domingo, 5 de agosto de 2012

Tão longe, tão perto

A apertada vitória por 3x2 sobre Honduras,  assegurou a Seleção Brasileira entre as equipes que disputarão medalhas nos Jogos Olímpicos de Londres. No entanto, como este blog havia tratado, o Brasil ainda está longe de apresentar um bom jogo coletivo. Assim como na vitória sobre a Bielorússia, os comandados de Mano Menezes não conseguiram criar muitas tramas a abusaram dos levantamentos na área e das ações individuais.
Placares à parte, impressiona como o time não apresenta evolução tática mesmo depois de uma considerável sequência de partidas. Se somarmos os cinco amistosos às partidas no torneio olímpico, teremos nove jogos e um bom período de treinos em que pouco, além de uma ideia, foi mostrado. E a questão é: Essa ideia está correta?
Reza a lenda que a Seleção Brasileira quase sempre teve defesas ruins, mas compensadas por um ótimo ataque. Bobagem. Em Copas do Mundo, o Brasil divide com a Itália a condição de melhor defesa da história da competição e viu seu ataque marcar mais gols do que qualquer outro país. Olhar para a defesa, se não era uma obsessão, sempre foi uma preocupação brasileira. Inclusive, se fosse possível resumir nossos conceitos futebolísticos não escritos, diria que nossa defesa e marcação sempre foram vistas como a base para os talentos individuais fluírem com liberdade. E talvez esteja nesse ponto o maior equívoco do atual time olímpico.
Historicamente, marcar à frente nunca foi uma característica do futebol brasileiro. Por formação, nossos jogadores mais talentosos podem até contribuir com a marcação, mas não são especialistas nisso. Em consequência, a pouca aptidão para essa função faz com que se abram latifúndios na retaguarda que qualquer equipe mais qualificada transpõe sem muita dificuldade. Um perfil de rival que, ao contrário do que vem acontecendo nos Jogos, certamente não estará em falta na Copa.
Nesse raciocínio, até o argumento de que os adversários de 2014 se postarão atrás pode ser contraposto quando lembramos que o Brasil sempre rompeu defesas baseando-se na criatividade e no talento e não na marcação alta. Era justamente dessa qualidade que o competitivo time de Dunga se ressentia. Da maneira como vem atuando, vencendo sem convencer, o Brasil pode até ser campeão olímpico. Todavia, estará muito distante de apresentar um futebol capaz de ser hexacampeão mundial.
Imagem: Reuters

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Question - Aviso

O Question, em sua sexta edição, está de volta ao Além das Quatro Linhas e terá seu primeiro desafio publicado na próxima sexta-feira. Assim como na edição anterior, o primeiro acertador receberá três pontos e os outros acertadores receberão um ponto. Ao final de quinze semanas, será declarado vencedor aquele que somar mais pontos.
O primeiro critério de desempate é o maior número de “primeiro acerto”. O segundo critério é o último “primeiro acerto”. Novamente, os desafios terão como objeto fotos de jogadores ou treinadores do presente e do passado ou uma combinação de dicas que resultam num único nome. Aqueles que participaram das outras edições já sabem como funciona.
O primeiro colocado receberá em casa um livro, a sua escolha, com o tema futebol. Na última edição, Luciano Fitochi escolheu “Santos 100 anos, 100 jogos, 100 ídolos” de Celso Unzelte e Odir Cunha, obra que, como o nome já diz, homenageia o centenário do alvinegro praiano.
Conto com a participação de vocês!

domingo, 29 de julho de 2012

Seleção precisa evoluir.

Após duas partidas e duas vitórias, a Seleção Brasileira confirmou sua condição de postulante a uma medalha olímpica em Londres. Ao mesmo tempo, vem provando que, individualmente, nenhuma equipe tem tantos talentos. No entanto, no que tange o aspecto coletivo ainda há muito que melhorar. Defensiva e ofensivamente, o Brasil ainda se mostra desencontrado em campo, sem conseguir trabalhar as jogadas – o que se refletiu nos inúmeros lançamentos na área – e oferecendo muitos espaços aos adversários.
Como era esperado, o maior destaque foi Neymar. Mesmo não atravessando grande fase, o santista é capaz de criar boas jogadas do nada, mas precisa aparecer mais para o time. Muitas vezes, a Jóia da Vila parece atuar mais para si mesmo do que na condução de sua equipe. Algo que o técnico do Egito, Ramy Hanzy, havia comentado para espanto de quem considera Neymar um craque pronto e acabado.
Enquanto isso, Hulk continua sem conseguir ratificar seu nome entre os três acima dos 23 anos. Não que o portista não esteja se esforçando, mas, atuando com mais responsabilidades defensivas do que tem no clube, o atacante tem poucas oportunidades para executar seus potentes chutes e, por estilo, não é o tipo de jogador que se apresenta para tabelas ou prime pela capacidade de oferecer chances de conclusão aos companheiros.
Por sua vez, Oscar segue como um dos jogadores mais lúcidos em campo, porém, quase solitário na tarefa de armar jogadas, não vê nos volantes Sandro e Rômulo parceiros com quem possa dialogar. Na defesa, como era de se esperar, alguns sustos com Juan – que sempre passa a impressão de que pode entregar a qualquer momento – e com laterais que apóiam sem muitas preocupações com as jogadas às suas costas.
O momento é de reflexão e de ajustes. Apesar da classificação garantida, a Seleção tem muito a evoluir. Diante de adversários mais consistentes, as falhas apresentadas podem ser determinantes. Definir melhor a marcação e estabelecer uma armação que dependa menos dos lampejos individuais é tarefa para Mano Menezes. Logicamente, fazer esses ajustes em plena competição não é o ideal, mas é a única forma de obter o tão desejado ouro olímpico.
Imagem: Reuters      

