domingo, 27 de julho de 2014

Um novo ciclo


Ao contrário do que ocorreu com Mano Menezes em seu início de trabalho na Seleção Brasileira em 2010, quando partiu quase do zero, os convocados por Luiz Felipe Scolari para o Mundial de 2014 devem formar a base da equipe que tentará recuperar o prestígio perdido no ciclo que se encerra na Copa do Mundo de 2018. À sua disposição, o técnico Dunga terá ao final de quatro anos um grupo que estará num estágio mais amadurecido do que foi visto recentemente em território brasileiro. Obviamente, se o ex-capitão chegar até lá.

Nos últimos dias ficou ainda mais evidente que Dunga não conta com a aprovação da imprensa esportiva. Não pelos fatos expostos de sua vida, que têm moderada relevância, mas pela maneira como estão lidando com eles, a ponto de haver sugestão paraque o treinador renuncie antes mesmo de estrear. Nesse cenário, está claro que apenas uma sequência de bons resultados e, sobretudo, bom futebol vai proteger o técnico das críticas que vão acompanhá-lo até o fim de seu contrato. Por tanto, é possível que tenhamos força máxima desde o início e não uma estrutura de transição.

Da equipe titular comandada por Felipão, nomes como Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Luiz Gustavo, Paulinho, Oscar, Hulk e Neymar provavelmente seguirão formando a espinha dorsal do novo time. Além deles, os goleiros Victor e Jefferson e os meia-atacantes Willian e Bernard têm condições de fazer parte do projeto. No entanto, veteranos como Júlio César, Daniel Alves, Maicon, Maxwell e Fred deverão ter suas vagas cedidas aos jovens que estão surgindo. Por sua vez, Dante, Fernandinho, Ramires e Hernanes, pela faixa etária, precisarão continuar correspondendo em seus clubes, enquanto Henrique e Jô, que só foram chamados por contarem com a confiança do ex-técnico brasileiro, dificilmente serão lembrados novamente.

Entre retornos e novidades, os arqueiros Cássio, Diego Alves e Marcelo Grohe saem na frente por oportunidades. Os jovens Rafael Cabral, Neto e Gabriel são outros que podem aparecer em breve nas listas de convocações. Para o centro da defesa, Miranda e Dedé surgem com evidência, mas Marquinhos e Rodrigo Caio, ambos com 20 anos, e o botafoguense Dória, 19, têm a idade e o sonho olímpico a favor.

Na lateral direita, talvez resida a posição com maior margem para experimentações. Com as possíveis aposentadorias de Daniel Alves e Maicon da camisa amarela. Marcos Rocha, Danilo e Mário Fernandes, este também na mira da Seleção Russa, despontam como favoritos. Rafael da Silva, outro lateral frequentemente lembrado, tem contra si a irregularidade que marca sua trajetória no Manchester United. No lado oposto, Filipe Luís, Alex Sandro e Alex Telles são opções interessantes para a disputa com Marcelo.

Muito contestado durante a Copa do Mundo, o meio-campo da Seleção requer cuidados. Dunga não foi um volante brilhante, mas sabe que o coração do jogo reside ali. O técnico dificilmente abrirá mão de um volante marcador, o que implica que Luiz Gustavo possivelmente seguirá no time. Todavia, isso não significa que deixará o setor esvaziado de talento. Durante sua primeira passagem, fazia uso de um 4-3-1-2 que se convertia num 4-2-3-1 com Elano abrindo pela direita e Robinho pela esquerda. Nas duas formações, preocupação com o preenchimento do meio campo. Deste modo, volantes mais técnicos como Rômulo, Souza (São Paulo) e Lucas Silva adquirem boas perspectivas. Mais à frente, Ganso volta à pauta, assim como Lucas Moura, Philippe Coutinho e Roberto Firmino, quase desconhecido no País, mas de grande destaque no Hoffenheim e cobiçado por gigantes europeus.

No ataque, a carência de centroavantes pode fazer com que Neymar atue como o jogador mais adiantado da equipe, função já testada por Mano Menezes. Não como “falso 9”, mas como um atacante móvel. Por sua entrega e participação sem bola, Hulk deve continuar, porém, precisa mostrar o poder de decisão que o destacou no Porto. Outros avançados que podem surgir futuramente são Luiz Adriano do Shakhtar Donetsk e a joia santista Gabriel. Como se nota, talento não falta. A maior parte desses atletas atua em altíssimo nível na Europa e o grande desafio é transformá-los numa equipe competitiva. Dentro de seu estilo, Dunga é capaz de cumprir essa missão. Resta saber se terá tempo para isso.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: AP

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Paz armada

Há duas décadas, o capitão da Seleção Brasileira erguia o troféu de campeão do mundo aos gritos de “Essa é pra vocês, seus traíras! É nossa essa porra!”, no que se tornou o maior desabafo de uma figura ligada ao futebol em toda a história desse esporte. Naquele momento, Dunga exorcizou as críticas – boa parte imerecidas – que recebera por conta da derrota em 1990 e durante a campanha que culminou no tetracampeonato nos EUA. É verdade que o gesto foi deselegante e em nada combinou com a postura ideal de um desportista, mas só o jogador sabia o que havia passado. A partir dali, ficou evidente que sua relação com a imprensa nunca seria saudável. E assim foi pelo restante de sua carreira de atleta e durante sua passagem como técnico do Brasil entre 2006 e 2010.
De volta ao posto que deixou há quatro anos, Dunga fez mea-culpa em sua primeira entrevista coletiva e disse que deseja melhorar seu trato com os órgãos de imprensa. A julgar pela forma um pouco ríspida que usou para responder determinadas perguntas, imagina-se que a tarefa não será das mais fáceis para ele. Por natureza, o técnico tem um gênio forte, “turrão” para pegar um termo usado pelo próprio. E a maneira como provavelmente armará a equipe brasileira deve lhe render críticas que dificilmente serão digeridas de forma tranquila. Ainda mais quando a opinião geral aponta para o resgate de um futebol protagonista.  Como ele reagirá a isso ainda é uma incógnita, mas chegou a hora de voltarmos o olhar para o outro lado da questão.
Dunga é só uma parte dessa equação. Seria um equívoco dizer que ele esbraveja em direção a fantasmas sem rosto. Suas respostas normalmente têm endereço e quase sempre são uma forma reação a comentários que ultrapassam a barreira da imparcialidade. Logo após o término da citada coletiva, o jornalista Paulo Vinícius Coelho escreveu que o trabalho de Dunga deveria ser observado de forma neutra e justa. Nada mais correto. Um novo ciclo se inicia e a análise precisa ser feita a partir do amistoso contra a Colômbia no dia 5 de setembro em Miami.
Lamentavelmente, não deve ser assim. A notícia de seu retorno caiu como uma bomba na imprensa esportiva e os efeitos foram sentidos de imediato. Seu nome foi rejeitado de forma quase unânime. A partir daí, uma caminhada que nem começou já foi alvo de todo tipo de ataque. Entre tantos, um chamou mais a atenção. Durante o programa Linha de Passe (ESPN Brasil) exibido na última segunda-feira, o comentarista José Trajano se declarou inimigo de Dunga. Sim, inimigo, como se houvesse uma guerra a ser travada. Em seu discurso inicial, o técnico se mostrou interessado em melhorar sua relação com a mídia, mesmo que suas armas verbais estejam por perto. Pelo visto, talvez tenha que usá-las bem antes do que imagina.
Imagem: Vanderlei Almeida/AFP

