quarta-feira, 9 de julho de 2014

Lições de uma tragédia


Há 15 anos, após conquistar sua segunda Copa América seguida, a Seleção Brasileira comandada por Vanderlei Luxemburgo abriu mão de suas principais estrelas e rumou para o México visando a disputa da Copa das Confederações. Na estreia, um baile de 4 a 0 sobre uma envelhecida Alemanha. Naquele momento, olhando para nós mesmos, demos pouca importância ao que acontecia do outro lado. Uma das maiores camisas do futebol se encontrava em sérios apuros. Por incrível que pareça, ainda chegaram à final do Mundial de 2002 amparados pela grande fase do meia Michael Ballack, do então jovem artilheiro Miroslav Klose e da muralha Oliver Kahn. Desta vez, perderam por um placar menos elástico para o mesmo Brasil, porém estava claro que alguma coisa precisava mudar.

E os alemães mudaram. O futebol de força que utilizava líbero e atuava de forma mais espaçada deu lugar a um futebol técnico, compacto, fluído e, sobretudo, coletivo. Os resultados voltaram a acontecer, os títulos ainda não, mas não restam muitas dúvidas de que o caminho tomado estava certo. Depois dos 7 a 1 sofridos pelo Brasil no Mineirão, a maior derrota de nossa história, é inevitável que a reflexão mude de lado. O perigo está em não identificar os problemas de forma correta, algo que um resultado tão massacrante pode induzir.

A primeira reação é apontar o dedo para o futebol praticado no País. Dirigentes corruptos, calendário absurdo, métodos de treinamento ultrapassados, tudo isso realmente existe e precisa ser sanado. No entanto, nem todas as respostas se encontram aí. Neste 8 de julho, nove jogadores que iniciaram a partida atuam em clubes europeus e são comandados pelos principais treinadores do planeta. Os outros dois, o goleiro Júlio César e o atacante Fred também militaram no Velho Continente. Portanto, falar em diferença entre o futebol praticado no Brasil e na Europa seria, pelo menos diretamente, um equívoco.

Antes de tudo, é preciso entender o que foi esta derrota. A maneira como ela aconteceu. Depois de um início onde a vontade era maior do que a organização, a Seleção Brasileira deu mostras de que pretendia encarar a Alemanha de frente. Marcelo chegou a finalizar com perigo e um duelo equilibrado parecia surgir. Até que a Seleção sofreu o primeiro gol. Talvez pela ausência de Neymar, sua principal referência, e quem sabe por não apresentar uma estrutura tática capaz de reagir, o Brasil sofreu mais um gol. A partir dali, os três gols subsequentes são resultado de uma equipe intensa e bem postada contra outra emocionalmente destruída. Com os 5 a 0, ao fim da etapa inicial estava claro que a eliminação estava sacramentada.

Não é por coincidência que as duas derrotas mais dolorosas da Seleção nos últimos tempos esbarraram justamente no aspecto psicológico que não encontrava respaldo na organização. Em 1998, na França, uma equipe desnorteada pela convulsão de Ronaldo e mal organizada em campo por Zagallo levou 3 a 0 dos donos da casa. Agora, um time que trazia consigo um crônico problema de transição e se ancorava em Neymar viu tudo ruir quando seu craque deixou a competição. Em ambos os casos, a falta de uma equipe coesa o bastante para trabalhar nas adversidades. Como escreveu o analista de desempenho do Grêmio, Eduardo Cecconi, não é possível prescindir de organização no futebol moderno. Isso vale para clubes e seleções. Que o próximo técnico do Brasil seja escolhido por critérios técnicos e táticos, mesmo que sabendo que o lado psicológico também é relevante. E que este último aspecto não funciona sem os primeiros.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lesão de Neymar expõe falhas na convocação

Poucas vezes uma convocação de Seleção Brasileira gerou tão pouca discussão como a do grupo escolhido por Luiz Felipe Scolari para a disputa da Copa do Mundo de 2014. Entre as ausências, a mais lamentada foi a de Miranda, um dos destaques do Atlético de Madrid na temporada recém-encerrada. Mesmo assim, o fato de o zagueiro ser apenas um potencial reserva da dupla formada por Thiago Silva e David Luiz serviu para atenuar os ânimos. Entre os jogadores presentes na lista, o versátil Henrique foi o mais questionado, tendo seu chamado condicionado quase que exclusivamente à confiança que recebe do técnico.

No entanto, alguns episódios ocorridos no Mundial têm indicado que as escolhas de Felipão talvez não tenham sido tão certeiras quanto se pensou. Da reserva de Luiz Gustavo à inoperância de Jô, passando pela pouca confiança em Hernanes e Bernard, as partidas mostraram um grupo que não oferece opções seguras para o Brasil. Quando o volante do Wolfsburg foi suspenso por ter recebido dois cartões amarelos, muitos se preocuparam com a possibilidade de Henrique – atuando como lateral direito no Napoli – jogar. No fim, o substituto Fernandinho cumpriu bem suas funções defensivas, ainda que suas características não incluíssem ser um terceiro zagueiro como a Seleção muitas vezes necessita. Naquele momento, este colunista se lembrou do já recuperado Lucas Leiva, volante preterido pelo subutilizado Hernanes.

No recente encontro de Scolari com alguns jornalistas, o treinador revelou que, se pudesse, substituiria um de seus atletas. Não disse quem, não disse por que e isso provocou uma onda de especulações. Ao contrário do que as poucas contestações iniciais possam sugerir, não faltam opções. Além de Henrique e Hernanes, Bernard e Jô poderiam ser trocados para que isso representasse um ganho para a Seleção. Admirado por seu comandante por sua “alegria nas pernas”, o meia-atacante não se firmou entre os titulares do Shakhtar Donetsk desde que deixou o Atlético Mineiro. Nesse período, Lucas Moura resgatou seu melhor futebol do Paris Saint-Germain e chamou a atenção por boas jogadas em altíssima velocidade em gramados franceses. Sem dúvida, uma arma que Felipão poderia usar contra o improvisado lateral esquerdo Höwedes no duelo Brasil x Alemanha.

Por sua vez, Jô daria lugar a um atacante de mais mobilidade que pudesse alterar a forma da equipe jogar. Aqui, cabe recordar Jonas, atacante do Valencia, que pode atuar tanto como segundo atacante, quanto no comando do ataque. Possivelmente, Diego Costa seria o nome ideal para essa mudança, mas como se sabe, o aríete ex-Atlético de Madrid, ao não se sentir prestigiado pelo técnico brasileiro, preferiu aceitar a oferta de Vicente Del Bosque para integrar a Seleção Espanhola.    