sábado, 28 de julho de 2012

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas tido por muitos como aborrecedor ou difícil de ser assimilado. Todavia, sem o mínimo conhecimento desse aspecto, o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Compactação
Estão se tornando cada vez mais comuns os comentários sobre a defasagem tática do futebol brasileiro em comparação ao que vem sendo feito na Europa. Para exemplificar, técnicos como Mano Menezes costumam dizer que enquanto no Brasil os times ocupam 50, 60 metros, as equipes do Velho Continente atuam em apenas 30. Obviamente, tal discrepância resulta em maior quantidade de passes errados – quanto maior a distância entre os jogadores, maior a chance de errar o passe – menor intensidade de marcação, além de provocar alterações no que diz respeito à distribuição de funções em campo.
No sistema ilustrado ao lado, vemos a distribuição tática em 60 metros de uma equipe tipicamente brasileira, ora alinhada num 4-2-3-1 (figura 1) onde os volantes precisam cobrir as subidas constantes dos laterais e a armação fica a cargo de um único meia central assessorado por dois meias abertos pelos flancos. Como é possível notar, existe uma grande distância entre os setores, o que muitas vezes provoca tentativas de ligação direta entre defesa e ataque. Do mesmo modo, tal distância também pode resultar num demasiado espaçamento entre os setores, algo que, na prática, pode significar hiatos entre o setor defensivo (no Brasil, claramente composto pela linha de zagueiros e os volantes) e o ataque (meias ofensivos e centroavante); ou entre defesa, meio-campo e o único atacante que fica isolado do time.
Tento em vista as citadas questões, a compactação presente no futebol praticado fora do País é o caminho mais lógico a ser seguido. Fazendo uso do mesmo 4-2-3-1 (figura 2), agora em 30 metros e sob uma ótica mais europeia, temos um time atuando praticamente num só bloco, defendendo quando não tem a bola e atacando quando tem a posse. Nesse cenário, os zagueiros precisam saber sair jogando, os laterais atuam de maneira mais fixa na defesa dando funções de armação aos volantes que antes eram quase exclusivas dos meias. Não por acaso, jogadores como Schweinsteiger, Xabi Alonso, Khedira e Xavi, representam o modelo de volante ideal para essa forma de atuar, pois são capazes de marcar, armar e ainda chegar com qualidade ao ataque. Com isso, quem perde espaço são os volantes unidimensionais que só entravam em campo para retomar a bola e tocar de lado. Mas, afinal, quem precisa deles?

domingo, 22 de julho de 2012

Contagem Regressiva: Julho de 2012

Para um fanático por futebol, Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Enfim, é um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Chegou a hora
Na última sexta-feira, o Brasil se defrontou com a Grã-Bretanha, equipe que praticamente inexistia há algumas semanas, mas que conseguiu reunir alguns jovens promissores da Premier League que se somaram aos experientes Micah Richards, Craig Bellamy, além do lendário Ryan Giggs. Chefiados por Stuart Pearce, os britânicos não foram páreo para a Seleção, sendo amplamente dominados e vendo o goleiro reserva Butland impedir que o placar fosse mais elástico que os 2x0 finais.          
Agora, o período de testes chegou ao fim. Após dois anos de trabalho, a Seleção Brasileira terá pela frente seu principal desafio: A conquista da medalha de ouro nos Jogos de Londres. Nos últimos cinco amistosos, foram três vitórias e duas derrotas. Partidas que mostraram uma equipe forte, mas ainda carente de mais entrosamento e vulnerável em alguns setores. Não é exagero dizer que a participação brasileira nas Olimpíadas terá importância decisiva para o futuro de Mano Menezes na Seleção. O sucesso deve manter o treinador até a Copa de 2014. Já o fracasso pode promover a troca de comando técnico a apenas dois anos do Mundial.
Para essa missão, Mano montou um time que se baseia na imposição de jogo, pressionando a saída de bola adversária e que promove uma intensa movimentação nas ações ofensivas. O time-base que deverá iniciar o torneio é composto por Rafael Cabral; Rafael Silva, Thiago Silva, Juan e Marcelo; Sandro e Rômulo; Hulk, Oscar e Neymar; Leandro Damião.
Taticamente, a equipe varia de um 4-4-2 (figura 1), onde Oscar atua aberto na direita enquanto Hulk executa função semelhante à esquerda, dando liberdade para que Neymar se aproxime mais da área. No sistema defensivo, Rafael Silva e Marcelo apóiam de forma alternada, com os volantes Sandro e Rômulo executando funções mais defensivas do que criativas. A principal variação é o retorno ao 4-2-3-1 (figura 2), esquema em que Neymar retorna ao lado esquerdo, deixando um único atacante (Leandro Damião ou Alexandre Pato) entre os zagueiros. Nesse módulo, Oscar (ou Ganso) atua mais centralizado, cabendo à Hulk (Lucas) as funções do lado direito.
Os rivais.
Nos Jogos Olímpicos de Londres, o Brasil (campeão sul-americano sub-20) estará no grupo C ao lado de Egito (3º colocado do campeonato africano sub-23), Bielorrússia (3ª colocada no campeonato europeu sub-21) e Nova Zelândia (campeã do pré-olímpico da Oceania). Como é possível notar, não existe um critério uniforme para apuração das seleções que participarão dos Jogos. No caso do Brasil, o grupo escolhido é bastante diferente do que foi campeão no Peru, onde os remanescentes são Bruno Uvini, Juan, Danilo, Oscar, Lucas e Neymar.
Entre os principais candidatos à conquista de medalhas estão Uruguai (vice-campeão sul-americano sub-20), México (campeão pré-olímpico da Concacaf) e Espanha (campeã europeia sub-21). De acordo com a tabela, caso o Brasil se classifique em primeiro, poderá se defrontar com a Celeste Olímpica de Suárez e Cavani na semifinal e, caso avance, pode ter pela frente Espanha ou México valendo o ouro.    
De olho na Copa:
Confirmado. Ricardo Teixeira e João Havelange receberam comissões ilegais da empresa de marketing ISL nos anos 1990. Embora o presidente da FIFA, Joseph Blatter, insista na tese de que o recebimento de propinas não era ilegal na Suíça, a justiça do país realmente pretendia processar criminalmente os dois dirigentes e só não o fez porque ambos devolveram parte do montante que receberam. Quem acompanha esta coluna certamente já havia lido sobre o tema. No entanto, os nomes dos envolvidos só foram oficialmente revelados agora. Com isso, algumas vozes importantes se levantaram para pedir que o Estádio João Havelange, o Engenhão, passe a levar o nome de figuras importantes do Botafogo como João Saldanha, Nilton Santos e Zagallo.      
Confira abaixo, o andamento das obras nas doze sedes:         
Dentro do previsto: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza e Salvador;  
Apresentando atrasos: Cuiabá, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo;
Situação preocupante: Curitiba, Manaus e Natal.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Olhando o passado para enxergar o presente

