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sábado, 1 de agosto de 2015

A revolução silenciosa

Alguma coisa está mudando no futebol brasileiro. Lentamente, como tudo costuma ser, mas existem forças positivas em andamento dentro de uma estrutura historicamente arcaica. É verdade que o nível de endividamento dos clubes continua alarmante, que a política demissionária de técnicos segue imperando e que a cartolagem – sobretudo de federações estaduais e CBF – continua sendo um entrave. No entanto, em diversos aspectos podemos constatar avanços consideráveis que não podem ser ignorados. Pontos que, reunidos, formam uma pequena e silenciosa revolução que chama a atenção de quem sempre manteve um espírito crítico em relação ao futebol local.
Dentro de campo, já é visível a maior compactação e intensidade nas partidas. A imagem de um futebol brasileiro moroso e espaçado vem dando lugar a jogos mais rápidos e dinâmicos. Com isso, boas partidas vêm deixando de ser algo raro no Brasileirão. É certo que as longas viagens e o calendário inchado são um empecilho quando se pensa na aplicação de velocidade Premier League, porém, nota-se que a referência mudou. Os times nacionais ainda não são intensos como as principais equipes europeias, mas o Brasil não tem sido mais uma ilha isolada no planeta.
E tal mudança não passa apenas pelos jogadores e treinadores. Embora essa questão não tenha sido tratada de forma aberta pela Comissão de Arbitragem da CBF é nítida a existência de uma orientação para que os árbitros deixem o jogo “correr” mais. Os choques têm sido considerados normais e nem todo esbarrão é interpretado como falta. E isso tem contribuído de forma sensível para o aumento da dinâmica nas partidas. Mesmo a polêmica punição severa das reclamações pode se tornar algo positivo a médio/longo prazo. Existe uma cultura enraizada no Brasil que coloca o árbitro como outro adversário a ser derrotado. Quanto menos os atletas se preocuparem com os árbitros, maior a possibilidade de se concentrarem exclusivamente na partida que estão disputando. Logicamente, ainda veremos expulsões exageradas até que o novo sistema encontre seu equilíbrio, contudo, quando isso acontecer, a tendência é que todos saiam ganhando.
Outro movimento bastante positivo é a evolução da média de público dentro do campeonato. Apesar dos 16.392 pagantes desta temporada ainda não ter ultrapassado os 16.537 de média total registrada em 2014, a curva que determina o aumento de público é visível e auspiciosa. São mais de 20 mil em julho, sendo que a décima sexta rodada tem tudo para ser a de maior público até o momento com quebra de recorde do campeonato na partida entre Flamengo e Santos no Maracanã. Difícil especificar todos os fatores para o aumento do público, uma vez que o preço médio do ingresso continua alto. Mas é possível citar alguns como o novo horário das 11 da manhã, a presença de Atlético Mineiro e Corinthians nas primeiras colocações da tabela, o fantástico apoio da torcida do Palmeiras (dono da maior média) e a chegada do atacante Paolo Guerrero inflamando os torcedores do rubro-negro carioca.
Enquanto algumas coisas se transformam internamente, boas notícias surgem do meio externo ao esporte. Quase que simultaneamente às ações do FBI que desmantelaram um esquema de corrupção na FIFA e culminaram com a prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, houve a aprovação no Senado Federal da Medida Provisória 671, também conhecida como MP do Futebol, na prática, trata-se do primeiro passo para o fim das gestões temerárias que tantos danos causaram ao nosso futebol. Evidentemente, a chamada Bancada da Bola trabalha para diminuir os impactos da MP, entretanto, dificilmente conseguirão barrar o cerne da matéria. Não há dúvidas de que o futebol brasileiro deveria ser mais autônomo, mas se não é capaz de se auto-regular, que a moralização venha de fora.
Paralelamente, não se nota grandes mudanças em nossa imprensa esportiva. A perigosa mistura entre esporte e entretenimento está mais presente do que nunca e isso se nota até em espaços onde a informação ainda sobrevive como o principal ativo. Está claro que a audiência norteia a mídia e isso não seria diferente no esporte, porém, a busca pela qualidade não pode ser deixada em segundo plano. Análises táticas mais profundas e debates mais elevados não deveriam ser exceções num grande universo de mesas redondas que levam do nada a lugar nenhum. Do mesmo modo, as entrevistas deveriam questionar muito mais sobre o jogo, em vez de alimentar intrigas e fomentar a eterna corda bamba em que vivem os treinadores. Não há dúvida que todos sairiam ganhando com isso. Sobretudo, o futebol tão massacrado no país que um dia o classificou como casa. 
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

domingo, 12 de julho de 2015

Precisamos falar sobre projeto esportivo

Este post está sendo escrito poucas horas antes de Flamengo e Corinthians entrarem em campo pela 13ª rodada do Campeonato Brasileiro. Como vivemos no país dos resultados, as ausências de Paolo Guerrero e Emerson pelo lado rubro-negro terão o peso do que apontar o placar ao final da partida. Em caso de derrota, o mais provável é que a culpa recaia sobre os ombros do presidente Eduardo Bandeira de Mello que aceitou a solicitação dos representantes corintianos para que os dois atacantes não participassem do confronto de hoje. Como os detalhes da negociação não vieram a público, provavelmente nunca saberemos em quais circunstâncias Bandeira acatou tais condições. Sendo assim, o melhor julgamento não se viabiliza nesta questão.
Contudo, é possível dizer que, como um todo, o planejamento esportivo da atual gestão do Flamengo deixa a desejar. E isso, que fique bem claro, não tem a ver com a gestão financeira exemplar do clube, mas com a maneira como o futebol vem sendo gerenciado. Antes de Cristóvão Borges e Rodrigo Caetano, nada menos que seis treinadores e dois gerentes de futebol passaram pelo Flamengo em dois anos e meio. Dentre eles, apenas Mano Menezes saiu por decisão própria. O restante foi demitido sem conseguir concluir seus projetos. Em outras palavras, não é preciso ser um gênio esportivo para perceber que alguma coisa está fora da ordem na Gávea. Embora os dirigentes rubro-negros sejam profissionais de sucesso em outras áreas, ainda são amadores em sua nova empreitada.
Pouco depois de deixar o Flamengo, Mano Menezes disse que os dirigentes brasileiros não sabiam responder qual era o seu projeto esportivo. Questões básicas como que tipo de futebol se almejava não encontravam eco. Não foi uma crítica direta, mas era bastante cabível ao seu ex-clube. Sem a mesma capacidade argumentativa do gaúcho, Vanderlei Luxemburgo, em sua entrevista coletiva de despedida, foi mais direto ao dizer que a diretoria rubro-negra não entendia nada de futebol. Lamentavelmente, os fatos têm dado razão ao novo técnico do Cruzeiro.
Companheiros de Bandeira de Melo já disseram algumas vezes que “A bola não entra por acaso” do espanhol Ferran Soriano é o livro de cabeceira do grupo. Para quem não conhece, a obra conta como o Barcelona se reorganizou para brigar num mercado globalizado e chegou ao topo. Todavia, os admiradores locais parecem não ter notado que o êxito dos catalães se baseou tanto na gestão financeira quanto no planejamento esportivo. No futebol, esses são pontos que se entrelaçam a todo instante. Um não caminha bem sem o outro. E enquanto esse entendimento não ocorrer, reportagens como a que saiu no “The New York Times” serão o único motivo de orgulho.
Imagem: Lancenet