sábado, 19 de julho de 2014

Brasil no divã


Como não poderia deixar de ser, os dez gols sofridos pela Seleção diante de Alemanha e Holanda tiveram um efeito devastador sobre a opinião pública. Rediscutir toda a escola brasileira tornou-se pauta obrigatória na imprensa esportiva. Naquele momento, não era apenas o escrete canarinho que parecia estar em questão. Das categorias de base, passando pelo tipo de futebol que se joga no país, pela maneira como nossos atletas se desenvolvem no exterior, até chegar à defasagem dos técnicos nacionais, tudo o que foi construído ao longo do tempo deveria ser colocado à mesa.

De certa maneira, era como se as pessoas que se importam com esse esporte tivessem feito uma terapia de regressão para compreender o que deu errado no caminho até o massacre de 8 de julho. Era uma volta ao passado, uma tentativa de reencontrar as raízes perdidas de nossa cultura futebolística. Inevitavelmente, a busca faz uma parada no Mundial de 1982 onde, segundo o craque Paulo Roberto Falcão, a Seleção “perdeu a Copa, mas ganhou o mundo”. Para muitos, dali para frente o talento cedeu espaço para a força e volantes meramente marcadores usurparam o lugar dos antigos armadores. Até mesmo Telê Santana, mentor daquela inesquecível equipe, passou a escalar jogadores mais combativos do que criativos à frente de suas defesas depois da fatídica derrota para a Itália no estádio Sarriá.

Os títulos da Espanha em 2010 e Alemanha nesta Copa reafirmaram a tendência de um futebol voltado para o coletivo, protagonista e com jogadores multifuncionais no meio-campo. O mesmo que a Seleção Brasileira foi um dia, logicamente, com as peculiaridades daqueles tempos. Em meio a tantas constatações, passou-se a acreditar que um técnico estrangeiro poderia resgatar o que nenhum profissional local seria capaz de fazer. Nomes como Pep Guardiola e José Mourinho foram sugeridos, mas além de não estarem no mercado, seus estilos diametralmente opostos indicam que muitos ainda se preocupam mais com a grife do que com a proposta que deveria ser implantada.

Quando surgiu a informação de que a CBF não contrataria um nome estrangeiro, Tite surgiu como a escolha mais óbvia. Responsável por um dos projetos mais consistentes dos últimos anos, o ex-treinador do Corinthians era o ideal por reunir as principais qualidades que a missão necessita: Organização, entendimento do jogo, capacidade de motivação e atualização. É um estudioso, alguém que sempre procurou observar – até mesmo in loco – o que outros técnicos fazem pelo mundo, tipo de humildade pouco comum por aqui. Porém, pelo visto, essa obviedade esbarrou na ligação do técnico com Andrés Sanchez, conhecido opositor à cúpula da entidade. Não por acaso, notícias dão como adiantadas as tratativas de Tite com a Seleção Japonesa.

Na última quinta-feira, com o anúncio do ex-goleiro Gilmar Rinaldi como novo coordenador técnico do Brasil, veio enfim a sensação de que pouco ou nada mudaria. Com pouca experiência para uma função tão complexa, Gilmar, com o respaldo de Marin e Del Nero, deve apostar no retorno de Dunga ao comando da Seleção. Por mais que o capitão do Tetra tenha realizado um trabalho digno no ciclo 2006-2010, este não é o momento para a sua volta. Não quando se clama por um futebol que passe longe do estilo contra-ataque e bola parada. Na prática, isso significa a continuidade do tão abominado “resultadismo”, filosofia do “ganhar a qualquer custo” e que quando não vem acompanhada do resultado não traz quase nada consigo. Todavia, pelo andar da carruagem, os fãs do futebol brasileiro vão precisar de muita terapia nos próximos anos.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Agência Brasil

sábado, 12 de julho de 2014

Melancolia


Um prolongamento do massacre da última terça-feira. Assim pode ser definida a derrota para a Holanda por 3x0 na decisão do terceiro lugar. Desta vez, o choque parece ter dado lugar a um estranho vazio, como se tudo aquilo fosse esperado. Aos poucos, os bastidores da tragédia que se abateu sobre a Seleção Brasileira vão surgir. Enquanto a caixa-preta não se abre, este é o momento de refletir sobre o que aconteceu.

Apesar da conquista da Copa das Confederações, estava claro que a equipe tinha deficiências no meio-campo, sobretudo na saída de bola e armação de jogadas, e que a presença de um centroavante mais fixo acrescentava pouco à dinâmica do time. Questões que se perpetuaram durante o último ano e se mostraram ainda mais preocupantes no Mundial, incluindo a formação do grupo, como a coluna ponderou aqui. Tudo isso somado à perda de Neymar e a carga de ser o país anfitrião da Copa foram determinantes na queda da Seleção.

Durante a coletiva realizada após a derrota para a Alemanha, Luiz Felipe Scolari se assumiu como único responsável pelo acontecido. Ao mesmo tempo, se recusou a comentar possíveis falhas no planejamento e se apoiou num suposto “apagão” para justificar a eliminação. Logicamente, ninguém pode achar normal uma equipe sofrer quatro gols em seis minutos, mas a resposta não pode se limitar a isso. Desta vez, ao responder uma pergunta sobre a necessidade de se reciclar como profissional, o técnico preferiu apontar para uma suposta escassez de talentos da atual geração.

Nesse ponto, além da falta de autocrítica, houve uma tentativa de transferência de uma responsabilidade que ele mesmo havia assumido. Embora o grupo atual não seja tão experiente e talentoso quanto o de 2006, ele é claramente mais encorpado do que o de 2010, ocasião em que o escrete comandado por Dunga chegou apenas às quartas de final na África do Sul, mas apresentava um padrão tático muito mais definido, embora tivesse limitações, sobretudo, quando se deparava com defesas mais compactas.

