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domingo, 15 de março de 2015

A era da desinformação

Quando adolescente, ao tentar entender o funcionamento da imprensa em geral, sempre ouvi dizer que imparcialidade era a palavra-chave. Que o jornalismo imparcial era o melhor caminho para a informação. Mais velho, percebi que embora isso seja o ideal, a imparcialidade era algo utópico uma vez que todo profissional possui seus conceitos e que isso inevitavelmente o faria tomar partido do que entendesse ser o mais correto. Ou, na pior das hipóteses, tomaria partido do seu contratante. Deste modo, a imparcialidade deu lugar à isenção, termo parecido, mas que no jornalismo seria o equivalente à liberdade para informar sem estar atado a compromissos de terceiros.
Infelizmente, nesta altura da vida me parece evidente que imparcialidade e isenção, em diferentes escalas, não existem em sua plenitude nos meios de comunicação. E isso acontece porque sempre haverá interesses econômicos, políticos ou ideológicos se sobrepondo à informação. Ou melhor, a informação está lá, mas exposta da forma ou do tamanho que for mais conveniente. Alguém poderia dizer que o diabo mora nas manchetes, mas desconfio que ele sobrevive e se revigora na falta de espírito crítico do público em geral. Com esse espírito seria mais simples buscar a informação mais completa em meio a tanto achismo e indução ao erro.
O que estamos vivendo no Brasil atualmente talvez seja a expressão máxima de como a imprensa pode manipular a opinião pública sem necessariamente mentir. Basta omitir fatos – a alta do dólar no mundo inteiro aqui travestida de desvalorização do real é um bom exemplo – escolher os colunistas cujo posicionamento seja o mais conveniente, além de mascarar dados e temos o cenário perfeito para quem já está predisposto a clamar por impeachment, intervenção militar e retorno da ditadura (alô, professores de História!).
No entanto, ao contrário de outras épocas, o acesso à informação e a diversidade de meios de comunicação e interesses são capazes de suplantar, pelo menos em parte, a venda que alguns tentam colocar na população brasileira. Hoje não é tão fácil manipular num país inteiro como se fez nas décadas de 1960 e 1990, ainda mais com tantos escândalos pipocando por todas as partes. Contudo, restou provado que a regulamentação da mídia é uma necessidade real. Não como forma de interferir na liberdade de expressão ou mesmo censurar, mas para coibir a formação de oligopólios e monopólios e combater à desinformação.
Não permita que alguém pense por você.

Imagem: Reprodução

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Paz armada

Há duas décadas, o capitão da Seleção Brasileira erguia o troféu de campeão do mundo aos gritos de “Essa é pra vocês, seus traíras! É nossa essa porra!”, no que se tornou o maior desabafo de uma figura ligada ao futebol em toda a história desse esporte. Naquele momento, Dunga exorcizou as críticas – boa parte imerecidas – que recebera por conta da derrota em 1990 e durante a campanha que culminou no tetracampeonato nos EUA. É verdade que o gesto foi deselegante e em nada combinou com a postura ideal de um desportista, mas só o jogador sabia o que havia passado. A partir dali, ficou evidente que sua relação com a imprensa nunca seria saudável. E assim foi pelo restante de sua carreira de atleta e durante sua passagem como técnico do Brasil entre 2006 e 2010.
De volta ao posto que deixou há quatro anos, Dunga fez mea-culpa em sua primeira entrevista coletiva e disse que deseja melhorar seu trato com os órgãos de imprensa. A julgar pela forma um pouco ríspida que usou para responder determinadas perguntas, imagina-se que a tarefa não será das mais fáceis para ele. Por natureza, o técnico tem um gênio forte, “turrão” para pegar um termo usado pelo próprio. E a maneira como provavelmente armará a equipe brasileira deve lhe render críticas que dificilmente serão digeridas de forma tranquila. Ainda mais quando a opinião geral aponta para o resgate de um futebol protagonista.  Como ele reagirá a isso ainda é uma incógnita, mas chegou a hora de voltarmos o olhar para o outro lado da questão.
Dunga é só uma parte dessa equação. Seria um equívoco dizer que ele esbraveja em direção a fantasmas sem rosto. Suas respostas normalmente têm endereço e quase sempre são uma forma reação a comentários que ultrapassam a barreira da imparcialidade. Logo após o término da citada coletiva, o jornalista Paulo Vinícius Coelho escreveu que o trabalho de Dunga deveria ser observado de forma neutra e justa. Nada mais correto. Um novo ciclo se inicia e a análise precisa ser feita a partir do amistoso contra a Colômbia no dia 5 de setembro em Miami.
Lamentavelmente, não deve ser assim. A notícia de seu retorno caiu como uma bomba na imprensa esportiva e os efeitos foram sentidos de imediato. Seu nome foi rejeitado de forma quase unânime. A partir daí, uma caminhada que nem começou já foi alvo de todo tipo de ataque. Entre tantos, um chamou mais a atenção. Durante o programa Linha de Passe (ESPN Brasil) exibido na última segunda-feira, o comentarista José Trajano se declarou inimigo de Dunga. Sim, inimigo, como se houvesse uma guerra a ser travada. Em seu discurso inicial, o técnico se mostrou interessado em melhorar sua relação com a mídia, mesmo que suas armas verbais estejam por perto. Pelo visto, talvez tenha que usá-las bem antes do que imagina.
Imagem: Vanderlei Almeida/AFP

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

O outro lado da queda

Da mesma forma que é impossível falar em futebol brasileiro como uma coisa única, também não é correto representar a imprensa esportiva de maneira singular. Tite, possível sucessor de Scolari, não pode ser colocado no mesmo pacote de outros treinadores brasileiros que aparentam não fazer ideia do que está acontecendo no mundo. Deste modo, cabe a ressalva para os profissionais que cobrem o esporte de maneira séria e que refutam qualquer parcela de “achismo” nos seus trabalhos. O que vem a seguir não é para eles.