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O otimismo para escanteio

Neste fim de semana, a bola voltou a rolar em partidas oficiais nos gramados brasileiros. É o retorno dos campeonatos estaduais, competições que ocupam um terço da temporada e que, ano após ano, perdem mais um pouco do prestígio que ainda resta. E, ao contrário do que recomendaria a lógica, seus dirigentes não se mostram interessados e transformá-los em algo muito diferente de um estorvo num calendário que precisa ser revisto com urgência.
O argumento da tradição dos Estaduais não se sustenta na prática. Com folhas de pagamento milionárias, os clubes precisam buscar receitas maiores a cada dia e enfrentar adversários fracos em estádios vazios tornou-se algo absurdamente contraproducente. Neste momento, apenas a cota de TV justifica em parte a existência desses torneios. No entanto, as televisões pagam para transmitir partidas das agremiações mais conhecidas. São as exibições de times como Corinthians, Flamengo, Cruzeiro, Internacional e demais grandes que movem o interesse do público. Por consequência, é óbvio supor que esse pagamento seria potencialmente maior num cenário onde o Brasileirão começasse em fevereiro ou março.
Paralelamente, muitos temem que o fim dos Estaduais representaria também o fim dos pequenos clubes que tanto contribuem para a grandeza do futebol brasileiro. Entretanto, é justamente o contrário. Grande parte dos times menores não tem atividades após o encerramento de suas etapas regionais. Para muitos atletas, quase todos mal remunerados, o ano termina antes de sua metade. Não há nem ao menos a chance de atuar durante toda a temporada regular. Uma triste realidade que CBF e federações ignoram quando elaboram o calendário.
Bem mais significativo do que a proposta redução de datas dos Estaduais seria a saída dos grandes clubes e a transformação em campeonatos regionais extensos que preencham todo o calendário dos times de menor investimento. Uma iniciativa que iria ao encontro das reivindicações do movimento Bom Senso FC, como uma proposta de um futebol melhor para todos. Ou, pelo menos, melhor para quem realmente se preocupa com ele, algo que, em princípio, não parece ser o caso dos dirigentes da Federação do Rio de Janeiro e de Eurico Miranda, novo/velho presidente do Vasco da Gama.
Numa decisão claramente arbitrária, a Ferj estipulou entre R$ 5 e R$ 50 os preços dos ingressos para o Campeonato Carioca em 2015. Se a intenção fosse apenas defender os interesses do torcedor seria perfeito, mas há indícios de que não se trata disso. A começar pela falta de diálogo com seus filiados, aqueles que são a razão da existência de qualquer federação. Com a decisão unilateral, Flamengo e Fluminense terão prejuízo em jogos no Maracanã, estádio cujo custo médio de cada torcedor atinge R$ 12. Com as famigeradas meias-entradas, uma máfia em nosso país, grande parte da torcida adentra o estádio pagando metade do ingresso. Ou seja, na prática, é como se a Ferj estivesse estipulando parte da carga de ingressos em R$ 2,50 a R$ 25, ignorando os reflexos dessa decisão nas finanças dos clubes.
Outro indício é a influencia de Eurico Miranda junto à presidência da Ferj. Quem acredita que o cartola não tem calculado na ponta do lápis os danos provocados aos rivais pela precificação, sinceramente, acredita em tudo. Quando Eurico foi reeleito, estava claro que a situação do futebol carioca e brasileiro pioraria de forma significativa. Ao contrário de Roberto Dinamite, seu antecessor, Eurico não é danoso apenas ao Vasco. Sua influência se estende a outros dirigentes, federações e até a CBF. A volta do ex-deputado representa retrocesso num futebol que deveria olhar para frente, ainda mais após sediar uma Copa do Mundo e ver tantas arenas construídas e reformadas. Por essas e outras, não há razão para otimismo com o futebol brasileiro. Pelo menos, não neste momento.
Texto escrito originalmente para o site Barroso em Dia
Imagem: CNN

segunda-feira, 3 de março de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Tudo por um furo

Até o momento em que assinou contrato com o Barcelona, o atacante Neymar deve ter sido negociado umas dez vezes. Além do clube catalão, o Real Madrid chegou a contratar o craque da Vila algumas vezes. Bayern e Manchester United também estiveram perto. Bem, pelo menos, foi o que as notas e manchetes estamparam nos últimos três anos. No fim, as denúncias de um torcedor do próprio Barça revelaram que Neymar Pai só abriu reais tratativas com o atual clube do brasileiro. O restante foi apenas especulação tratada como notícia.

Bem menos conhecido do que Neymar, Hernane, centroavante do Flamengo, esteve envolvido por duas vezes em situação semelhante apenas no ano de 2014. Primeiro foi a proposta do Al Gharafa. Segundo alguns veículos brasileiros, o Brocador estava certo como o novo reforço do clube catariano, onde, inclusive, receberia um bônus para cada gol que anotasse. No entanto, as negociações com o rubro-negro carioca não tiveram o desfecho desejado pela agremiação baseada em Doha.

Na última semana foi a vez do mercado chinês sondar Hernane. O Shanghai Shenhua, novo clube do zagueiro Paulo André, fez uma boa proposta e os dirigentes do Flamengo pediram garantias bancarias para fechar o negócio. As garantias não vieram e o artilheiro do Brasil em 2013 permaneceu na Gávea. A similaridade entre as duas propostas é que ambas não foram mais do que propostas. A negociação poderia ser concluída ou não. E no caso de Hernane não foram. Então por que motivo elas foram tratadas como se estivessem num estágio mais avançado do que realmente estavam?