Porém, nada se compara ao cenário que se instalou quando a equipe médica que acompanhou Neymar ao Hospital São Carlos em Fortaleza anunciou que o atacante estava fora da Copa. Um clima de velório se abateu sobre o País pela perda do camisa 10, mas também pelo vazio na resposta sobre quem jogaria nesse caso. Até este momento, Willian é o mais cotado para a vaga, todavia, o meia do Chelsea não tem o peso necessário para diminuir o impacto da fatídica notícia. Se, por exemplo, Kaká estivesse no elenco, provavelmente recairia sobre ele a tarefa de substituir Neymar no esquema 4-4-1-1 atual. Com o experiente jogador em campo, mesmo longe do seu auge, haveria tanto um respeito maior dos adversários quanto uma diminuição da preocupação pela saída da maior referência do time. Contudo, dizem que Felipão preferiu contar com reservas que não provocassem clamor da torcida em situações difíceis. Infelizmente, neste momento, os gritos vindos das arquibancadas se tornaram o menor problema do técnico.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Foto: Getty Images

sábado, 5 de julho de 2014

Como substituir o insubstituível


A informação veio como um choque: Com uma fratura na terceira vértebra lombar, Neymar está fora da Copa do Mundo. Naquele momento, as comemorações pela classificação para a semifinal e a vitória sobre a Colômbia perderam parte do sentido. Justamente após a melhor apresentação brasileira no Mundial, o principal jogador da Seleção não estará presente no duelo contra a Alemanha e nem numa eventual final. Complicado mensurar o tamanho da perda.

Aos poucos, olhando para trás, surgem exemplos de como ausências de grandes jogadores foram superadas ou se tornaram fatais para suas equipes. Nesta Copa, o Uruguai provou desse desgosto ao perder o astro Luis Suárez suspenso. Com o atacante em campo, vitórias sobre Inglaterra e Itália. Sem o artilheiro do Liverpool, derrotas para a surpreendente Costa Rica e para a sensação Colômbia, o que resultou em eliminação. Indo mais longe, é histórica a maneira como o jovem Amarildo substituiu Pelé em 1962 ajudando o Brasil a conquistar seu segundo título.

Outra ausência que o técnico Luiz Felipe Scolari vai precisar contornar é a do capitão Thiago Silva. Com dois cartões amarelos, o zagueiro está fora da semifinal. No entanto, Dante, seu provável substituto, pode cumprir difícil missão. Defensor de bom nível, o atleta do Bayern de Munique está acostumado a enfrentar jogadores alemães na Bundesliga, além de conviver com diversos nomes da Nationalmannschaft em seu próprio clube. Vale lembrar que a Alemanha também lamenta a perda de Marco Reus, então seu melhor atacante, com a crucial diferença de contar com diversos jogadores que atuam pela mesma faixa do gramado. Talvez a melhor comparação com a perda de Neymar seja a do meio-campista Michael Ballack, desfalque na final de 2002 diante do mesmo Brasil, ainda que o goleiro Oliver Kahn fosse o mais badalado.

A princípio, Willian deve ser o escolhido para a vaga do camisa 10 brasileiro. O meia do Chelsea tem treinado na função e aproveita o entrosamento com o companheiro Oscar. Com a alteração, a Seleção Brasileira deve perder em profundidade ofensiva, porém, pode ver seu meio-campo, setor mais preocupante no Mundial, se encorpando mais. Com o retorno do volante Luiz Gustavo, Felipão também dispõe da opção de tornar o time mais físico para combater o forte trio formado por Khedira, Schweinsteiger e Kroos. Seja qual for o escolhido, o certo é que a Seleção terá onze jogadores em campo na próxima terça-feira, ainda que num primeiro instante a sensação seja a de que perdeu meio time.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Eitan Abramovich/AFP

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Quando o cérebro dá lugar ao fígado

Não saberia precisar em que momento a boa relação entre Seleção Brasileira e imprensa esportiva se rompeu. Talvez tenha sido após a evolução dos próprios meios de comunicação, quando o número de jornalistas cobrindo o escrete canarinho aumentou a tal ponto que a velha resenha com treinadores e atletas deixou de ser possível ou tão frequente, tornando a relação mais fria. Ou com a chegada de Ricardo Teixeira ao comando da CBF, um dirigente que sempre puniu com distanciamento quem ousava criticar ou investigar os atos de sua gestão. Quem sabe, a origem esteja no histórico Manifesto de Glasgow, documento redigido pelos jogadores brasileiros em junho de 1973 que expressava descontentamento com notícias que julgavam ser falsas.

O fato é que a relação não é boa. Isso se reflete nos comentários, na cobertura diária das principais competições, na análise de desempenho e, sobretudo, na cobrança por resultados. Logicamente, não se espera que a pressão por bom futebol seja amena num selecionado cinco vezes campeão mundial. O parâmetro estabelecido como ótimo passou a ser as seleções de 1970 ou 1982, obviamente, sem os problemas defensivos da última e com o tom turvo da memória afetiva. Tudo o que se fez depois disso parece insuficiente ou enfadonho, mesmo que os números não digam o mesmo.


É consenso que a Seleção comandada por Luiz Felipe Scolari não atravessa um bom momento. O crônico problema na saída de bola e da ligação direta persiste e foi potencializado pela pressão de se disputar um Mundial em casa. Sem dúvida, uma combinação perigosa que vem colocando em risco a permanência brasileira na competição. Paralelamente, outros postulantes ao título também enfrentam problemas de outra natureza e, até agora, ninguém desponta como grande favorito. Um bom exemplo é a Alemanha e seu quarteto de centrais na primeira linha e a forma kamikaze como enfrentaram – e quase foram eliminados – pela Argélia. Fosse com o Brasil, muita gente teria arrancado os cabelos.

A questão central não é reconhecer os defeitos da Seleção Brasileira. E nem observar com mais critério o que se passa do lado de lá. Isso deveria ser obrigatório para quem se propõe a trabalhar com futebol. A questão é a maneira como uma grande parcela da imprensa brasileira lida com a Seleção. Passa longe de ser o “jogar junto” erroneamente sugerido nesta semana por Felipão, mas não deveria ser a maneira quase colérica como alguns se comportam. Se a paixão deveria ficar de fora como prega a imparcialidade, o ódio também deveria. Talvez substituído por uma boa análise estatística das partidas. Mas creio que aí já é querer demais.


