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sábado, 1 de agosto de 2015

A revolução silenciosa

Alguma coisa está mudando no futebol brasileiro. Lentamente, como tudo costuma ser, mas existem forças positivas em andamento dentro de uma estrutura historicamente arcaica. É verdade que o nível de endividamento dos clubes continua alarmante, que a política demissionária de técnicos segue imperando e que a cartolagem – sobretudo de federações estaduais e CBF – continua sendo um entrave. No entanto, em diversos aspectos podemos constatar avanços consideráveis que não podem ser ignorados. Pontos que, reunidos, formam uma pequena e silenciosa revolução que chama a atenção de quem sempre manteve um espírito crítico em relação ao futebol local.
Dentro de campo, já é visível a maior compactação e intensidade nas partidas. A imagem de um futebol brasileiro moroso e espaçado vem dando lugar a jogos mais rápidos e dinâmicos. Com isso, boas partidas vêm deixando de ser algo raro no Brasileirão. É certo que as longas viagens e o calendário inchado são um empecilho quando se pensa na aplicação de velocidade Premier League, porém, nota-se que a referência mudou. Os times nacionais ainda não são intensos como as principais equipes europeias, mas o Brasil não tem sido mais uma ilha isolada no planeta.
E tal mudança não passa apenas pelos jogadores e treinadores. Embora essa questão não tenha sido tratada de forma aberta pela Comissão de Arbitragem da CBF é nítida a existência de uma orientação para que os árbitros deixem o jogo “correr” mais. Os choques têm sido considerados normais e nem todo esbarrão é interpretado como falta. E isso tem contribuído de forma sensível para o aumento da dinâmica nas partidas. Mesmo a polêmica punição severa das reclamações pode se tornar algo positivo a médio/longo prazo. Existe uma cultura enraizada no Brasil que coloca o árbitro como outro adversário a ser derrotado. Quanto menos os atletas se preocuparem com os árbitros, maior a possibilidade de se concentrarem exclusivamente na partida que estão disputando. Logicamente, ainda veremos expulsões exageradas até que o novo sistema encontre seu equilíbrio, contudo, quando isso acontecer, a tendência é que todos saiam ganhando.
Outro movimento bastante positivo é a evolução da média de público dentro do campeonato. Apesar dos 16.392 pagantes desta temporada ainda não ter ultrapassado os 16.537 de média total registrada em 2014, a curva que determina o aumento de público é visível e auspiciosa. São mais de 20 mil em julho, sendo que a décima sexta rodada tem tudo para ser a de maior público até o momento com quebra de recorde do campeonato na partida entre Flamengo e Santos no Maracanã. Difícil especificar todos os fatores para o aumento do público, uma vez que o preço médio do ingresso continua alto. Mas é possível citar alguns como o novo horário das 11 da manhã, a presença de Atlético Mineiro e Corinthians nas primeiras colocações da tabela, o fantástico apoio da torcida do Palmeiras (dono da maior média) e a chegada do atacante Paolo Guerrero inflamando os torcedores do rubro-negro carioca.
Enquanto algumas coisas se transformam internamente, boas notícias surgem do meio externo ao esporte. Quase que simultaneamente às ações do FBI que desmantelaram um esquema de corrupção na FIFA e culminaram com a prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, houve a aprovação no Senado Federal da Medida Provisória 671, também conhecida como MP do Futebol, na prática, trata-se do primeiro passo para o fim das gestões temerárias que tantos danos causaram ao nosso futebol. Evidentemente, a chamada Bancada da Bola trabalha para diminuir os impactos da MP, entretanto, dificilmente conseguirão barrar o cerne da matéria. Não há dúvidas de que o futebol brasileiro deveria ser mais autônomo, mas se não é capaz de se auto-regular, que a moralização venha de fora.
Paralelamente, não se nota grandes mudanças em nossa imprensa esportiva. A perigosa mistura entre esporte e entretenimento está mais presente do que nunca e isso se nota até em espaços onde a informação ainda sobrevive como o principal ativo. Está claro que a audiência norteia a mídia e isso não seria diferente no esporte, porém, a busca pela qualidade não pode ser deixada em segundo plano. Análises táticas mais profundas e debates mais elevados não deveriam ser exceções num grande universo de mesas redondas que levam do nada a lugar nenhum. Do mesmo modo, as entrevistas deveriam questionar muito mais sobre o jogo, em vez de alimentar intrigas e fomentar a eterna corda bamba em que vivem os treinadores. Não há dúvida que todos sairiam ganhando com isso. Sobretudo, o futebol tão massacrado no país que um dia o classificou como casa. 
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O primeiro ano do resto de nossas vidas