Ao mesmo tempo em que futebol é paixão, algo que qualquer pessoa pode apreciar, sua compreensão não é algo tão simples. Não em seu nível profissional. Para entendê-lo em sua totalidade, assim como um treinador faz com sua equipe e seus adversários, é preciso estudar, se aprofundar no tema. Talvez por ter nascido a partir de uma costela das antigas crônicas de jornal, grande parte da imprensa brasileira ainda enxerga o futebol como uma coisa lúdica, uma espécie de arte cuja finalidade é encantar pessoas. Se ele foi assim um dia, não é mais. Trata-se de um esporte de alto rendimento e se nele encontramos beleza e emoção, isso está muito mais ligado à sua natureza, ao manejo habilidoso da bola do que algo previamente estabelecido.

Piadas do tipo descrever o sistema 4-2-3-1 como linha de ônibus sempre esbarraram no ridículo, assim como a pilhéria com termos técnicos como “triângulo de base alta”. Não que esses termos sejam obrigatórios no vocabulário jornalístico, mas a percepção de que eles fazem parte do dialeto técnico, sim. Não por acaso, após a massacrante derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha, poucas foram as análises realmente consistente do que aconteceu no Mineirão. Um jovem e bom comentarista, cujo nome não será citado por respeito, passou as 24 horas seguintes fazendo toda sorte de gracinhas com o acontecido. Do que houve em campo, pouco ou quase nada disse.

Ao longo da história, nossa Seleção – aqui entendida como o topo da pirâmide do futebol brasileiro – se reinventou algumas vezes. 1970 e 1994 são dois casos onde o problema da época foi compreendido e corrigido com resultado satisfatório. Se isso ocorrerá novamente agora só saberemos no futuro, mas seria providencial que no decorrer desse processo os profissionais de imprensa caminhassem juntos nesse sentido. Até para que possam tratar desse assunto com a seriedade e propriedade que o tema merece.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Quando o cérebro dá lugar ao fígado

Não saberia precisar em que momento a boa relação entre Seleção Brasileira e imprensa esportiva se rompeu. Talvez tenha sido após a evolução dos próprios meios de comunicação, quando o número de jornalistas cobrindo o escrete canarinho aumentou a tal ponto que a velha resenha com treinadores e atletas deixou de ser possível ou tão frequente, tornando a relação mais fria. Ou com a chegada de Ricardo Teixeira ao comando da CBF, um dirigente que sempre puniu com distanciamento quem ousava criticar ou investigar os atos de sua gestão. Quem sabe, a origem esteja no histórico Manifesto de Glasgow, documento redigido pelos jogadores brasileiros em junho de 1973 que expressava descontentamento com notícias que julgavam ser falsas.

O fato é que a relação não é boa. Isso se reflete nos comentários, na cobertura diária das principais competições, na análise de desempenho e, sobretudo, na cobrança por resultados. Logicamente, não se espera que a pressão por bom futebol seja amena num selecionado cinco vezes campeão mundial. O parâmetro estabelecido como ótimo passou a ser as seleções de 1970 ou 1982, obviamente, sem os problemas defensivos da última e com o tom turvo da memória afetiva. Tudo o que se fez depois disso parece insuficiente ou enfadonho, mesmo que os números não digam o mesmo.


É consenso que a Seleção comandada por Luiz Felipe Scolari não atravessa um bom momento. O crônico problema na saída de bola e da ligação direta persiste e foi potencializado pela pressão de se disputar um Mundial em casa. Sem dúvida, uma combinação perigosa que vem colocando em risco a permanência brasileira na competição. Paralelamente, outros postulantes ao título também enfrentam problemas de outra natureza e, até agora, ninguém desponta como grande favorito. Um bom exemplo é a Alemanha e seu quarteto de centrais na primeira linha e a forma kamikaze como enfrentaram – e quase foram eliminados – pela Argélia. Fosse com o Brasil, muita gente teria arrancado os cabelos.

A questão central não é reconhecer os defeitos da Seleção Brasileira. E nem observar com mais critério o que se passa do lado de lá. Isso deveria ser obrigatório para quem se propõe a trabalhar com futebol. A questão é a maneira como uma grande parcela da imprensa brasileira lida com a Seleção. Passa longe de ser o “jogar junto” erroneamente sugerido nesta semana por Felipão, mas não deveria ser a maneira quase colérica como alguns se comportam. Se a paixão deveria ficar de fora como prega a imparcialidade, o ódio também deveria. Talvez substituído por uma boa análise estatística das partidas. Mas creio que aí já é querer demais.