Imagem: Ari Ferreira/LANCE! Press

sábado, 28 de junho de 2014

No sufoco


Quando Luiz Felipe Scolari apontou o Chile como o adversário mais difícil para o Brasil numa eventual disputa de oitavas de final, muitos acharam graça. Quem sabe, uma estratégia do experiente treinador. Este colunista entendia que o estilo do rival sul-americano era o que melhor se encaixava com o tipo de futebol que a Seleção Brasileira pratica. Talvez fosse a forte lembrança da equipe comandada por Marcelo Bielsa que partia para o ataque e oferecia espaços para contragolpes. Não foi o que se viu no Mineirão na tarde de hoje. Mais do que nunca, o time de Jorge Sampaoli foi um duro oponente, somente batido nos pênaltis.

As estatísticas dizem que a Seleção Brasileira teve um aproveitamento de apenas 68% nos passes. O pior desempenho nesse fundamento desde o Mundial de 1966. Um reflexo de que a entrada de Fernandinho no time não foi suficiente para resolver o crônico problema da saída de bola, algo que, logicamente, não se resolveria de uma hora para outra, já que existe uma forma estabelecida de jogar e isso dificilmente mudará sem muitos treinos. Outra estatística, esta quase ignorada, foram as de finalizações. O Brasil concluiu 23 vezes contra a meta de Claudio Bravo, 13 no alvo. O Chile, mesmo com 51% de posse de bola, finalizou em 13 ocasiões, apenas cinco contra Júlio César. Numa delas, Alexis Sanchez empatou o jogo.

Números à parte, não se deve perder de vista a força do Chile que dominou a partida por um grande período e esteve a um travessão da vitória. Em outras oportunidades os comandados de Jorge Sampaoli enfrentaram selecionados tradicionais e também foram melhores. Como na derrota por 1 a 0 para a Alemanha num amistoso em Sttuttgart, quando os visitantes colocaram os germânicos em sérias dificuldades e saíram de campo aplaudidos. Ou, para ficar num exemplo mais recente, a categórica vitória que eliminou a campeã Espanha. Um estilo tão agressivo que fez com que o treinador holandês Louis van Gaal os classificasse como “fanáticos”.

Contudo, a constatação do poderio chileno não pode esconder que, além das dificuldades encontradas com a bola, a Seleção Brasileira também não se mostra emocionalmente estável. Possivelmente, o peso de disputar um Mundial em nossos domínios faz com que a pressão natural que um pentacampeão enfrenta a cada Copa seja ampliada ainda mais. E, ao que tudo indica, esse fardo se tornou pesado demais até para um grupo cuja maioria é composta por atletas acima dos 25 anos. Na próxima sexta-feira, o Brasil terá mais um desafio complicado ao se defrontar com a sensação Colômbia, dona do melhor desempenho defensivo e ofensivo do torneio. Uma barreira que pode ser ultrapassada, desde que a Seleção não esbarre nos próprios bloqueios.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: FIFA.com

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Nada é para sempre

Houve um tempo em que a Copa do Mundo era o oráculo do futebol. Ditava tendências táticas, elegia os mitos da bola, encerrava ciclos vitoriosos. Atualmente, num mundo globalizado, onde as grandes ligas nacionais e a UEFA Champions League reúnem os maiores craques do planeta, o mais correto talvez seja dizer que a Copa consolida o que esse esporte tem de mais interessante. Dos efeitos devastadores que o fim de uma temporada pode causar nos jogadores até a capacidade de superação das maiores estrelas. Paralelamente, ainda nos brinda com uma inigualável comunhão entre os povos. E algo assim não tem preço.
Dentro de campo, o Mundial de 2014 vem tratando de desmistificar o establishment tático ao trazer de volta sistemas outrora considerados superados pelos especialistas. Carlos Alberto Parreira, coordenador técnico da Seleção Brasileira, costuma dizer que não há mais nada a ser inventado no futebol, mas talvez possamos falar em reciclagem de velhos esquemas. É exatamente o que a Holanda vem fazendo em nossos gramados. Organizada em num 5-3-2 – que pode variar para 3-5-2 ou 3-4-3 – a Orange tem desafiado a lógica desses sistemas ao não apenas conceder poucas oportunidades como também marcar muitos gols. Foram dez apenas na primeira fase, dois a mais do que a Espanha anotou em toda sua campanha vitoriosa em 2010. Tal estilo foi nomeado pelo técnico Louis van Gaal de reaction football, ou seja, a reação de uma equipe ao que a outra se propõe a fazer com a bola. Não é preciso ser um gênio para saber o que os holandeses, ofensivistas por natureza, estão pensando da novidade.
O fato é que esta Holanda, mesmo sem contar com uma brilhante geração, se classificou na primeira colocação do grupo B deixando a Espanha pelo caminho tendo, inclusive, aplicado um sonoro 5 a 1 na Roja. Um resultado chocante que se tornou o prenúncio da eliminação da atual campeã quando esta também caiu diante do Chile, sempre vendo seus rivais imprimirem um ritmo que nem de longe poderia equiparar. Um declínio que pode ser visto como o ocaso de uma geração que conquistou duas Eurocopas e um Mundial apresentando um futebol técnico e, sobretudo, coletivo, uma marca da competição realizada na África do Sul.
Curiosamente, o que parecia ser uma tendência nos jogos de seleções não vem se confirmando agora. Se há quatro anos o Mundial ficou marcado pela força do coletivo suplantando ou anulando as individualidades, agora estamos vendo selecionados sendo orientados de forma a dar liberdade para que os craques decidam os confrontos. O Brasil de Neymar, a Argentina de Messi e a Holanda que trabalha para liberar Robben por mais faixas do gramado são bons exemplos. O que não significa que o coletivo tenha perdido o seu valor, algo que Chile, Estados Unidos e Costa Rica tratam de desmentir categoricamente, confirmando apenas que não existe verdade absoluta no futebol. Ainda bem.
Fotos: Sky Sports e Getty Images

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ninguém disse que seria fácil


Antes do início da Copa, o técnico Luiz Felipe Scolari e o coordenador Carlos Alberto Parreira foram taxativos ao colocar o Brasil como candidato ao título mundial. Naquele momento, eles sabiam que era importante deixar claro para todos, jogadores inclusos, que a Seleção Brasileira tinha essa meta e que seria capaz de alcançá-la. Obviamente, ali estava uma declaração que era muito mais a marcação de uma posição do que uma bravata. Contudo, faltou dizer que não seria fácil.