Doze meses nos separam daquela que ficou conhecida como “a Copa das Copas” – definição que antes parecia ser apenas um exagero do Governo Federal para o evento que organizava, mas que acabou se tornando realidade quando a bola começou a rolar. Partidas empolgantes, craques desfilando categoria pelos nossos gramados, a festa das torcidas, a comprovação de nossa hospitalidade e muito drama fizeram da última edição do Mundial algo inesquecível – no caso específico dos anfitriões, por uma razão bastante amarga.
Um ano após o revés mais doloroso da história da Seleção Brasileira, é possível classificar o 7 a 1 aplicado pela Alemanha como um divisor de águas em nosso futebol. Embora a elasticidade do placar tenha especificidades pontuais, pode-se dizer que ali foi sepultada toda uma forma de se jogar. Em 90 minutos, os alemães comprovaram como um coletivo forte está a um abismo de distância de um bando de jogadores cuja única arma era a vontade. Foi o triunfo da organização e do planejamento sobre o imediatismo e a negligência, confirmando em 2014 o que a Espanha já havia sinalizado em 2010. Mesmo sem supercraques, mostraram ser possível formar um time capaz de ser encantador e, ao mesmo tempo, altamente competitivo. Uma lição que o Brasil poderia e deveria ter assimilado.
Naquele momento, restava a oportunidade de juntar os cacos e recomeçar a partir da direção apontada por seus adversários. Todavia, lamentavelmente, a primeira ação da CBF foi tentar varrer a tragédia esportiva para debaixo do tapete. A palavra “apagão” surgiu para batizar o massacre, e tudo permaneceu como era antes. Para tentar recolocar o escrete verde-amarelo nos trilhos, Dunga foi reconduzido ao posto de técnico. Estava implícita a ideia de que o capitão do Tetra poderia colocar ordem na casa e reeditar a equipe empenhada que marcou a sua passagem anterior até a fatídica derrota para a Holanda na Copa da África do Sul.
Dunga, por tudo o que tem demonstrado, mudou pouco durante o hiato de quatro anos que o afastou da Seleção. A sede de vitórias permanece a mesma e a sua concepção tática ainda prioriza o contra-ataque em detrimento da proposição. Sem a bola, os seus comandados continuam fechando os espaços de forma eficiente, com uma compactação defensiva que está de acordo com a cartilha do futebol moderno. Mas o problema maior se apresenta quando o seu time tem a bola nos pés.
Por ironia do destino – e pelos caminhos tortuosos tomados pela escola brasileira nas últimas décadas –, o país que um dia ficou mundialmente conhecido pela fantasia e pelo bom trato com a bola hoje não sabe mais o que fazer com ela. Assim como ocorreu com Luiz Felipe Scolari, a Seleção continua sofrendo na transição entre defesa e meio de campo, e sendo obrigada a assistir adversários teoricamente inferiores assumindo as rédeas das partidas, deixando claro que um dos principais objetos de crítica durante a Copa de 2014 permanece intacto.
O segundo fracasso consecutivo em competições oficiais trouxe consigo o fortalecimento da dúvida sobre a verdadeira qualidade da atual safra de jogadores brasileiros. Exceção feita a Neymar, todos os atletas vêm sofrendo questionamentos acerca de suas capacidades, e as comparações com gerações passadas se tornaram inevitáveis. Nem mesmo a massiva presença nos principais clubes do planeta e as enormes cifras que suas transações têm movimentado são suficientes para demover a ideia de que os talentos estão cada vez mais escassos. E o fato de ninguém ter apresentado um comparativo minimamente decente entre as épocas só indica como tal discussão soa vazia, muito mais presente no âmbito das sensações do que das análises.
O que nem todos percebem é que a realidade do futebol mundial mudou. Com a intensidade cada vez maior do jogo e a redução do tempo e do espaço, o craque só continuará fazendo a diferença se houver um coletivo forte em torno de si. Com os nomes que possui, esta geração e provavelmente as vindouras podem se tornar competitivas desde que sejam adequadas às demandas atuais do esporte. Para isso, é necessário tanto que se corrijam os rumos do trabalho de Dunga quanto que se planeje o nosso futebol como um todo, da base à ponta da pirâmide.
De um ponto de vista mais restrito, em que se analisa separadamente a Seleção Brasileira, o primeiro passo é reestruturá-la em busca do protagonismo perdido. Embora o estilo de nossos meias e atacantes esteja mais voltado para a verticalização e o ataque aos espaços, não se pode perder de vista que o jogo inteligente deve ser gerado a partir dos volantes. Sem uma participação efetiva dos homens mais recuados do meio de campo, a construção de jogo passa a ficar dramaticamente comprometida – o que, naturalmente, faz com que cabeças-de-área puramente marcadores e meias ofensivos que apenas realizam infiltrações não cumpram de forma satisfatória essa missão.
Outro aspecto fundamental é o entrosamento do novo grupo brasileiro, que, embora tenha tido uma reformulação menos drástica em comparação a ciclos anteriores, sofreu uma quantidade de alterações bem superior a Chile e Argentina, por exemplo, finalistas da Copa América de 2015. Além disso, há ainda a questão psicológica, que começa no craque Neymar, com imbróglios jurídicos em Barcelona, passa pelos rompantes “heroísticos” de David Luiz e chega à instabilidade de Thiago Silva. E tudo isso em meio a uma onda da palavra “decadência” e de visões autodestrutivas sobre tudo.
Na verdade, as deficiências estruturais do futebol brasileiro mudaram pouco nas últimas décadas. Os dirigentes corruptos, o calendário inchado, os péssimos gramados, a violência das organizadas e o baixo público nos estádios sempre foram características marcantes do futebol local. Os nossos problemas não se tornaram subitamente maiores, mais profundos ou até mesmo insolúveis devido ao que aconteceu na Copa de 2014.
Independentemente de tudo isso, debater as demandas do nosso futebol continua a ser algo fundamental para a sua saúde – e a tentativa da cúpula da CBF de promover uma agenda acerca do assunto, apesar de ainda ser insuficiente e acontecer com pelo menos um ano de atraso, não deixa de ser uma sinalização. Para que sejamos capazes de cicatrizar as nossas feridas e pavimentar um futuro melhor, o primeiro passo é compreender os equívocos do passado. A tragédia esportiva do dia 8 de julho de 2014 só terá um significado positivo se, mais do que escancarar os nossos defeitos, ajudar a impulsionar as melhorias que o futebol brasileiro tanto precisa.
Texto escrito originalmente para o site Conexão Fut
Imagem: AFP

sábado, 27 de junho de 2015

A cultura do sofrimento

Como velha raposa do futebol que é, Ramón Díaz sabia o que fazer para anular a Seleção Brasileira. Observou o que o compatriota José Pékerman havia feito com a Colômbia e adiantou sua marcação para explorar o crônico problema brasileiro na transição entre defesa e meio-campo. Como ocorria com Luiz Felipe Scolari, a equipe de Dunga sofre tanto para sair jogando quanto para manter a bola em seus pés. Sem conseguir usufruir da posse, restava apenas a tentativa dos contragolpes que se tornaram a única alternativa após o gol nascido na primeira boa escapada.
Numa de suas entrevistas coletivas, Dunga declarou que o sofrimento daria a tônica do percurso de seu selecionado na Copa América. E assim foi. Sofreu diante de Peru, Colômbia, Venezuela a na eliminação diante do Paraguai. Desses quatro, apenas os colombianos eram rivais de destaque no atual cenário mundial. Nos outros casos o Brasil penou justamente por não conseguir transformar sua superioridade técnica em domínio e, sobretudo, em gols que dariam a tranquilidade necessária. Um episódio emblemático ocorreu diante da Venezuela, quando Dunga optou pela entrada de mais dois zagueiros e viu um adversário que estava praticamente batido ressuscitar e quase empatar.  
Sofrimento normalmente gera pressão. E pressão pode provocar nervosismo. E isso provavelmente explica o pênalti absolutamente desnecessário cometido por Thiago Silva e que acabou resultando no gol paraguaio. Uma instabilidade preocupante ainda mais por se tratar de um zagueiro experiente e que figura entre os mais valiosos do planeta. Não é absurdo dizer que o Paraguai não levava perigo suficiente para chegar ao empate sem uma mãozinha do defensor. E não há dúvida de que daqui em diante seu nome sempre será questionado por imprensa e torcida.
Quem também sofre é o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Acuado pelas investigações do FBI e da Polícia Federal, o dirigente pode tentar desviar o foco de si para a escolha de um novo treinador para substituir Dunga. Muitos dirão que não faltam motivos para a troca, o que até pode ser verdade. No entanto, em nome da continuidade do trabalho, recomenda-se que o técnico permaneça. Independente do nome escolhido para a sequência, os problemas indicam que o sofrimento deve dar a tônica até a Copa do Mundo de 2018. Talvez Dunga não esteja tão errado assim.    
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Reuters