Pense rápido: O que Denílson, Robinho, Rivaldo e Kaká têm em comum? A resposta é que os quatro deixaram o País sob diferentes expectativas e ao chegarem à Europa tiveram desempenhos que não eram imaginados pela maioria. Enquanto os dois primeiros foram bem abaixo do esperado, os últimos foram sucesso por muitas temporadas. Denílson, considerado quase um Garrincha da ponta-esquerda, foi durante muitos anos a contratação mais cara envolvendo um jogador brasileiro. Contratado junto ao modesto Bétis, nunca correspondeu às expectativas. Por sua vez, Robinho desembarcou em Madri para se tornar a resposta merengue a Ronaldinho, então astro do Barcelona. Embora não tenha sido um fiasco completo, também fracassou. Enquanto isso, Rivaldo e Kaká, vistos com desconfiança, tiveram carreiras brilhantes no Velho Continente e alcançaram, com justiça, o título de melhor do mundo em 1999 e 2007.
Neste momento, Neymar é o brasileiro atende pelo epíteto de futuro craque mundial. Rápido, driblador e artilheiro, parece questão de tempo para a jóia da Vila alcançar o topo. Por outro lado, a desconfiança atende pelo nome de Lucas Moura. Alvo de Internazionale e Manchester United, o meia do São Paulo está longe de ser unanimidade por aqui. Considerado imaturo quando comparado com Neymar e marcado pela irregularidade em seu time, Lucas é apontado por muitos como um embuste. Algo que, de certo modo, faz lembrar o que aconteceu com Rivaldo e Kaká.
Lucas, assim como os dois craques, é visto com desconfiança até por sua própria torcida. Nem mesmo sua velocidade, forte chute e lampejos de puro talento conseguem demover a imagem que fazem dele. Muito menos os 20 anos lhe servem como desculpa. Não por acaso, não falta quem considere exagerados os supostos 38 milhões de euros com os quais o United assinalou sua última proposta. Mas talvez não seja pelo ponto de vista do clube inglês. Acostumados a grandes contratações, os olheiros dos Red Devils provavelmente tabulam todos os dados do jogador em questão, seus pontos fortes e fracos e sua margem de crescimento. Tudo cientificamente, na medida em que o futebol permite ser. No entanto, muitos preferem a análise romântica que mede o número que grandes jogadas por partida, uma pedalada sem propósito no meio-campo ou, no máximo, o número de gols. Creio que já vimos esse filme antes. Se o final será o mesmo, só o tempo dirá.
Imagem: Fox Sports

domingo, 15 de julho de 2012

Bota pra vender!

Neste momento, a contratação de Thiago Silva pelo Paris Saint-Germain já é oficial e a de Zlatan Ibrahimovic parece apenas questão de tempo. Enquanto o jogador sueco acerta suas bases salariais com o clube francês, as principais dúvidas pairam sobre o que restou do Milan. Sem seus dois principais nomes e sem a perspectiva de reposição à altura, o Rossonero transmite a mensagem de que a partir de agora seu patamar é outro. Obviamente, tal declínio não aconteceu de uma hora para outra. Trata-se de um duradouro processo que também corrói o futebol italiano e que, no caso do Milan, pode ter seu início apontado quando da negociação de Kaká com o Real Madrid.
Ao que tudo indica, o proprietário Silvio Berlusconi não pretende mais despejar seus milhões na associação como fazia no passado. Seguindo a premissa do financial fair play de que o clube deve ser auto-sustentável, o ex-primeiro ministro tenta reequilibrar as contas sem abrir a carteira, algo que, logicamente, não funcionaria do dia para a noite, ainda mais numa liga em franca decadência como a Serie A. Outra questão é que as agremiações da Bota estão mal-acostumadas com mandatários generosos que torram seu dinheiro pelo simples prazer de possuir um time de futebol. Sem contar que a própria estrutura do Calcio ainda não está preparada (leia-se, modernizada) para andar com as próprias pernas.
Nesse cenário, seria conveniente analisar se não chegou o momento de Berlusconi negociar o clube de via Turati. Nos últimos anos, o magnata recebeu propostas para vender todo ou pelo menos uma parte do Milan e sempre se recusou a abrir conversas. Todavia, com uma torcida há tantos anos acostumada a ter um grande time e possuir atletas de renome, é evidente que a saída de dois jogadores fundamentais seria vista como enfraquecimento e que a reação não seria das melhores. O certo que o Campeonato Italiano perde força e prestígio a cada dia e o redimensionamento de um de seus maiores clubes é um nítido reflexo desse momento. Como se diz por aqui, o último que sair apague a luz.
EFE

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lembra desse?!

Aquele lance ou momento que você, por um motivo ou outro, nunca esqueceu.
Por linhas tortas
Se o currículo do meia holandês Clarence Seedorf atuando por clubes é impecável, o mesmo não pode ser dito da contribuição ao seu selecionado. Apesar de todo o seu talento, o novo jogador do Botafogo nunca foi um titular incontestável da Oranje. Mesmo em 1998, quando foi campeão europeu e peça-chave do Real Madrid, Seedorf não conseguiu espaço entre os titulares do 4-4-2 montado por Guus Hiddink para o Mundial da França. Nas poucas oportunidades que teve, improvisado no flanco direito, foi definido pelo “atento” jornalista Fernando Calazans como “um Donizete piorado”.
Curiosamente, após a queda holandesa para a Seleção Brasileira numa emocionante disputa de pênaltis, Seedorf e outros negros do grupo foram dividir as banheiras com os jogadores tupiniquins. Como se sabe, mesmo apresentando um grande futebol coletivo, aquela Holanda era marcada pela evidente divisão entre brancos e negros, algo bem ilustrado pela foto ao lado, datada da Euro 96. Nos vestiários, o meia se encontrou com o técnico brasileiro Zagallo que, admirador de seu futebol, não teve medo de afirmar: “Se você fosse brasileiro, seria titular do meu time”. Difícil imaginar um elogio maior naquele momento. Quatorze anos depois, por esses estranhos caminhos que a vida percorre, Seedorf se transferiu justamente para o time no qual o Velho Lobo se consagrou.
Você conhece alguma história interessante sobre o mundo da bola?
Mande-a para meu e-mail: a4l@bol.com.br e coloque no assunto: 'Lembra desse?!' e ela poderá ser publicada aqui!

domingo, 8 de julho de 2012

O que é jogar bonito?