Imagem: Ari Ferreira/LANCE! Press

segunda-feira, 3 de março de 2014

Pontos e Vírgulas

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Tudo por um furo

Até o momento em que assinou contrato com o Barcelona, o atacante Neymar deve ter sido negociado umas dez vezes. Além do clube catalão, o Real Madrid chegou a contratar o craque da Vila algumas vezes. Bayern e Manchester United também estiveram perto. Bem, pelo menos, foi o que as notas e manchetes estamparam nos últimos três anos. No fim, as denúncias de um torcedor do próprio Barça revelaram que Neymar Pai só abriu reais tratativas com o atual clube do brasileiro. O restante foi apenas especulação tratada como notícia.

Bem menos conhecido do que Neymar, Hernane, centroavante do Flamengo, esteve envolvido por duas vezes em situação semelhante apenas no ano de 2014. Primeiro foi a proposta do Al Gharafa. Segundo alguns veículos brasileiros, o Brocador estava certo como o novo reforço do clube catariano, onde, inclusive, receberia um bônus para cada gol que anotasse. No entanto, as negociações com o rubro-negro carioca não tiveram o desfecho desejado pela agremiação baseada em Doha.

Na última semana foi a vez do mercado chinês sondar Hernane. O Shanghai Shenhua, novo clube do zagueiro Paulo André, fez uma boa proposta e os dirigentes do Flamengo pediram garantias bancarias para fechar o negócio. As garantias não vieram e o artilheiro do Brasil em 2013 permaneceu na Gávea. A similaridade entre as duas propostas é que ambas não foram mais do que propostas. A negociação poderia ser concluída ou não. E no caso de Hernane não foram. Então por que motivo elas foram tratadas como se estivessem num estágio mais avançado do que realmente estavam?

A explicação é simples. Atualmente, dar a notícia antes dos concorrentes se tornou mais importante do que dar a notícia correta. Pelo visto, aguardar o desfecho das negociações é perder tempo e acessos preciosos que não podem ser desperdiçados. E se depois a negociação não se concretizar, é fácil: Basta lançar a informação definitiva que novos acessos serão mais do que bem-vindos. Afinal, ninguém vai se lembrar que aquela situação foi dada como certa há alguns dias. Pois este espaço se lembra. E lamenta profundamente que a credibilidade seja algo tão sem importância no jornalismo contemporâneo.

Imagens: Paramount, André Durão (GE)

domingo, 15 de setembro de 2013

Pontos e Vírgulas.

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A coisa mais importante dentre as menos importantes


O assunto da semana na imprensa esportiva brasileira não nasceu dentro de campo. A demissão do jornalista Flávio Gomes doscanais ESPN após ofensas – em tom de brincadeira – ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e à sua torcida dominou os debates nas redes sociais durante os últimos dias e reabriu a discussão sobre jornalistas que declaram sua paixão por um time. No caso de Flávio, a Portuguesa, que teria sido prejudicada por erros de arbitragem na partida em que foi derrotada pelo tricolor gaúcho pelo placar de 3 a 2 no último dia 7.

Como já colocado neste blog há algum tempo, jornalista esportivo não é “filho de chocadeira”. Todos têm seu clube de coração e conviver com isso dentro da profissão que abraçaram é algo mais do que comum no meio. O problema está no modo como externam esse sentimento. No mundo ideal, que talvez nem exista, um jornalista consegue separar seu lado torcedor do seu lado profissional na medida certa. Não protege seu time quando precisa criticá-lo e nem pesa demais a mão só para mostrar isenção. Na prática, é a velha busca pelo equilíbrio que os técnicos tanto gostam de arvorar.

Dizer que a opção pela demissão segue a tendência do politicamente correto que domina o mundo não é exagero. Contudo, respeitando o direito de Flávio Gomes de pensar diferente, existem limites. Em seus tweets, o jornalista atacou a história do Grêmio, sua torcida e até mesmo o povo gaúcho fazendo uso indireto de um preconceito que não pode ser tolerado quando parte de um profissional cujas palavras têm grande alcance. A decisão da direção da ESPN pela demissão foi dura, mas não foi absurda. É comum o discurso da imprensa esportiva cobrando seriedade e profissionalismo de quem trabalha com o futebol. O amadorismo da cartolagem, um dia considerado um ato de devoção por uma agremiação, hoje é visto com explicável desconfiança. Seguindo a mesma lógica, faz todo sentido cobrar a mesma postura da mídia. Mesmo que nem todos entendam dessa maneira.

Crédito da Imagem: ESPN

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pontos e Vírgulas.