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O otimismo para escanteio

Neste fim de semana, a bola voltou a rolar em partidas oficiais nos gramados brasileiros. É o retorno dos campeonatos estaduais, competições que ocupam um terço da temporada e que, ano após ano, perdem mais um pouco do prestígio que ainda resta. E, ao contrário do que recomendaria a lógica, seus dirigentes não se mostram interessados e transformá-los em algo muito diferente de um estorvo num calendário que precisa ser revisto com urgência.
O argumento da tradição dos Estaduais não se sustenta na prática. Com folhas de pagamento milionárias, os clubes precisam buscar receitas maiores a cada dia e enfrentar adversários fracos em estádios vazios tornou-se algo absurdamente contraproducente. Neste momento, apenas a cota de TV justifica em parte a existência desses torneios. No entanto, as televisões pagam para transmitir partidas das agremiações mais conhecidas. São as exibições de times como Corinthians, Flamengo, Cruzeiro, Internacional e demais grandes que movem o interesse do público. Por consequência, é óbvio supor que esse pagamento seria potencialmente maior num cenário onde o Brasileirão começasse em fevereiro ou março.
Paralelamente, muitos temem que o fim dos Estaduais representaria também o fim dos pequenos clubes que tanto contribuem para a grandeza do futebol brasileiro. Entretanto, é justamente o contrário. Grande parte dos times menores não tem atividades após o encerramento de suas etapas regionais. Para muitos atletas, quase todos mal remunerados, o ano termina antes de sua metade. Não há nem ao menos a chance de atuar durante toda a temporada regular. Uma triste realidade que CBF e federações ignoram quando elaboram o calendário.
Bem mais significativo do que a proposta redução de datas dos Estaduais seria a saída dos grandes clubes e a transformação em campeonatos regionais extensos que preencham todo o calendário dos times de menor investimento. Uma iniciativa que iria ao encontro das reivindicações do movimento Bom Senso FC, como uma proposta de um futebol melhor para todos. Ou, pelo menos, melhor para quem realmente se preocupa com ele, algo que, em princípio, não parece ser o caso dos dirigentes da Federação do Rio de Janeiro e de Eurico Miranda, novo/velho presidente do Vasco da Gama.
Numa decisão claramente arbitrária, a Ferj estipulou entre R$ 5 e R$ 50 os preços dos ingressos para o Campeonato Carioca em 2015. Se a intenção fosse apenas defender os interesses do torcedor seria perfeito, mas há indícios de que não se trata disso. A começar pela falta de diálogo com seus filiados, aqueles que são a razão da existência de qualquer federação. Com a decisão unilateral, Flamengo e Fluminense terão prejuízo em jogos no Maracanã, estádio cujo custo médio de cada torcedor atinge R$ 12. Com as famigeradas meias-entradas, uma máfia em nosso país, grande parte da torcida adentra o estádio pagando metade do ingresso. Ou seja, na prática, é como se a Ferj estivesse estipulando parte da carga de ingressos em R$ 2,50 a R$ 25, ignorando os reflexos dessa decisão nas finanças dos clubes.
Outro indício é a influencia de Eurico Miranda junto à presidência da Ferj. Quem acredita que o cartola não tem calculado na ponta do lápis os danos provocados aos rivais pela precificação, sinceramente, acredita em tudo. Quando Eurico foi reeleito, estava claro que a situação do futebol carioca e brasileiro pioraria de forma significativa. Ao contrário de Roberto Dinamite, seu antecessor, Eurico não é danoso apenas ao Vasco. Sua influência se estende a outros dirigentes, federações e até a CBF. A volta do ex-deputado representa retrocesso num futebol que deveria olhar para frente, ainda mais após sediar uma Copa do Mundo e ver tantas arenas construídas e reformadas. Por essas e outras, não há razão para otimismo com o futebol brasileiro. Pelo menos, não neste momento.
Texto escrito originalmente para o site Barroso em Dia
Imagem: CNN

domingo, 21 de setembro de 2014

A Seleção não tem culpa

Na última quarta-feira, Dunga, técnico da Seleção Brasileira, divulgou a lista contendo os 22 convocados para os amistosos diante de Argentina, 11 de outubro em Pequim, e Japão, dia 14 em Cingapura. Como se esperava, a presença de nomes que atuam no Brasil provocou revolta nos torcedores dos times que irão ceder jogadores aos seus respectivos selecionados. Contando com a apresentação, as ausências serão sentidas na 27ª e 28ª rodadas do Brasileirão. Desfalques que, em alguns casos, podem fazer a diferença.
Embora a reação automática dos torcedores seja reclamar da comissão técnica da Seleção e da CBF, é preciso saber que a questão é mais profunda do que parece. Desde os anos 1990, a FIFA instituiu datas específicas para jogos de seleções dentro de um calendário previamente definido. Todas as federações nacionais têm conhecimento do mesmo e se planejam para que esses períodos não coincidam com a temporada regular dos clubes. Ou melhor, quase todas.
Graças à ligação entre CBF e federações estaduais, simplesmente não há datas suficientes para a instituição de um calendário decente no Brasil sem que interesses sejam atingidos. A CBF não quer desagradar seus membros que, por sua vez, só existem porque alimentam a própria entidade. Por sua vez, os clubes são subservientes tanto às suas federações quanto à cúpula ora dirigida por José Maria Marin. Sendo assim, na maioria das vezes, a reclamação se restringe a técnicos, jornalistas e torcedores. Qualquer outro barulho não passa de pirotecnia.
Não resta dúvida de que os atletas não se incomodam com o chamado. Eles têm absoluta ciência do quão benéfico para suas carreiras é a chancela da Seleção. Mesmo que desfalquem suas agremiações, as ambições pessoais estão sempre à frente. Em todo o caso, Dunga já deixou aberta a possibilidade do envio de uma carta solicitando a dispensa de algum convocado. Obviamente, tais missivas nunca serão enviadas. Dirigentes e jogadores sabem que esse não é o caminho.
Curiosamente, a nova lista traz um raro nome que um dia recusou a Seleção. Em 2011, quando ainda defendia o Grêmio, Mario Fernandes protagonizou um estranho episódio de recusa de convocação. À época, o atual lateral-direito do CSKA, declarou problemas particulares e não se apresentou para o amistoso contra a Argentina em Belém. Justamente o primeiro adversário na turnê pela Ásia. Como disse o técnico Dunga, todos merecem uma segunda chance. Mas nunca é bom arriscar.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: André Brant/Hoje em Dia

domingo, 14 de setembro de 2014

Deixem o homem trabalhar

Quando o posto de técnico da Seleção Brasileira ficou vago, quase ninguém pensou no retorno de Dunga. Apesar da hipótese de um nome estrangeiro ter sido admitida pela CBF, todas as direções apontavam para a escolha de Tite, o mais vitorioso e atualizado profissional brasileiro dos últimos tempos. Todas menos uma: a política. Segundo a cúpula da entidade, o ex-comandante do Corinthians era figura ligada ao desafeto Andrés Sanchez e, portanto, carta fora do baralho.
Não há dúvida que a volta de Dunga não atendeu os anseios da torcida brasileira. Depois do que houve na última Copa do Mundo, esperava-se uma mudança de rumo na condução da Seleção. Apesar do time dirigido no ciclo 2006/2010 ter sido competitivo, o ex-volante sempre o organizou visando o contra-ataque. Nunca houve uma demonstração de busca por um futebol protagonista. Na visão do capitão do Tetra, só a vitória interessava e o resto não passava de perfumaria.
E parte dessa mentalidade se mantém. Como é de sua natureza, Dunga é obcecado por vencer. Como disse Neymar, é o tipo de pessoa que “não gosta de perder nem cara ou coroa” e isso se reflete em suas equipes. No entanto, algumas mudanças em relação ao trabalho anterior já foram notadas. Diferente de sua primeira passagem e do que era visto com Felipão, esta Seleção tem um apreço maior pela troca de passes e pela posse, sem falar na ausência de um centroavante clássico. Os lançamentos longos desde os zagueiros foram repreendidos e a bola também não é alçada das laterais do campo de qualquer maneira. Por outro lado, a recomposição defensiva segue a mesma linha que um dia arrancou elogios de Fabio Capello.
Logicamente, é muito cedo para dizer que este novo trabalho dará certo. Do mesmo modo, também não é possível falar em fracasso antecipado. Durante o caso que resultou no desligamento de Maicon muitos se anteciparam para dizer que o técnico errou na condução do episódio. Alguns dizendo que o motivo da dispensa deveria ser divulgado, outros afirmando que o melhor era manter o lateral no grupo e só depois não convocá-lo mais. Curiosamente, o próprio jogador agradeceu a maneira como tudo foi conduzido. E ninguém melhor do que ele para saber o tamanho do seu ato de indisciplina. No fim, acabou ficando a impressão de que o julgamento à distância não foi o mais correto. Do mesmo modo que falar em sucesso ou fracasso de Dunga baseando apenas pelo gosto pessoal não parece a maneira mais justa e inteligente.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: AFP

domingo, 10 de agosto de 2014

Brasil em duas frentes

O saudoso Millôr Fernandes costumava dizer que imprensa é oposição e que o resto é armazém de secos e molhados. Particularmente, costumava preferir a versão de que a imprensa deveria ser imparcial e isenta, mas os anos me ensinaram que isso não passa de utopia. Em cada análise sempre há uma opinião implícita e um julgamento de valor que muitas vezes não é o mais correto. No caso do nosso jornalismo esportivo, a posição está clara: A CBF está errada até quando acerta. Não que isso seja comum, obviamente.

