por ser o maior cliente, é justo e saudável que a Globo cobre um produto de maior qualidade. Porém, qualquer tipo de ingerência que se sobreponha à necessidade dos clubes não contribui em nada com o objetivo de termos um futebol brasileiro melhor, algo que todos desejamos.

Imagem: Veja

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

7 x 1 eterno


Ele está em toda parte. Nas ruas, no trabalho, na fila do banco, na padaria. Durante qualquer assunto mais prolongado, alguém toca no tema. Não adianta. Anos, décadas irão se passar e os 7 x 1 sofridos para a Alemanha serão como uma ferida aberta na alma do torcedor brasileiro. Contudo, no que tange o comando do futebol nacional e a imprensa esportiva, mais importante do que relembrar o massacre de 8 de julho é ter a percepção do que aconteceu naquela tarde em Belo Horizonte.

A CBF agiu rápido. Ao que tudo indica, sua cúpula entendeu que o único problema estava em Luiz Felipe Scolari e demais profissionais. Ao demitir o treinador e anunciar Dunga como seu substituto pouco tempo depois, Marin deu mostras de que a Seleção Brasileira não carece de grandes reparos. Basta nomear alguém capaz de manter a ordem e controlar as vaidades que tudo se resolve. Mexer na estrutura local, nem pensar. Afinal, foi exatamente ela que o colocou ali.

Por sua vez, grande parte da imprensa esportiva preferiu voltar seus canhões para o futebol brasileiro. A goleada alemã foi explicada de diversas formas, como a qualidade do jogo aqui praticado, o baixo público nos estádios, até chegar a uma suposta defasagem de nossos técnicos. Do jogo em si, da apresentação dos jogadores, da formação do grupo que disputou o Mundial, falou-se pouco ou menos do que deveriam. Era como se as justas reivindicações do dia a dia tivessem encontrado o terreno fértil de que se buscava. E que, portanto, não deveríamos perder tempo analisando a equipe quando uma grande oportunidade de mudança se faz presente.

Impossível aceitar integralmente as duas posturas. A primeira, obviamente, pela ausência de qualquer projeto esportivo. A ideia de promover um seminário ou algo parecido para se rediscutir os rumos do futebol brasileiro, incluindo a Seleção, provavelmente nunca foi discutida. Desse modo, não há a adoção de uma filosofia, mas de um escudo contra críticas. No máximo, oferecem apoio logístico e não economizam com instalações. Todo o resto é por conta da comissão técnica. Foi assim com Felipão e assim será com Dunga.
No que se refere ao time canarinho, é preciso observar que sua ligação com o que acontece no Brasil é bem menos estreita do que os analistas afirmam. A maior parcela dos convocados atua com destaque nas maiores equipes da Europa sob as ordens dos principais técnicos. Em entrevista concedida à ESPN há alguns meses, Jürgen Klinsmann, treinador dos Estados Unidos, disse que o que falta ao seu selecionado é justamente o que os brasileiros têm de sobra: Experiência e relevância nas maiores ligas. Sem isso, o alemão acredita ser difícil competir no mais alto nível.

A nova missão do capitão 1994 no ciclo que se inicia está muito mais atrelada ao desempenho dos principais atletas brasileiros espalhados pelo mundo – e isso também inclui avaliar nomes da Série A – do que ao desenvolvimento do futebol praticado no Brasil. Ambas são questões importantes, porém distintas. Essa jornada se assemelha muito mais a de Alejandro Sabella na Argentina do que a de Joachim Löw na campeã mundial. Assim como Sabella, Dunga precisa reunir jogadores que militam nos mais diferentes campeonatos e transformá-los num time. Löw, ao contrário, pode se concentrar mais na Bundesliga e monitorar um grupo mais restrito fora da Alemanha.