Sempre concordei com a frase “a beleza está nos olhos de quem vê”. Trata-se de uma sentença quase definitiva, pois dela se subentende não só que o bonito para um não é necessariamente o mesmo para o outro e, do mesmo modo, deixa implícito que cada gosto deve ser respeitado por ser único. Curiosamente, tal entendimento tem pouco valor no futebol. Para muitos, alguns estilos estão acima dessa avaliação. O melhor exemplo disso está na indignação sentida por aqueles que não entendem como alguém pode não gostar do modo espanhol de se jogar. Não o estilo vertical e mortal que caracterizou a massacrante vitória sobre a Itália na final da Euro, mas o jogo insosso que conduziu a campeã mundial até a decisão continental. E o pior é a dedução de que aqueles que não gostam do tiki-taka importado do Barcelona é porque gostam apenas de marcação e chutão para frente. Convenhamos, uma visão mais do que simplista.
No caso da Espanha, provavelmente pelo uso constante da técnica privilegiada aliada aos resultados indiscutíveis, tornou-se “absurdo” ver e não gostar. Todavia, arrisco dizer que, sem os resultados, a Furia seria vista como um time de “armandinhos” que roda e roda a bola chegando pouco ao seu objetivo. Logicamente, não discuto aqui a eficiência dos comandados de Del Bosque, refiro-me apenas à plasticidade do seu jogo que, vez por outra, pode induzir ao sono.   
O futebol não é apenas o orgasmo do gol. Ele é composto de pequenas explosões de emoção, sejam de alegria ou tristeza, que se materializam num belo chute, num drible sensacional, na expectativa antes de uma cobrança de falta e até mesmo quando o árbitro mostra um cartão inclemente. Se uma partida disputada com pouca técnica e nenhum lance de perigo pode ser considerada modorrenta, o mesmo pode ser dito de um jogo em que um time toca a bola lateralmente esperando de maneira fria que o adversário se abra, sem arriscar um chute, economizando nos dribles e oferecendo poucos momentos grandiosos.
Para este blogueiro, alguns times históricos sintetizaram bem esse conceito particular de beleza: O Brasil de 1982. Recheado de craques, a seleção comandada por Telê Santana movimentava-se em campo de maneira surpreendente e bela. Era o futebol-arte personificado. O segundo time que mais gostei de ver foi o Real Madrid dos Galácticos. Foi incrível admirar Ronaldo, Zidane, Figo, Raúl e Roberto Carlos juntos. Em cada partida, pelo menos um lance espetacular ou uma prova de máximo talento. O terceiro, mais modesto em relação aos outros dois, foi o Santos de 2010. Em fantásticos seis meses, o time de Neymar, Ganso, Robinho & Cia. encantou o País com um futebol de sonhos e se tornou uma espécie de modelo do que gostaríamos de ver na Seleção.  
Curiosamente, as três equipes citadas também ficaram conhecidas por se defenderem mal. E, óbvio, isso não é o ideal. Apesar de todo o clamor por um futebol bem jogado, ele dificilmente estará acima da necessidade da vitória. Deste modo, é possível dizer que beleza e máxima competitividade não estão intimamente ligadas, embora unir as duas coisas possa significar a perfeição. Se é que ela existe.
Imagens: AFP

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Tipos de Jornalista Esportivo


Baseado na série de posts do blog de Maurício Stycer intitulada “Tipos de Leitor” – espaço onde o jornalista destrincha os habitantes da blogosfera – o “Além das Quatro Linhas” abordará os diferentes tipos de jornalistas das mais diversas mídias. Mas, como este blogueiro se limita ao assunto futebol, vamos manter o foco apenas nos jornalistas esportivos...
O Rodrigueano
O involuntariamente hilário trecho da Wikipédia que descreve a maneira como o lendário Nelson Rodrigues enxergava futebol merece ser transcrito: “Nelson Rodrigues era um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, todas essas bobagens não passavam de detalhes secundários aos olhos do gênio. O relato dessas banalidades cabe aos ‘idiotas da objetividade’”.
Acredito que não é preciso muito esforço para perceber quem era o idiota nessa história. Nélson Rodrigues foi um dramaturgo sem igual, mas sua miopia na hora de descrever o futebol era ainda maior do que sua vista verdadeiramente cansada. Todavia, tratar dessa forma o futebol dos anos 1960 era aceitável. Até combinava com aquela época romântica. Mas insistir com esse tipo de “análise” nos dias de hoje chega a ser patético. O problema é que ainda existe quem pense assim.
Na quinta-feira, após o empate do Corinthians com o Boca Juniors, Tite procurou explicar a maneira como buscou encaixar a marcação e os movimentos de sua equipe na Bombonera. Logicamente, explicações táticas não valem para o Rodrigueano. Importante aqui não confundi-lo com outro tipo, a múmia, que é necessariamente um velho saudosista, o que não significa que todo jornalista veterano seja uma múmia. O Rodrigueano não é um saudosista, mas alguém que coloca toda a base científica do esporte abaixo da casualidade e do imponderável. Para ele, acima de tudo isso está a intuição, o acaso. “Tite colocou o moleque porque sentiu que ele estava com a aura boa”, disse um empolgado Lúcio de Castro na bancada do Bate-Bola 1ª edição sobre a entrada de Romarinho na partida. Por uns instantes, cheguei a pensar que estava vendo um programa de astrologia.
Logicamente, a percepção do treinador também é um elemento importante durante um jogo. Muitas vezes é preciso apostar em alguma coisa sem ter a certeza de que aquilo surtirá o efeito desejado. Porém, tentar resumir as ações de uma partida a isso, não passa de preguiça de quem deseja entender os mecanismos desse esporte, mas se recusa a gastar tempo com o que considera irrelevante. Mais de 30 anos após a morte de Nelson, os Rodrigueanos estão todos por aí com o ar blasé de quem acha que sabe tudo. Para sustentar suas teses, tome clichês, achismos e coisas do tipo. Só não vale estudar um pouco mais. Afinal, dá trabalho.       
Imagem: Uol