A explicação é simples. Atualmente, dar a notícia antes dos concorrentes se tornou mais importante do que dar a notícia correta. Pelo visto, aguardar o desfecho das negociações é perder tempo e acessos preciosos que não podem ser desperdiçados. E se depois a negociação não se concretizar, é fácil: Basta lançar a informação definitiva que novos acessos serão mais do que bem-vindos. Afinal, ninguém vai se lembrar que aquela situação foi dada como certa há alguns dias. Pois este espaço se lembra. E lamenta profundamente que a credibilidade seja algo tão sem importância no jornalismo contemporâneo.

Imagens: Paramount, André Durão (GE)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

As razões do meu desafeto

Pouco mais de 15 mil pessoas pagaram ingresso para ver o primeiro Fla-Flu de 2014. Um pequeno público para assistir à vitória por 3 a 0 do Tricolor sobre seu histórico rival. Além do placar elástico e da estreia do atacante Walter pelo Fluminense, chamou a atenção a enorme faixa levada por torcedores do Flamengo contra os abusivos preços dos ingressos. Para o clássico, 100 reais foram cobrados pela entrada mais barata, um preço que poderia chegar a 300. O resultado disso foi um Maracanã vazio, bem longe de sua capacidade máxima. Como justificativa, a diretoria rubro-negra alega que o uso de carteirinhas de estudante – muitas vezes falsas – que conferem o direito da meia-entrada inviabiliza valores mais compatíveis com a realidade brasileira.
No entanto, não é preciso ser especialista no ramo para enxergar o óbvio: Se o Maracanã comporta 73531 torcedores, então alguma coisa está errada. Apesar dos campeonatos estaduais estarem longe do prestígio de outrora, o público presente ao estádio Mário Filho esteve muito aquém do que deveria. Uma das razões ficou estampada nas arquibancadas por mais de 90 minutos. Chegar às outras também não é difícil. A obsolescência à qual os campeonatos regionais ficaram expostos nas últimas décadas é outra delas. De torneio mais importante para os clubes, hoje não passam de um estorvo num inchado calendário, amparado apenas por sua importância política e pelo saudosismo de quem acompanhou seus melhores dias.
A violência dentro e fora dos estádios é a terceira razão, embora talvez seja a mais importante. As imagens dos 200 torcedores corintianos invadindo o CT “Dr. Joaquim Grava” há uma semana são mais uma prova de que as torcidas organizadas ultrapassaram todos os limites possíveis. Como se não bastasse o prejuízo causado por essas gangues que nada contribuem com o futebol e vivem do dinheiro das agremiações, elas ainda se acham no direito de agredir física e verbalmente os atletas em seu ambiente de trabalho. Uma vergonha muitas vezes acobertada pelos próprios clubes, como ocorreu no alvinegro paulista. A desculpa de que “só as organizadas sabem torcer” é uma estupidez histórica que não merece maiores comentários.
Outros fatores como horários das partidas, o fácil acesso aos jogos pela TV e a baixa qualidade do espetáculo oferecido podem ser incluídos nessa equação que resultou no colapso da cultura de se frequentar estádios no Brasil. Assistir a uma partida em in loco se tornou uma aventura arriscada e dispendiosa. Minimizar tais fatores para dizer que brasileiro não gosta de futebol ou que tem preguiça de ir a um estádio é, sem sombras de dúvidas, um desserviço ao que deveria ser um movimento conjunto para se reverter essa situação. E um dos passos para que os times brasileiros sigam sem ver suas torcidas lotando as arquibancadas.      
Foto: Rosana Fraga / Lance!Press

sábado, 11 de janeiro de 2014

Feliz 2014, futebol brasileiro

O ano de 2014 começou quente no futebol brasileiro. Oficialmente, a bola ainda não rolou nos campeonatos estaduais, porém, assunto é o que não falta. Começando pela disputa judicial envolvendo Fluminense, Portuguesa, Flamengo e CBF que ainda reserva muitos capítulos. Caso o tricolor carioca permaneça na primeira divisão, será uma derrota do futebol dentro de campo para o legalismo. Se Portuguesa e Flamengo recuperem os pontos perdidos, ficará a impressão que o regulamento foi descumprido, mas que a justiça prevaleceu. Todavia, se a CBF decidir “salomonicamente” por manter todos os times na Série A, criando algum monstrengo que reúna 24 clubes, teremos um retrocesso de dez anos de conquistas esportivas. Independente do resultado final, o futebol brasileiro já perdeu.
Auspiciosas estão sendo as movimentações dos clubes nesta janela de contratações. A maior preocupação vem sendo o enxugamento das folhas salariais e as contratações desmedidas que na maioria das vezes davam pouco resultado estão mais escassas. Outro ponto positivo é a ascensão de técnicos jovens como Enderson Moreira, agora no Grêmio, e Dado Cavalcanti que assumiu o Coritiba. Quem sabe, um sopro de renovação e modernidade num mercado de profissionais que, salvo raras exceções, há tempos dá sinais de estagnação.
Paralelamente, o Bom Senso FC surge como um alento. Ainda mais do que a Copa do Mundo. Todavia, que não se espere desse grupo um envolvimento com tudo. O movimento liderado por Paulo André & Cia. tem pautas bem definidas e, caso não se restrinja a elas, correrá o risco de mirar em tudo e não acertar em nada. Algo parecido com o que houve nas manifestações populares de 2013, onde havia muita revolta e pouco foco. A boa notícia é que o Bom Senso sabe o que deseja e parece firme diante das bravatas que vem recebendo como resposta.  
O ano de 2014 promete.

Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press/Folhapress

domingo, 22 de setembro de 2013

Planejamento?