Logicamente, não se trata de desconsiderar as mudanças fundamentais pelas quais o futebol nacional deverá passar caso pretenda atingir um maior grau de desenvolvimento. Os 7 x 1 não revelaram atraso nenhum, pois, para quem queria enxergar, ele estava lá há uns bons anos. Para recuperá-los, faz-se primordial um plano de reestruturação que, provavelmente, nossos atuais dirigentes são incapazes de organizar. Por outro lado, Dunga, de volta à condição de técnico da Seleção, tem obrigações de curto prazo que independem dos passos de cágado da cartolagem. Esquecer a vexatória campanha no Mundial ninguém vai. Todavia, poucos remédios surtirão melhor efeito do que vermos uma Seleção Brasileira competitiva novamente.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

domingo, 27 de julho de 2014

Um novo ciclo


Ao contrário do que ocorreu com Mano Menezes em seu início de trabalho na Seleção Brasileira em 2010, quando partiu quase do zero, os convocados por Luiz Felipe Scolari para o Mundial de 2014 devem formar a base da equipe que tentará recuperar o prestígio perdido no ciclo que se encerra na Copa do Mundo de 2018. À sua disposição, o técnico Dunga terá ao final de quatro anos um grupo que estará num estágio mais amadurecido do que foi visto recentemente em território brasileiro. Obviamente, se o ex-capitão chegar até lá.

Nos últimos dias ficou ainda mais evidente que Dunga não conta com a aprovação da imprensa esportiva. Não pelos fatos expostos de sua vida, que têm moderada relevância, mas pela maneira como estão lidando com eles, a ponto de haver sugestão paraque o treinador renuncie antes mesmo de estrear. Nesse cenário, está claro que apenas uma sequência de bons resultados e, sobretudo, bom futebol vai proteger o técnico das críticas que vão acompanhá-lo até o fim de seu contrato. Por tanto, é possível que tenhamos força máxima desde o início e não uma estrutura de transição.

Da equipe titular comandada por Felipão, nomes como Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Luiz Gustavo, Paulinho, Oscar, Hulk e Neymar provavelmente seguirão formando a espinha dorsal do novo time. Além deles, os goleiros Victor e Jefferson e os meia-atacantes Willian e Bernard têm condições de fazer parte do projeto. No entanto, veteranos como Júlio César, Daniel Alves, Maicon, Maxwell e Fred deverão ter suas vagas cedidas aos jovens que estão surgindo. Por sua vez, Dante, Fernandinho, Ramires e Hernanes, pela faixa etária, precisarão continuar correspondendo em seus clubes, enquanto Henrique e Jô, que só foram chamados por contarem com a confiança do ex-técnico brasileiro, dificilmente serão lembrados novamente.

Entre retornos e novidades, os arqueiros Cássio, Diego Alves e Marcelo Grohe saem na frente por oportunidades. Os jovens Rafael Cabral, Neto e Gabriel são outros que podem aparecer em breve nas listas de convocações. Para o centro da defesa, Miranda e Dedé surgem com evidência, mas Marquinhos e Rodrigo Caio, ambos com 20 anos, e o botafoguense Dória, 19, têm a idade e o sonho olímpico a favor.

Na lateral direita, talvez resida a posição com maior margem para experimentações. Com as possíveis aposentadorias de Daniel Alves e Maicon da camisa amarela. Marcos Rocha, Danilo e Mário Fernandes, este também na mira da Seleção Russa, despontam como favoritos. Rafael da Silva, outro lateral frequentemente lembrado, tem contra si a irregularidade que marca sua trajetória no Manchester United. No lado oposto, Filipe Luís, Alex Sandro e Alex Telles são opções interessantes para a disputa com Marcelo.

Muito contestado durante a Copa do Mundo, o meio-campo da Seleção requer cuidados. Dunga não foi um volante brilhante, mas sabe que o coração do jogo reside ali. O técnico dificilmente abrirá mão de um volante marcador, o que implica que Luiz Gustavo possivelmente seguirá no time. Todavia, isso não significa que deixará o setor esvaziado de talento. Durante sua primeira passagem, fazia uso de um 4-3-1-2 que se convertia num 4-2-3-1 com Elano abrindo pela direita e Robinho pela esquerda. Nas duas formações, preocupação com o preenchimento do meio campo. Deste modo, volantes mais técnicos como Rômulo, Souza (São Paulo) e Lucas Silva adquirem boas perspectivas. Mais à frente, Ganso volta à pauta, assim como Lucas Moura, Philippe Coutinho e Roberto Firmino, quase desconhecido no País, mas de grande destaque no Hoffenheim e cobiçado por gigantes europeus.