domingo, 1 de julho de 2012

Espanha consolida uma Era


Não foram poucos os que consideraram insosso o jogo espanhol durante esta Eurocopa. Nas cinco partidas que antecederam a final diante da Itália, a Furia foi muito mais pragmática do que encantadora, cozinhando seus adversários em fogo baixo até o toque fatal. Enquanto isso, do outro lado, havia uma Azzurra diferente do que o grande público conhecia, propondo o jogo, mantendo a posse de bola e valorizando a técnica.
Na decisão, esse panorama sofreu algumas alterações. Com uma geração acostumada a decidir, a Espanha conseguiu controlar o jogo mesmo sem a posse de bola que a caracteriza. Ao mesmo tempo, os comandados de Del Bosque imprimiram uma verticalização que pouco se viu. Os dois primeiros gols saíram dessa forma, com a Espanha aproveitando os espaços às costas da defesa italiana. Em desvantagem no placar, o rival ainda tentou chegar trocando passes, mas não encontrou espaços e muito menos erros que pudesse explorar. No segundo tempo, a saída do lesionado Thiago Motta – uma alteração precipitada de Prandelli – acabou por sepultar qualquer esperança de reação. O 4x0 foi apenas consequência de um cenário definido.
O segundo título europeu consecutivo da Espanha consolida ainda mais o selecionado como a maior força do futebol mundial. Se não contarmos a Copa das Confederações de 2009, um troféu menor, este foi o terceiro título seguido de uma geração que ainda não parece satisfeita. Sem dúvida, é a seleção a ser batida em 2014. Mas quem será capaz de fazê-lo?     
Imagem: El País

terça-feira, 26 de junho de 2012

Não se deixe enganar

Neste momento, o Cruzeiro lidera o Campeonato Brasileiro e com essa colocação voltou à tona a velha discussão sobre a qualidade de Celso Roth como treinador. Antes de tudo, é preciso deixar de lado a ótica maniqueísta que rege as análises futebolísticas no Brasil para não elevar o comandante da Raposa a um nível onde ele nunca esteve, mas também não deixar de reconhecer os méritos de quem construiu uma carreira pautada por trabalhos dignos.
Roth, assim como Muricy Ramalho e outros, faz parte de uma geração de técnicos que se moldaram nas décadas de 1990 e 2000, onde a marcação tornou-se prioridade em detrimento do futebol. Era em que o meio-campo se esvaziou de criatividade, em que os alas se tornaram um amálgama dos laterais e dos pontas e quando os três zagueiros eram marca registrada de nossas equipes. Atualmente, mesmo com o retorno da linha de quatro na defesa e de sistemas que emulam o que o restante do mundo faz, ainda estão nítidos os conceitos táticos desse passado recente.
Os melhores exemplos de como Celso Roth trabalha foram dados pelo jornalista e ex-setorista de Internacional e Grêmio, Eduardo Cecconi. No Inter, foram comuns os comentários de que os treinos eram todos voltados para a marcação e para a chamada bola parada. Para o ataque, pouca atenção. No rival Tricolor, uma história de sua última passagem é ainda mais reveladora. Após assumir o time, o técnico reuniu os titulares e, apontado para cada um dos reservas, instituiu uma anacrônica marcação homem a homem.
Obviamente, isso não quer dizer que os métodos de Roth não podem dar certo. Podem, ainda mais num país onde o esporte está tão atrasado em relação ao que estamos vendo nos melhores times da Europa. No entanto, quando cobramos um futebol mais bem jogado, quando pedimos o retorno dos pensadores ao meio-campo, quando falamos em retomada do protagonismo da Seleção, estamos indo na contramão de tudo o que Roth representa. Afinal, do contrário, estaremos apenas confirmando nosso eterno vínculo com o resultado, uma cultura que nos levou ao estágio em que o futebol brasileiro hoje se encontra.     
Foto: André Casado / Globo Esporte

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Contagem Regressiva: Junho de 2012

Para um fanático por futebol, Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Enfim, é um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Brasileiro gosta mesmo é de vencer
Quando Ayrton Senna colidiu sua Williams na fatídica curva Tamburello, uma parcela dos sonhos de muitos brasileiros se foi junto com o piloto. Sonhos de vitórias, conquistas e, sobretudo, de momentos felizes. Para muitos, os triunfos Senna representavam uma forma de fuga dos problemas do cotidiano, a materialização de um sucesso que provavelmente nunca teriam em suas vidas.
Seguindo a mesma linha, podemos lembrar o “surto” de tênis durante o auge de Gustavo Kuerten, o Guga. Naquela época, pessoas que nunca se interessaram pelo esporte deixaram de lado seus afazeres para acompanhar os jogos do Manezinho da Ilha. E o que dizer do “boom” que o vôlei brasileiro sofreu após a conquista da medalha de ouro nos Jogos de Barcelona em 1992? Não por acaso, a manutenção de grandes gerações do vôlei estabeleceu um público fiel e que sempre se renova. De certo modo, as aspirações dessas pessoas seguem o mesmo padrão: Sentir como sua a vitória de terceiros. Isso é o que move o torcedor.
Logicamente, no futebol não é diferente. No caso dos clubes, a necessidade imediata está na vitória sobre os adversários. Como essa vitória chega está num absoluto segundo plano, uma vez que o importante é comemorar e reunir argumentos para zoar os torcedores rivais. No entanto, quando o assunto é a Seleção Brasileira, vencer não basta. No Brasil, a Seleção é vista como uma espécie de patrimônio mundial do futebol bem jogado. Tem a obrigação de vencer sempre, atuar bem e, quando perde, só aconteceu porque tropeçou em seus próprios erros. Poucas vezes se reconhece a qualidade do outro lado. “Perdemos para nós mesmos” é quase um mantra, apesar de representar um evidente equívoco.
Nos últimos tempos, diante da entressafra de talentos que o futebol brasileiro atravessa e sem grandes resultados, o público se afastou. Hoje, o desdém foi adotado como uma prática natural. Nem a proximidade de uma Copa do Mundo em nosso território parece fazer diferença. Afinal, as tão desejadas vitórias acachapantes rarearam, o País não elege o melhor jogador do mundo desde 2007 e nossa maior esperança é um jovem de 20 anos que ainda tem um longo caminho a percorrer.
Obviamente, a situação pode se reverter em caso de bons resultados. E o primeiro passo para a Seleção trazer sua torcida para perto é faturar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres. Talento para essa missão não falta, embora o time ainda esteja em formação. Caso essa conquista se realize, tenha a certeza de que a distância para os fãs diminuirá. Afinal, o que não falta é gente buscando uma vitória para chamar de sua.     
Os rivais.
No dia 6 de julho, Mano Menezes convocará os 18 atletas que defenderão o Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres. Salvo por alguma lesão, dificilmente a lista trará nomes diferentes dos que foram vistos nos quatro amistosos preparatórios. Todavia, seguindo recomendação do COI, o técnico reduziu a lista inicial de 52 nomes para apenas 35, onde as notas positivas são as presenças do volante Fernando e do atacante André, ambos atravessando grande fase atuando por Grêmio e Atlético Mineiro.   
A CBF anunciou ainda amistosos com África do Sul e China nos dias 7 e 11 de setembro. A primeira partida marca o retorno da Seleção ao Morumbi e significa a reaproximação da entidade com o São Paulo, clube cuja diretoria havia entrado em conflito com o ex-presidente Ricardo Teixeira após desavenças políticas que culminaram na exclusão do Morumbi da lista de estádios da Copa. O compromisso diante dos chineses ainda não teve seu estádio definido.
De olho na Copa:
Junho também marcou a sanção da Lei Geral da Copa pela presidenta Dilma Rousseff. No último dia 5, Dilma sancionou, com quatro vetos, a lei que define as regras estabelecidas pelo governo federal para a realização do Mundial de 2014. No entanto, a questão mais polêmica que dizia respeito à liberação de bebidas alcoólicas durante o evento teve seu texto aprovado.     
Confira abaixo, o andamento das obras nas doze sedes:         
Dentro do previsto: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza e Salvador;  
Apresentando atrasos: Cuiabá, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo;
Situação preocupante: Curitiba, Manaus e Natal.