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Os outros craques
Mais uma vez, veio à tona o velho debate entre ex-jogadores comentaristas e jornalistas comentaristas. A polêmica surgiu após o acalorado debate entre Mário Sérgio e Rodrigo Bueno no canal fechado Fox Sports no último domingo. Rodrigo havia dito que os treinadores europeus eram melhores do que os brasileiros e que estes estariam ultrapassados. Exaltado, Mário Sérgio, ex-jogador e também ex-técnico, disse que Bueno não tinha capacidade para avaliar o trabalho dos treinadores locais porque nunca trabalhou no meio. Mais uma demonstração do velho preconceito que os profissionais do jornalismo sofrem por parte de quem atuou no futebol.
Existe um grande equívoco nessa consideração. Muito provavelmente, um jornalista não saberia ministrar um treino ou motivar uma equipe, porém, isso não significa que ele também não sabe avaliar o desempenho de um time, sugerir alterações ou constatar eventuais carências de um elenco. Tudo isso é possível através de estudo, persistência e capacidade de observação. Fosse o contrário, uma pessoa que não sabe nada de construção civil não poderia dizer se uma casa é bonita, ou alguém que nunca foi um chef de cozinha não saberia apreciar uma boa refeição. Logicamente, as competências são diferentes entre si, mas creio que o leitor saberá estabelecer a relação.
No meu caso, comecei a gostar de futebol vendo os lançamentos de Júnior, os gols de Romário e a técnica de Roberto Baggio. Foram esses craques que inicialmente me fizeram amar esse esporte, paixão que, imagino, me acompanhará até o fim dos meus dias. No entanto, gostar não era suficiente. Queria aprender mais sobre o tema. Entendi que só compreendendo seu funcionamento seria possível apreciá-lo em sua totalidade. Nesse caminho, encontrei outro tipo de craque. Alguém capaz de trazer à luz os fatos esquecidos do passado, informações de bastidores, projetar situações futuras e, mais importante, transmitir tudo isso para quem está do outro lado da TV, do computador, do rádio ou do jornal.
Craques como Paulo Vinícius Coelho, Mauro Beting e Tim Vickery. E todos os profissionais capazes de trazer para o apreciador do esporte algo que completa a simples afirmação de uma bela jogada ou por que determinado atleta tomou a decisão A ou B. Isso não é mais suficiente. As pessoas querem ter maior embasamento para opinar, debater e até mesmo cornetar. Vivemos na era da informação e precisamos de quem seja capaz de trazê-la e, em muitos casos, interpretá-la. Infelizmente, são raros os ex-jogadores capazes de realizar tal missão.
Crédito da imagem: Uol

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Atraso
É muito comum ouvirmos sobre o atraso do futebol brasileiro dentro e fora de campo. Das quatro linhas, comenta-se sobre a pouca compactação das equipes, excesso de faltas, jogadores unidimensionais e do péssimo hábito de cavar faltas. Fora dos gramados, os alvos são os técnicos desatualizados e arrogantes, os cartolas corruptos e/ou amadores e a violências das torcidas organizadas.
Todavia, raramente se comenta sobre as deficiências da imprensa esportiva que cobre o futebol. Na última sexta-feira, o técnico do Flamengo, Dorival Júnior, tocou na ferida em participação no programa “Redação Sportv”: “Está na hora de começarmos a mexer no futebol. Nos aproximarmos um pouco mais. A imprensa tem que tomar uma postura diferente.” Perguntado pelo apresentador André Rizek sobre que postura seria, Dorival completou: “Nós temos que passar um pouco mais daquilo que é o trabalho dentro de uma equipe. E isso não acontece. A verdade é que o trabalho do treinador é colocado à prova às quartas e domingos, apenas isso. A imprensa só analisa o resultado e a substituição.”
Com as honrosas exceções de sempre, é exatamente isso o que acontece. Quase todos os comentários se baseiam nos resultados, nas alterações promovidas pelos treinadores e nos erros de arbitragem. Como costuma dizer o colunista e ex-jogador Tostão, o futebol é complexo e imprevisível demais para ser tratado como uma ciência exata ou tomando como base apenas seus momentos decisivos. São raros os profissionais capazes de enxergar as nuances do jogo. A grande maioria abraça uma coleção de clichês e a leva a toda parte, adequando o que está vendo em campo com o que acredita ser o certo.
Outra prova de atraso e, por que não dizer, mau-caratismo são as matérias exageradas, com polêmicas fabricadas ou mentirosas. Nesta semana, Gilson Kleina, técnico do Palmeiras, foi o alvo da vez quando citou a seleção de Burkina Faso como exemplo de equipe que não era favorita numa competição – no caso a Copa Africana de Nações – e chegou à final para dizer que o mesmo poderia acontecer com seu time na disputa da Copa Libertadores. Bastou essa observação para o treinador ser objeto de críticas como se estivesse chamando de pequeno o clube de Palestra Itália. Na verdade, não houve inspiração nenhuma e nem comparação entre o time oito vezes campeão brasileiro e o pequeno selecionado, mas uma comparação entre as situações vividas no momento. Foi lamentável ter de ouvir Kleina se explicando por algo que não disse.     
Na quinta-feira, Vanderlei Luxemburgo também foi atingido por críticas pesadas após a estreia com derrota do Grêmio na mesma Libertadores. Além das chacotas tradicionais, o fato de o time gaúcho estar em formação foi praticamente ignorado e a situação na competição dada quase como acabada com apenas uma partida. Outros “analistas” ainda foram mais longe, colocando em xeque o favoritismo das outras equipes nacionais – algo que se construiu através do bom desempenho ao longo dos anos e do maior poderio financeiro – como se houvesse a mínima ligação entre times distintos.
Precisamos evoluir também nesse sentido. Entender que o jornalismo esportivo deveria se pautar nas informações, estatísticas, na história e menos no achismo e nas preferências pessoais. Constatar as mazelas dos profissionais do futebol não é difícil. Bem mais complicado é reconhecer os próprios problemas. E neste campo o jornalismo está tão atraso quanto o restante.   
Imagem: Ale Cabral - Lancenet