Trata-se de um cenário que requer cuidado. Boa parte destes convocados tem idade e condições para estar presente no próximo ciclo e é fundamental não queimá-los agora. Ficando apenas no âmbito de Seleção Brasileira, creio que o próximo treinador terá muito trabalho para reconstruir o time, todavia, também terá material humano para fazê-lo. Que a cúpula de CBF, de quem pouco se espera, seja ao menos capaz de indicar em breve o sucessor de Felipão. Dentre as opções locais, nenhum nome desponta mais do que Tite. Resta saber se alguém será capaz de enxergar esse óbvio.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: AFP

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

O outro lado da queda

Da mesma forma que é impossível falar em futebol brasileiro como uma coisa única, também não é correto representar a imprensa esportiva de maneira singular. Tite, possível sucessor de Scolari, não pode ser colocado no mesmo pacote de outros treinadores brasileiros que aparentam não fazer ideia do que está acontecendo no mundo. Deste modo, cabe a ressalva para os profissionais que cobrem o esporte de maneira séria e que refutam qualquer parcela de “achismo” nos seus trabalhos. O que vem a seguir não é para eles.

Ao mesmo tempo em que futebol é paixão, algo que qualquer pessoa pode apreciar, sua compreensão não é algo tão simples. Não em seu nível profissional. Para entendê-lo em sua totalidade, assim como um treinador faz com sua equipe e seus adversários, é preciso estudar, se aprofundar no tema. Talvez por ter nascido a partir de uma costela das antigas crônicas de jornal, grande parte da imprensa brasileira ainda enxerga o futebol como uma coisa lúdica, uma espécie de arte cuja finalidade é encantar pessoas. Se ele foi assim um dia, não é mais. Trata-se de um esporte de alto rendimento e se nele encontramos beleza e emoção, isso está muito mais ligado à sua natureza, ao manejo habilidoso da bola do que algo previamente estabelecido.

Piadas do tipo descrever o sistema 4-2-3-1 como linha de ônibus sempre esbarraram no ridículo, assim como a pilhéria com termos técnicos como “triângulo de base alta”. Não que esses termos sejam obrigatórios no vocabulário jornalístico, mas a percepção de que eles fazem parte do dialeto técnico, sim. Não por acaso, após a massacrante derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha, poucas foram as análises realmente consistente do que aconteceu no Mineirão. Um jovem e bom comentarista, cujo nome não será citado por respeito, passou as 24 horas seguintes fazendo toda sorte de gracinhas com o acontecido. Do que houve em campo, pouco ou quase nada disse.

Ao longo da história, nossa Seleção – aqui entendida como o topo da pirâmide do futebol brasileiro – se reinventou algumas vezes. 1970 e 1994 são dois casos onde o problema da época foi compreendido e corrigido com resultado satisfatório. Se isso ocorrerá novamente agora só saberemos no futuro, mas seria providencial que no decorrer desse processo os profissionais de imprensa caminhassem juntos nesse sentido. Até para que possam tratar desse assunto com a seriedade e propriedade que o tema merece.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Lições de uma tragédia


Há 15 anos, após conquistar sua segunda Copa América seguida, a Seleção Brasileira comandada por Vanderlei Luxemburgo abriu mão de suas principais estrelas e rumou para o México visando a disputa da Copa das Confederações. Na estreia, um baile de 4 a 0 sobre uma envelhecida Alemanha. Naquele momento, olhando para nós mesmos, demos pouca importância ao que acontecia do outro lado. Uma das maiores camisas do futebol se encontrava em sérios apuros. Por incrível que pareça, ainda chegaram à final do Mundial de 2002 amparados pela grande fase do meia Michael Ballack, do então jovem artilheiro Miroslav Klose e da muralha Oliver Kahn. Desta vez, perderam por um placar menos elástico para o mesmo Brasil, porém estava claro que alguma coisa precisava mudar.

E os alemães mudaram. O futebol de força que utilizava líbero e atuava de forma mais espaçada deu lugar a um futebol técnico, compacto, fluído e, sobretudo, coletivo. Os resultados voltaram a acontecer, os títulos ainda não, mas não restam muitas dúvidas de que o caminho tomado estava certo. Depois dos 7 a 1 sofridos pelo Brasil no Mineirão, a maior derrota de nossa história, é inevitável que a reflexão mude de lado. O perigo está em não identificar os problemas de forma correta, algo que um resultado tão massacrante pode induzir.

A primeira reação é apontar o dedo para o futebol praticado no País. Dirigentes corruptos, calendário absurdo, métodos de treinamento ultrapassados, tudo isso realmente existe e precisa ser sanado. No entanto, nem todas as respostas se encontram aí. Neste 8 de julho, nove jogadores que iniciaram a partida atuam em clubes europeus e são comandados pelos principais treinadores do planeta. Os outros dois, o goleiro Júlio César e o atacante Fred também militaram no Velho Continente. Portanto, falar em diferença entre o futebol praticado no Brasil e na Europa seria, pelo menos diretamente, um equívoco.

Antes de tudo, é preciso entender o que foi esta derrota. A maneira como ela aconteceu. Depois de um início onde a vontade era maior do que a organização, a Seleção Brasileira deu mostras de que pretendia encarar a Alemanha de frente. Marcelo chegou a finalizar com perigo e um duelo equilibrado parecia surgir. Até que a Seleção sofreu o primeiro gol. Talvez pela ausência de Neymar, sua principal referência, e quem sabe por não apresentar uma estrutura tática capaz de reagir, o Brasil sofreu mais um gol. A partir dali, os três gols subsequentes são resultado de uma equipe intensa e bem postada contra outra emocionalmente destruída. Com os 5 a 0, ao fim da etapa inicial estava claro que a eliminação estava sacramentada.