Um desses raros acertos é o anúncio de uma Seleção Brasileira Olímpica que caminhe paralelamente à principal. O plano arquitetado por Alexandre Gallo e Dunga, os respectivos técnicos, e o coordenador Gilmar Rinaldi é que 46 jogadores sejam chamados a cada convocação. Serão duas equipes com objetivos diferentes. A primeira, composta por atletas com idade olímpica, será comandada por Gallo e terá como meta preparar o grupo que disputará os Jogos do Rio de Janeiro em 2016. Um time que fará uso das mesmas datas FIFA e mandará suas partidas, prioritariamente, nos estádios utilizados na Copa do Mundo. A segunda, treinada por Dunga, cumprirá o ciclo até 2018.


Responsável pela base da Seleção desde 2013, Gallo foi o único “sobrevivente” da hecatombe que atingiu a comissão técnica. Durante o Mundial, assumiu o papel de observador de Luiz Felipe Scolari, mas não foi incluído na lista de dispensas da CBF. Com dois títulos do Torneio de Toulon no currículo, ouve de seus críticos que sua filosofia privilegia a participação de jovens altos e fortes, preferencialmente mais velhos, em detrimento dos mais talentosos. Um erro, uma vez que o primeiro objetivo das categorias menores sempre será revelar jogadores de qualidade.

Discussões à parte, caberá ao treinador a exclusiva montagem de um selecionado voltado para os Jogos tendo datas e estrutura para isso. Algo inédito em se tratando de Seleção Brasileira. Desde os Jogos de Los Angeles em 1984, nossos elencos olímpicos são montados no apagar das luzes, no máximo com a convocação alguns nomes para a composição do grupo principal. Inseridos num contexto distinto, os garotos não moldam um time, apenas passam a fazer parte de um ambiente estelar que, em alguns casos, nem corresponde à realidade.     

Ouro em Londres, o México foi fartamente elogiado justamente por essa estratégia executada pelo técnico Luis Fernando Tena. Chegou a hora de o Brasil ter um planejamento semelhante. Mesmo que a razão seja o fato do torneio acontecer em nosso território, a iniciativa não deixa de ser louvável. Frequentemente, estamos dispostos a criticar a CBF. Talvez seja este o momento de elogiar sem, necessariamente, sermos tachados de armazém de secos e molhados.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Claude Paris/AP

domingo, 25 de maio de 2014

Contagem Regressiva: Maio de 2014

Para um fanático por futebol, a Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Vai ter Copa, mas não como gostaríamos
A última edição da coluna “Contagem Regressiva” abre mão de analisar o apronto final das 32 seleções que disputarão o Mundial e viaja ao passado. Quando o Brasil foi anunciado em 2007 como o país-sede da Copa do Mundo de 2014 havia a promessa e a realidade. Promessas de um torneio custeado por recursos privados que se somariam a recursos oriundos de parcerias público-privadas e deixariam um imenso legado para as cidades-sede como melhorias nos aeroportos, no transporte urbano, na rede hoteleira e nas estruturas anexas aos novos estádios. Mesmo com um olhar desconfiado, era impossível que um fanático por futebol não se empolgasse com a ideia de um evento tão grandioso em seu território e ainda mais com os benefícios dos legados.
Infelizmente, a realidade não demorou a surgir no horizonte. Assim como o malfadado Pan-Americano do Rio de Janeiro, foi se tornando cada vez mais evidente que os verdadeiros legados seriam apenas as novas arenas construídas ou reformadas para a Copa. No entanto, a oportunidade inerente de se fomentar o futebol em estados como Amazonas, Mato Grosso e Distrito Federal não passou de um sonho. Com isso, salvo por esporádicas visitas de grandes equipes brasileiras, é muito provável que os estádios de Manaus, Cuiabá e Brasília se tornem pesados elefantes brancos.
Há, contudo, a necessidade de se distinguir o que de fato existe em relação aos gastos públicos envolvidos nesse processo e o que não passa de desinformação. Ao contrário do que se diz, os recursos financeiros investidos não vão “quebrar o País”. Há alguns dias, a Folha de São Paulo publicou uma matéria indicando que os investimentos naCopa (aproximadamente R$ 26 bilhões) equivalem a um mês de gastos com educação. Além disso, dentro desse montante encontram-se os valores referentes aos empréstimos do BNDES que deverão ressarcidos. Paralelamente, também haverá o retorno desses investimentos com a movimentação de inúmeros setores de nossa economia, onde estudos apontam cifras que giram entre 142 e 183 milhões de reais. Obviamente, apesar o otimismo nas projeções, é evidente que haverá retorno.
Mas a questão central não é essa. Ou melhor, não deveria ser essa. O Brasil teve em suas mãos a maior oportunidade de sua história para fazer algo extremamente relevante para sua infraestrutura e seu futebol. Em termos estruturais, começam a surgir informações mais concretas do que todos desconfiavam. Um relatóriopreliminar do Tribunal de Contas do Distrito Federal indicou um sobrepreço deR$ 431 milhões na reforma do Mané Garrincha, o estádio mais caro do Mundial. Porém, também por pressão política, tais investigações não foram para frente e ficaram apenas no âmbito do edital da obra.
No que tange o esporte, tivemos a chance de organizar um calendário mais racional, de traçar projetos que estimulassem o futebol nas regiões onde o esporte não é tão desenvolvido e ainda apresentar à população estádios adaptados aos novos tempos e demandas. De tudo isso, somente as arenas estão presentes. No entanto, sem a contrapartida de ações que reaproximassem o público dos campos, sobretudo da população menos favorecida, o objetivo final não foi alcançado. Numa declaração bastante infeliz, o coordenador técnico da Seleção, Carlos AlbertoParreira, definiu a CBF como o “Brasil que dá certo”. Depende do ponto de vista. No que diz respeito ao faturamento da entidade, sem dúvida é um sucesso. Para o futebol brasileiro ela continua dando errado. E há muito tempo.   
Imagem: Página do Partido dos Trabalhadores

sábado, 18 de janeiro de 2014

Tempo perdido

Duas semanas. Parece absurdo, mas esse é o tempo que as principais equipes do futebol brasileiro tiveram de preparação para o início da temporada 2014. Não por acaso, muitas irão começar a disputa dos campeonatos estaduais com times alternativos atuando em campos bizarros – ao lado, o estado do gramado do Estádio de Moça Bonita – enquanto os grupos principais treinam da melhor forma possível dentro de nossa realidade esdrúxula. No mundo ideal, planeta distante e desconhecido da cartolagem local, os mesmos times deveriam treinar por pelo menos um mês, completar a pré-temporada com amistosos para só então iniciar a temporada de fato. Ligas importantes do mundo inteiro funcionam assim e vão muito bem, por sinal.
Em suas entrevistas coletivas, os quatro técnicos dos maiores clubes de São Paulo não fugiram do tema. Nenhum deles considera suficiente o tempo destinado à pré-temporada e disseram que isso compromete a qualidade do que veremos ao longo do ano. Estreando uma coluna na versão brasileira do site da BBC, o jornalista inglês Tim Vickery reafirmou sua opinião de que os Estaduais deveriam acabar, pois, no atual momento, servem apenas para manter acesa uma chama histórica que não se justifica mais. E ele tem razão.
Muitos temem que o fim dos Estaduais representaria também o fim dos pequenos clubes que tanto contribuem para a grandeza do futebol brasileiro. Entretanto, é justamente o contrário. Grande parte dos times menores não tem atividades após o encerramento de suas etapas regionais. Para muitos atletas, quase todos mal remunerados, o ano termina em sua metade. Não há nem ao menos a chance de atuar durante toda a temporada regular. Uma triste realidade que CBF e federações ignoram quando pensam no calendário.
Bem mais significativo do que a sempre proposta redução de datas dos Estaduais seria a retirada dos grandes clubes deles e transformação dos mesmos em campeonatos regionais extensos que preenchessem todo o calendário dos times menores. Uma iniciativa que iria ao encontro das reivindicações do movimento Bom Senso FC, como uma proposta de um futebol melhor para todos. Ou, pelo menos, melhor para quem realmente se preocupa com ele.
Imagem: CBN