domingo, 28 de outubro de 2012

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Brasil, o país da Moviola
Virou uma praga. De uns tempos para cá, os programas esportivos brasileiros foram dominados pelas discussões de arbitragem. Rodada após rodada, os lances polêmicos envolvendo as decisões dos árbitros se tornaram o principal foco dos debates e das mesas redondas. A bola rolando que é o que realmente importa ficou relegada ao segundo plano. Ou terceiro, se contarmos as polêmicas baratas.
Não são poucas as semelhanças com a velha moviola (hábito de alguns programas italianos de repetir os lances à exaustão e que, basicamente, servem apenas para alimentar polêmica). Agora até os lances bem anulados viraram objeto de especulação. Como bem observou o jornalista Rogério Jovaneli, as TVs ignoram o jogo real e confundem os telespectadores abusando do slow motion e fazendo com que as pessoas acreditem em algo às vezes imperceptível.
E mesmo com o discurso quase uníssono de que os erros não são intencionais, as polêmicas se arrastam por toda a semana como se no comando estivesse a Sônia Abrão. Discussões rasas que não levam a lugar nenhum como os italianos e sua moviola demonstram desde a década de 1960. Muitos dizem que os nossos treinadores importam suas táticas com muitos anos de atraso. Acho que o mesmo pode ser dito dessa “nova” compulsão da imprensa.

sábado, 15 de setembro de 2012

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
O que eu espero de um comentarista
O ex-jogador Paulo César Caju foi assunto neste blog há alguns dias. Na ocasião, seu entendimento sobre a importância da experiência do atleta na formação dos treinadores contrastava com a visão de quem entende que ter passagem pelos gramados não é essencial para o cargo. Desta vez, o polêmico colunista reaparece de uma forma bem menos nobre. Na última terça, Caju escreveu mais um texto sobre sua preocupação com o futebol praticado no Brasil, o defensivismo dos técnicos e o amadorismo dos cartolas. Porém, foi o último parágrafo que me chamou a atenção. De maneira completamente gratuita, classificou os jornalistas Paulo Vinícius Coelho, Paulo Calçade, Leonardo Bertozzi e outros como “analistas de computador”, arrogantes e ainda deu a entender que usa o controle remoto para mudar de canal e não ouvi-los.
A partir da mesma lógica que usa para dizer que só ex-jogadores deveriam ser treinadores, Paulo César provavelmente pensa que para comentar futebol também é preciso dominar a prática. Logicamente, ter sido um atleta ajuda a entender os meandros do jogo, o que os boleiros pensaram em determinados lances e suas reações no gramado. No entanto, ao contrário do que muitos podem pensar, ser comentarista é muito mais do que isso. É muito mais do que “falar sobre o que está vendo” como Romário definiu certa vez. Ser comentarista, ou analista, é trazer para o telespectador informações que enriqueçam a partida, conhecer os jogadores e suas características, conhecer a história do esporte e não menosprezar outras escolas, entender de tática e expor as alternativas dos técnicos, conhecer o passado dos clubes, das seleções e das competições. Enfim, é mostrar ao público que o futebol fica bem melhor quando se enxerga além das cores do próprio time.
Talvez pelo fato de terem atuado, ex-jogadores que se aventuram a comentar costumam pecar pela autossuficiência. A grande maioria – pelo menos no Brasil – não se prepara corretamente para seus compromissos, se equivoca com datas, competições e outros detalhes, comenta mais os lances isolados do que a partida como um todo e, com alguma frequência, demonstra um saudosismo que pouco ou nada acrescenta às transmissões. Particularmente, quando se trata de comentar um jogo, minha preferência é pelos “analistas de computador” que tanto irritam Caju. Até porque, para mim, o único lugar em que jogador me interessa é no campo.
Crédito da Imagem: Terceiro Tempo/UOL

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Nós, os nerds
É triste constatar, mas o futebol se tornou um mero entretenimento no Brasil. Pelo menos é o que pensa uma grande parcela da imprensa esportiva de nosso país. Para estes, a análise dos jogos, a preocupação com a tática e a informação estão em segundo plano. Nesse contexto, mais vale a pilhéria, a confusão, a polêmica e a especulação. Relevância? Para quê? Compromisso com a verdade? Bobagem. Vale tudo pela audiência e pelos cliques a mais.
Nesse contexto, quem se preocupa com a informação correta, com as análises mais profundas e quer distância do oba-oba instalado é tachado de nerd, mal-humorado e outros adjetivos pouco elogiosos. Como se fosse impossível levar o futebol a sério sem se tornar um idiota bitolado.
No último sábado, tive um nítido exemplo de como as coisas funcionam por aqui. Diante da má atuação do holandês Robin Van Persie na partida contra a Dinamarca pela 1ª rodada da Euro 2012, André Rizek, comentarista e apresentador do Sportv, desencavou a esfalfada comparação entre o atacante do Arsenal – artilheiro da última edição da Premier League com 30 gols – e o gremista André Lima, centroavante voluntarioso, mas limitado. Uma piada que, além de gasta, acaba deixando no ar que o comandado de Bert van Marwijk é um jogador superestimado por quem acompanha o campeonato inglês, algo que está longe de ser verdade para quem não é um espectador esporádico de futebol internacional. Tal episódio gerou um rápido diálogo no Twitter.