Não é por coincidência que as duas derrotas mais dolorosas da Seleção nos últimos tempos esbarraram justamente no aspecto psicológico que não encontrava respaldo na organização. Em 1998, na França, uma equipe desnorteada pela convulsão de Ronaldo e mal organizada em campo por Zagallo levou 3 a 0 dos donos da casa. Agora, um time que trazia consigo um crônico problema de transição e se ancorava em Neymar viu tudo ruir quando seu craque deixou a competição. Em ambos os casos, a falta de uma equipe coesa o bastante para trabalhar nas adversidades. Como escreveu o analista de desempenho do Grêmio, Eduardo Cecconi, não é possível prescindir de organização no futebol moderno. Isso vale para clubes e seleções. Que o próximo técnico do Brasil seja escolhido por critérios técnicos e táticos, mesmo que sabendo que o lado psicológico também é relevante. E que este último aspecto não funciona sem os primeiros.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lesão de Neymar expõe falhas na convocação

Poucas vezes uma convocação de Seleção Brasileira gerou tão pouca discussão como a do grupo escolhido por Luiz Felipe Scolari para a disputa da Copa do Mundo de 2014. Entre as ausências, a mais lamentada foi a de Miranda, um dos destaques do Atlético de Madrid na temporada recém-encerrada. Mesmo assim, o fato de o zagueiro ser apenas um potencial reserva da dupla formada por Thiago Silva e David Luiz serviu para atenuar os ânimos. Entre os jogadores presentes na lista, o versátil Henrique foi o mais questionado, tendo seu chamado condicionado quase que exclusivamente à confiança que recebe do técnico.

No entanto, alguns episódios ocorridos no Mundial têm indicado que as escolhas de Felipão talvez não tenham sido tão certeiras quanto se pensou. Da reserva de Luiz Gustavo à inoperância de Jô, passando pela pouca confiança em Hernanes e Bernard, as partidas mostraram um grupo que não oferece opções seguras para o Brasil. Quando o volante do Wolfsburg foi suspenso por ter recebido dois cartões amarelos, muitos se preocuparam com a possibilidade de Henrique – atuando como lateral direito no Napoli – jogar. No fim, o substituto Fernandinho cumpriu bem suas funções defensivas, ainda que suas características não incluíssem ser um terceiro zagueiro como a Seleção muitas vezes necessita. Naquele momento, este colunista se lembrou do já recuperado Lucas Leiva, volante preterido pelo subutilizado Hernanes.

No recente encontro de Scolari com alguns jornalistas, o treinador revelou que, se pudesse, substituiria um de seus atletas. Não disse quem, não disse por que e isso provocou uma onda de especulações. Ao contrário do que as poucas contestações iniciais possam sugerir, não faltam opções. Além de Henrique e Hernanes, Bernard e Jô poderiam ser trocados para que isso representasse um ganho para a Seleção. Admirado por seu comandante por sua “alegria nas pernas”, o meia-atacante não se firmou entre os titulares do Shakhtar Donetsk desde que deixou o Atlético Mineiro. Nesse período, Lucas Moura resgatou seu melhor futebol do Paris Saint-Germain e chamou a atenção por boas jogadas em altíssima velocidade em gramados franceses. Sem dúvida, uma arma que Felipão poderia usar contra o improvisado lateral esquerdo Höwedes no duelo Brasil x Alemanha.

Por sua vez, Jô daria lugar a um atacante de mais mobilidade que pudesse alterar a forma da equipe jogar. Aqui, cabe recordar Jonas, atacante do Valencia, que pode atuar tanto como segundo atacante, quanto no comando do ataque. Possivelmente, Diego Costa seria o nome ideal para essa mudança, mas como se sabe, o aríete ex-Atlético de Madrid, ao não se sentir prestigiado pelo técnico brasileiro, preferiu aceitar a oferta de Vicente Del Bosque para integrar a Seleção Espanhola.    


Porém, nada se compara ao cenário que se instalou quando a equipe médica que acompanhou Neymar ao Hospital São Carlos em Fortaleza anunciou que o atacante estava fora da Copa. Um clima de velório se abateu sobre o País pela perda do camisa 10, mas também pelo vazio na resposta sobre quem jogaria nesse caso. Até este momento, Willian é o mais cotado para a vaga, todavia, o meia do Chelsea não tem o peso necessário para diminuir o impacto da fatídica notícia. Se, por exemplo, Kaká estivesse no elenco, provavelmente recairia sobre ele a tarefa de substituir Neymar no esquema 4-4-1-1 atual. Com o experiente jogador em campo, mesmo longe do seu auge, haveria tanto um respeito maior dos adversários quanto uma diminuição da preocupação pela saída da maior referência do time. Contudo, dizem que Felipão preferiu contar com reservas que não provocassem clamor da torcida em situações difíceis. Infelizmente, neste momento, os gritos vindos das arquibancadas se tornaram o menor problema do técnico.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Getty Images

sábado, 5 de julho de 2014

Como substituir o insubstituível


A informação veio como um choque: Com uma fratura na terceira vértebra lombar, Neymar está fora da Copa do Mundo. Naquele momento, as comemorações pela classificação para a semifinal e a vitória sobre a Colômbia perderam parte do sentido. Justamente após a melhor apresentação brasileira no Mundial, o principal jogador da Seleção não estará presente no duelo contra a Alemanha e nem numa eventual final. Complicado mensurar o tamanho da perda.

Aos poucos, olhando para trás, surgem exemplos de como ausências de grandes jogadores foram superadas ou se tornaram fatais para suas equipes. Nesta Copa, o Uruguai provou desse desgosto ao perder o astro Luis Suárez suspenso. Com o atacante em campo, vitórias sobre Inglaterra e Itália. Sem o artilheiro do Liverpool, derrotas para a surpreendente Costa Rica e para a sensação Colômbia, o que resultou em eliminação. Indo mais longe, é histórica a maneira como o jovem Amarildo substituiu Pelé em 1962 ajudando o Brasil a conquistar seu segundo título.

Outra ausência que o técnico Luiz Felipe Scolari vai precisar contornar é a do capitão Thiago Silva. Com dois cartões amarelos, o zagueiro está fora da semifinal. No entanto, Dante, seu provável substituto, pode cumprir difícil missão. Defensor de bom nível, o atleta do Bayern de Munique está acostumado a enfrentar jogadores alemães na Bundesliga, além de conviver com diversos nomes da Nationalmannschaft em seu próprio clube. Vale lembrar que a Alemanha também lamenta a perda de Marco Reus, então seu melhor atacante, com a crucial diferença de contar com diversos jogadores que atuam pela mesma faixa do gramado. Talvez a melhor comparação com a perda de Neymar seja a do meio-campista Michael Ballack, desfalque na final de 2002 diante do mesmo Brasil, ainda que o goleiro Oliver Kahn fosse o mais badalado.