Durante o primeiro tempo da partida contra Camarões, a equipe de Felipão apresentou o velho problema que a acompanha desde a Copa das Confederações: Sem a presença de armadores natos, o time resumia grande parte de seu repertório aos lançamentos longos dos zagueiros para Hulk e Neymar. O meio-campo inexistia na fase ofensiva, salvo por momentos em que Oscar recuperava a bola e tentava acionar os companheiros de frente. Paulinho, muito mais um volante de infiltração do que meia, pouco se apresentava para fazer com que a transição acontecesse de forma mais “limpa”.

A insistência do técnico com o jogador do Tottenham baseava-se na confiança no trabalho realizado há um ano, quando Paulinho foi um dos destaques da conquista intercontinental. Retirá-lo na primeira ou segunda partida significaria queimar um nome que foi muito útil no passado e que poderia sê-lo no futuro. Sendo assim, todas as chances foram dadas, mas Paulinho não correspondeu. Agora chegou a vez de Fernandinho. Mais rápido, mais passador e com boa finalização de fora da área, o volante do Manchester City fez em 45 minutos o que o companheiro não havia conseguido até então. Dentro de uma normalidade, será titular diante do Chile.

Sofrimento à parte, a classificação brasileira se deu em primeiro lugar como era esperado. E dentro das características das seleções do grupo B, o Chile é o adversário que mais se encaixa nas virtudes do Brasil. A Holanda, ao contrário, manteria sua atual estratégia de se postar na defesa e explorar os avanços de Robben nas costas dos instáveis Daniel Alves e Marcelo. Sem dúvida, um perigo maior. Por sua vez, o Chile sai mais para o jogo, tem uma defesa que sofre quando pressionada e, sobretudo, apresenta fragilidade nas jogadas aéreas.

No entanto, coletivamente, ninguém está jogando mais do que a equipe comandada pelo argentino Jorge Sampaoli. Para a desconfiança de alguns – o colunista entre eles – Scolari chegou a dizer que o rival sul-americano era aquele que mais o preocupava dentre as combinações de oitavas de final. Se for verdade ou apenas jogo de cena para esconder a preferência por um oponente mais abordável, não se sabe. De qualquer modo, Felipão nunca disse que seria fácil.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Reuters

terça-feira, 17 de junho de 2014

Empate amargo


A animada torcida mexicana que ajudou a lotar o Castelão teve motivos para festejar. Durante boa parte da partida, viu sua equipe ser superior à Seleção Brasileira levando sustos à meta de Júlio César. Por outro lado, também torceu muito por seu goleiro Ochoa que viveu tarde inspirada e se tornou o principal responsável pelo zero a zero final. Com o resultado, o México divide a liderança do grupo com o Brasil e agora decide a classificação diante da Croácia.

Por sua vez, Luiz Felipe Scolari deveria ter muito a refletir. Embora sua Seleção não tenha mostrado o nervosismo da estreia, deixou de mostrar futebol. O meio-campo, fundamentalmente na figura de Paulinho, não conseguiu controlar o jogo e em diversos momentos parecia esvaziado. Para piorar, todas as alterações realizadas pelo técnico não indicavam que havia ciência desse problema. Primeiro, trocou Ramires, pendurado por um cartão amarelo, por Bernard. Depois, imaginou que Jô poderia desempenhar melhor o papel de pivô que Fred não conseguiu. Por fim, trocou um meia por outro ao substituir Oscar por Willian.

Turrão como lhe é peculiar, Scolari disse na coletiva pós-jogo que viu evolução desde a estreia e que os torcedores muitas vezes esquecem que há um adversário do outro lado e que este jogou bem. Pelo menos em parte, o treinador tem razão. O time de Miguel Herrera conseguiu neutralizar as principais jogadas da Seleção contendo as arrancadas de Neymar e isolando Fred totalmente. Todavia, o treinador brasileiro ignorou, pelo menos diante dos microfones, a incapacidade do seu meio-campo de gerar jogo. E isso com Fernandinho e Hernanes no banco. Se não havia a intenção de ter reservas capazes de qualificar a organização das jogadas, por que convocar dois atletas com essas características?

Não saberemos a resposta dessa pergunta, pois ela simplesmente não foi feita na coletiva. No entanto, tivemos pistas de que os titulares estão mantidos para a partida diante de Camarões, possivelmente com o retorno de Hulk. É a convicção de um técnico que não parece interessado em observações externas. Só resta torcer para que ele não morra abraçado com ela.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Mike Blake/Reuters

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O emocional como maior adversário


Como esperado, a estreia brasileira na Copa do Mundo foi uma partida complicada. O choro de alguns jogadores da Seleção e a perceptível emoção estampada nos rostos de todos indicavam que o time começaria com os nervos à flor da pele. E foi o que aconteceu. Oscar, o melhor em campo dentro dos noventa minutos, começou disperso e perdeu duas bolas que originaram contra-ataques perigosos da Croácia. Num deles surgiu o gol contra de Marcelo. Ainda no lance que abriu o placar, Daniel Alves tentou, inexplicavelmente, pressionar o goleiro Pletikosa e acabou deixando um imenso vazio na lateral direita que o atacante Olic soube aproveitar bem.

E foi exatamente após o gol croata que surgiu o pior adversário do jogo: Dominar o próprio emocional e buscar a reação. Marcelo mostrou logo que não se intimidaria e exibiu uma raça incomum até mesmo para ele. Oscar, que estava desaparecido, ressurgiu para uma das maiores exibições de sua carreira, atuando com destaque nos desarmes, na armação de jogadas e também nas conclusões. Por sua vez, Neymar assumiu a responsabilidade de ser o protagonista da Seleção Brasileira e materializou isso no chute imprevisível que igualou o marcador e na cobrança do pênalti incorretamente assinalado.

No geral, é possível dizer que o time respondeu bem a uma situação adversa. Há um pouco de ingenuidade em esperar que esta Seleção Brasileira coloque ordem na casa trocando passes como faria a Espanha, por exemplo. Não é o DNA deste time. E nem do futebol brasileiro atual. Durante anos, formamos jogadores que combinam habilidade com velocidade e isso não deve mudar por enquanto. Mesmo com 61% de posse, a resposta foi dada em forma de pressão, velocidade e verticalidade. E dificilmente seria diferente disso.