No ataque, a carência de centroavantes pode fazer com que Neymar atue como o jogador mais adiantado da equipe, função já testada por Mano Menezes. Não como “falso 9”, mas como um atacante móvel. Por sua entrega e participação sem bola, Hulk deve continuar, porém, precisa mostrar o poder de decisão que o destacou no Porto. Outros avançados que podem surgir futuramente são Luiz Adriano do Shakhtar Donetsk e a joia santista Gabriel. Como se nota, talento não falta. A maior parte desses atletas atua em altíssimo nível na Europa e o grande desafio é transformá-los numa equipe competitiva. Dentro de seu estilo, Dunga é capaz de cumprir essa missão. Resta saber se terá tempo para isso.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: AP

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Paz armada

Há duas décadas, o capitão da Seleção Brasileira erguia o troféu de campeão do mundo aos gritos de “Essa é pra vocês, seus traíras! É nossa essa porra!”, no que se tornou o maior desabafo de uma figura ligada ao futebol em toda a história desse esporte. Naquele momento, Dunga exorcizou as críticas – boa parte imerecidas – que recebera por conta da derrota em 1990 e durante a campanha que culminou no tetracampeonato nos EUA. É verdade que o gesto foi deselegante e em nada combinou com a postura ideal de um desportista, mas só o jogador sabia o que havia passado. A partir dali, ficou evidente que sua relação com a imprensa nunca seria saudável. E assim foi pelo restante de sua carreira de atleta e durante sua passagem como técnico do Brasil entre 2006 e 2010.
De volta ao posto que deixou há quatro anos, Dunga fez mea-culpa em sua primeira entrevista coletiva e disse que deseja melhorar seu trato com os órgãos de imprensa. A julgar pela forma um pouco ríspida que usou para responder determinadas perguntas, imagina-se que a tarefa não será das mais fáceis para ele. Por natureza, o técnico tem um gênio forte, “turrão” para pegar um termo usado pelo próprio. E a maneira como provavelmente armará a equipe brasileira deve lhe render críticas que dificilmente serão digeridas de forma tranquila. Ainda mais quando a opinião geral aponta para o resgate de um futebol protagonista.  Como ele reagirá a isso ainda é uma incógnita, mas chegou a hora de voltarmos o olhar para o outro lado da questão.
Dunga é só uma parte dessa equação. Seria um equívoco dizer que ele esbraveja em direção a fantasmas sem rosto. Suas respostas normalmente têm endereço e quase sempre são uma forma reação a comentários que ultrapassam a barreira da imparcialidade. Logo após o término da citada coletiva, o jornalista Paulo Vinícius Coelho escreveu que o trabalho de Dunga deveria ser observado de forma neutra e justa. Nada mais correto. Um novo ciclo se inicia e a análise precisa ser feita a partir do amistoso contra a Colômbia no dia 5 de setembro em Miami.
Lamentavelmente, não deve ser assim. A notícia de seu retorno caiu como uma bomba na imprensa esportiva e os efeitos foram sentidos de imediato. Seu nome foi rejeitado de forma quase unânime. A partir daí, uma caminhada que nem começou já foi alvo de todo tipo de ataque. Entre tantos, um chamou mais a atenção. Durante o programa Linha de Passe (ESPN Brasil) exibido na última segunda-feira, o comentarista José Trajano se declarou inimigo de Dunga. Sim, inimigo, como se houvesse uma guerra a ser travada. Em seu discurso inicial, o técnico se mostrou interessado em melhorar sua relação com a mídia, mesmo que suas armas verbais estejam por perto. Pelo visto, talvez tenha que usá-las bem antes do que imagina.
Imagem: Vanderlei Almeida/AFP

sábado, 19 de julho de 2014

Brasil no divã


Como não poderia deixar de ser, os dez gols sofridos pela Seleção diante de Alemanha e Holanda tiveram um efeito devastador sobre a opinião pública. Rediscutir toda a escola brasileira tornou-se pauta obrigatória na imprensa esportiva. Naquele momento, não era apenas o escrete canarinho que parecia estar em questão. Das categorias de base, passando pelo tipo de futebol que se joga no país, pela maneira como nossos atletas se desenvolvem no exterior, até chegar à defasagem dos técnicos nacionais, tudo o que foi construído ao longo do tempo deveria ser colocado à mesa.