sábado, 11 de janeiro de 2014

Feliz 2014, futebol brasileiro

O ano de 2014 começou quente no futebol brasileiro. Oficialmente, a bola ainda não rolou nos campeonatos estaduais, porém, assunto é o que não falta. Começando pela disputa judicial envolvendo Fluminense, Portuguesa, Flamengo e CBF que ainda reserva muitos capítulos. Caso o tricolor carioca permaneça na primeira divisão, será uma derrota do futebol dentro de campo para o legalismo. Se Portuguesa e Flamengo recuperem os pontos perdidos, ficará a impressão que o regulamento foi descumprido, mas que a justiça prevaleceu. Todavia, se a CBF decidir “salomonicamente” por manter todos os times na Série A, criando algum monstrengo que reúna 24 clubes, teremos um retrocesso de dez anos de conquistas esportivas. Independente do resultado final, o futebol brasileiro já perdeu.
Auspiciosas estão sendo as movimentações dos clubes nesta janela de contratações. A maior preocupação vem sendo o enxugamento das folhas salariais e as contratações desmedidas que na maioria das vezes davam pouco resultado estão mais escassas. Outro ponto positivo é a ascensão de técnicos jovens como Enderson Moreira, agora no Grêmio, e Dado Cavalcanti que assumiu o Coritiba. Quem sabe, um sopro de renovação e modernidade num mercado de profissionais que, salvo raras exceções, há tempos dá sinais de estagnação.
Paralelamente, o Bom Senso FC surge como um alento. Ainda mais do que a Copa do Mundo. Todavia, que não se espere desse grupo um envolvimento com tudo. O movimento liderado por Paulo André & Cia. tem pautas bem definidas e, caso não se restrinja a elas, correrá o risco de mirar em tudo e não acertar em nada. Algo parecido com o que houve nas manifestações populares de 2013, onde havia muita revolta e pouco foco. A boa notícia é que o Bom Senso sabe o que deseja e parece firme diante das bravatas que vem recebendo como resposta.  
O ano de 2014 promete.

Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press/Folhapress

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Futebol e política

Para grande parte da crônica esportiva, a demissão do técnico Mano Menezes da Seleção Brasileira foi uma manobra política de José Maria Marin. Ao que tudo indica, o presidente da CBF quis romper com toda a estrutura montada por Ricardo Teixeira e instituir sua própria comissão. Logicamente, com essa medida, mesmo que a base da Seleção seja mantida pelo técnico Luiz Felipe Scolari, a sequência do projeto de Mano para nosso selecionado foi irremediavelmente rompida. Mas que projeto era esse?
Em seu discurso, Mano Menezes sempre se mostrou atualizado em relação às deficiências do futebol brasileiro dentro das quatro linhas. Com frequência, o ex-técnico da Seleção citava problemas com a falta de compactação, com laterais que não sabem compor uma linha de quatro, com volantes que não sabem jogar, etc. Aos poucos, tal filosofia foi sendo implantada na equipe principal e os resultados, ainda que tímidos, começaram a aparecer. Simultaneamente, ao lado do então coordenador do futebol de base, Ney Franco, Mano tentava implantar uma espécie de padronização das categorias inferiores dos clubes no que diz respeito à formação de atletas. Sem dúvida, uma iniciativa elogiável, ainda mais num país desacostumado com qualquer tipo de planejamento mais elaborado.
Porém, a política entrou em campo mais uma vez. Ao receber o convite para treinar o São Paulo, Ney ouviu do presidente Marin que não haveria problema para sua liberação. Na prática, a cúpula deixava claro que o trabalho em desenvolvimento não era tão relevante quanto se pensava e, ao mesmo tempo, reaproximava a entidade de um clube poderoso que havia sido deixado de lado ao final da gestão de Ricardo Teixeira. É bem provável que Mano Menezes tenha percebido ali que o sucessor de Teixeira não pensava como ele. Isso, somado à falta de qualquer manifestação que desse segurança ao treinador deixava claro que a mudança poderia acontecer a qualquer momento. Até que aconteceu.
Com a demissão de Mano, uma onda de críticas varreu o Brasil. De repente, ninguém era a favor da troca do comando técnico. Quem acompanhava à distância até poderia acreditar que o trabalho estava obtendo êxito mesmo sem resultados significativos. Concomitantemente, surgiu o boato de que o espanhol Pep Guardiola estaria aberto a um convite para treinar o Brasil. Era a senha para que os pedidos pela contratação do ex-técnico do Barcelona invadissem programas esportivos, jornais e redes sociais. De repente, a possível chegada de Guardiola se tornou a chave para todas as mazelas do nosso esporte. Mas ninguém se dispôs a tentar explicar para o grande público por que seria.
Não há dúvidas de que Guardiola é um homem anos-luz à frente da média dos treinadores locais. Seus feitos realizados a partir da escola barcelonista estão entre as coisas mais importantes que aconteceram no futebol desde sua invenção. Só isso já bastaria para credenciá-lo ao cargo de técnico do Brasil. No entanto, tanto Guardiola quanto qualquer outro treinador só poderiam atuar no âmbito da Seleção. No máximo dar prosseguimento aos incentivos à base que Mano Menezes e Ney Franco deram início.
Sob o comando de Felipão e a coordenação de Parreira, é possível que a Seleção caminhe melhor. Apesar das boas intenções, a passagem de Mano foi apenas regular. Um bom projeto, mas que nunca encontrou o necessário respaldo dos resultados, algo que sabemos ser fundamental em qualquer coisa ligada ao esporte tupiniquim. Certo ou errado é desse modo que o raciocínio local funciona. Do mais desligado torcedor até o articulista mais renomado, sempre haverá a cobrança pelo resultado, independente do projeto.
O futebol brasileiro precisa do tão falado projeto sim, porém, como um todo. O que é realizado da Seleção pode e deve andar paralelamente a isso. Precisamos de um calendário racional, de uma política para levar público aos estádios, de uma organização que proteja os direitos dos jogadores, de medidas que equacionem as dívidas dos clubes, de um planejamento que vise aproveitar da melhor maneira os estádios que estão sendo construídos para o Mundial, de dirigentes mais profissionais, enfim, precisamos arregaçar as mangas e olhar para frente.
E isso, via de regra, não está ligado ao ocupante da cadeira de técnico da Seleção. Está bem acima dele, inclusive. E é nesse lugar onde se encontra o verdadeiro problema. Está na estrutura corrupta e viciada do futebol brasileiro. Que parte da CBF, passa pelos clubes, por profissionais da área e até pelo canal de TV que, em nome de seus interesses, sempre que pode solicita o retorno de uma fórmula de campeonato que claramente é lesiva ao planejamento das agremiações. Neste cenário, pedir Guardiola ou outro técnico estrangeiro é muito mais um sonho idealista do que uma necessidade. Neste momento deveríamos nos concentrar nos problemas reais. E são tantos.
Crédito da Imagem: Bruno de Lima, Lancenet

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que Felipão pode ser uma boa