Coletivamente, o grande dilema do Brasil no Mundial será controlar a volúpia que o faz pressionar os rivais no campo de ataque com a responsabilidade de não expor sua defesa. Uma marcação que gerou apenas cinco faltas, o que é positivo, mas que também cedeu espaços preocupantes. Como a estreia ficou para trás e os três pontos foram somados, espera-se uma Seleção mais segura e inteligente no segundo duelo diante do México e que as adversidades sejam apenas as impostas pelos comandados do técnico Miguel Herrera.   
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Marcos Ribolli/Globo Esporte

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A difícil estreia

Um dos maiores clichês do futebol diz respeito aos jogos de estreia em Copas do Mundo. Nove em cada dez treinadores possivelmente dirão que o primeiro desafio do torneio é sempre o mais difícil por todos os elementos que o envolvem: A tensão de colocar em prática tudo o que foi treinado na preparação, a ansiedade dos jogadores, a necessidade de começar com vitória para não depender tanto dos outros jogos para se classificar, a recepção da torcida local e outros fatores fazem da estreia um evento singular num Mundial. Contudo, no caso específico da Seleção Brasileira, essa máxima é mais do que verdadeira.
A Croácia, além do simples fato de ser o primeiro adversário, é o rival mais complicado do grupo A. Em recente entrevista publicadano blog do jornalista Paulo Vinícius Coelho, o técnico dos croatas em 1998, o bósnio Miroslav Blazevic foi enfático ao dizer que seu ex-time não vai perder para o anfitrião. Para tanto, apoia sua opinião na tese de que a Croácia possui o melhor meio-campo da competição. Composto por Modric, Kovacic e Rakitic, é justo dizer que Blazevic apontou o setor que mais se destaca na equipe comandada por Niko Kovac. No entanto, é cedo para classificá-la de forma tão definitiva.
Ao contrário do que se imagina, o amistoso contra a Sérvia não simula o que será encontrado diante da Croácia. Os sérvios, que não estarão na Copa, têm um time mais físico, embora menos talentoso, e isso criou muita dificuldade para os principais criadores do Brasil. No gramado pesado e castigado do Morumbi, enfrentar a fração sérvia da velha Iugoslávia foi muito mais um risco à integridade física dos atletas do que uma simulação do que será visto na Arena Corinthians.
Com os nomes que possui, espera-se uma Croácia tentando ficar com a bola nos pés. Essa característica pode dar ao Brasil a oportunidade de pôr em prática sua maior qualidade: recuperar a posse no campo de ataque e utilizar a velocidade para chegar ao gol. Por outro lado, podemos ver um adversário capaz de controlar o jogo no meio e criar um desconforto que a Sérvia não foi capaz, gerando um cenário complicado num confronto sediado numa cidade conhecida por sua pouca tolerância com o time canarinho. Mas quem disse que estreia é fácil?
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Foto: Getty Images

domingo, 1 de junho de 2014

Sete jogos para a história

O genial Diego Maradona costuma dizer que antes da Copa de 1986 não estava entre os mais cotados para ser o melhor daquele Mundial. Segundo o argentino, Michel Platini, Zico e outros estavam acima dele na preferência geral. Naquele período, Maradona buscava reerguer sua carreira no Napoli após uma desgastante passagem pelo Barcelona. O restante desta história, todos conhecem.
Neymar não fez uma boa temporada pelo Barça. O próprio time catalão não foi bem neste certame, é justo dizer. Mesmo assim, o atacante brasileiro ficou devendo, até pelos valores que envolveram sua contratação junto ao Santos. Vale lembrar as lesões sofridas durante sua nova jornada na Espanha, mas certamente se esperava mais dele.
Confortável na condição de principal nome da Seleção Brasileira, Neymar vem sendo um dos destaques nos treinamentos da equipe de Scolari. Com mais liberdade para se movimentar em comparação com seu posicionamento no Barça, o camisa 10 tem conseguido realizar boas jogadas e marcar gols de rara categoria. Dentro das variações previstas pelo técnico, Neymar pode deixar a ponta esquerda e se posicionar atrás de Fred, como um autêntico ponta-de-lança, fazendo jus ao número que carrega e com a possibilidade de jogar de frente para o gol.
Em termos de desgaste físico, o jogador também não tem do que se queixar. Além dos períodos em que esteve entregue ao departamento médico do Barcelona, foi substituído ou saiu do banco de reservas em diversas ocasiões. E com o esmero de Paulo Paixão na preparação física, é praticamente certo que gás não lhe faltará. Em contrapartida, seus principais rivais pelo trono, Messi e Cristiano Ronaldo, devem chegar ao Brasil longe de suas melhores formas.
Obviamente, Neymar não é Maradona. Não se espera que ele, aos 22 anos, carregue um selecionado nas costas como El Pibe fez em seu auge. Todavia, não restam dúvidas de que se trata de um jogador precioso e que tem um horizonte propício para realizar uma excelente Copa, quem sabe até com o título. Caso isso aconteça, poucos se lembrarão da temporada apagada na Europa quando estiverem votando no melhor do mundo em 2014.     
Coluna escrita originalmente para o site Doentespor Futebol.
Imagem: Jefferson Bernardes/VIPCOMM