De certa maneira, era como se as pessoas que se importam com esse esporte tivessem feito uma terapia de regressão para compreender o que deu errado no caminho até o massacre de 8 de julho. Era uma volta ao passado, uma tentativa de reencontrar as raízes perdidas de nossa cultura futebolística. Inevitavelmente, a busca faz uma parada no Mundial de 1982 onde, segundo o craque Paulo Roberto Falcão, a Seleção “perdeu a Copa, mas ganhou o mundo”. Para muitos, dali para frente o talento cedeu espaço para a força e volantes meramente marcadores usurparam o lugar dos antigos armadores. Até mesmo Telê Santana, mentor daquela inesquecível equipe, passou a escalar jogadores mais combativos do que criativos à frente de suas defesas depois da fatídica derrota para a Itália no estádio Sarriá.

Os títulos da Espanha em 2010 e Alemanha nesta Copa reafirmaram a tendência de um futebol voltado para o coletivo, protagonista e com jogadores multifuncionais no meio-campo. O mesmo que a Seleção Brasileira foi um dia, logicamente, com as peculiaridades daqueles tempos. Em meio a tantas constatações, passou-se a acreditar que um técnico estrangeiro poderia resgatar o que nenhum profissional local seria capaz de fazer. Nomes como Pep Guardiola e José Mourinho foram sugeridos, mas além de não estarem no mercado, seus estilos diametralmente opostos indicam que muitos ainda se preocupam mais com a grife do que com a proposta que deveria ser implantada.

Quando surgiu a informação de que a CBF não contrataria um nome estrangeiro, Tite surgiu como a escolha mais óbvia. Responsável por um dos projetos mais consistentes dos últimos anos, o ex-treinador do Corinthians era o ideal por reunir as principais qualidades que a missão necessita: Organização, entendimento do jogo, capacidade de motivação e atualização. É um estudioso, alguém que sempre procurou observar – até mesmo in loco – o que outros técnicos fazem pelo mundo, tipo de humildade pouco comum por aqui. Porém, pelo visto, essa obviedade esbarrou na ligação do técnico com Andrés Sanchez, conhecido opositor à cúpula da entidade. Não por acaso, notícias dão como adiantadas as tratativas de Tite com a Seleção Japonesa.

Na última quinta-feira, com o anúncio do ex-goleiro Gilmar Rinaldi como novo coordenador técnico do Brasil, veio enfim a sensação de que pouco ou nada mudaria. Com pouca experiência para uma função tão complexa, Gilmar, com o respaldo de Marin e Del Nero, deve apostar no retorno de Dunga ao comando da Seleção. Por mais que o capitão do Tetra tenha realizado um trabalho digno no ciclo 2006-2010, este não é o momento para a sua volta. Não quando se clama por um futebol que passe longe do estilo contra-ataque e bola parada. Na prática, isso significa a continuidade do tão abominado “resultadismo”, filosofia do “ganhar a qualquer custo” e que quando não vem acompanhada do resultado não traz quase nada consigo. Todavia, pelo andar da carruagem, os fãs do futebol brasileiro vão precisar de muita terapia nos próximos anos.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Agência Brasil

sábado, 12 de julho de 2014

Melancolia


Um prolongamento do massacre da última terça-feira. Assim pode ser definida a derrota para a Holanda por 3x0 na decisão do terceiro lugar. Desta vez, o choque parece ter dado lugar a um estranho vazio, como se tudo aquilo fosse esperado. Aos poucos, os bastidores da tragédia que se abateu sobre a Seleção Brasileira vão surgir. Enquanto a caixa-preta não se abre, este é o momento de refletir sobre o que aconteceu.