Agora é oficial. Luiz Felipe Scolari é o sucessor de Mano Menezes no cargo de técnico da Seleção Brasileira. Como todos sabem, esta será a segunda passagem de Felipão pelo posto e, desta vez, terá a companhia de Carlos Alberto Parreira, novo Coordenador Técnico. Embora não tenha causado nenhuma surpresa, a indicação de Scolari não foi bem recebida por boa parte da imprensa brasileira. A maior crítica gira em torno do momento recente vivido pelo treinador campeão da Copa do Brasil com o Palmeiras, mas co-responsável pelo rebaixamento do clube paulista para a Série B. Além disso, os trabalhos realizados pelo gaúcho após a conquista do pentacampeonato mundial em 2002 também foram alvo de contestações.
Vamos aos fatos:
- Scolari, comandando a Seleção de Portugal, perdeu a Euro 2004 atuando em território lusitano. De quebra, perdeu duas vezes para a Grécia, uma na fase de grupos e outra na final;
- Treinou o Chelsea por apenas sete meses, pois não resistiu aos maus resultados obtidos pela equipe no período e foi demitido;
- De Londres, partiu para o obscuro Bunyodkor, clube do Uzbequistão. Foi campeão uzbeque invicto, mas caiu nas quartas-de-final da Liga dos Campeões da AFC ao perder para o futuro campeão Pohang Steelers;
- Novamente no Palmeiras, foi eliminado pelo então rebaixado Goiás na semifinal da Copa Sul-Americana de 2010. No ano seguinte, o algoz na competição foi o Vasco;
- Foi apenas o 10º colocado no Brasileiro de 2010 e 11º em 2011. Neste ano, deixou o Palmeiras na zona de rebaixamento. Ao final de 38 rodadas, já sob o comando de Gilson Kleina, o clube palestrino foi rebaixado pela segunda vez em sua história.
Todos os argumentos acima são verdadeiros e indicam que os últimos dez anos não foram marcados por grandes vitórias do técnico. No entanto, para que não se cometa uma enorme desonestidade intelectual, também é preciso contextualizar esses fatos:
- Apesar de não ter conquistado nenhum título com Portugal, Felipão fez do selecionado lusitano um adversário temível, algo que não ocorria desde 1966. Durante sua gestão, Portugal derrotou rivais importantes, mostrando bom futebol. Frequentemente, Cristiano Ronaldo cita a relevância do brasileiro em seu desenvolvimento como jogador;
- No Chelsea, bateu de frente com senadores do porte de John Terry e Didier Drogba que não aprovaram seus métodos. Além disso, o clube comandado por Roman Abramovich é conhecido por ser uma máquina de moer treinadores;
- Qualquer trabalho realizado num time como o Bunyodkor precisa ser relativizado. Nas próprias palavras de Felipão, o time uzbeque ocuparia, no máximo, a metade da tabela da Serie B brasileira;
- Se existe um clube brasileiro onde é quase impossível trabalhar este é o Palmeiras. O ambiente político sempre conturbado e a ausência de um elenco competitivo formam uma combinação impraticável. Vale lembrar também, que outros técnicos como Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho falharam no Palestra Itália.
Pelas razões acima citadas, este blogueiro não vê razão para tamanho pessimismo. Felipão é um técnico vencedor, possivelmente haverá um grande impacto sobre os jogadores jovens e ainda terá o respeito internacional que Mano Menezes nunca teve. Cabe também lembrar que em 2001 Felipão também assumiu uma Seleção Brasileira desacreditada e que, aparentemente, sofria uma crise de talentos maior do que dizem atravessar atualmente. E todos sabemos o final dessa história.
Continua sendo verdade que o futebol brasileiro precisa de um projeto, de um horizonte e que a atual direção da CBF não parece ter a mínima condição de oferecer esse suporte. No entanto, paralelamente a isso, a Seleção Brasileira precisa caminhar. E, apesar de alguma evolução mostrada nos últimos meses, o trabalho de Mano Menezes era, no máximo, razoável. Com ele, a Seleção estava muito mais perto do fracasso do que do sucesso em 2014. Mantê-lo poderia ser uma prova de confiança, mas também poderia ser uma forma de omissão.
Imagem: Reuters

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Contagem Regressiva: Novembro de 2012

Para um fanático por futebol, Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Enfim, é um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Os prós e os contras
Parece piada, mas, infelizmente, não é. Justamente quando Mano Menezes dava sinais de que estava encontrando um caminho para a Seleção Brasileira visando a Copa do Mundo de 2014, o presidente da CBF, José Maria Marin, e seus aliados decidiram demitir o treinador sem dar muitas explicações. A versão oficial de que a intenção da entidade é mudar os métodos de trabalho não convenceu ninguém e o anúncio da demissão ter acontecido após uma reunião realizada na Federação Paulista de Futebol dá sinais de que a iniciativa foi muito mais política do que técnica.
Sem a definição do sucessor de Mano, esta coluna analisa os principais candidatos ao cargo mais cobiçado do futebol brasileiro, pontuando os prós e contras de cada um:
Luis Felipe Scolari – Ao que tudo indica, é o favorito ao posto. É o preferido do presidente da Federação Paulista, Marco Polo Del Nero - mais forte do que nunca dentro da CBF - mas alega não ter recebido um convite oficial.
Pontos Positivos: No currículo, além dos bons trabalhos na década de 1990, levou o Brasil ao pentacampeonato mundial em 2002 tendo, como agora, pouco tempo para a missão. Posteriormente, mesmo sem conquistar nenhum título, conseguiu fazer de Portugal uma seleção competitiva durante toda sua passagem. Seu estilo “paizão” pode servir como escudo dos jogadores em momentos turbulentos, coisa que Mano Menezes não foi capaz de fazer;
Pontos Negativos: Na sequência da boa passagem por terras lusitanas, Felipão não emplacou mais nenhum projeto relevante. Em 2008, foi uma vítima de máquina de moer treinadores conhecida como Chelsea, refugiou-se por algum tempo no futebol do Uzbequistão e retornou ao Palmeiras após dez anos de sua primeira passagem. No caótico ambiente palestrino, não conseguiu impor-se como imaginado. O título da Copa do Brasil deste ano não apagou a má campanha que culminou com o rebaixamento do time paulista.       
Muricy Ramalho – Convidado por Ricardo Teixeira em 2010, recusou a proposta e foi campeão brasileiro pelo Fluminense. Depois, foi bicampeão paulista e ainda conquistou a Copa Libertadores 2011 pelo Santos. É o menos cotado entre os brasileiros listados.
Pontos Positivos: Trabalho. Essa sempre foi a marca desse técnico que coloca as vitórias sempre em primeiro plano. Com Muricy, a Seleção provavelmente resolveria os problemas defensivos que tantos danos causaram durante a Era Mano Menezes. Seu currículo recente é o mais vitorioso entre todos os treinadores brasileiros;
Pontos Negativos: O massacre sofrido pelo Santos no último Mundial Interclubes poderia ter sido visto como normal diante de um adversário como o Barcelona. Todavia, os equívocos táticos cometidos na decisão e as declarações desconectadas da realidade após a partida denunciaram um técnico ultrapassado em relação ao futebol que é praticado pelas melhores equipes do planeta. O hábito de se eximir de responsabilidade quando seus times atravessam momentos ruins também pesa contra.
Tite – Disputará o Mundial de Clubes em dezembro com o Corinthians e, se for campeão, provavelmente haverá um grande clamor popular por seu nome. Já declarou que sonha chegar à Seleção um dia, mas, por ora, evita abordar diretamente o assunto.    
Pontos Positivos: É um dos técnicos brasileiros mais atualizados e está sempre disposto a observar e aprender. No Corinthians, implantou uma filosofia moderna e colheu bons frutos como a conquista do Brasileiro de 2011 e a Libertadores deste ano. A marcação adianta implantada no Timão se assemelha ao que Mano vinha tentando fazer na Seleção, mas com uma grande diferença: Ela funciona no Corinthians;  
Pontos Negativos: Tite sempre precisou de algum tempo para organizar suas equipes e isso não é algo que a Seleção oferece. Quem assumir terá de colocar ordem na casa rapidamente se aprontar para a Copa das Confederações. Além disso, não há evidências de que o tão solicitado futebol-arte encontrará vez com o gaúcho. Sua equipe se caracteriza pela intensidade na marcação. Com a bola, é um time normal.
Pep Guardiola – Embora nomes estrangeiros tenham sido praticamente descartados pelo presidente Marin, a suposta receptividade mostrada pelo catalão ao saber que a Seleção Brasileira estava sem treinador animou muita gente no País.  
Pontos Positivos: Guardiola seria um sopro de inovação no cenário empobrecido do futebol brasileiro. Multicampeão com o Barcelona, sempre demonstrou respeito pelo que nossa escola representa e seria uma escolha de impacto no momento atual. E, como referência, os profissionais que aqui estão só teriam a ganhar;  
Pontos Negativos: O tempo até a Copa do Mundo é muito curto para mudanças mais profundas. Além disso, o fato de se não estar ligado à cultura do nosso futebol pode atrasar ainda mais a preparação da Seleção. Pep seria uma grande opção para o início de um ciclo. Agora, mesmo com todas suas qualidades, seria uma aposta.
Segundo as palavras do presidente da CBF na Soccerex, o novo técnico deverá ser anunciado até o início de janeiro. Até lá, haja especulações e boatos sobre quem deverá suceder Mano Menezes.
E para você, qual seria o técnico ideal para a Seleção? Vote na enquete ao lado!
De olho na Copa
Além da inoportuna demissão de Mano Menezes, a situação interna da CBF também não anda nada boa. Especula-se que Andrés Sanchez, diretor de seleções, deve deixar o cargo nos próximos dias e, ao que tudo indica, para se tornar oposição à cúpula da entidade. Simultaneamente, o braço direito de José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, deve ser indiciado pela Polícia Federal por envolvimento com a máfia de comercialização de informações sigilosas recentemente desmontada pela operação Durkhein.
A mascote da Copa de 2014 teve seu nome divulgado no último domingo. Fuleco, nome escolhido por 48% dos 1,7 milhão de votantes, mistura as palavras futebol e ecologia. Enquanto isso, a bola oficial da Copa das Confederações será apresentada no próximo dia 1º de dezembro quando também ocorrerá o sorteio dos dois grupos do torneio. Além do Brasil, país-sede, estarão presentes Espanha, Itália, Japão, México, Taiti e Uruguai. O representante da confederação africana será conhecido em 2013 após a Copa Africana de Nações. Infelizmente, não haverá um técnico para comentar sobre o grupo em que o Brasil foi sorteado.         
Confira abaixo, o andamento das obras nas doze sedes:         
Dentro do previsto: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza e Salvador;  
Apresentando atrasos: Cuiabá, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo;
Situação preocupante: Curitiba, Manaus, Natal e Recife.
Imagens: Agência Estado, Gazeta Press, Sportv, Reuters e FIFA.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Manobra arriscada