A princípio, Willian deve ser o escolhido para a vaga do camisa 10 brasileiro. O meia do Chelsea tem treinado na função e aproveita o entrosamento com o companheiro Oscar. Com a alteração, a Seleção Brasileira deve perder em profundidade ofensiva, porém, pode ver seu meio-campo, setor mais preocupante no Mundial, se encorpando mais. Com o retorno do volante Luiz Gustavo, Felipão também dispõe da opção de tornar o time mais físico para combater o forte trio formado por Khedira, Schweinsteiger e Kroos. Seja qual for o escolhido, o certo é que a Seleção terá onze jogadores em campo na próxima terça-feira, ainda que num primeiro instante a sensação seja a de que perdeu meio time.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Eitan Abramovich/AFP

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Quando o cérebro dá lugar ao fígado

Não saberia precisar em que momento a boa relação entre Seleção Brasileira e imprensa esportiva se rompeu. Talvez tenha sido após a evolução dos próprios meios de comunicação, quando o número de jornalistas cobrindo o escrete canarinho aumentou a tal ponto que a velha resenha com treinadores e atletas deixou de ser possível ou tão frequente, tornando a relação mais fria. Ou com a chegada de Ricardo Teixeira ao comando da CBF, um dirigente que sempre puniu com distanciamento quem ousava criticar ou investigar os atos de sua gestão. Quem sabe, a origem esteja no histórico Manifesto de Glasgow, documento redigido pelos jogadores brasileiros em junho de 1973 que expressava descontentamento com notícias que julgavam ser falsas.

O fato é que a relação não é boa. Isso se reflete nos comentários, na cobertura diária das principais competições, na análise de desempenho e, sobretudo, na cobrança por resultados. Logicamente, não se espera que a pressão por bom futebol seja amena num selecionado cinco vezes campeão mundial. O parâmetro estabelecido como ótimo passou a ser as seleções de 1970 ou 1982, obviamente, sem os problemas defensivos da última e com o tom turvo da memória afetiva. Tudo o que se fez depois disso parece insuficiente ou enfadonho, mesmo que os números não digam o mesmo.


É consenso que a Seleção comandada por Luiz Felipe Scolari não atravessa um bom momento. O crônico problema na saída de bola e da ligação direta persiste e foi potencializado pela pressão de se disputar um Mundial em casa. Sem dúvida, uma combinação perigosa que vem colocando em risco a permanência brasileira na competição. Paralelamente, outros postulantes ao título também enfrentam problemas de outra natureza e, até agora, ninguém desponta como grande favorito. Um bom exemplo é a Alemanha e seu quarteto de centrais na primeira linha e a forma kamikaze como enfrentaram – e quase foram eliminados – pela Argélia. Fosse com o Brasil, muita gente teria arrancado os cabelos.

A questão central não é reconhecer os defeitos da Seleção Brasileira. E nem observar com mais critério o que se passa do lado de lá. Isso deveria ser obrigatório para quem se propõe a trabalhar com futebol. A questão é a maneira como uma grande parcela da imprensa brasileira lida com a Seleção. Passa longe de ser o “jogar junto” erroneamente sugerido nesta semana por Felipão, mas não deveria ser a maneira quase colérica como alguns se comportam. Se a paixão deveria ficar de fora como prega a imparcialidade, o ódio também deveria. Talvez substituído por uma boa análise estatística das partidas. Mas creio que aí já é querer demais.


Imagem: Ari Ferreira/LANCE! Press

sábado, 28 de junho de 2014

No sufoco


Quando Luiz Felipe Scolari apontou o Chile como o adversário mais difícil para o Brasil numa eventual disputa de oitavas de final, muitos acharam graça. Quem sabe, uma estratégia do experiente treinador. Este colunista entendia que o estilo do rival sul-americano era o que melhor se encaixava com o tipo de futebol que a Seleção Brasileira pratica. Talvez fosse a forte lembrança da equipe comandada por Marcelo Bielsa que partia para o ataque e oferecia espaços para contragolpes. Não foi o que se viu no Mineirão na tarde de hoje. Mais do que nunca, o time de Jorge Sampaoli foi um duro oponente, somente batido nos pênaltis.

As estatísticas dizem que a Seleção Brasileira teve um aproveitamento de apenas 68% nos passes. O pior desempenho nesse fundamento desde o Mundial de 1966. Um reflexo de que a entrada de Fernandinho no time não foi suficiente para resolver o crônico problema da saída de bola, algo que, logicamente, não se resolveria de uma hora para outra, já que existe uma forma estabelecida de jogar e isso dificilmente mudará sem muitos treinos. Outra estatística, esta quase ignorada, foram as de finalizações. O Brasil concluiu 23 vezes contra a meta de Claudio Bravo, 13 no alvo. O Chile, mesmo com 51% de posse de bola, finalizou em 13 ocasiões, apenas cinco contra Júlio César. Numa delas, Alexis Sanchez empatou o jogo.

Números à parte, não se deve perder de vista a força do Chile que dominou a partida por um grande período e esteve a um travessão da vitória. Em outras oportunidades os comandados de Jorge Sampaoli enfrentaram selecionados tradicionais e também foram melhores. Como na derrota por 1 a 0 para a Alemanha num amistoso em Sttuttgart, quando os visitantes colocaram os germânicos em sérias dificuldades e saíram de campo aplaudidos. Ou, para ficar num exemplo mais recente, a categórica vitória que eliminou a campeã Espanha. Um estilo tão agressivo que fez com que o treinador holandês Louis van Gaal os classificasse como “fanáticos”.

Contudo, a constatação do poderio chileno não pode esconder que, além das dificuldades encontradas com a bola, a Seleção Brasileira também não se mostra emocionalmente estável. Possivelmente, o peso de disputar um Mundial em nossos domínios faz com que a pressão natural que um pentacampeão enfrenta a cada Copa seja ampliada ainda mais. E, ao que tudo indica, esse fardo se tornou pesado demais até para um grupo cuja maioria é composta por atletas acima dos 25 anos. Na próxima sexta-feira, o Brasil terá mais um desafio complicado ao se defrontar com a sensação Colômbia, dona do melhor desempenho defensivo e ofensivo do torneio. Uma barreira que pode ser ultrapassada, desde que a Seleção não esbarre nos próprios bloqueios.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: FIFA.com