domingo, 25 de maio de 2014

Contagem Regressiva: Maio de 2014

Para um fanático por futebol, a Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Vai ter Copa, mas não como gostaríamos
A última edição da coluna “Contagem Regressiva” abre mão de analisar o apronto final das 32 seleções que disputarão o Mundial e viaja ao passado. Quando o Brasil foi anunciado em 2007 como o país-sede da Copa do Mundo de 2014 havia a promessa e a realidade. Promessas de um torneio custeado por recursos privados que se somariam a recursos oriundos de parcerias público-privadas e deixariam um imenso legado para as cidades-sede como melhorias nos aeroportos, no transporte urbano, na rede hoteleira e nas estruturas anexas aos novos estádios. Mesmo com um olhar desconfiado, era impossível que um fanático por futebol não se empolgasse com a ideia de um evento tão grandioso em seu território e ainda mais com os benefícios dos legados.
Infelizmente, a realidade não demorou a surgir no horizonte. Assim como o malfadado Pan-Americano do Rio de Janeiro, foi se tornando cada vez mais evidente que os verdadeiros legados seriam apenas as novas arenas construídas ou reformadas para a Copa. No entanto, a oportunidade inerente de se fomentar o futebol em estados como Amazonas, Mato Grosso e Distrito Federal não passou de um sonho. Com isso, salvo por esporádicas visitas de grandes equipes brasileiras, é muito provável que os estádios de Manaus, Cuiabá e Brasília se tornem pesados elefantes brancos.
Há, contudo, a necessidade de se distinguir o que de fato existe em relação aos gastos públicos envolvidos nesse processo e o que não passa de desinformação. Ao contrário do que se diz, os recursos financeiros investidos não vão “quebrar o País”. Há alguns dias, a Folha de São Paulo publicou uma matéria indicando que os investimentos naCopa (aproximadamente R$ 26 bilhões) equivalem a um mês de gastos com educação. Além disso, dentro desse montante encontram-se os valores referentes aos empréstimos do BNDES que deverão ressarcidos. Paralelamente, também haverá o retorno desses investimentos com a movimentação de inúmeros setores de nossa economia, onde estudos apontam cifras que giram entre 142 e 183 milhões de reais. Obviamente, apesar o otimismo nas projeções, é evidente que haverá retorno.
Mas a questão central não é essa. Ou melhor, não deveria ser essa. O Brasil teve em suas mãos a maior oportunidade de sua história para fazer algo extremamente relevante para sua infraestrutura e seu futebol. Em termos estruturais, começam a surgir informações mais concretas do que todos desconfiavam. Um relatóriopreliminar do Tribunal de Contas do Distrito Federal indicou um sobrepreço deR$ 431 milhões na reforma do Mané Garrincha, o estádio mais caro do Mundial. Porém, também por pressão política, tais investigações não foram para frente e ficaram apenas no âmbito do edital da obra.
No que tange o esporte, tivemos a chance de organizar um calendário mais racional, de traçar projetos que estimulassem o futebol nas regiões onde o esporte não é tão desenvolvido e ainda apresentar à população estádios adaptados aos novos tempos e demandas. De tudo isso, somente as arenas estão presentes. No entanto, sem a contrapartida de ações que reaproximassem o público dos campos, sobretudo da população menos favorecida, o objetivo final não foi alcançado. Numa declaração bastante infeliz, o coordenador técnico da Seleção, Carlos AlbertoParreira, definiu a CBF como o “Brasil que dá certo”. Depende do ponto de vista. No que diz respeito ao faturamento da entidade, sem dúvida é um sucesso. Para o futebol brasileiro ela continua dando errado. E há muito tempo.   
Imagem: Página do Partido dos Trabalhadores

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Contra um novo Maracanazo

Em recenteentrevista ao Globo Esporte sobre o livro “É Tetra!”, fui perguntado se considerava a pressão que a Seleção Brasileira sofrerá neste Mundial equivalente ao que passou em 1994 quando enfrentava o incômodo jejum de 24 anos sem um título mundial. Na ocasião, sem contar com muito tempo para processar o questionamento, respondi que eram pressões semelhantes em circunstâncias diferentes. Se há 20 anos o panorama econômico era caótico e o grande ídolo Ayrton Senna partia, agora temos uma população indignada com os gigantescos gastos nos estádios da Copa e o fantasma de perder uma competição dentro de casa.
Circunstâncias diferentes e, por que não dizer, pressões diferentes. Carlos Alberto Parreira e seus comandados embarcaram para os Estados Unidos com um fardo esportivo que não era inteiramente deles e, embora a vitória sobre o Uruguai em 1993 tenha mostrado um time consistente, não havia o favoritismo de outras ocasiões. Durante o início da caminhada rumo ao tetracampeonato, a imprensa internacional percebeu que ali havia um possível campeão bem antes da brasileira. Em caso de derrota, Parreira provavelmente seria execrado por uma suposta retranca, mas a vida seguiria sem maiores dramas.
Desta vez não. Uma derrota brasileira no torneio que se iniciará em breve pode ser o estopim de uma crise de grandes proporções. Seguindo a lógica cartesiana das massas, um fracasso potencializaria a sensação de que muito se gastou e nada se ganhou. E como teremos eleições poucos meses depois, quem está no poder irá se tornar o alvo mais provável. Para estes, bem mais importante do que ser a “Copa das Copas” é que não haja um novo Maracanazo. Caso aconteça, é provável que as urnas sejam o reflexo de uma conta que ninguém quer pagar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Agência Estado

domingo, 11 de maio de 2014

Analisando a convocação

Antes de mais nada, este colunista se desculpa pelos três equívocos na tentativa de prever os 23 convocados para a Copa do Mundo. A briga entre os goleiros Diego Cavalieri e Victor era equilibrada e é bem provável que o bom momento do arqueiro atleticano tenha pesado na escolha. Contra Hernanes pesava o fato de a Seleção Brasileira contar com três jogadores (Paulinho, Fernandinho e Ramires) que podem cumprir funções parecidas. Quanto a Henrique, só a preferência pessoal do técnico Luiz Felipe Scolari pode explicar o chamado de um zagueiro que está bem abaixo de outros. Se não havia confiança em Miranda, que levasse Marquinhos com o intuito de fazê-lo adquirir experiência para competições futuras.
Ressalvas feitas, cabe analisar o grupo escolhido para tentar o hexacampeonato. Em princípio, o time titular para o início da Copa deve ser o mesmo da Copa das Confederações com Júlio César; Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Paulinho e Luiz Gustavo; Hulk, Oscar e Neymar; Fred. Se o Brasil não terá sua melhor seleção em 100 anos de história, pelo menos é possível constatar que o onze escalado acima tem condições de ser campeão se conseguir repetir a intensidade mostrada há um ano e se contar com o fator casa mais uma vez. E, claro, se Neymar estiver bem.
Se o onze inicial não deve ser modificado, o mesmo não pode ser dito dos reservas. Do grupo campeão em 2013 nada menos do que sete nomes ficaram pelo caminho. Em outras palavras, em caso de fracasso no Mundial, a tese do apego ao elenco vencedor não deveria ser usada. Victor, Maicon, Henrique, Maxwell, Ramires, Fernandinho e Willian são jogadores que ganharam espaço nos últimos meses e, num primeiro momento, é possível dizer que a Seleção se reforça com a presença deles. Willian, inclusive, terminou a temporada em grande forma no Chelsea e tem boas chances de ganhar espaço durante os treinamentos. Como pode atuar em várias posições, Oscar e Hulk deveriam se cuidar.
Taticamente, o time deve variar do 4-2-3-1 para o 4-3-3, com Hernanes entrando no meio, ou até 4-4-2 com Neymar se juntando a Fred no comando do ataque. Nesta formação, o problema da marcação pelo lado esquerdo pode ser solucionado com Oscar ou Willian dando suporte a Marcelo. Seja como for, Felipão leva consigo opções melhores do que Dunga teve em 2010. Se isso será suficiente, só saberemos quando a bola rolar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Vanderlei Almeida/AFP

domingo, 4 de maio de 2014

Conheça os 23 convocados de Felipão (Ou quase)