A notícia da demissão do técnico Mano Menezes caiu como uma bomba nesta sexta-feira. Embora seus resultados à frente da Seleção Brasileira não fossem os melhores, a sensação geral era a de que, aos poucos, o time estava entrando nos trilhos. Após romper com toda a base construída pelo antecessor Dunga, Mano fez diversas escolhas questionáveis, mudou de rota algumas vezes, não conquistou bons resultados, mas, mesmo assim, dava sinais de que estava encontrando uma forma de jogar e uma espinha dorsal.
O ano de 2012 se encerra com a Seleção atuando de uma forma semelhante às de grandes equipes do futebol mundial, com volantes que sabem jogar, evitando quebrar a saída de bola e com um ataque técnico e habilidoso. Se o balanço geral desses quase dois anos e meio não é positivo, pelo menos, indicava que havia um caminho a ser seguido. Sendo assim, por que a mudança?
Como escreve Juca Kfouri, ao que tudo indica, a troca tem um viés muito mais político do que técnico. Dizem também que a demissão é uma maneira de enfraquecer o diretor Andrés Sanchez nos bastidores da CBF. Se assim for, a iniciativa é ainda mais perigosa do que parece. Restando menos de dois anos para o Mundial, romper com um trabalho que agora dá frutos é uma medida bastante temerária.
Queira ou não, a vinda de um novo treinador dificilmente garantirá a sequência do trabalho. Mesmo que a mentalidade do escolhido seja parecida com a de Mano Menezes, provavelmente haverá a troca de alguns ou de muitos jogadores. Exemplos: E se o novo técnico considerar preocupante o fato de Diego Alves não ser titular absoluto do Valencia? E se enxergar David Luiz como um zagueiro instável? E se tiver preferência por um volante de mais pegada no meio-campo? E se não contar com Kaká? E se não gostar de Neymar atuando como o homem mais adiantado do time?  
Perguntas não faltam, mas respostas sim. E a primeira é o nome do novo comandante. No momento, os especulados são Tite, Muricy Ramalho e Luiz Felipe Scolari. Destes, o primeiro seria a aposta mais sensata, o segundo seria um retrocesso em termos conceituais e o terceiro é a velha aposta no que já deu certo um dia. Uma quarta opção, que beira o improvável, seria a contratação de Pep Guardiola. Improvável, sobretudo, porque o ex-Barcelona não parece interessado em assumir trabalhos pela metade e já declarou que não vê como ideal um estrangeiro assumindo um selecionado. Para o futebol brasileiro, a vinda de Pep poderia significar um sopro de ar fresco numa estrutura fechada e empoeirada. No entanto, essa não parece ser uma preocupação da entidade que define os rumos desse esporte.
Crédito da imagem: Ivo Gonzalez / O Globo

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A bola e a laranja

Neste momento, creio ser ponto pacífico a constatação de que o futebol brasileiro tem problemas na formação de seus atletas. Durante anos, demos mais ênfase à força em detrimento da técnica, cometemos lamentáveis equívocos táticos e hoje pagamos um preço caro por essa escolha. Laterais e meias que não sabem marcar e volantes que não sabem jogar são a expressão mais óbvia dos problemas que temos visto nos gramados locais. 
As questões a serem debatidas parecem bem claras. A diferença agora está na maneira como quem pensa futebol imagina como as resolveremos. Paulo César Caju, ex-jogador e atualmente colunista do Jornal da Tarde, é enfático ao defender o uso de futebolistas na formação de novos valores. “Não se pode ensinar algo que você não sabe. Os ‘professores’ de hoje, que nunca chutaram uma laranja, só podem ensinar a marcar, correr e fazer faltas”, costuma ponderar em seus textos. Difícil negar a existência de lógica em tal raciocínio. Simultaneamente, o técnico multicampeão de vôlei, José Roberto Guimarães, segue o mesmo caminho quando perguntado se seria possível sua migração para os gramados: “Primeiro, eu teria de ser mais jovem. Depois, teria de ter jogado. Preferencialmente, como zagueiro ou volante que veem o jogo melhor. É muito importante ter jogado”.  
Na contramão dessa tese, Arrigo Sacchi, ex-técnico do Milan e da Seleção Italiana, costuma ironizar a necessidade de ter sido jogador com a seguinte frase: “Não é preciso ter sido um cavalo para ser um jóquei”.  Sem dúvida, uma expressão que se popularizou, mas que não deveria ser encarada como séria. Bem menos jocoso é o trabalho jornalístico do ótimo site Olheiros, espaço destinado a cobrir jovens atletas do Brasil e do mundo. Embora não exista o que possa ser chamado de “posição do site”, a equipe sempre mostra sua preocupação com ex-jogadores que se tornam treinadores sem dominar os conhecimentos táticos necessários para a tarefa e nem se mantêm atualizados. Seguindo a mesma lógica citada por Paulo César Caju, como os antigos boleiros podem ensinar algo que não sabem?
Por essas e outras, sempre defendi a criação no Brasil de um centro de excelência voltado para o futebol. Algo como um centro de Coverciano tupiniquim. Obviamente, a entidade mantenedora seria a CBF que é quem mais se beneficia com esse esporte no País. A ideia central seria gerenciar uma escola técnica voltada à capacitação de ex-jogadores e demais interessados em se tornarem treinadores. Promover o intercâmbio com profissionais estrangeiros, manter tanto os cursistas quanto os ex-alunos atualizados, realizar palestras e conferências, enfim, preencher a enorme lacuna na formação dos técnicos e outras funções do futebol com o objetivo de qualificar os profissionais da área. Utopia? Pode ser. Mas, provavelmente, seria uma maneira mais rápida e plausível para se recuperar o tempo perdido.