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Nada é para sempre

Houve um tempo em que a Copa do Mundo era o oráculo do futebol. Ditava tendências táticas, elegia os mitos da bola, encerrava ciclos vitoriosos. Atualmente, num mundo globalizado, onde as grandes ligas nacionais e a UEFA Champions League reúnem os maiores craques do planeta, o mais correto talvez seja dizer que a Copa consolida o que esse esporte tem de mais interessante. Dos efeitos devastadores que o fim de uma temporada pode causar nos jogadores até a capacidade de superação das maiores estrelas. Paralelamente, ainda nos brinda com uma inigualável comunhão entre os povos. E algo assim não tem preço.
Dentro de campo, o Mundial de 2014 vem tratando de desmistificar o establishment tático ao trazer de volta sistemas outrora considerados superados pelos especialistas. Carlos Alberto Parreira, coordenador técnico da Seleção Brasileira, costuma dizer que não há mais nada a ser inventado no futebol, mas talvez possamos falar em reciclagem de velhos esquemas. É exatamente o que a Holanda vem fazendo em nossos gramados. Organizada em num 5-3-2 – que pode variar para 3-5-2 ou 3-4-3 – a Orange tem desafiado a lógica desses sistemas ao não apenas conceder poucas oportunidades como também marcar muitos gols. Foram dez apenas na primeira fase, dois a mais do que a Espanha anotou em toda sua campanha vitoriosa em 2010. Tal estilo foi nomeado pelo técnico Louis van Gaal de reaction football, ou seja, a reação de uma equipe ao que a outra se propõe a fazer com a bola. Não é preciso ser um gênio para saber o que os holandeses, ofensivistas por natureza, estão pensando da novidade.
O fato é que esta Holanda, mesmo sem contar com uma brilhante geração, se classificou na primeira colocação do grupo B deixando a Espanha pelo caminho tendo, inclusive, aplicado um sonoro 5 a 1 na Roja. Um resultado chocante que se tornou o prenúncio da eliminação da atual campeã quando esta também caiu diante do Chile, sempre vendo seus rivais imprimirem um ritmo que nem de longe poderia equiparar. Um declínio que pode ser visto como o ocaso de uma geração que conquistou duas Eurocopas e um Mundial apresentando um futebol técnico e, sobretudo, coletivo, uma marca da competição realizada na África do Sul.
Curiosamente, o que parecia ser uma tendência nos jogos de seleções não vem se confirmando agora. Se há quatro anos o Mundial ficou marcado pela força do coletivo suplantando ou anulando as individualidades, agora estamos vendo selecionados sendo orientados de forma a dar liberdade para que os craques decidam os confrontos. O Brasil de Neymar, a Argentina de Messi e a Holanda que trabalha para liberar Robben por mais faixas do gramado são bons exemplos. O que não significa que o coletivo tenha perdido o seu valor, algo que Chile, Estados Unidos e Costa Rica tratam de desmentir categoricamente, confirmando apenas que não existe verdade absoluta no futebol. Ainda bem.
Fotos: Sky Sports e Getty Images

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ninguém disse que seria fácil


Antes do início da Copa, o técnico Luiz Felipe Scolari e o coordenador Carlos Alberto Parreira foram taxativos ao colocar o Brasil como candidato ao título mundial. Naquele momento, eles sabiam que era importante deixar claro para todos, jogadores inclusos, que a Seleção Brasileira tinha essa meta e que seria capaz de alcançá-la. Obviamente, ali estava uma declaração que era muito mais a marcação de uma posição do que uma bravata. Contudo, faltou dizer que não seria fácil.

Durante o primeiro tempo da partida contra Camarões, a equipe de Felipão apresentou o velho problema que a acompanha desde a Copa das Confederações: Sem a presença de armadores natos, o time resumia grande parte de seu repertório aos lançamentos longos dos zagueiros para Hulk e Neymar. O meio-campo inexistia na fase ofensiva, salvo por momentos em que Oscar recuperava a bola e tentava acionar os companheiros de frente. Paulinho, muito mais um volante de infiltração do que meia, pouco se apresentava para fazer com que a transição acontecesse de forma mais “limpa”.

A insistência do técnico com o jogador do Tottenham baseava-se na confiança no trabalho realizado há um ano, quando Paulinho foi um dos destaques da conquista intercontinental. Retirá-lo na primeira ou segunda partida significaria queimar um nome que foi muito útil no passado e que poderia sê-lo no futuro. Sendo assim, todas as chances foram dadas, mas Paulinho não correspondeu. Agora chegou a vez de Fernandinho. Mais rápido, mais passador e com boa finalização de fora da área, o volante do Manchester City fez em 45 minutos o que o companheiro não havia conseguido até então. Dentro de uma normalidade, será titular diante do Chile.

Sofrimento à parte, a classificação brasileira se deu em primeiro lugar como era esperado. E dentro das características das seleções do grupo B, o Chile é o adversário que mais se encaixa nas virtudes do Brasil. A Holanda, ao contrário, manteria sua atual estratégia de se postar na defesa e explorar os avanços de Robben nas costas dos instáveis Daniel Alves e Marcelo. Sem dúvida, um perigo maior. Por sua vez, o Chile sai mais para o jogo, tem uma defesa que sofre quando pressionada e, sobretudo, apresenta fragilidade nas jogadas aéreas.

No entanto, coletivamente, ninguém está jogando mais do que a equipe comandada pelo argentino Jorge Sampaoli. Para a desconfiança de alguns – o colunista entre eles – Scolari chegou a dizer que o rival sul-americano era aquele que mais o preocupava dentre as combinações de oitavas de final. Se for verdade ou apenas jogo de cena para esconder a preferência por um oponente mais abordável, não se sabe. De qualquer modo, Felipão nunca disse que seria fácil.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Reuters

terça-feira, 17 de junho de 2014

Empate amargo


A animada torcida mexicana que ajudou a lotar o Castelão teve motivos para festejar. Durante boa parte da partida, viu sua equipe ser superior à Seleção Brasileira levando sustos à meta de Júlio César. Por outro lado, também torceu muito por seu goleiro Ochoa que viveu tarde inspirada e se tornou o principal responsável pelo zero a zero final. Com o resultado, o México divide a liderança do grupo com o Brasil e agora decide a classificação diante da Croácia.

Por sua vez, Luiz Felipe Scolari deveria ter muito a refletir. Embora sua Seleção não tenha mostrado o nervosismo da estreia, deixou de mostrar futebol. O meio-campo, fundamentalmente na figura de Paulinho, não conseguiu controlar o jogo e em diversos momentos parecia esvaziado. Para piorar, todas as alterações realizadas pelo técnico não indicavam que havia ciência desse problema. Primeiro, trocou Ramires, pendurado por um cartão amarelo, por Bernard. Depois, imaginou que Jô poderia desempenhar melhor o papel de pivô que Fred não conseguiu. Por fim, trocou um meia por outro ao substituir Oscar por Willian.

Turrão como lhe é peculiar, Scolari disse na coletiva pós-jogo que viu evolução desde a estreia e que os torcedores muitas vezes esquecem que há um adversário do outro lado e que este jogou bem. Pelo menos em parte, o treinador tem razão. O time de Miguel Herrera conseguiu neutralizar as principais jogadas da Seleção contendo as arrancadas de Neymar e isolando Fred totalmente. Todavia, o treinador brasileiro ignorou, pelo menos diante dos microfones, a incapacidade do seu meio-campo de gerar jogo. E isso com Fernandinho e Hernanes no banco. Se não havia a intenção de ter reservas capazes de qualificar a organização das jogadas, por que convocar dois atletas com essas características?