sábado, 16 de junho de 2012

Revolucionários, mas nem tanto

Há alguns anos, Zagallo disse que o esquema tático do futuro era o 4-6-0. Como não poderia deixar de ser, a imprensa caiu matando em cima do Velho Lobo por enxergar nessa declaração uma postura defensivista do ex-técnico. Na verdade, assim como o “gol é apenas um detalhe” de Parreira, essa foi mais uma polêmica fabricada num país que ignora debates mais elaborados. O que Zagallo queria dizer é que o futebol caminhava para a extinção dos atacantes fixos com o trabalho ofensivo sendo feito pelos homens que chegam de trás com a bola dominada.
O tempo passou e em parte deu razão a Zagallo. O sistema mais usado no mundo provavelmente é o 4-5-1 (4-2-3-1) onde um único atacante é referência para o restante do time. Todavia, apesar de provavelmente desconhecer a citada previsão, o técnico da Espanha Vicente del Bosque resolveu aplicar o módulo na partida de estreia na Eurocopa diante da Itália. Na ocasião, o escolhido para cumprir a função de “falso 9” foi Cesc Fàbregas, meia improvisado na posição algumas vezes por Pep Guardiola no Barcelona. Fábregas, ótimo jogador e afeito à função nos tempos de La Masia, tentou cumprir o papel, até marcou gol de empate, mas era visível que se sentia pouco à vontade no papel.
A campeã mundial, como sempre, teve mais posse de bola e maior domínio territorial, mas faltava profundidade. O time tocava, tocava e, na maioria das vezes, esbarrava na defesa italiana. Não por acaso, a experiência só durou uma partida e na sequência contra a Irlanda lá estava Fernando Torres no onze inicial. Um centroavante de fato que mesmo longe de sua melhor forma marcou dois gols contra a Irlanda. Naquele momento, Torres era a referência para um meio-campo capaz de criar diversas oportunidades de gol por jogo. Muitas vezes, a simples presença de um jogador mais fixo naquele espaço é o suficiente para que haja a conclusão satisfatória de um lance. Possivelmente, alguém vai se lembrar de Messi e seu caminhão de gols pelo Barcelona mesmo sem atuar mais fixo entre os zagueiros. Porém, como dizem, toda regra tem a sua exceção.       
Foto: AFP

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Nós, os nerds
É triste constatar, mas o futebol se tornou um mero entretenimento no Brasil. Pelo menos é o que pensa uma grande parcela da imprensa esportiva de nosso país. Para estes, a análise dos jogos, a preocupação com a tática e a informação estão em segundo plano. Nesse contexto, mais vale a pilhéria, a confusão, a polêmica e a especulação. Relevância? Para quê? Compromisso com a verdade? Bobagem. Vale tudo pela audiência e pelos cliques a mais.
Nesse contexto, quem se preocupa com a informação correta, com as análises mais profundas e quer distância do oba-oba instalado é tachado de nerd, mal-humorado e outros adjetivos pouco elogiosos. Como se fosse impossível levar o futebol a sério sem se tornar um idiota bitolado.
No último sábado, tive um nítido exemplo de como as coisas funcionam por aqui. Diante da má atuação do holandês Robin Van Persie na partida contra a Dinamarca pela 1ª rodada da Euro 2012, André Rizek, comentarista e apresentador do Sportv, desencavou a esfalfada comparação entre o atacante do Arsenal – artilheiro da última edição da Premier League com 30 gols – e o gremista André Lima, centroavante voluntarioso, mas limitado. Uma piada que, além de gasta, acaba deixando no ar que o comandado de Bert van Marwijk é um jogador superestimado por quem acompanha o campeonato inglês, algo que está longe de ser verdade para quem não é um espectador esporádico de futebol internacional. Tal episódio gerou um rápido diálogo no Twitter.

Ao contrário do que possa parecer, o pequeno debate não me irritou. Não tenho idade e nem paciência para discutir na internet. Esse momento só serviu para me dar mais uma amostra de como são vistas as pessoas que levam futebol a sério e não enxergam nesse esporte uma simples forma de entretenimento como um programa de auditório qualquer. A esses olhos, somos nerds que se importam demais com algo desimportante. Mas, se essa é a definição de um nerd do futebol, assumo esse rótulo com orgulho.