Apesar da conquista da Copa das Confederações, estava claro que a equipe tinha deficiências no meio-campo, sobretudo na saída de bola e armação de jogadas, e que a presença de um centroavante mais fixo acrescentava pouco à dinâmica do time. Questões que se perpetuaram durante o último ano e se mostraram ainda mais preocupantes no Mundial, incluindo a formação do grupo, como a coluna ponderou aqui. Tudo isso somado à perda de Neymar e a carga de ser o país anfitrião da Copa foram determinantes na queda da Seleção.

Durante a coletiva realizada após a derrota para a Alemanha, Luiz Felipe Scolari se assumiu como único responsável pelo acontecido. Ao mesmo tempo, se recusou a comentar possíveis falhas no planejamento e se apoiou num suposto “apagão” para justificar a eliminação. Logicamente, ninguém pode achar normal uma equipe sofrer quatro gols em seis minutos, mas a resposta não pode se limitar a isso. Desta vez, ao responder uma pergunta sobre a necessidade de se reciclar como profissional, o técnico preferiu apontar para uma suposta escassez de talentos da atual geração.

Nesse ponto, além da falta de autocrítica, houve uma tentativa de transferência de uma responsabilidade que ele mesmo havia assumido. Embora o grupo atual não seja tão experiente e talentoso quanto o de 2006, ele é claramente mais encorpado do que o de 2010, ocasião em que o escrete comandado por Dunga chegou apenas às quartas de final na África do Sul, mas apresentava um padrão tático muito mais definido, embora tivesse limitações, sobretudo, quando se deparava com defesas mais compactas.

Trata-se de um cenário que requer cuidado. Boa parte destes convocados tem idade e condições para estar presente no próximo ciclo e é fundamental não queimá-los agora. Ficando apenas no âmbito de Seleção Brasileira, creio que o próximo treinador terá muito trabalho para reconstruir o time, todavia, também terá material humano para fazê-lo. Que a cúpula de CBF, de quem pouco se espera, seja ao menos capaz de indicar em breve o sucessor de Felipão. Dentre as opções locais, nenhum nome desponta mais do que Tite. Resta saber se alguém será capaz de enxergar esse óbvio.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: AFP

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

O outro lado da queda

Da mesma forma que é impossível falar em futebol brasileiro como uma coisa única, também não é correto representar a imprensa esportiva de maneira singular. Tite, possível sucessor de Scolari, não pode ser colocado no mesmo pacote de outros treinadores brasileiros que aparentam não fazer ideia do que está acontecendo no mundo. Deste modo, cabe a ressalva para os profissionais que cobrem o esporte de maneira séria e que refutam qualquer parcela de “achismo” nos seus trabalhos. O que vem a seguir não é para eles.

Ao mesmo tempo em que futebol é paixão, algo que qualquer pessoa pode apreciar, sua compreensão não é algo tão simples. Não em seu nível profissional. Para entendê-lo em sua totalidade, assim como um treinador faz com sua equipe e seus adversários, é preciso estudar, se aprofundar no tema. Talvez por ter nascido a partir de uma costela das antigas crônicas de jornal, grande parte da imprensa brasileira ainda enxerga o futebol como uma coisa lúdica, uma espécie de arte cuja finalidade é encantar pessoas. Se ele foi assim um dia, não é mais. Trata-se de um esporte de alto rendimento e se nele encontramos beleza e emoção, isso está muito mais ligado à sua natureza, ao manejo habilidoso da bola do que algo previamente estabelecido.

Piadas do tipo descrever o sistema 4-2-3-1 como linha de ônibus sempre esbarraram no ridículo, assim como a pilhéria com termos técnicos como “triângulo de base alta”. Não que esses termos sejam obrigatórios no vocabulário jornalístico, mas a percepção de que eles fazem parte do dialeto técnico, sim. Não por acaso, após a massacrante derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha, poucas foram as análises realmente consistente do que aconteceu no Mineirão. Um jovem e bom comentarista, cujo nome não será citado por respeito, passou as 24 horas seguintes fazendo toda sorte de gracinhas com o acontecido. Do que houve em campo, pouco ou quase nada disse.

