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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Nós, os nerds
É triste constatar, mas o futebol se tornou um mero entretenimento no Brasil. Pelo menos é o que pensa uma grande parcela da imprensa esportiva de nosso país. Para estes, a análise dos jogos, a preocupação com a tática e a informação estão em segundo plano. Nesse contexto, mais vale a pilhéria, a confusão, a polêmica e a especulação. Relevância? Para quê? Compromisso com a verdade? Bobagem. Vale tudo pela audiência e pelos cliques a mais.
Nesse contexto, quem se preocupa com a informação correta, com as análises mais profundas e quer distância do oba-oba instalado é tachado de nerd, mal-humorado e outros adjetivos pouco elogiosos. Como se fosse impossível levar o futebol a sério sem se tornar um idiota bitolado.
No último sábado, tive um nítido exemplo de como as coisas funcionam por aqui. Diante da má atuação do holandês Robin Van Persie na partida contra a Dinamarca pela 1ª rodada da Euro 2012, André Rizek, comentarista e apresentador do Sportv, desencavou a esfalfada comparação entre o atacante do Arsenal – artilheiro da última edição da Premier League com 30 gols – e o gremista André Lima, centroavante voluntarioso, mas limitado. Uma piada que, além de gasta, acaba deixando no ar que o comandado de Bert van Marwijk é um jogador superestimado por quem acompanha o campeonato inglês, algo que está longe de ser verdade para quem não é um espectador esporádico de futebol internacional. Tal episódio gerou um rápido diálogo no Twitter.

Ao contrário do que possa parecer, o pequeno debate não me irritou. Não tenho idade e nem paciência para discutir na internet. Esse momento só serviu para me dar mais uma amostra de como são vistas as pessoas que levam futebol a sério e não enxergam nesse esporte uma simples forma de entretenimento como um programa de auditório qualquer. A esses olhos, somos nerds que se importam demais com algo desimportante. Mas, se essa é a definição de um nerd do futebol, assumo esse rótulo com orgulho.

sábado, 28 de maio de 2011

Pontos e Vírgulas.*

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado pelo futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Jornalismo de conveniência.
Há algumas semanas, Tiago Leifert, apresentador do Globo Esporte, declarou em entrevista ao fotógrafo J. R. Duran que a sua emissora não noticia eventos esportivos cujos direitos pertencem às concorrentes:
“Na hora de conversar sobre direitos esportivos a gente tem que perder o romantismo. Eu sou muito cobrado: ‘Por que você não fala de Fórmula Indy?’ Simples: porque eu não tenho o direito de falar de Fórmula Indy, meu amigo! Existe uma ideia errada de que a Globo tem que falar de tudo porque o cara quer ver tudo na Globo. Meu amigo, muda de canal pra ver a sua notícia! Não tem Fórmula Indy na Globo, não vai ter Panamericano na Globo, não vai ter Olimpíada na Globo! Essa cobrança é puro romantismo! A gente tem que perder essa mania de achar que tudo é uma força do mal. Não é isso, é negócio. Quem paga mais leva e quem leva exibe.”
Na última quarta-feira, foi a vez do apresentador do Redação Sportv, André Rizek, se defender das cobranças de que a Globo estaria omitindo a notícia veiculada pela BBC que acusa o presidente da CBF Ricardo Teixeira e o ex-presidente da FIFA João Havelange de terem recebido propina da falida ISL: “Quando for relevante e tiver grande repercussão na mídia, o fato sempre estará no Redação. Não faço campanhas, faço jornalismo. Não menosprezo quem aposta neste assunto, não. Respeito. Mas, desqualificar quem optou por outros destaques em sua pauta é ridículo. Amigo, sinto frustrá-lo… Mas a BBC infelizmente está noticiando algo que ocorreu em julho de 2010.”
Não é preciso ser formado em jornalismo para perceber o quanto essas declarações são absurdas. No primeiro caso, se a Globo não tem direitos sobre determinado evento, isso não significa que ela deva ignorá-lo. Os Jogos Olímpicos, por exemplo, são simplesmente o maior evento esportivo do mundo. Não é possível passar por cima como se eles não existissem. Mesmo que os direitos pertençam à Record, os recordes, os resultados e as notícias mais relevantes devem ser veiculados na Globo sim, mesmo que isso signifique fazer propaganda para a concorrência. E como estamos tratando de um programa esportivo não é uma questão de escolha, mas uma obrigação jornalística.
No caso da omissão das denúncias feitas pela BBC, ao contrário do que Rizek disse, o fato é relevante e atual porque trouxe à tona o nome do atual presidente da CBF como um dos envolvidos no esquema de propinas montado pela ISL. Um fato novo, visto que a emissora britânica ainda não havia noticiado o envolvimento de Teixeira e Havelange.
Essa postura remete a 2001, última vez que alguma atração global denunciou Ricardo Teixeira, quando o programa Globo Repórter exibiu um dossiê que fazia diversas acusações ao dirigente. Na ocasião, além da crise diante da possibilidade do Brasil ficar fora da Copa de 2002, havia a dificuldade de renovação dos direitos televisivos do futebol brasileiro.
De lá para cá, a relação entre Globo e CBF praticamente não viveu mais turbulências. E mais: a emissora age como espécie parceira da entidade máxima quando o assunto é o Mundial de 2014. As críticas silenciaram, os privilégios se tornaram ainda maiores e as denúncias são varridas para debaixo do tapete. Para os executivos globais, a CBF é antes de tudo um parceiro comercial. A entidade vende o nosso futebol e quem o repassa ao público não quer desvalorizá-lo nem entrar ao atrito com o parceiro. Como disse Tiago Leifert no trecho acima, a era do romantismo acabou. Hoje tudo é negócio. Jornalismo? O que é isso mesmo?
Crédito da Imagem: J. R. Duran
*Em virtude da publicação desta coluna voltada para o jornalismo, a série “Tipos de Jornalista Esportivo” retorna na próxima semana.