Na próxima quarta-feira, Luiz Felipe Scolari vai convocar os 23 jogadores que defenderão a Seleção Brasileira no Mundial. Como o próprio técnico tem feito questão de salientar, quem acompanhou suas convocações tem condições de apontar quase todos os nomes. Para facilitar, Felipão antecipou alguns em pílulas nos últimos meses e confirmou outros tantos recentemente. Todos sabem que Júlio César deve ser o goleiro, independentemente de atuar na MLS, que Neymar e Fred estarão presentes e que Thiago Silva será o capitão. Agora também temos ciência de que David Luiz, Ramires, Oscar, Willian e Paulinho estarão dentro. Então, quais são os outros?
Daniel Alves e Marcelo são os titulares das laterais. Assim como Luiz Gustavo é o provável camisa 5, o tão contestado Hulk deve ser o responsável pela faixa direita do ataque brasileiro. Entre os reservas, o goleiro Jefferson, o zagueiro Dante, o lateral Maxwell, o volante Fernandinho e os atacantes Bernard e Jô dificilmente não serão chamados. Com isso, temos 19 atletas entre confirmados e prováveis. Os outros tentaremos desvendar mediante as últimas convocações e as pistas deixadas pelo caminho.
Para a reserva de Daniel, o mais certo é que Maicon seja o escolhido, com Rafinha correndo por fora. Para o centro da zaga, apesar dos apelos por Miranda, é improvável que Scolari chame um defensor que não foi convocado por ele até o momento e com o agravante de o jogador do Atlético de Madrid não contar com nenhum dia de folga por conta da final da UEFA Champions League. Há a possibilidade de Marquinhos do PSG ser lembrado, porém, a coluna aposta no experimentado Dedé. Falando em experiência, a participação de Diego Cavalieri na Copa das Confederações e noutras convocações são a indicação de que a vaga de terceiro goleiro é sua.
Desse modo, resta apenas uma vaga e três nomes despontam para preenchê-la. Curiosamente, os três atuam em posições diferentes. Lucas Leiva é primeiro volante e o substituto natural de Luiz Gustavo. Todavia, sofreu lesão séria recentemente e tem no versátil Fernandinho uma enorme sombra. Irregular nos últimos meses, Hernanes foi um dos campeões de 2013, mas acabou perdendo espaço para Ramires e para o próprio Fernandinho. Por fim, surge Robinho com a bagagem de duas Copas e o espírito, digamos, festivo. Pesa contra o atacante do Milan a má fase que o persegue há algum tempo. Sendo assim, sem mais delongas, vou arriscar tomando por base o lado conservador de Felipão... Lucas Leiva estará na Copa. A lista final é a seguinte:
Goleiros: Diego Cavalieri (Fluminense), Jefferson (Botafogo) e Júlio César (Toronto FC);
Zagueiros: Dante (Bayern), David Luiz (Chelsea), Dedé (Cruzeiro) e Thiago Silva (PSG);
Laterais: Daniel Alves (Barcelona), Maicon (Roma), Marcelo (Real Madrid) e Maxwell (PSG);
Meias: Fernandinho (Manchester City), Lucas Leiva (Liverpool), Luiz Gustavo (Wolfsburg), Oscar (Chelsea), Paulinho (Tottenham), Ramires (Chelsea) e Willian (Chelsea);
Atacantes: Bernard (Shakhtar Donetsk), Fred (Fluminense), Hulk (Zenit), Jô (Atlético Mineiro) e Neymar (Barcelona).
E para você, quais serão os convocados?
Coluna escrita originalmente para o site Doentespor Futebol.
Foto: Paulo Whitaker/Reuters

terça-feira, 22 de abril de 2014

Question – Premiação

Conforme informado, o vencedor do Question Especial tem o direito de receber um exemplar autografado de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro escrito em parceria com o comentarista da ESPN, André Rocha.
Precisando de apenas duas dicas para acertar, Luciano Fitochi cravou o nome do ex-volante de atual treinador do Atlético de Madrid, Diego Simeone, como resposta do desafio. Para receber seu prêmio, Luciano precisa apenas enviar seu endereço para o e-mail: michelcarlosmagnocosta@gmail.com
Na oportunidade, agradeço a todos que participaram desta edição e quem se interessou por “É Tetra!” pode encontrá-lo nas livrarias e no site da Travessa.
Grande abraço!

domingo, 20 de abril de 2014

Há males que vêm para o bem?

Não restam dúvidas de que o Barcelona enfrenta sua maior crise desde os tempos de Frank Rijkaard. Mesmo com chances de conquistar o campeonato espanhol, a equipe catalã está mergulhada num mar de desconfiança do qual nem mesmo Lionel Messi conseguiu escapar. Logicamente, com o recém-chegado Neymar não seria diferente. Criticado por algumas atuações e, sobretudo, pela avalanche que sua contratação gerou no clube, Neymar se juntou ao companheiro de ataque no olho do furacão que assola aquele que um dia foi melhor time do mundo.
Nesse cenário, a lesão no pé esquerdo sofrida pelo camisa 11 do Barça no clássico diante do Real Madrid pela Copa do Rei não poderia ter acontecido em momento mais oportuno. Pelo menos no que diz respeito à Seleção Brasileira. As quatro semanas previstas para recuperação devem coincidir com o término de La Liga e o início da preparação para a Copa do Mundo. Isso significa que, além do descanso, Neymar não sofrerá riscos de uma lesão mais séria às portas da competição mais importante de sua carreira.
Luiz Felipe Scolari não disse, no entanto é provável que tenha gostado de saber que seu principal jogador será preservado até o Mundial. Não só no aspecto físico como também psicológico: “Mesmo jogando numa posição diferente, ele está muito acima de outros jogadores do Barcelona, mas a imprensa [espanhola] fecha os olhos para os outros”, disparou o técnico durante um evento organizado por patrocinadores. Um discurso claramente lançado com o objetivo de blindar ainda mais a joia da coroa. Numa só declaração há a opinião sobre o que julga ser um posicionamento equivocado do atacante e sobre uma suposta cobrança maior sobre o brasileiro.
Fora de combate, Neymar está mais distante das lentes e da crise que sufoca o Barcelona. Poderá se apresentar ao seu comandante com a cabeça mais leve e o corpo mais descansado. Não se imagina uma Seleção Brasileira campeã do mundo sem seu maior craque decidindo jogos onde a técnica e a consistência tática não são suficientes. Uma das razões para o hexacampeonato ser possível é o fato de Neymar vestir a camisa amarela. Essa é outra constatação que Felipão nunca transformou em palavras, mas não há dúvida de que está plenamente ciente dessa dependência.   
Coluna escrita originalmente para o site Doentespor Futebol.
Imagem: EFE