Não saberemos a resposta dessa pergunta, pois ela simplesmente não foi feita na coletiva. No entanto, tivemos pistas de que os titulares estão mantidos para a partida diante de Camarões, possivelmente com o retorno de Hulk. É a convicção de um técnico que não parece interessado em observações externas. Só resta torcer para que ele não morra abraçado com ela.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Mike Blake/Reuters

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O emocional como maior adversário


Como esperado, a estreia brasileira na Copa do Mundo foi uma partida complicada. O choro de alguns jogadores da Seleção e a perceptível emoção estampada nos rostos de todos indicavam que o time começaria com os nervos à flor da pele. E foi o que aconteceu. Oscar, o melhor em campo dentro dos noventa minutos, começou disperso e perdeu duas bolas que originaram contra-ataques perigosos da Croácia. Num deles surgiu o gol contra de Marcelo. Ainda no lance que abriu o placar, Daniel Alves tentou, inexplicavelmente, pressionar o goleiro Pletikosa e acabou deixando um imenso vazio na lateral direita que o atacante Olic soube aproveitar bem.

E foi exatamente após o gol croata que surgiu o pior adversário do jogo: Dominar o próprio emocional e buscar a reação. Marcelo mostrou logo que não se intimidaria e exibiu uma raça incomum até mesmo para ele. Oscar, que estava desaparecido, ressurgiu para uma das maiores exibições de sua carreira, atuando com destaque nos desarmes, na armação de jogadas e também nas conclusões. Por sua vez, Neymar assumiu a responsabilidade de ser o protagonista da Seleção Brasileira e materializou isso no chute imprevisível que igualou o marcador e na cobrança do pênalti incorretamente assinalado.

No geral, é possível dizer que o time respondeu bem a uma situação adversa. Há um pouco de ingenuidade em esperar que esta Seleção Brasileira coloque ordem na casa trocando passes como faria a Espanha, por exemplo. Não é o DNA deste time. E nem do futebol brasileiro atual. Durante anos, formamos jogadores que combinam habilidade com velocidade e isso não deve mudar por enquanto. Mesmo com 61% de posse, a resposta foi dada em forma de pressão, velocidade e verticalidade. E dificilmente seria diferente disso.

Coletivamente, o grande dilema do Brasil no Mundial será controlar a volúpia que o faz pressionar os rivais no campo de ataque com a responsabilidade de não expor sua defesa. Uma marcação que gerou apenas cinco faltas, o que é positivo, mas que também cedeu espaços preocupantes. Como a estreia ficou para trás e os três pontos foram somados, espera-se uma Seleção mais segura e inteligente no segundo duelo diante do México e que as adversidades sejam apenas as impostas pelos comandados do técnico Miguel Herrera.   
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Marcos Ribolli/Globo Esporte

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A difícil estreia

Um dos maiores clichês do futebol diz respeito aos jogos de estreia em Copas do Mundo. Nove em cada dez treinadores possivelmente dirão que o primeiro desafio do torneio é sempre o mais difícil por todos os elementos que o envolvem: A tensão de colocar em prática tudo o que foi treinado na preparação, a ansiedade dos jogadores, a necessidade de começar com vitória para não depender tanto dos outros jogos para se classificar, a recepção da torcida local e outros fatores fazem da estreia um evento singular num Mundial. Contudo, no caso específico da Seleção Brasileira, essa máxima é mais do que verdadeira.
A Croácia, além do simples fato de ser o primeiro adversário, é o rival mais complicado do grupo A. Em recente entrevista publicadano blog do jornalista Paulo Vinícius Coelho, o técnico dos croatas em 1998, o bósnio Miroslav Blazevic foi enfático ao dizer que seu ex-time não vai perder para o anfitrião. Para tanto, apoia sua opinião na tese de que a Croácia possui o melhor meio-campo da competição. Composto por Modric, Kovacic e Rakitic, é justo dizer que Blazevic apontou o setor que mais se destaca na equipe comandada por Niko Kovac. No entanto, é cedo para classificá-la de forma tão definitiva.
Ao contrário do que se imagina, o amistoso contra a Sérvia não simula o que será encontrado diante da Croácia. Os sérvios, que não estarão na Copa, têm um time mais físico, embora menos talentoso, e isso criou muita dificuldade para os principais criadores do Brasil. No gramado pesado e castigado do Morumbi, enfrentar a fração sérvia da velha Iugoslávia foi muito mais um risco à integridade física dos atletas do que uma simulação do que será visto na Arena Corinthians.
Com os nomes que possui, espera-se uma Croácia tentando ficar com a bola nos pés. Essa característica pode dar ao Brasil a oportunidade de pôr em prática sua maior qualidade: recuperar a posse no campo de ataque e utilizar a velocidade para chegar ao gol. Por outro lado, podemos ver um adversário capaz de controlar o jogo no meio e criar um desconforto que a Sérvia não foi capaz, gerando um cenário complicado num confronto sediado numa cidade conhecida por sua pouca tolerância com o time canarinho. Mas quem disse que estreia é fácil?
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Foto: Getty Images

domingo, 1 de junho de 2014

Sete jogos para a história

O genial Diego Maradona costuma dizer que antes da Copa de 1986 não estava entre os mais cotados para ser o melhor daquele Mundial. Segundo o argentino, Michel Platini, Zico e outros estavam acima dele na preferência geral. Naquele período, Maradona buscava reerguer sua carreira no Napoli após uma desgastante passagem pelo Barcelona. O restante desta história, todos conhecem.
Neymar não fez uma boa temporada pelo Barça. O próprio time catalão não foi bem neste certame, é justo dizer. Mesmo assim, o atacante brasileiro ficou devendo, até pelos valores que envolveram sua contratação junto ao Santos. Vale lembrar as lesões sofridas durante sua nova jornada na Espanha, mas certamente se esperava mais dele.
Confortável na condição de principal nome da Seleção Brasileira, Neymar vem sendo um dos destaques nos treinamentos da equipe de Scolari. Com mais liberdade para se movimentar em comparação com seu posicionamento no Barça, o camisa 10 tem conseguido realizar boas jogadas e marcar gols de rara categoria. Dentro das variações previstas pelo técnico, Neymar pode deixar a ponta esquerda e se posicionar atrás de Fred, como um autêntico ponta-de-lança, fazendo jus ao número que carrega e com a possibilidade de jogar de frente para o gol.
Em termos de desgaste físico, o jogador também não tem do que se queixar. Além dos períodos em que esteve entregue ao departamento médico do Barcelona, foi substituído ou saiu do banco de reservas em diversas ocasiões. E com o esmero de Paulo Paixão na preparação física, é praticamente certo que gás não lhe faltará. Em contrapartida, seus principais rivais pelo trono, Messi e Cristiano Ronaldo, devem chegar ao Brasil longe de suas melhores formas.
Obviamente, Neymar não é Maradona. Não se espera que ele, aos 22 anos, carregue um selecionado nas costas como El Pibe fez em seu auge. Todavia, não restam dúvidas de que se trata de um jogador precioso e que tem um horizonte propício para realizar uma excelente Copa, quem sabe até com o título. Caso isso aconteça, poucos se lembrarão da temporada apagada na Europa quando estiverem votando no melhor do mundo em 2014.     
Coluna escrita originalmente para o site Doentespor Futebol.
Imagem: Jefferson Bernardes/VIPCOMM