Nesta semana, o pedido de demissão de Mano Menezes do Flamengo pegou a todos de surpresa. Adepto de trabalhos longos, o técnico gaúcho sempre primou por cumprir seus contratos e por acreditar que um bom planejamento é o melhor caminho para o sucesso. Até que, após a derrota do rubro-negro carioca por 4 a 2 para o Atlético Paranaense, declarou que o elenco não estava assimilando o que era pedido e abandonou o clube. Por enquanto, qualquer afirmação sobre outros motivos para a sua intempestiva saída não passam de especulação, algo que não será abordado aqui. Mais importante do que descobrir as razões de Mano é entender por que não existe nenhum tipo de respeito pelos trabalhos dos técnicos no Brasil. E isso por parte dos clubes, dos técnicos e também por grande parte da imprensa esportiva. Existe uma cultura enraizada em nosso futebol que faz parecer normal um treinador trabalhar por alguns meses num clube e sair caso os resultados não surjam em pouco tempo.
Um dos casos mais emblemáticos dos últimos tempos ocorreu com Paulo Autuori. Com apenas três meses no Vasco da Gama, alegou o não cumprimento de acordos pré-estabelecidos com a diretoria e pediu o boné. Dois dias depois, assinava com o São Paulo, clube pelo qual foi campeão mundial em 2005. De forma quase surreal, sem ter tido quase nenhum tempo para treinar seus atletas graças a um calendário sufocante, Autuori foi desligado do tricolor paulista com oito semanas no Morumbi. Em questão de horas, Muricy Ramalho foi confirmado como seu sucessor.
O que mais chama a atenção é a maneira como situações absurdas como essas são tratadas com naturalidade por aqui. É certo que as chegadas e partidas desses profissionais rendem manchetes e cliques, mas a complacência em relação a essas notícias remete à aceitação de que tais condutas são normais quando, na verdade, não deveriam ser. Paulo Vinícius Coelho, jornalista da ESPN, defende a adoção de uma regra que não permita que um técnico assuma outra equipe de uma mesma liga com a temporada em andamento. É possível que tal medida seja capaz de amenizar a rotatividade, porém, nada vai mudar se nossa mentalidade continuar a mesma. Com o atual entendimento, ao final do campeonato, é capaz de termos metade dos times comandados por interinos em vez de uma liga que valorize seus treinadores. Antes de mudar as regras, é preciso a compreensão de que trabalhos duradouros e organizados são melhores do que experimentos passageiros. Difícil é enxergarem algo tão óbvio.
Imagem: Wagner Meier - Estadão

sábado, 2 de junho de 2012

Várzea eterna

Ontem, um grande amigo e rubro-negro fanático me cobrou um post sobre a saída de Ronaldinho Gaúcho do Flamengo. Depois de tudo o que já foi dito em todas as mídias possíveis, é difícil escrever algo que não soe repetido. Deste modo, resolvi apenas registrar minha opinião sobre o assunto e constatar que o desfecho dessa história não me surpreendeu em nenhum momento.
Quem acompanha o dia-a-dia do Flamengo percebia, há meses, que a trajetória do meia-atacante na Gávea não seria duradoura. A começar pelo atraso no pagamento do direito de imagem, acordo não honrado pela Traffic e que o clube assumiu sem ter condições de fazê-lo. Se o seu irmão e empresário, Roberto Assis, promoveu um leilão público pelo jogador no início de 2011, era de se imaginar que um atraso de tantos meses não seria tolerado. Da parte da agremiação, os atrasos para os treinos, a vida boêmia, as aparições sem condições para treinar, o mau relacionamento com alguns companheiros e, sobretudo, o pouco retorno técnico eram pistas de que o “casamento” havia chegado ao fim.
Então, volto minha atenção para os dirigentes. Durante os meses em que Ronaldinho esteve no Flamengo não faltaram episódios que davam razão para um rompimento por justa causa. O pior deles talvez tenha acontecido em janeiro com o caso da mulher presente no hotel onde a delegação rubro-negra na concentrava em Londrina. Naquele momento, Vanderlei Luxemburgo, ex-técnico do time, fez questão de expor ao público o que estava acontecendo, mas a decisão de diretoria foi a de passar a mão da cabeça do gaúcho e demitir o treinador – que sofria um desgaste com o grupo, é verdade – na primeira oportunidade. Algo que, vindo da atual diretoria, também não surpreende.
Mesmo antes de sua gestão chegar ao fim, a presidente Patrícia Amorim se junta a outros cartolas de passagem tão desastrosa quanto. A possível dívida de R$ 40 milhões com seu ex-camisa 10 é só mais um exemplo de como o clube de maior torcida no País é dirigido neste momento. O patético apelo aos torcedores, pedindo união contra Ronaldinho é de uma hipocrisia poucas vezes vista. É uma tentativa torpe de colocar a massa contra o (ex-) atleta e aliviar a própria barra. Muitos cairão nessa conversa e odiarão Ronaldinho como faz a torcida do Grêmio. Uma contratação de impacto para tentar acalmar os ânimos provavelmente fará parte desse roteiro.
Por outro lado, como mostra a história, a tendência é que depois dessa tormenta, a poeira baixe e as coisas caminhem um pouco melhor. A ausência de uma figura cheia de regalias e que atrai tantos holofotes pode fazer com que o grupo de jogadores consiga o mínimo de foco no Campeonato Brasileiro. Mas que ninguém se engane. A pior mazela do Flamengo continua na Gávea. Enquanto o clube for dirigido de maneira oportunista e amadora, não há perspectiva de melhora. E quando se olha para o passado, não há razão para grandes esperanças.  
Imagem: Agência Estado.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Top 10 - Dez perguntas para o futebol brasileiro em 2012.