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Question – Especial

O Question retorna em edição especial para presentear um leitor do blog com um exemplar autografado de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar oBrasil”, livro escrito em parceria com André Rocha, comentarista e blogueiro da ESPN, e editado pela Via Escrita.
Desta vez, o vencedor precisará ser o primeiro acertador de um único desafio que será exibido na forma de quatro alternativas. Uma por dia. Cada uma revela determinada informação do personagem e revelam uma única resposta. O resultado será divulgado na próxima terça-feira (22/04).
Boa sorte a todos...
Descubra o nome do jogador descrito na(s) afirmativa(s) abaixo.
I – Participou do Mundial de 1994;
II – Em sua passagem pela Europa, defendeu times da Espanha e da Itália;
III – Era reconhecido pela garra e disposição em campo;
IV – Hoje treinador, vem obtendo grande destaque no cenário mundial.

domingo, 13 de abril de 2014

O quarto zagueiro

A excelente temporada realizada por Miranda no Atlético de Madrid fez reacender o clamor pelo zagueiro entre os 23 convocados para a Copa do Mundo. Compondo uma defesa central sólida com uruguaio Diego Godín, o ex-são-paulino tem recebido elogios por sua classe e poder de antecipação, porém, sem comover Luiz Felipe Scolari que segue com seu último escolhido indefinido. Até o momento, os únicos nomes certos são Thiago Silva, David Luiz e Dante, desde que uma lesão inoportuna não atrapalhe os planos do técnico.
Na Copa das Confederações, o escolhido foi Réver, mas as contusões e o péssimo segundo semestre de 2013 praticamente sepultaram as chances do atleticano. Também atuando em Minas Gerais, Dedé vem recuperando no Cruzeiro o melhor momento vivido no Vasco da Gama, quando gozou do status de melhor zagueiro do País. Henrique, outra figura constante nas convocações, agora tem mostrado sua versatilidade atuando como volante e lateral direito no Napoli, condição parecida com a que o titular David Luiz vem enfrentando no Chelsea, onde o treinador José Mourinho vem optando por utilizá-lo no meio-campo.
O jovem Marquinhos é outro nome frequentemente lembrado tornando-se uma escolha que visa o próprio futuro do selecionado, uma vez que o defensor do Paris Saint-Germain chegaria ao Mundial com apenas 20 anos. Outra hipótese é a não convocação para o quarto e último posto, contando com o volante Luiz Gustavo como eventual ocupante da defesa. Tal iniciativa serviria para abrir espaço no grupo para a convocação de mais um atacante ou meia-ofensivo. Contudo, conhecendo o pragmatismo do técnico que conta com tantas opções à disposição, é improvável que Scolari se arrisque quando o dia 7 de maio – data marcada para a lista final – chegar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Reuters 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Paulinho, um titular ameaçado

Em sua passagem pelo Brasil após a saída do Chelsea, André Villas-Boas observou bem o jogador com o qual gostaria de contar em sua próxima equipe. Paulinho era (e ainda é) um meio-campista talhado para atuar de uma intermediária a outra, atacando e recompondo a defesa. Não era o típico armador capaz de fazer seu time jogar, mas uma arma ofensiva perigosa se bem utilizado. Quando o técnico português assumiu o Tottenham tratou logo de indicar Paulinho como reforço. Infelizmente para o brasileiro, a má campanha dos Spurs na Premier League fez com que o homem que o recomendou fosse demitido antes do fim do primeiro turno. E ao que tudo indica, seu substituto, Tim Sherwood, não vê o camisa 8 com os mesmos olhos.
Com pouco mais de um quarto dos minutos jogados por sua equipe nas últimas partidas, Paulinho reclamou via imprensa: "Sei que na Europa há essa prática de rodízio no elenco. Faz parte da cultura daqui. Mas eu, sinceramente, não gosto muito. Quero jogar toda semana. Entendo que quem decide é o treinador, mas não me sinto muito confortável”, disparou. Vendo sua autoridade contestada, Sherwood rebateu: "Escolho os jogadores com base no que eles fazem no treinamento, não em suas reputações ou em seus preços. Ele sabe que, se treinar e jogar bem, estará no time" declarou ao microfone da Sky Sports. “Vou provar meu valor” foi a resposta definitiva do ex-corintiano.
Discussões à parte é evidente que Paulinho se incomoda com a reserva estando num período tão próximo da Copa. Luiz Felipe Scolari já deixou bem claro que deseja ver seus titulares jogando. Não por acaso, o goleiro Júlio César trocou o banco de reservas do Queens Park Rangers pela meta do Toronto FC. O meia-atacante Bernard, que ainda não assumiu uma posição entre os titulares do Shakhtar Donetsk, é outro nome que preocupa, assim como o zagueiro David Luiz que tem sido mais aproveitado no meio-campo do que na posição em que foi um dos pilares da defesa brasileira na Copa das Confederações. A este último, o coordenador técnico Carlos Alberto Parreira deu o animador recado de que a quantidade menor de jogos vai servir de descanso para o Mundial.  
Todavia, a situação de Paulinho é um pouco mais complicada, pois a concorrência em sua posição aumentou consideravelmente. Além de Hernanes, que não agradou tanto em suas aparições, Ramires e Fernandinho pedem passagem. De volta à lista de convocados após um mal-entendido com Felipão, o meia do Chelsea tem a versatilidade a seu favor. Graças a sua boa condução de bola e excepcional velocidade, Ramires pode atuar em quase todas as posições do meio-campo. Por sua vez, Fernandinho tem a seu favor o poder de armação que seus concorrentes não têm. Apesar de ter sido inicialmente testado como primeiro volante no amistoso contra a África do Sul, o camisa 25 do Manchester City só mostrou suas maiores qualidades quando Luiz Gustavo entrou na vaga de Paulinho liberando-o para o jogo.
A princípio, Scolari deve manter Paulinho entre os titulares pelo menos para o início da Copa. Caso repita as boas atuações dos tempos de Corinthians, quando seus gols surgiam nos momentos mais oportunos, Paulinho pode perfeitamente manter seu nome no onze inicial. Do contrário, corre o risco de entrar para a fatídica estatística que mostra que a foto de um time na primeira partida de uma campanha nunca é igual a da última.
Coluna escrita originalmente para o site Doentespor Futebol.
Foto: Offside/Rex