Ao longo da história, nossa Seleção – aqui entendida como o topo da pirâmide do futebol brasileiro – se reinventou algumas vezes. 1970 e 1994 são dois casos onde o problema da época foi compreendido e corrigido com resultado satisfatório. Se isso ocorrerá novamente agora só saberemos no futuro, mas seria providencial que no decorrer desse processo os profissionais de imprensa caminhassem juntos nesse sentido. Até para que possam tratar desse assunto com a seriedade e propriedade que o tema merece.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Lições de uma tragédia


Há 15 anos, após conquistar sua segunda Copa América seguida, a Seleção Brasileira comandada por Vanderlei Luxemburgo abriu mão de suas principais estrelas e rumou para o México visando a disputa da Copa das Confederações. Na estreia, um baile de 4 a 0 sobre uma envelhecida Alemanha. Naquele momento, olhando para nós mesmos, demos pouca importância ao que acontecia do outro lado. Uma das maiores camisas do futebol se encontrava em sérios apuros. Por incrível que pareça, ainda chegaram à final do Mundial de 2002 amparados pela grande fase do meia Michael Ballack, do então jovem artilheiro Miroslav Klose e da muralha Oliver Kahn. Desta vez, perderam por um placar menos elástico para o mesmo Brasil, porém estava claro que alguma coisa precisava mudar.

E os alemães mudaram. O futebol de força que utilizava líbero e atuava de forma mais espaçada deu lugar a um futebol técnico, compacto, fluído e, sobretudo, coletivo. Os resultados voltaram a acontecer, os títulos ainda não, mas não restam muitas dúvidas de que o caminho tomado estava certo. Depois dos 7 a 1 sofridos pelo Brasil no Mineirão, a maior derrota de nossa história, é inevitável que a reflexão mude de lado. O perigo está em não identificar os problemas de forma correta, algo que um resultado tão massacrante pode induzir.

A primeira reação é apontar o dedo para o futebol praticado no País. Dirigentes corruptos, calendário absurdo, métodos de treinamento ultrapassados, tudo isso realmente existe e precisa ser sanado. No entanto, nem todas as respostas se encontram aí. Neste 8 de julho, nove jogadores que iniciaram a partida atuam em clubes europeus e são comandados pelos principais treinadores do planeta. Os outros dois, o goleiro Júlio César e o atacante Fred também militaram no Velho Continente. Portanto, falar em diferença entre o futebol praticado no Brasil e na Europa seria, pelo menos diretamente, um equívoco.

Antes de tudo, é preciso entender o que foi esta derrota. A maneira como ela aconteceu. Depois de um início onde a vontade era maior do que a organização, a Seleção Brasileira deu mostras de que pretendia encarar a Alemanha de frente. Marcelo chegou a finalizar com perigo e um duelo equilibrado parecia surgir. Até que a Seleção sofreu o primeiro gol. Talvez pela ausência de Neymar, sua principal referência, e quem sabe por não apresentar uma estrutura tática capaz de reagir, o Brasil sofreu mais um gol. A partir dali, os três gols subsequentes são resultado de uma equipe intensa e bem postada contra outra emocionalmente destruída. Com os 5 a 0, ao fim da etapa inicial estava claro que a eliminação estava sacramentada.

Não é por coincidência que as duas derrotas mais dolorosas da Seleção nos últimos tempos esbarraram justamente no aspecto psicológico que não encontrava respaldo na organização. Em 1998, na França, uma equipe desnorteada pela convulsão de Ronaldo e mal organizada em campo por Zagallo levou 3 a 0 dos donos da casa. Agora, um time que trazia consigo um crônico problema de transição e se ancorava em Neymar viu tudo ruir quando seu craque deixou a competição. Em ambos os casos, a falta de uma equipe coesa o bastante para trabalhar nas adversidades. Como escreveu o analista de desempenho do Grêmio, Eduardo Cecconi, não é possível prescindir de organização no futebol moderno. Isso vale para clubes e seleções. Que o próximo técnico do Brasil seja escolhido por critérios técnicos e táticos, mesmo que sabendo que o lado psicológico também é relevante. E que este último aspecto não funciona sem os primeiros.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lesão de Neymar expõe falhas na convocação