Ao contrário do que possa parecer, o pequeno debate não me irritou. Não tenho idade e nem paciência para discutir na internet. Esse momento só serviu para me dar mais uma amostra de como são vistas as pessoas que levam futebol a sério e não enxergam nesse esporte uma simples forma de entretenimento como um programa de auditório qualquer. A esses olhos, somos nerds que se importam demais com algo desimportante. Mas, se essa é a definição de um nerd do futebol, assumo esse rótulo com orgulho.

sábado, 17 de março de 2012

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
O maniqueísmo nosso de cada dia.
O principal assunto da imprensa esportiva nesta semana foi, sem dúvida, a renúncia do presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Como era de se esperar, a imprensa “oficial” tratou de enaltecer as conquistas da Seleção Brasileira durante sua gestão e o fato do País ter sido escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014. Nessa abordagem, as inúmeras denúncias de corrupção, as investigações e os pontos negativos de sua administração não tiveram o devido destaque.
Lamentavelmente, essa postura não foi surpresa. Essa parcela da imprensa sempre colocou seus interesses financeiros acima da informação e isso não mudou com a queda de Teixeira, o que dá indícios de que as alianças firmadas e a estrutura atual se manterão mesmo com a saída do dirigente.
Do lado oposto, notei o regozijo de muitos jornalistas que comemoraram a renúncia como se ela fosse o pontapé inicial de uma nova era do futebol brasileiro. Pena que isso não seja verdade. Como escreveu Pedro Venâncio nessa matéria para o site Trivela, diante da estrutura vigente, o provável rumo de nosso futebol passa longe de ser auspicioso. Isso sem citar os nomes dos postulantes ao cargo ora ocupado por José Maria Marin.
Outra triste constatação foi perceber o quanto essa ala tentou trazer para si os méritos da renúncia. Uma rápida recapitulação nas notícias envolvendo o ex-presidente remete às denúncias feitas pelo jornalista investigativo Andrew Jennings que apurou que Ricardo Teixeira e João Havelange teriam recebido propina da extinta empresa de marketing ISL. Posterior a esse processo que tramita na Suíça, está o surgimento das irregularidades envolvendo os gastos exorbitantes do amistoso entre Brasil e Portugal em Brasília que culminaram em investigações da Polícia Civil e da Receita Federal ligando Teixeira ao presidente do Barcelona, Sandro Rosell, em diversas negociações suspeitas.
Simultaneamente, o cartola viu o apoio do governo federal desaparecer quando Lula deu lugar a Dilma Rousseff na presidência da república. Dilma, ao contrário de seu antecessor, nunca deu espaço a Teixeira que se viu ilhado diante das denúncias que o cercam. Não por acaso, a ida para os Estados Unidos é vista como fuga, uma vez que o dirigente temeria ter seu passaporte retido em caso de permanência no Brasil. Outra situação pouco enfatizada é a doença intestinal da qual ele sofre. Tratada como algo menor, poucos repararam em como Teixeira se mostrou abatido nos últimos tempos. Portanto, a minimização do problema de saúde parece muito mais uma tentativa de valorizar a pressão sofrida nos últimos tempos do que a percepção de que o paciente em questão requer cuidados que a rotina anterior dificultaria.
Sinto falta de um jornalismo mais investigativo no Brasil. Realmente existe uma ala crítica de nosso futebol, mas, hoje, ela prefere a crítica pela crítica, quase como uma marcação de posição sob uma ótica maniqueísta. Na tentativa de manter essa postura quase xiita, pouco importa o embasamento técnico ou a reflexão, dizendo apenas o que o público quer ouvir. Para ficar num único exemplo, lembro as citações de nosso precário sistema de saúde como mostra de que temos prioridades maiores do que a realização de um Mundial. É verdade, como também é verdade que existe uma Lei de Responsabilidade Fiscal que regulamenta os percentuais de recursos públicos gastos em todas as áreas. Quando ouço comentários do tipo “gente morrendo nos hospitais e o governo preocupado com Copa” penso em duas coisas: Primeiro, se o jornalista conhece a referida lei; segundo, se ele realmente acha que a não realização de uma Copa do Mundo em nosso território resultaria na solução para todas as nossas mazelas. Eu duvido. E desconfio de que, no fundo, ele também sabe disso. Todavia, mais importante do que isso, parece estar a necessidade de mostrar de lado está. Pelo visto, precisamos superar muitas coisas e não só no que diz respeito a nossa cartolagem.  
Imagem: Estadão