domingo, 25 de março de 2012

Contagem Regressiva: Março de 2012

Para um fanático por futebol, Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Enfim, é um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Esboço olímpico.
O técnico da Seleção Brasileira, Mano Menezes, divulgou no último dia 14 sua pré-lista de convocados para os Jogos Olímpicos de Londres. Entre os 52 atletas selecionados, 15 têm acima de 23 anos, porém, apenas três poderão figurar na lista de 18 jogadores que buscarão a inédita medalha de ouro.
Entre os ausentes estão nomes que em algum momento receberam o chamado do atual treinador como o goleiro Renan Reuter, o zagueiro Lúcio, os laterais Maicon, Mario Fernandes e André Santos, os meias Ramires e Kaká e os atacantes Robinho, Fred e Kléber. Seguindo a lógica vigente, não é difícil concluir que eles não fazem mais parte dos planos de Mano. O que, a julgar pelas boas fases de Ramires e Robinho e a recuperação de Kaká, pode representar um erro no futuro.
Enquanto isso, a presença de Ronaldinho continua um mistério insondável. Todas as explicações esbarram na forma física precária e na falta de interesse que o gaúcho vem demonstrando no Flamengo nos últimos tempos. Saber que o meia-atacante figura nos planos até mesmo para a Copa do Mundo, mostra o quão questionável vem sendo o trabalho de Mano Menezes.     
Abaixo, a lista completa* com os 52 jogadores (em negrito os acima de 23 anos):
Goleiros: Diego Alves (Valencia), Gabriel (Cruzeiro), Jefferson (Botafogo), Julio César (Inter de Milão), Neto (Fiorentina), Rafael Cabral (Santos) e Renan Ribeiro (Atlético-MG).
Laterais: Adriano (Barcelona), Alex Sandro (Porto), Daniel Alves (Barcelona), Danilo (Porto), Fágner (Vasco), Gabriel Silva (Novara), Galhardo (Flamengo), Marcelo (Real Madrid) e Rafael (Manchester United).
Zagueiros: Bruno Uvini (Tottenham), David Luiz (Chelsea), Dedé (Vasco), Juan (Inter de Milão), Lucas Mendes (Coritiba), Luisão (Benfica), Marquinhos (Corinthians), Romário (Internacional) e Thiago Silva (Milan).
Volantes: Allan (Vasco), Casemiro (São Paulo), Elias (Sporting), Fernandinho (Shakhtar Donetsk), Fernando (Grêmio), Rômulo (Vasco) e Sandro (Tottenham).
Meias: Bernard (Atlético-MG), Douglas Costa (Shakhtar Donetsk), Dudu (Dínamo de Kiev), Elkeson (Botafogo), Paulo Henrique Ganso (Santos), Giuliano (Dnipro), Hernanes (Lazio), Lucas (São Paulo), Oscar (Internacional) e Philippe Coutinho (Espanyol).
Atacantes: Alexandre Pato (Milan), André (Atlético-MG), Henrique (Granada), Hulk (Porto), Jonas (Valencia), Leandro Damião (Internacional), Neymar (Santos), Ronaldinho Gaúcho (Flamengo), Wellington Nem (Fluminense) e Willian José (São Paulo).
Diante desses nomes – que serão reduzidos a 35 um dia antes do amistoso com a Argentina – e dada as carências da atual geração sub-23, é possível tentar esboçar os 18 jogadores que estarão na Inglaterra.
No gol, a fase irregular de Júlio César deve fazer com que a camisa 1 seja herdada pelo santista Rafael. Para sua reserva, Neto é o que detém o maior número de convocações entre os sub-23. No centro da defesa, Thiago Silva só não estará presente caso se lesione ou o Milan vete sua participação. Como não houve teste de zagueiros mais jovens, o parceiro de Thiago deve ser mesmo o irregular David Luiz. E, por absoluta falta de opções, Bruno Uvini deverá ser o reserva imediato da dupla.
Nas laterais, acredito que Danilo seja o titular da direita. Com isso, a terceira e última vaga para jogadores acima de 23 anos ficaria com o madridista Marcelo. Somaria aos dois, Alex Sandro, que se saiu bem quando necessário.
O meio-campo inicial deve ser composto por Sandro, Casemiro e Ganso.  O volante Rômulo e o meia Oscar completariam o setor. Lucas, Neymar e Damião formariam o tridente ofensivo. Alexandre Pato, caso pare de se contundir, e André completariam o esboço da lista. 
Deste modo, o onze inicial (escalado num 4-3-3) seria formado por Rafael; Danilo, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Sandro, Casemiro e Ganso; Lucas, Damião e Neymar. Neto, Bruno Uvini, Alex Sandro, Rômulo, Oscar, Alexandre Pato e André seriam os suplentes.
Sem dúvida um bom time, mas que nunca atuou junto. Muitos culpam a CBF por esse problema, mas, desta vez, a entidade realmente não tinha muito o que fazer uma vez que simplesmente não há espaço para o selecionado no calendário e até mesmo o processo classificatório é feito no através do Sul-Americano Sub-20, competição que não espelha corretamente os escolhidos para os Jogos de Londres. Assim, resta ao discutido Mano Menezes a “simples” tarefa de tentar organizar sua equipe durante a preparação e conquistar o único título que o futebol brasileiro não tem e, de quebra, manter seu empreso. Fácil, não?    
De olho na Copa: O espólio de Teixeira.
Com a renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF, ao Comitê Organizador Local (COL) e ao Comitê Executivo da FIFA, surgiu um grande vácuo de poder no futebol nacional. Neste momento, a presidência da CBF é exercida por José Maria Marin, O COL provavelmente ficará sob a responsabilidade de Ronaldo até o Mundial e o presidente da federação paulista Marco Polo Del Nero é o novo representante da América do Sul na FIFA. Ou seja, o que antes era centralizado por uma única pessoa, agora está dividido entre três. No caso do ex-atacante, repercutiu bastante o comentário de que ele admite a possibilidade de presidir a Confederação Brasileira a partir de 2015. Sem nenhuma preparação técnica para o cargo, o Fenômeno contaria muito mais com seu carisma do que qualquer outra coisa. Todavia, diante dos problemas que o futebol enfrenta neste país, é bem provável que isso não seja o suficiente.   
Confira abaixo, o andamento das obras nas doze sedes:         
Dentro do previsto: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza e Salvador;  
Apresentando atrasos: Cuiabá, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo;
Situação preocupante: Curitiba, Manaus e Natal.
* Fonte: globoesporte.com
Imagens: CBF News, Nike e Estadão