Mais uma temporada do nosso futebol se inicia e com ela as infindáveis interrogações de sempre. Já que não é possível colocar todas neste espaço, separei as dez que julgo mais relevantes.
10º - Kléber e Dagoberto continuarão aprontando no Sul? Sem deixar muita saudade em São Paulo, os atacantes chegam, respectivamente, ao Grêmio e Internacional com status de craques e a missão de deixar o passado polêmico para trás.
9º - O Palmeiras seguirá como um barril de pólvora? Em 2011 aconteceu de tudo no alviverde. Quando tudo parecia perdido e a Segunda Divisão batia à porta, Felipão afastou Kléber e encontrou paz para escapar do abismo. Agora, o experiente treinador luta para ultrapassar os problemas internos e montar um time competitivo a partir de um elenco, no máximo, mediano.  
8º - Neymar se consolidará como o melhor jogador brasileiro? Que Neymar é o melhor jogador brasileiro em atividade, pouco se discute. Mas o santista será capaz de assumir de vez esse posto e conduzir a Seleção Brasileira a grandes vitórias?
7º - O futebol mineiro vai se recuperar? Definitivamente, o ano passado não foi bom para os times mineiros. O América voltou à Segundona, Atlético e Cruzeiro brigaram até o fim contra o rebaixamento e as receitas inferiores em relação aos rivais do eixo Rio-São Paulo preocupam quando se pensa em competitividade. 
6º - O Flamengo sairá de mais uma crise? Para variar, o rubro-negro está mergulhado em mais uma crise. Jogadores insatisfeitos com atrasos nos direitos de imagem, Luxemburgo perdendo o comando, conflitos nos bastidores somados ao fato de ser um ano de eleição no clube; tudo para manter as coisas em ebulição por um bom tempo. E qual a novidade?
5º - As obras para o Mundial de 2014 continuarão atrasadas? Jerome Valcke, Secretário-Geral da FIFA, avisou: “Só precisamos de oito sedes.” Mesmo assim, em muitas cidades as obras para a Copa do Mundo continuam atrasadas. Para muitos, tal atraso é calculado para que as obras sejam finalizadas na última hora desobrigando o poder público de realizar licitações. Preocupante.  
4º - As lições de Yokohama foram assimiladas? Não se trata de emular o Barcelona, mas perceber o quanto temos errado na formação dos nossos jogadores e em nossa filosofia de jogo. Em 2012, veremos se a derrota do Santos no Japão provocou algum tipo de reflexão em nossos treinadores.
3º - A “balança comercial” será favorável? Até algum tempo, a janela internacional de transferências era um pesadelo para os torcedores. Nossos melhores jogadores deixavam o País e a contrapartida quase sempre desapontava. No entanto, com a crise europeia e o aumento nas receitas dos clubes brasileiros, esse panorama mudou bastante.
2º - Um time brasileiro conquistará a Libertadores? A última edição da competição ficou marcada pelo título do Santos, mas também pela eliminação de quatro times brasileiros nas oitavas. Não resta dúvida que o poderio financeiro de nossos clubes é maior, mas isso será o suficiente?
1º - O futebol brasileiro finalmente ganhará a medalha de ouro? Em Londres, uma ótima geração de jogadores terá mais uma chance de conquistar uma inédita medalha de ouro para a Seleção Brasileira. Mais do que isso, uma conquista pode significar a permanência de Mano Menezes até a Copa do Mundo. Em caso de derrota, muita coisa pode mudar.
E então, leitor, acredita que tem as respostas? Fique à vontade para respondê-las.
Foto: EFE

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Lembra desse?!

Aquele lance ou momento que você, por um motivo ou outro, nunca esqueceu.
No topo do mundo.
Há exatos 30 anos, as 62 mil pessoas presentes ao Estádio Olímpico de Tóquio presenciaram uma das maiores exibições de uma equipe numa final intercontinental. Em campo, o grande Flamengo de Zico enfrentava o Liverpool de Kenny Dalglish num duelo onde o favoritismo era todo inglês.
No entanto, o que se viu foi um recital rubro-negro com direito a três gols ainda no primeiro tempo e show do camisa 10 da Gávea que, mesmo sem marcar, participou de todos os gols. Naquele momento, o mundo conhecia um dos maiores times da história do futebol brasileiro e, por que não dizer, mundial...  
Você conhece alguma história interessante sobre o mundo da bola?
Mande-a para meu e-mail: a4l@bol.com.br e coloque no assunto: 'Lembra desse?!' e ela poderá ser publicada aqui!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A4L recomenda: 1981.

O ano de 2011 marca o trintenário da maior conquista da história do Flamengo. Todavia, mais do que a celebração de um título mundial, 1981 ficou marcado como o ano em que o rubro-negro carioca apresentou ao planeta sua melhor versão. Uma verdadeira seleção, comandada em campo pelo genial Zico muito bem acompanhado por feras como Leandro, Mozer, Andrade, Adílio e Tita. Um time de exceção, como bem definiu o craque Júnior, titular da lateral esquerda daquela fantástica equipe.
Apesar do sugestivo título, “1981” não se limita aos doze meses daquele ano. A obra dos jornalistas André Rocha e Mauro Beting realiza uma saborosa viagem no tempo com detalhes que partem do surgimento daquele Flamengo - que, curiosamente, nasceu a partir de uma derrota – passando por suas glórias, influência no futebol brasileiro e por seu legado. Sem dúvida, um livro que por suas histórias e referências não é leitura obrigatória apenas para flamenguistas, mas para todos os apaixonados por futebol.
Na oportunidade, gostaria também de registrar o meu muito obrigado aos autores pela menção do meu nome na lista de agradecimentos do livro. Algo que encheu de orgulho este velho coração de torcedor.

sábado, 12 de novembro de 2011

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Procurando pelo em bola.
Sempre que posso leio os posts e as reportagens de Maurício Stycer do UOL. Crítico e inteligente, é daquele tipo de jornalista que procura fazer seu leitor pensar sobre determinado tema e não apenas aceitar o que já chega empacotado. Mesmo não assistindo a 99,9% dos programas televisivos que ele aborda, gosto de ler seu blog para me manter minimamente atualizado sobre o que acontece na TV aberta.  
Talvez por isso, eu tenha ficado ligeiramente surpreso com este post. Nele, Stycer lamenta a ausência de uma reflexão mais crítica nos quatro livros recém-lançados que comemoram os 30 anos do título mundial do Flamengo. Na oportunidade, ainda lamenta a ausência de maior profundidade em histórias de bastidores, algo que, na visão do jornalista, não faz pensar sobre velhos vícios do futebol brasileiro.
Minha surpresa parte de algo que considero óbvio: Se tais obras foram escritas em torno da formação do maior time da história do Flamengo e têm como centro o ano de 1981, nada mais normal do que ver em suas páginas informações, detalhes cronológicos, análise das partidas, histórias de bastidores e ponderações sobre a relevância histórica daquele time.
Além disso, ao contrário de outros episódios de nosso passado futebolístico, o chamado Flamengo de Zico está muito mais ligado a uma equipe que jogava o fino da bola, do que a escândalos, esquemas e outras maquinações. Até mesmo a célebre polêmica sobre o duelo contra o Atlético Mineiro pela Copa Libertadores de 81 se desmonta facilmente quando lembramos que o árbitro José Roberto Wright havia sido indicado pelo próprio clube mineiro. Para quem ainda tem alguma dúvida, basta observar o carrinho de Reinaldo em Zico após o aviso de Wright de que as faltas mais duras seriam punidas com expulsão.
De qualquer modo vale a leitura da resposta de Mauro Beting - co-autor de “1981” ao lado do jornalista André Rocha - à crítica de Stycer. Nela, Beting explica perfeitamente a motivação do livro que, por motivos óbvios, não inclui críticas elaboradas ao nosso futebol. Afinal, essas nunca foram objetivo de nenhuma das publicações em questão.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O campeonato mais emocionante do mundo.