domingo, 10 de junho de 2012

O saldo dos amistosos

Após as partidas diante de Dinamarca, Estados Unidos, México e Argentina, o técnico da Seleção Brasileira, Mano Menezes, tem muito no que pensar até o início dos Jogos Olímpicos de Londres. Se por um lado o estilo agressivo e ofensivo agradou, a vulnerabilidade defensiva causou apreensão. E como a equipe não havia treinado dessa forma anteriormente, o tempo para adaptação a essa nova concepção pode ser muito curto.
De qualquer modo, os amistosos também serviram para afirmar alguns nomes, enfraquecer outros e constatar a manutenção de alguns. Dividindo os atletas de acordo com o momento atual é possível separá-los em três categorias:
Subiram:
- Rafael Cabral. Goleiro abaixo dos 23 anos, Rafael se mostrou seguro quando exigido e não cometeu nenhuma falha grave. Praticamente dispensou a necessidade de convocar Jefferson.
- Rafael Silva. Chamado às pressas por causa da lesão de Daniel Alves, o lateral do Manchester United ganhou espaço após as fracas atuações de Danilo no lado direito.
- Sandro e Rômulo. Aprovados como volantes, só precisam acertar o posicionamento à frente da defesa. Questão de treino.
- Oscar. Certamente foi quem mais se beneficiou no período. Mais dinâmico do que Ganso, saiu da série de amistosos como provável titular em Londres. A seu favor, também conta o fato de poder atuar ao lado do meia santista, jogando mais pelos flancos.
Na mesma:
- Thiago Silva, David Luiz e Marcelo. Salvo algum problema físico, os três devem ser os jogadores acima dos 23 anos. Inclusive, o milanista foi confirmado por Mano como o capitão do time nos Jogos. Pouco testado, David Luiz ficaria com uma das vagas pelas más apresentações da dupla de zagueiros sub-23 formada por Bruno Uvini e Juan Jesus. Quanto a Marcelo, preocupa o comportamento intempestivo do lateral, mas nada que uma boa conversa não possa resolver.
- Hulk. Após a excelente partida contra a Dinamarca, o atacante do Porto não conseguiu manter o nível. Extremamente individualista, irritou os companheiros em alguns lances. Além disso, as carências defensivas devem pesar nas escolhas do técnico pelo uso de todos os reforços na defesa.
- Neymar. Continua sendo o principal nome da Seleção, mas não deu o salto de qualidade definitivo que se espera. Muito preso ao lado esquerdo num primeiro momento e mais solto contra a Argentina, ainda não descobriu seu melhor espaço na Seleção.
- Jefferson (acima de 23 anos), Neto, Alex Sandro, Casemiro, Giuliano, Wellington Nem e Alexandre Pato. Pouco utilizados, não ganharam e nem perderam pontos dentro de campo. Espera-se muito mais de Pato, mas como se recuperava de lesão a cobrança tende a ser menor.    
Desceram:
- Danilo. Sua deficiência na marcação foi escancarada nos amistosos e o apoio ao ataque também não foi dos melhores. Tem o atenuante de ter jogado pouco após a lesão que sofreu.
- Bruno Uvini e Juan Jesus. Preocupavam quando eram apenas os zagueiros da Seleção sub-20 e causam pavor no time olímpico. Suas atuações fizeram aumentar a necessidade por dois jogadores acima dos 23 anos na zaga.
- Lucas Moura. Uma das grandes promessas do futebol brasileiro, ainda não deslanchou. Teve poucas oportunidades nos amistosos e não as agarrou. Todavia, a necessidade defensiva deve abrir caminho para a sua titularidade.
- Leandro Damião. O que era certeza se transformou em dúvida. Desconectado do restante do time e sem conseguir mostrar seu faro goleador, seu melhor momento foi o pivô para o gol de Oscar contra a Argentina.
- Daniel Alves e Paulo Henrique Ganso. Infelizmente, suas lesões acabaram provocando perda de espaço no grupo. Por disputar uma das vagas acima da idade limite, o lateral não deve ir aos Jogos. Ganso provavelmente estará presente, mas terá que convencer Mano de que vale a pena acomodá-lo ao lado de Oscar.
E você, o que achou dos amistosos?      
Imagem: Agência Estado, IG e UOL.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Question – Premiação

Conforme informado anteriormente, o vencedor da quinta edição do Question tinha o direito de escolher o livro sobre futebol que gostaria de receber do blog “Além das Quatro Linhas” a partir de uma lista pré-determinada ou indicar outra obra de sua preferência.
Seguindo a segunda opção, o campeão Luciano Fitochi escolheu “Santos 100 anos, 100 jogos, 100 ídolos” de Celso Unzelte e Odir Cunha, livro que, como o nome já diz, homenageia o centenário do alvinegro praiano.
Na oportunidade, agradeço a todos que participaram desta série e reitero o convite para a sexta edição.
Grande abraço!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

À Parreira

Tornou-se lugar comum dizer que Dunga não deixou legado para seu sucessor na Seleção Brasileira. Não que seja uma mentira completa, mas esse comentário ignora o simples fato de que nenhum técnico se preocupa com isso. Historicamente, o foco sempre foi montar um time que finalize o ciclo quando a Copa do Mundo chegar. E agora com Mano Menezes não é diferente.
A chamada para o post abaixo gerou um interessante debate no Facebook. Nesse espaço, conversamos sobre como Mano Menezes promoveu a transição entre o grupo que caiu nas quartas-de-final do último Mundial e o atual. Muitos concordam que o rompimento com a geração e a mentalidade do grupo anterior foi feita de forma correta. Sempre discordei dessa tese e agora tento explicar por quê.
Antes de tudo, é preciso recordar em que país estamos. No Brasil, tanto imprensa quanto torcida não se importam com o estágio em que o trabalho se encontra. Perdeu, é crítica. Ainda mais quando se trata da Seleção. Deste modo, até para evitar uma pressão desnecessária, o melhor caminho talvez tenha sido traçado por Carlos Alberto Parreira em sua trajetória entre 2002 e 2006 à frente do Brasil. Logicamente, alguém vai se lembrar da campanha na Copa da Alemanha, mas o fracasso está muito mais ligado ao descompromisso de alguns jogadores do que à maneira como Parreira conduziu o processo.   
Após a saída de Luiz Felipe Scolari, Parreira não excluiu o trabalho anterior apressadamente. Apesar da concepção de jogo diferente, o técnico manteve os principais nomes do pentacampeonato e o primeiro passo foi mudar o quase improvisado 3-4-2-1 de Felipão para um 4-3-1-2 mais funcional. Parreira também não efetivou os jovens Robinho e Kaká automaticamente, preferindo promover os dois aos poucos. Com isso, manteve o Brasil sempre competitivo durante os quatro anos de seu trabalho. Venceu as Eliminatórias, a Copa América (com uma equipe B), a Copa das Confederações e ainda montou um time que praticava um futebol bem próximo do que nós brasileiros imaginamos como ideal.
Mano Menezes procurou outro caminho. Sob o discurso da proposição de jogo, da retomada do protagonismo e amparado pela ideia de que o Brasil produz jogadores em escala suficiente para adoção de qualquer filosofia, Mano deletou tudo o que Dunga havia feito e tentou partir do zero. Entretanto, o ex-treinador do Corinthians descobriu em pouco tempo que a situação não era exatamente como ele imaginava. Em primeiro lugar, até pela mentalidade de nossos treinadores, formamos durante anos jogadores muito mais de força e potência do que troca de passes e cadência. Em média, os principais nomes produzidos nos últimos anos são atletas de velocidade e profundidade, muito mais voltados para o contragolpe do que para uma “cadência espanhola”. Aqui, os meio-campistas modernos, capazes de marcar, armar e também atacar dão lugar a volantes marcadores ou a meias que só se ocupam da fase ofensiva, como se fosse impossível exercer mais de uma função.
Por esse atropelo nas decisões, Mano passa a impressão de que fez muito pouco em dois anos de trabalho. Só agora, com a corda colocada em seu pescoço pelo presidente da CBF, resolveu apostar tudo num ousado sistema de marcação adiantada e de ocupação do campo adversário. Como a Seleção passou tanto tempo num limbo tático, o prazo é curto para ajustar o time a essa nova mentalidade. Pode dar certo, mas um fracasso nos Jogos Olímpicos deve colocar fim à trajetória do técnico. Caso isso aconteça, vão dizer que a demissão foi provocada pela forte cobrança por resultados tão típica de nosso país. Particularmente, ficarei com o equívoco do descarte de todo o trabalho anterior, algo que o bom senso de Parreira certamente não recomendaria.    
Imagem: Globo Esporte