Poucas vezes uma convocação de Seleção Brasileira gerou tão pouca discussão como a do grupo escolhido por Luiz Felipe Scolari para a disputa da Copa do Mundo de 2014. Entre as ausências, a mais lamentada foi a de Miranda, um dos destaques do Atlético de Madrid na temporada recém-encerrada. Mesmo assim, o fato de o zagueiro ser apenas um potencial reserva da dupla formada por Thiago Silva e David Luiz serviu para atenuar os ânimos. Entre os jogadores presentes na lista, o versátil Henrique foi o mais questionado, tendo seu chamado condicionado quase que exclusivamente à confiança que recebe do técnico.

No entanto, alguns episódios ocorridos no Mundial têm indicado que as escolhas de Felipão talvez não tenham sido tão certeiras quanto se pensou. Da reserva de Luiz Gustavo à inoperância de Jô, passando pela pouca confiança em Hernanes e Bernard, as partidas mostraram um grupo que não oferece opções seguras para o Brasil. Quando o volante do Wolfsburg foi suspenso por ter recebido dois cartões amarelos, muitos se preocuparam com a possibilidade de Henrique – atuando como lateral direito no Napoli – jogar. No fim, o substituto Fernandinho cumpriu bem suas funções defensivas, ainda que suas características não incluíssem ser um terceiro zagueiro como a Seleção muitas vezes necessita. Naquele momento, este colunista se lembrou do já recuperado Lucas Leiva, volante preterido pelo subutilizado Hernanes.

No recente encontro de Scolari com alguns jornalistas, o treinador revelou que, se pudesse, substituiria um de seus atletas. Não disse quem, não disse por que e isso provocou uma onda de especulações. Ao contrário do que as poucas contestações iniciais possam sugerir, não faltam opções. Além de Henrique e Hernanes, Bernard e Jô poderiam ser trocados para que isso representasse um ganho para a Seleção. Admirado por seu comandante por sua “alegria nas pernas”, o meia-atacante não se firmou entre os titulares do Shakhtar Donetsk desde que deixou o Atlético Mineiro. Nesse período, Lucas Moura resgatou seu melhor futebol do Paris Saint-Germain e chamou a atenção por boas jogadas em altíssima velocidade em gramados franceses. Sem dúvida, uma arma que Felipão poderia usar contra o improvisado lateral esquerdo Höwedes no duelo Brasil x Alemanha.

Por sua vez, Jô daria lugar a um atacante de mais mobilidade que pudesse alterar a forma da equipe jogar. Aqui, cabe recordar Jonas, atacante do Valencia, que pode atuar tanto como segundo atacante, quanto no comando do ataque. Possivelmente, Diego Costa seria o nome ideal para essa mudança, mas como se sabe, o aríete ex-Atlético de Madrid, ao não se sentir prestigiado pelo técnico brasileiro, preferiu aceitar a oferta de Vicente Del Bosque para integrar a Seleção Espanhola.    


Porém, nada se compara ao cenário que se instalou quando a equipe médica que acompanhou Neymar ao Hospital São Carlos em Fortaleza anunciou que o atacante estava fora da Copa. Um clima de velório se abateu sobre o País pela perda do camisa 10, mas também pelo vazio na resposta sobre quem jogaria nesse caso. Até este momento, Willian é o mais cotado para a vaga, todavia, o meia do Chelsea não tem o peso necessário para diminuir o impacto da fatídica notícia. Se, por exemplo, Kaká estivesse no elenco, provavelmente recairia sobre ele a tarefa de substituir Neymar no esquema 4-4-1-1 atual. Com o experiente jogador em campo, mesmo longe do seu auge, haveria tanto um respeito maior dos adversários quanto uma diminuição da preocupação pela saída da maior referência do time. Contudo, dizem que Felipão preferiu contar com reservas que não provocassem clamor da torcida em situações difíceis. Infelizmente, neste momento, os gritos vindos das arquibancadas se tornaram o menor problema do técnico.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Getty Images