Quando o assunto é público nos estádios, ninguém se compara à Bundesliga. Na temporada passada, mais de 42 mil torcedores, em média, lotaram as arenas alemãs. Se a preferência é por tradição e poderio financeiro, então a melhor pedida é a Premier League e suas cifras estratosféricas. Para quem acredita que o melhor campeonato precisa ter, necessariamente, os melhores times, então Barcelona e Real Madrid são os representantes de La Liga. E ainda existem aqueles que preferem o charme da Serie A italiana.  
No entanto, se o que vale é emoção, assunto para as conversas de segunda-feira e alto grau de imprevisibilidade, então nada supera o Campeonato Brasileiro. Encerrada sua 33ª rodada, o Brasileirão ainda tem pelo menos cinco times lutando pelo título. Hoje, Corinthians (58 pontos), Vasco (58), Fluminense (56), Botafogo (55) e Flamengo (55) lutam desesperadamente contra a própria irregularidade numa liga que parece ser disputada por “pontos escorridos”, tal a dificuldade para alguém assumir de vez a ponta da tabela.
Lanterna bate líder. Cena comum em Campeonatos Brasileiros.
“Mas o nível técnico é baixo”, diriam os críticos. Nem tanto. Procure ouvir o que dizem técnicos e jogadores sobre esse assunto. Para Alex, do Corinthians, o nível é alto: “Vai ver como é lá fora” afirma o meia com passagem pelo futebol russo. Para os treinadores Abel Braga e Muricy Ramalho, o Brasileiro é “o campeonato mais difícil do mundo”. São viagens longas, gramados ruins, arbitragens abaixo da crítica e muito equilíbrio dentro de campo. Além disso, como desdenhar do nível técnico de uma competição que reúne nomes como Neymar, Ganso, Borges, Ronaldinho, Juninho Pernambucano, Felipe, Renato, Liédson, Alex, Lucas, Thiago Neves, Deco, Montillo, Leandro Damião, D’Alessandro e tantos outros?
Agora, imagine o que poderia ser este campeonato se a CBF o tratasse como merece. Se o torcedor fosse tratado como cliente e não como gado. Se o calendário fosse minimamente programado para não acontecerem jogos em datas FIFA. Aí, meu amigo, seria difícil competir com ele. Enquanto esse dia não chega, aproveitemos o que esta edição tem de melhor que é fornecer assuntos infinitos tanto para as mesas redondas da TV quanto para animadas mesas de bar.
Confira abaixo o caminho dos principais candidatos ao título (e não deixe de votar na enquete ao lado):
Corinthians (58 pontos): Atlético-PR (casa), Ceará (fora), Atlético-MG (casa), Figueirense (fora) e Palmeiras (casa);
Vasco (58 pontos): Botafogo (casa), Palmeiras (fora), Avaí (casa), Fluminense (fora) e Flamengo (casa);
Fluminense (56 pontos): América-MG (casa), Grêmio (casa), Figueirense (fora), Vasco (casa), Botafogo (fora);
Botafogo (55 pontos): Vasco (fora), América-MG (fora), Internacional (casa), Atlético-MG (fora) e Fluminense (casa);
Flamengo (55 pontos): Coritiba (fora), Figueirense (casa), Atlético-GO (fora), Internacional (casa) e Vasco (fora);
É importante ressaltar que nos clássicos cariocas o acordo prévio é que todas as partidas acontecerão no Engenhão e com divisão de público, algo que, em tese, descaracteriza o mando de campo.
Imagem: Lance! 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Carta aberta ao Galinho.

Prezado Zico,
Peço licença para tratá-lo pelo apelido, mas creio que você não se incomoda, afinal, Zico é a alcunha com a qual você se consagrou mundialmente. Um nome marcado não só por seu enorme talento, mas também por seu caráter e pelos exemplos dados ao longo de décadas dedicadas ao esporte. Não por acaso, Arthur, seu nome de batismo, é dado frequentemente aos filhos de pais que sonham que seus rebentos sejam como você. Não um craque dos gramados, o que é difícil, mas um cidadão de bem. É uma homenagem, um agradecimento, mas também uma esperança. 
Por isso, li com tristeza a entrevista concedida ao jornal Extra nesta semana onde você se mostra indiferente ao Flamengo. Entendo perfeitamente sua mágoa com os atuais dirigentes do clube, pessoas que lá estão muito mais interessadas em se aproveitar do que contribuir realmente. Nesse grupo também incluo aqueles que adoram aparecer nas vitórias, mas desaparecem nos momentos difíceis e que colocam os sujos bastidores políticos acima do que é correto.
Porém, queria lembrá-lo (ou reforçar a ideia) de que o Flamengo é muito maior do que essas pessoas. O Flamengo é um sentimento, uma maneira de enxergar a vida que só os verdadeiros torcedores podem perceber. Assim, nada magoa mais os legítimos rubro-negros do que saber que seu maior ídolo virou as costas para o clube que o revelou e que recebeu em troca gols, títulos e glórias.
De qualquer modo, não tenho o direito de pedir que se una a eméritos flamenguistas e arranque o clube das mãos dessas figuras. Afinal, isso só seria possível se você fosse presidente, algo que, pelo visto, nunca foi uma possibilidade real. Sei que você tem sua vida e seus projetos e se esses não incluem o Flamengo, é um direito seu.
Mas uma coisa eu me reservo ao direito de pedir: Nunca, nunca abandone o Flamengo. Nunca se esqueça das pessoas que vibram, riem e choram pelo clube mais querido do Brasil. Não reconheça como sendo o Flamengo aqueles que se aproveitam do clube. Reconheça sim, aqueles que fazem de tudo para ver o time em campo, que economizam seus trocados para comprar uma camisa ou um ingresso para ver o jogo. Aqueles que te defendem em qualquer discussão e que nunca colocam sua honestidade em dúvida. Pois esses nunca vão virar as costas para você, nem para o verdadeiro Flamengo.
Atenciosamente,
Michel Costa 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Lembra desse?!