domingo, 25 de maio de 2014

Contagem Regressiva: Maio de 2014

Para um fanático por futebol, a Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Vai ter Copa, mas não como gostaríamos
A última edição da coluna “Contagem Regressiva” abre mão de analisar o apronto final das 32 seleções que disputarão o Mundial e viaja ao passado. Quando o Brasil foi anunciado em 2007 como o país-sede da Copa do Mundo de 2014 havia a promessa e a realidade. Promessas de um torneio custeado por recursos privados que se somariam a recursos oriundos de parcerias público-privadas e deixariam um imenso legado para as cidades-sede como melhorias nos aeroportos, no transporte urbano, na rede hoteleira e nas estruturas anexas aos novos estádios. Mesmo com um olhar desconfiado, era impossível que um fanático por futebol não se empolgasse com a ideia de um evento tão grandioso em seu território e ainda mais com os benefícios dos legados.
Infelizmente, a realidade não demorou a surgir no horizonte. Assim como o malfadado Pan-Americano do Rio de Janeiro, foi se tornando cada vez mais evidente que os verdadeiros legados seriam apenas as novas arenas construídas ou reformadas para a Copa. No entanto, a oportunidade inerente de se fomentar o futebol em estados como Amazonas, Mato Grosso e Distrito Federal não passou de um sonho. Com isso, salvo por esporádicas visitas de grandes equipes brasileiras, é muito provável que os estádios de Manaus, Cuiabá e Brasília se tornem pesados elefantes brancos.
Há, contudo, a necessidade de se distinguir o que de fato existe em relação aos gastos públicos envolvidos nesse processo e o que não passa de desinformação. Ao contrário do que se diz, os recursos financeiros investidos não vão “quebrar o País”. Há alguns dias, a Folha de São Paulo publicou uma matéria indicando que os investimentos naCopa (aproximadamente R$ 26 bilhões) equivalem a um mês de gastos com educação. Além disso, dentro desse montante encontram-se os valores referentes aos empréstimos do BNDES que deverão ressarcidos. Paralelamente, também haverá o retorno desses investimentos com a movimentação de inúmeros setores de nossa economia, onde estudos apontam cifras que giram entre 142 e 183 milhões de reais. Obviamente, apesar o otimismo nas projeções, é evidente que haverá retorno.
Mas a questão central não é essa. Ou melhor, não deveria ser essa. O Brasil teve em suas mãos a maior oportunidade de sua história para fazer algo extremamente relevante para sua infraestrutura e seu futebol. Em termos estruturais, começam a surgir informações mais concretas do que todos desconfiavam. Um relatóriopreliminar do Tribunal de Contas do Distrito Federal indicou um sobrepreço deR$ 431 milhões na reforma do Mané Garrincha, o estádio mais caro do Mundial. Porém, também por pressão política, tais investigações não foram para frente e ficaram apenas no âmbito do edital da obra.
No que tange o esporte, tivemos a chance de organizar um calendário mais racional, de traçar projetos que estimulassem o futebol nas regiões onde o esporte não é tão desenvolvido e ainda apresentar à população estádios adaptados aos novos tempos e demandas. De tudo isso, somente as arenas estão presentes. No entanto, sem a contrapartida de ações que reaproximassem o público dos campos, sobretudo da população menos favorecida, o objetivo final não foi alcançado. Numa declaração bastante infeliz, o coordenador técnico da Seleção, Carlos AlbertoParreira, definiu a CBF como o “Brasil que dá certo”. Depende do ponto de vista. No que diz respeito ao faturamento da entidade, sem dúvida é um sucesso. Para o futebol brasileiro ela continua dando errado. E há muito tempo.   
Imagem: Página do Partido dos Trabalhadores

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Contra um novo Maracanazo

Em recenteentrevista ao Globo Esporte sobre o livro “É Tetra!”, fui perguntado se considerava a pressão que a Seleção Brasileira sofrerá neste Mundial equivalente ao que passou em 1994 quando enfrentava o incômodo jejum de 24 anos sem um título mundial. Na ocasião, sem contar com muito tempo para processar o questionamento, respondi que eram pressões semelhantes em circunstâncias diferentes. Se há 20 anos o panorama econômico era caótico e o grande ídolo Ayrton Senna partia, agora temos uma população indignada com os gigantescos gastos nos estádios da Copa e o fantasma de perder uma competição dentro de casa.
Circunstâncias diferentes e, por que não dizer, pressões diferentes. Carlos Alberto Parreira e seus comandados embarcaram para os Estados Unidos com um fardo esportivo que não era inteiramente deles e, embora a vitória sobre o Uruguai em 1993 tenha mostrado um time consistente, não havia o favoritismo de outras ocasiões. Durante o início da caminhada rumo ao tetracampeonato, a imprensa internacional percebeu que ali havia um possível campeão bem antes da brasileira. Em caso de derrota, Parreira provavelmente seria execrado por uma suposta retranca, mas a vida seguiria sem maiores dramas.
Desta vez não. Uma derrota brasileira no torneio que se iniciará em breve pode ser o estopim de uma crise de grandes proporções. Seguindo a lógica cartesiana das massas, um fracasso potencializaria a sensação de que muito se gastou e nada se ganhou. E como teremos eleições poucos meses depois, quem está no poder irá se tornar o alvo mais provável. Para estes, bem mais importante do que ser a “Copa das Copas” é que não haja um novo Maracanazo. Caso aconteça, é provável que as urnas sejam o reflexo de uma conta que ninguém quer pagar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Agência Estado