sábado, 12 de novembro de 2011

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Procurando pelo em bola.
Sempre que posso leio os posts e as reportagens de Maurício Stycer do UOL. Crítico e inteligente, é daquele tipo de jornalista que procura fazer seu leitor pensar sobre determinado tema e não apenas aceitar o que já chega empacotado. Mesmo não assistindo a 99,9% dos programas televisivos que ele aborda, gosto de ler seu blog para me manter minimamente atualizado sobre o que acontece na TV aberta.  
Talvez por isso, eu tenha ficado ligeiramente surpreso com este post. Nele, Stycer lamenta a ausência de uma reflexão mais crítica nos quatro livros recém-lançados que comemoram os 30 anos do título mundial do Flamengo. Na oportunidade, ainda lamenta a ausência de maior profundidade em histórias de bastidores, algo que, na visão do jornalista, não faz pensar sobre velhos vícios do futebol brasileiro.
Minha surpresa parte de algo que considero óbvio: Se tais obras foram escritas em torno da formação do maior time da história do Flamengo e têm como centro o ano de 1981, nada mais normal do que ver em suas páginas informações, detalhes cronológicos, análise das partidas, histórias de bastidores e ponderações sobre a relevância histórica daquele time.
Além disso, ao contrário de outros episódios de nosso passado futebolístico, o chamado Flamengo de Zico está muito mais ligado a uma equipe que jogava o fino da bola, do que a escândalos, esquemas e outras maquinações. Até mesmo a célebre polêmica sobre o duelo contra o Atlético Mineiro pela Copa Libertadores de 81 se desmonta facilmente quando lembramos que o árbitro José Roberto Wright havia sido indicado pelo próprio clube mineiro. Para quem ainda tem alguma dúvida, basta observar o carrinho de Reinaldo em Zico após o aviso de Wright de que as faltas mais duras seriam punidas com expulsão.
De qualquer modo vale a leitura da resposta de Mauro Beting - co-autor de “1981” ao lado do jornalista André Rocha - à crítica de Stycer. Nela, Beting explica perfeitamente a motivação do livro que, por motivos óbvios, não inclui críticas elaboradas ao nosso futebol. Afinal, essas nunca foram objetivo de nenhuma das publicações em questão.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado pelo futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Orgulho e Preconceito.
Desde que FIFA e revista France Football unificaram suas premiações de melhor jogador do ano é sempre a mesma conversa. Parte da imprensa esportiva que sempre desdenhou do troféu entregue pela entidade agora diz que a Bola de Ouro perdeu o seu valor, uma vez que os jornalistas responsáveis pelos votos representam apenas um terço de um total também composto por técnicos e capitães das seleções nacionais.     
Embora seja inegável que, matematicamente, a classe perdeu espaço na indicação, também é verdade que receber a chancela da FIFA é um bônus para a publicação. Isso sem falar como era contraproducente que os dois prêmios concorressem entre si, sendo que o objetivo de ambos é exatamente o mesmo: Consagrar o melhor jogador do mundo na temporada.
Além disso, desde 1995 quando a Bola de Ouro também passou a contemplar jogadores nascidos fora da Europa, France Football e FIFA apontaram o mesmo vencedor dez vezes em 15 anos. Quando isso não aconteceu, Mathias Sammer (1996), Figo (2000), Owen (2001), Nedved (2003) e Shevchenko (2004) levaram a Bola de Ouro para casa no mesmo ano em que Ronaldo (1996), Zidane (2000), Figo (2001), Zidane (2003) e Ronaldinho (2004) receberam o título de melhor do ano. Ou seja, mesmo nos anos em que não houve consenso, ninguém foi premiado sem merecer.      
Messi recebe de Guardiola a Bola de Ouro FIFA 2010.
Outro ponto curioso nesse debate acontece quando desqualificam como votantes treinadores e jogadores de países sem tradição no futebol, mas se esquecem que o representante do Brasil é simplesmente Cléber Machado, alguém que dispensa maiores comentários. Primeiro, será que o bravo narrador global tem mais condições de apontar o melhor jogador do mundo do que Buffon ou Joachim Löw? Segundo, o que impede que um treinador de um pequeno país seja um estudioso do futebol? E terceiro, por que cargas d’água um jornalista esportivo entende mais de futebol do que um profissional da área?
Sinceramente, acredito que há uma grande dose de preconceito quando a classe jornalística desdenha da capacidade crítica dos profissionais em questão. Não por acaso, a recíproca se mostra verdadeira quando algum atleta deixa claro que pensa da mídia esportiva. Em comum nas opiniões, apenas o desdém pelo conhecimento alheio.    

domingo, 7 de agosto de 2011

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado pelo futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Ultrapassando limites.
Nunca concordei com a tese de que as celebridades têm uma vida pública. O fato de uma pessoa ser famosa não lhe tira o direito de ter sua privacidade, seus momentos de lazer. No entanto, faz parte da curiosidade humana querer saber o que se passa na vida de seus ídolos. Algo que produziu uma verdadeira indústria disposta a tudo por audiência, independente se isso vai invadir a privacidade alheia.
E não é diferente no futebol. No caso mais recente, envolvendo o atacante Fred do Fluminense, essa faceta do jornalismo esportivo que se confunde em todos os aspectos com a chamada imprensa marrom se mostrou mais uma vez. Não há nada que justifique a presença de um “jornalista” vigiando os passos do jogador na noite carioca. Fred estava de folga, portanto, poderia estar onde quisesse, com que quisesse e bebendo o que quisesse.
No caso dos torcedores envolvidos no episódio, nem há muito que dizer. São bandidos – alguns com passagem pela polícia – que deveriam ser indiciados por todos os crimes que cometeram nos últimos dias. Portanto, fiquemos apenas com a imprensa.
A explicação de que se a vida fora de campo está interferindo no rendimento do atleta é outra falácia. Quem garante que está? Os jornalistas têm acesso aos relatórios fisiológicos dos jogadores? Não creio. Será que já pararam para pensar que as seguidas lesões de Fred estão muito mais ligadas ao péssimo gramado das Laranjeiras do que qualquer outra coisa? Talvez sim. Só que esse tipo de notícia não vende.
Ronaldinho sofreu algo parecido. Até onde se sabe, ele nunca deixou de sair à noite, como também não falta aos treinos do Flamengo. Bastou que seu rendimento em campo melhorasse para que as histórias de suas saídas noturnas silenciassem. Ah, quer dizer que se resolver em campo pode fazer o que quiser? Pura hipocrisia. Vida particular só se torna notícia quando acontece algo que transcende a normalidade. O caso envolvendo o goleiro Bruno é um bom exemplo. Fora o circo que se armou em torno de sua prisão, o fato seria notícia de qualquer jeito.  
A verdade é que a partir do momento em que o jogador está rendendo, esses “jornalistas” não têm como justificar a invasão de privacidade que dizem ser notícia. Suas notas não encontram eco sem haver torcedores revoltados com resultados não alcançados. Em outras palavras, falta a desculpa para que se cometa algo que pode ser chamado de tudo, menos de jornalismo.  
Créditos da imagem: Globo Esporte