Aquele lance ou momento que você, por um motivo ou outro, nunca esqueceu.
43 do 2º tempo.
Tudo bem, era apenas um Estadual. Além disso, era a terceira conquista consecutiva do Flamengo no Campeonato Carioca. Ou seja, uma análise fria diz que comemorar o gol de falta marcado por Dejan Petkovic contra o Vasco em 2001 depois de 10 anos é um exagero. Mas não é. A carga dramática daquela partida, o rival forte e em vantagem no confronto, a falta sendo marcada nos minutos finais, tudo isso deu ao golaço de falta anotado pelo sérvio uma aura quase mística.
Não me envergonho em dizer que aquele momento está entre as maiores alegrias que o futebol me proporcionou. Quando o camisa 10 ajeitou a bola, de alguma forma, eu sabia que aquela bola entraria. Algo que não consigo explicar o quê me dava essa certeza. Talvez por isso e não tirei os olhos da TV nem por um segundo. A bola sim, saiu do enquadramento da câmera por uma fração de segundo. Tudo para voltar no ângulo do goleiro Hélton que nada pôde fazer.
Inesquecível...
Você conhece alguma história interessante sobre o mundo da bola?
Mande-a para meu e-mail: a4l@bol.com.br e coloque no assunto: 'Lembra desse?!' e ela poderá ser publicada aqui!

domingo, 13 de março de 2011

Comparações.

A maior parte de nossas reflexões se baseia em comparações. Se hoje está quente ou frio, se alguém é mais alto, se uma distância é longa demais. Para isso, é comum o estabelecimento de parâmetros que se tornam elementos fundamentais no raciocínio comparativo.  
No futebol não é diferente. Sempre fazendo uso de comparações, estabelecemos nossos próprios conceitos acerca do velho esporte bretão. E a comparação entre jogadores e times são as mais comuns. Quando Ronaldo anunciou que estava pendurando as chuteiras, logo vieram as comparações com Romário e Zico na tentativa de estabelecer o Fenômeno como o melhor brasileiro desde Pelé. Se o assunto é o fantástico Barcelona, logo surgem as comparações com grandes times da história como o Real Madrid de Di Stéfano, o Milan de Sacchi ou o Santos de Pelé.
Porém, poucas comparações encontram tanta discordância quanto a avaliação do poderio do futebol brasileiro no cenário mundial. Obviamente, os extremos desse debate se encontram nos argumentos dos chamados “brasileirinhos” e “estrangeirinhos”, duas classes que foram tema de um post há alguns dias.
Para este blogueiro, a maior razão para opiniões tão distintas se encontra no pequeno campo de observações que dispomos neste momento. Graças, sobretudo ao nosso calendário, são raras as partidas envolvendo clubes brasileiros e europeus. Inclusive, uma das pouquíssimas chances de vermos esses embates é exatamente na final do Mundial Interclubes, algo que não ocorre com tanta frequência.
Nessas poucas ocasiões, não se viu o baile europeu que muitos costumam prever e muito menos um show de talento brasuca como crêem os ufanistas. No entanto, é possível dizer que a diferença de poderio econômico fica evidente quando as escalações das equipes se sobrepõem. Diferença ainda mais acentuada após a Lei Bosman, quando as estrelas do futebol mundial passaram a se concentrar cada vez mais em um número cada vez menor de equipes. 
Partindo desse cenário, é comum ouvirmos opiniões que, em sua maioria, se baseiam em atuações individuais dos mesmos jogadores nos dois continentes e no status internacional de cada um deles. Pouco, muito pouco para se tirar conclusões. E, curiosamente, nota-se que muitas vezes os argumentos levam em consideração apenas os fatos que reforçam as teses de cada lado.
Um exemplo disso se deu com o retorno de Ronaldo ao Brasil após o término de seu compromisso com o Milan. Mesmo muito acima do peso ideal de um futebolista, o Fenômeno conseguiu ser decisivo para o Corinthians em diversas oportunidades como nas finais do Paulistão 2009 e da Copa do Brasil do mesmo ano. Pronto. Esse era o argumento definitivo para medir o futebol nacional. O fato de Ronaldo ser um gênio contava pouco diante do “irrefutável” argumento de que um jogador muito acima do peso era importante aqui. Só não explicam como um Rivaldo magro e sem lesões não decidiu no Cruzeiro em 2004 e por que um disciplinado Ronaldinho não desequilibra no Flamengo como se esperava.
Do mesmo modo, o futebol razoável apresentado pelo Sporting Braga nas competições europeias também vem sendo usado como uma amostra de que até um time composto por jogadores brasileiros de terceira linha pode fazer algum barulho. No mesmo raciocínio, o Shakhtar Donetsk e sua trupe de jovens e talentosos brasileiros são usados como indicativo de que um bom time brasileiro pode fazer sucesso na UEFA Champions League.     
Na realidade não faltam exemplos de todos os tipos. Desde os atletas que atuavam em alto nível no Brasil e mantiveram a qualidade na Europa, assim como destaques nacionais que fracassaram no exterior. E o mesmo se aplica àqueles que regressam a sua terra natal. Muitos deles jogam bem e se tornam peças relevantes em seus times enquanto outros mostram que não tem muito a contribuir. Cada caso precisa ser analisado individualmente e não são suficientes para se basear uma conclusão. Embora, para muitas pessoas, esses exemplos funcionam como a ciência mais exata, desde que, claro, confirmem o que elas julgam ser a verdade.        
Crédito da Imagem: Globoesporte.com

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A4L Tube.

Gols gêmeos.
Impressionante. A tarde de ontem marcou uma das maiores coincidências que eu já vi no futebol. E, mais ainda, envolvendo justamente as duas equipes pelas quais estava torcendo.
Na decisão da Taça Guanabara, Ronaldinho Gaúcho marcou contra o Boavista o gol de falta que deu ao Flamengo a passagem para a final do Campeonato Carioca 2011.
Minutos depois, Wesley Sneijder assinalou o primeiro gol da vitória da Internazionale sobre a Sampdoria em Gênova. Repare na posição em que as faltas foram cobradas e onde a meta foi vazada. Tudo muito parecido, para não dizer idêntico.
Descobriu algum vídeo interessante ou engraçado cujo tema é futebol? Mande-o para meu e-mail: a4l@bol.com.br, colocando no assunto “A4LTube”. Ele poderá ser publicado aqui!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Maneiras e maneiras de se ver futebol.