domingo, 3 de junho de 2012

Sem euforia antes, sem desespero agora

O México fez a lição de casa. Contra o novo e super ofensivo Brasil, o selecionado tricolor fechou-se na defesa e explorou os generosos espaços concedidos pela retaguarda verde-amarela. Mesmo assim, a derrota por 2 a 0 não deveria ser vista como alarmante.
Antes de tudo, é preciso ter em vista que o Brasil entrou em campo com seu time olímpico enfrentando a equipe principal do México. Em condições normais, o estabanado Juan dificilmente teria lugar na zaga central da Seleção. Além disso, os gols sofridos saíram em lances fortuitos e num momento em que os comandados de Mano Menezes estavam bem na partida.
Por outro lado, a derrota serviu para expor alguns problemas. O principal deles é como lidar com a vulnerabilidade do setor direito da defesa, onde Danilo vem oferecendo generosos espaços aos atacantes adversários. Talvez seja o momento de testar Rafael Silva na posição. Outra questão a ser observada está no comando do ataque. Até este momento, nem Damião, nem Alexandre Pato se mostraram capazes de garantir os gols que a Seleção precisa. Por último, mas não menos importante, tem sido o aprisionamento de Neymar do lado esquerdo do campo. Se existe um jogador neste grupo capaz de desequilibrar uma partida, este é o santista. Todavia, atuando tão aberto e tão distante do gol, Neymar tem sempre uma barreira de marcadores pela frente.
Deste modo, o próximo amistoso contra a Argentina acontecerá num cenário mais tenso do que se imaginava. Completo, o ataque albiceleste deve criar muitas dificuldades para uma defesa que mostrou insegura em alguns momentos. Em caso de nova derrota, muitos irão soar as trombetas do apocalipse e dizer que esta versão da Seleção Brasileira é incapaz de conquistar o ouro olímpico, o que seria uma análise precipitada. Tão precipitada quanto a euforia que começou a se instalar após as vitórias sobre Dinamarca e Estada Unidos.    
Foto: Mowa Press.

sábado, 2 de junho de 2012

Várzea eterna

Ontem, um grande amigo e rubro-negro fanático me cobrou um post sobre a saída de Ronaldinho Gaúcho do Flamengo. Depois de tudo o que já foi dito em todas as mídias possíveis, é difícil escrever algo que não soe repetido. Deste modo, resolvi apenas registrar minha opinião sobre o assunto e constatar que o desfecho dessa história não me surpreendeu em nenhum momento.
Quem acompanha o dia-a-dia do Flamengo percebia, há meses, que a trajetória do meia-atacante na Gávea não seria duradoura. A começar pelo atraso no pagamento do direito de imagem, acordo não honrado pela Traffic e que o clube assumiu sem ter condições de fazê-lo. Se o seu irmão e empresário, Roberto Assis, promoveu um leilão público pelo jogador no início de 2011, era de se imaginar que um atraso de tantos meses não seria tolerado. Da parte da agremiação, os atrasos para os treinos, a vida boêmia, as aparições sem condições para treinar, o mau relacionamento com alguns companheiros e, sobretudo, o pouco retorno técnico eram pistas de que o “casamento” havia chegado ao fim.
Então, volto minha atenção para os dirigentes. Durante os meses em que Ronaldinho esteve no Flamengo não faltaram episódios que davam razão para um rompimento por justa causa. O pior deles talvez tenha acontecido em janeiro com o caso da mulher presente no hotel onde a delegação rubro-negra na concentrava em Londrina. Naquele momento, Vanderlei Luxemburgo, ex-técnico do time, fez questão de expor ao público o que estava acontecendo, mas a decisão de diretoria foi a de passar a mão da cabeça do gaúcho e demitir o treinador – que sofria um desgaste com o grupo, é verdade – na primeira oportunidade. Algo que, vindo da atual diretoria, também não surpreende.
Mesmo antes de sua gestão chegar ao fim, a presidente Patrícia Amorim se junta a outros cartolas de passagem tão desastrosa quanto. A possível dívida de R$ 40 milhões com seu ex-camisa 10 é só mais um exemplo de como o clube de maior torcida no País é dirigido neste momento. O patético apelo aos torcedores, pedindo união contra Ronaldinho é de uma hipocrisia poucas vezes vista. É uma tentativa torpe de colocar a massa contra o (ex-) atleta e aliviar a própria barra. Muitos cairão nessa conversa e odiarão Ronaldinho como faz a torcida do Grêmio. Uma contratação de impacto para tentar acalmar os ânimos provavelmente fará parte desse roteiro.
Por outro lado, como mostra a história, a tendência é que depois dessa tormenta, a poeira baixe e as coisas caminhem um pouco melhor. A ausência de uma figura cheia de regalias e que atrai tantos holofotes pode fazer com que o grupo de jogadores consiga o mínimo de foco no Campeonato Brasileiro. Mas que ninguém se engane. A pior mazela do Flamengo continua na Gávea. Enquanto o clube for dirigido de maneira oportunista e amadora, não há perspectiva de melhora. E quando se olha para o passado, não há razão para grandes esperanças.  
Imagem: Agência Estado.