sábado, 18 de junho de 2011

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado pelo futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Mais opinião do que informação.
Embora tenha manifestado minha indignação via Twitter com os deputados federais que votaram a favor do Regime Diferenciado de Contratações (RDC) na Medida Provisória 527/11, muita coisa ainda está no ar.
Ouvi e li o que disseram os detratores e os defensores da MP e, no caso dos primeiros, sobrou opinião, mas faltou informação. A princípio, a receita do governo será sigilosa apenas para a sociedade e empreiteiras. O Tribunal de Contas da União (que é o órgão fiscalizador) terá acesso a tudo. No entanto, os gastos serão divulgados após os processos de licitações. Pelo menos é que garantiu o deputado federal Cândido Vaccarezza em participação no Bate Bola 2 na ESPN Brasil.
No discurso dos defensores, entre eles a Presidente Dilma Rousseff, a medida foi mal interpretada, pois visa impedir a formação de cartéis, o que superfaturaria as obras, algo que aconteceu no Pan 2007.
Todavia, está claro que essa é uma visão otimista. Na prática, os gastos podem ultrapassar (e muito!) o que se previa inicialmente. Como não há razão para confiarmos em quem organiza a Copa do Mundo em todas as suas esferas, todo o cuidado é pouco. Mas as afirmações categóricas que a Medida Provisória oficializa a roubalheira me parecem precipitadas.
O momento é de debate e reflexão.

terça-feira, 1 de março de 2011

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado pelo futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
O machismo inglês e a má educação brasileira.
Quem acompanha o noticiário do campeonato inglês provavelmente leu sobre o caso. No dia 22 de janeiro, antes da partida entre Wolverhampton e Liverpool, o narrador Richard Keys e o comentarista Andy Gray da Sky Sports tiveram o seguinte diálogo flagrado por um ignorado áudio aberto:  
- É melhor alguém descer e explicar a regra do impedimento para ela.
- Pois é. Você pode acreditar nisso? Uma mulher assistente! É por isso que eu estava dizendo: mulheres não conhecem a regra do impedimento.
- É claro que não conhecem!
“Ela” é a Sian Massey, uma assistente que começa a ter agora algumas chances na primeira divisão. O comentário altamente sexista resultou na demissão da dupla da Sky, mas o castigo só durou alguns dias já que ambos foram contratados pela rádio talkSPORT.
Como são bem informados, acredito que a maioria dos leitores deste blog já conhecia essa história. Mesmo assim, ninguém é obrigado a conhecê-la, uma vez que o assunto pertence aos bastidores da Premier League e nem foi amplamente divulgado.
Bem, pelo visto não é o que pensa a dupla Paulo Andrade e Mauro Cezar Pereira, narrador e comentarista dos canais ESPN. Durante a transmissão de Birmingham e Arsenal pela final da Carling Cup, ambos fizeram uma brincadeira com o árbitro Mike Dean num lance de impedimento, dizendo que a esposa de Dean certamente não conhecia a regra, numa clara referência ao episódio acima citado.
No entanto, a piada, que explicavelmente tem ares de piada interna, não foi assimilada por todos os telespectadores. E, via Twitter, uma assinante (que prefiro não revelar o nome) logo se manifestou:  
Assinante: @pandradeespn @maurocezarespn queridos amigos, por que a esposa do arbitro não entenderia de futebol? Porque ela é mulher?
Como se vê, trata-se de uma pergunta simples e educada, oriunda de alguém que obviamente não entendeu a piada por desconhecer os fatos supramencionados. Eis que a dupla da ESPN responde fazendo uso da mesma ferramenta:
@pandradeespn Não merece resposta RT @assinante por que a esposa do arbitro não entenderia de futebol? Porque ela é mulher?
Mauro Cezar Pereira: @assinante @pandradeespn Foi uma brincadeira, se você quer entender assim, fique à vontade
Aparentemente sem se incomodar com a grosseria, a fã do esporte novamente se manifestou:
Assinante: @MauroCezarESPN @pandradeespn Eu só perguntei. Tanto é que escrevi: “queridos amigos”. Foi uma pergunta, não uma conclusão.
Fiquei esperando uma retratação da dupla no Twitter ou mesmo no ar. Explicar a história bastaria para que todos entendessem a piada. Esperei em vão. Não houve mais nenhuma manifestação sobre o assunto.
Que Mauro Cezar Pereira não tem a mínima educação, qualquer um que o segue ou já o seguiu no Twitter (caso deste blogueiro) sabe. Mas não esperava isso de Paulo Andrade. Um dos melhores narradores da atualidade, o jovem Paulo é conhecido por sua capacidade de transmitir inúmeras informações sobre a partida que narra sem de forma alguma perder a emoção. Infelizmente, o narrador pisou na bola desta vez. Talvez seja a convivência.   
Crédito da Imagem: RefWord.com