Até este momento, não se sabe o destino de Ronaldinho Gaúcho. Grêmio, Flamengo e Palmeiras estão oficialmente em leilão pela contração do craque. Sim, leilão, não existe uma palavra que defina melhor o tipo de negociação proposta por seu irmão e agente, Roberto de Assis.
No entanto, o mais certo é que Ronaldinho atue no futebol brasileiro em 2011. Bons analistas como Eduardo Cecconi (aqui) e Carlos Pizzatto (aqui) já projetaram como o jogador poderia ser bem aproveitado no Grêmio (seu destino mais provável), mas ainda não há pistas de como o técnico Renato Portaluppi encara essa questão, com o mesmo se aplicando ao rubro negro Vanderlei Luxemburgo e ao alviverde Felipão.
Embora seja visto por muitos no Brasil como meio-campista, Ronaldinho sempre se deu melhor quando atuou mais à frente, caindo pela ponta esquerda. Foi assim no Barcelona quando alcançou seu auge e foi assim no Milan quando chegou a ficar entre os 30 pré-selecionados de Dunga para o último Mundial. Nas duas ocasiões, uma coisa em comum: a pouca (ou nenhuma) contribuição com o sistema defensivo das equipes.
Pessoas ligadas à antiga diretoria do Barcelona dizem abertamente que a liberdade dada a Ronaldinho se justificava pela magia de seu futebol. Porém, assim que sua produção caiu, as críticas não demoraram a surgir e o banco de reservas acabou sendo o seu destino.
No Milan, se viu uma situação semelhante quando o treinador Massimiliano Allegri preferiu optar pelo voluntarioso Boateng como trequartista a apostar no gaúcho como criador do time. Um equívoco terrível na visão deste blogueiro. Nessa função, o ganense apresenta boa chegada ao ataque e chute forte, mas é só. É de se lamentar que um time que na última década contou com meias do calibre de Boban, Rui Costa e Kaká, hoje tenha um atleta tão limitado tecnicamente naquela faixa do gramado.
Nos últimos tempos, é comum ouvirmos que determinado jogador não serve para o futebol europeu, mas pode fazer a diferença no Brasil. Logo em seguida, exemplos como Romário, Ronaldo, Adriano e Petkovic são citados sem que haja muita contestação. Nunca vi a questão dessa maneira. Para mim, antes de tudo, existe a maneira diferente do brasileiro ver futebol.
Para muitos técnicos, jornalistas e torcedores brasileiros é plenamente aceitável que um meia habilidoso ou um atacante goleador não tenha obrigações defensivas e/ou grande movimentação desde que seja capaz de criar boas jogadas ou marcar muitos gols em troca. Essa é uma cultura brasileira e, por que não dizer, sul-americana. Se está correta ou não, é outra história.
Por sua vez, não faltam casos de meias e atacantes que, apesar da técnica, sempre foram contestados pela rígida visão europeia: Valderrama, Romário, Baggio, Petkovic, Hagi, Ronaldo, Rivaldo, Riquelme, Djalminha, Alex e Robinho foram, cada um ao seu modo, criticados ou cerceados no Velho Continente.
Ainda no PSV, Romário levava o técnico Gus Hiddink à loucura graças a sua total displicência tática. Felizmente para o Baixinho, seus gols em escala industrial garantiam sua titularidade. Gols que o levaram ao Barcelona, como um pedido especial de Johan Cruyff e onde foi mantido sob controle mediante acordos com o chefe que permitiam suas noitadas em troca do balançar das redes. Talvez essa tenha sido a maior razão para Romário nunca ter sido alvo de grande cobiça do futebol italiano, destino de quase todos os craques nos anos 80 e 90.
No mesmo Barcelona em que brilhou Romário, Ronaldo também fez sua história. O Fenômeno foi um Pelé na temporada 1996/97, mas teve que ouvir do então auxiliar José Mourinho que ele deveria participar mais do jogo e não ficar à sombra de seus gols. Anos depois, ainda na Catalunha, Rivaldo enfrentou problemas com o holandês Louis van Gaal que chegou a dizer que o seu compatriota Zenden era mais jogador que o pernambucano.
O genial Roberto Baggio é um exemplo famoso de craque barrado em grandes equipes por contribuir pouco taticamente. Mesmo em seus melhores momentos havia quem o contestasse. No épico “Todos corações do mundo”, um torcedor resume bem o que muitos italianos pensavam do nativo de Caldogno: “É um grande campeão, mas é uma dama. Não corre.” Certa vez, em visita ao Brasil, o meia-atacante se defendeu: “Os técnicos de hoje preferem um jogador capaz de correr 10 km numa partida do que alguém que saiba o que fazer com a bola.”
Até algum tempo atrás, ouvia-se por estes lados pedidos de convocação para o sérvio Dejan Petkovic. Primeiro pediam para o Brasil, depois para seu próprio selecionado. O meio-campo pouco inspirado da Sérvia e Montenegro no Mundial de 2006 deu mais munição aos críticos de sua ausência. Mas uma rápida história contada por Pet dá uma ideia de como a visão europeia é diferente da nossa: “Fui bem numa das poucas chances que tive na seleção. Fiz um gol e dei uma assistência. Quando a partida terminou, perguntei para o técnico o que ele tinha achado e ouvi que eu tinha perdido bolas importantes no meio-campo. Reclamei e só fui chamado de novo num amistoso diante do Brasil.”
Petkovic é um caso emblemático do nosso futebol. Em 2009, ele dificilmente teria vaga num clube pequeno da Espanha ou da Itália, mas foi um dos pilares do título brasileiro do Flamengo naquele ano. Por sua vez, esse mesmo clube europeu deve contar em suas fileiras com algum titular que resume seu futebol a fôlego e abnegação. E receberia um lutador como o romanista Rodrigo Taddei de braços abertos. Afinal, como disse Baggio, os técnicos adoram isso.
Portanto, nunca fiz coro aos que dizem que Petkovic joga no Brasil por que o nível do futebol daqui é muito mais baixo. Historicamente, sempre houve mais liberdade para aqueles que podem decidir individualmente uma partida. Era assim com Júnior no mesmo Flamengo em 1992 e foi assim com Zico no final de sua carreira. Isso num futebol pré-Lei Bosman, quando a maior parte dos grandes jogadores brasileiros ainda fazia a festa de nossos estádios.
Trata-se de uma maneira de enxergar futebol. E, diante dos esforços dos clubes envolvidos na tentativa de trazer Ronaldinho, não resta dúvida de que ele receberá toda liberdade criativa que necessita. Além, é claro, de jogadores destacados para correr para ele.     
Crédito das imagens: Reuters (1 e 2) e O Globo (3).