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sábado, 1 de agosto de 2015

A revolução silenciosa

Alguma coisa está mudando no futebol brasileiro. Lentamente, como tudo costuma ser, mas existem forças positivas em andamento dentro de uma estrutura historicamente arcaica. É verdade que o nível de endividamento dos clubes continua alarmante, que a política demissionária de técnicos segue imperando e que a cartolagem – sobretudo de federações estaduais e CBF – continua sendo um entrave. No entanto, em diversos aspectos podemos constatar avanços consideráveis que não podem ser ignorados. Pontos que, reunidos, formam uma pequena e silenciosa revolução que chama a atenção de quem sempre manteve um espírito crítico em relação ao futebol local.
Dentro de campo, já é visível a maior compactação e intensidade nas partidas. A imagem de um futebol brasileiro moroso e espaçado vem dando lugar a jogos mais rápidos e dinâmicos. Com isso, boas partidas vêm deixando de ser algo raro no Brasileirão. É certo que as longas viagens e o calendário inchado são um empecilho quando se pensa na aplicação de velocidade Premier League, porém, nota-se que a referência mudou. Os times nacionais ainda não são intensos como as principais equipes europeias, mas o Brasil não tem sido mais uma ilha isolada no planeta.
E tal mudança não passa apenas pelos jogadores e treinadores. Embora essa questão não tenha sido tratada de forma aberta pela Comissão de Arbitragem da CBF é nítida a existência de uma orientação para que os árbitros deixem o jogo “correr” mais. Os choques têm sido considerados normais e nem todo esbarrão é interpretado como falta. E isso tem contribuído de forma sensível para o aumento da dinâmica nas partidas. Mesmo a polêmica punição severa das reclamações pode se tornar algo positivo a médio/longo prazo. Existe uma cultura enraizada no Brasil que coloca o árbitro como outro adversário a ser derrotado. Quanto menos os atletas se preocuparem com os árbitros, maior a possibilidade de se concentrarem exclusivamente na partida que estão disputando. Logicamente, ainda veremos expulsões exageradas até que o novo sistema encontre seu equilíbrio, contudo, quando isso acontecer, a tendência é que todos saiam ganhando.
Outro movimento bastante positivo é a evolução da média de público dentro do campeonato. Apesar dos 16.392 pagantes desta temporada ainda não ter ultrapassado os 16.537 de média total registrada em 2014, a curva que determina o aumento de público é visível e auspiciosa. São mais de 20 mil em julho, sendo que a décima sexta rodada tem tudo para ser a de maior público até o momento com quebra de recorde do campeonato na partida entre Flamengo e Santos no Maracanã. Difícil especificar todos os fatores para o aumento do público, uma vez que o preço médio do ingresso continua alto. Mas é possível citar alguns como o novo horário das 11 da manhã, a presença de Atlético Mineiro e Corinthians nas primeiras colocações da tabela, o fantástico apoio da torcida do Palmeiras (dono da maior média) e a chegada do atacante Paolo Guerrero inflamando os torcedores do rubro-negro carioca.
Enquanto algumas coisas se transformam internamente, boas notícias surgem do meio externo ao esporte. Quase que simultaneamente às ações do FBI que desmantelaram um esquema de corrupção na FIFA e culminaram com a prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, houve a aprovação no Senado Federal da Medida Provisória 671, também conhecida como MP do Futebol, na prática, trata-se do primeiro passo para o fim das gestões temerárias que tantos danos causaram ao nosso futebol. Evidentemente, a chamada Bancada da Bola trabalha para diminuir os impactos da MP, entretanto, dificilmente conseguirão barrar o cerne da matéria. Não há dúvidas de que o futebol brasileiro deveria ser mais autônomo, mas se não é capaz de se auto-regular, que a moralização venha de fora.
Paralelamente, não se nota grandes mudanças em nossa imprensa esportiva. A perigosa mistura entre esporte e entretenimento está mais presente do que nunca e isso se nota até em espaços onde a informação ainda sobrevive como o principal ativo. Está claro que a audiência norteia a mídia e isso não seria diferente no esporte, porém, a busca pela qualidade não pode ser deixada em segundo plano. Análises táticas mais profundas e debates mais elevados não deveriam ser exceções num grande universo de mesas redondas que levam do nada a lugar nenhum. Do mesmo modo, as entrevistas deveriam questionar muito mais sobre o jogo, em vez de alimentar intrigas e fomentar a eterna corda bamba em que vivem os treinadores. Não há dúvida que todos sairiam ganhando com isso. Sobretudo, o futebol tão massacrado no país que um dia o classificou como casa. 
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

domingo, 4 de agosto de 2013

Um velho tema


Retorno excepcionalmente ao blog para tratar de um assunto que tantas vezes foi objeto de debate neste espaço: Duelos entre times brasileiros e times europeus. Após o novo massacre sofrido pelo Santos diante do Barcelona, desta vez por humilhantes 8 a 0, vozes surgiram para afirmar que esse placar assombroso dá a exata medida da diferença entre uma grande equipe nacional e um gigante europeu. Isso mesmo. Um amistoso, na casa do Barcelona, diante de um Santos que ainda procura se encontrar após a perda de seu melhor jogador – justamente para o Barça – define tudo o que foi visto nas últimas décadas.

É óbvio que essa afirmativa está equivocada. Uma única partida nunca poderia significar tudo o que envolve duas realidades tão distintas apesar de ser o mesmo esporte. Se existe alguma forma de se medi-las, ela se dá pela observação de todos os confrontos entre brasileiros e europeus após a vigência da chamada Lei Bosman, o momento na história do futebol onde o dinheiro passou a falar mais alto do que os projetos esportivos por melhores que fossem. Ou seja, em condições normais de temperatura e pressão, quanto mais recursos uma agremiação pode investir em sua equipe, maiores serão as chances de se produzir um time competitivo.

Posto isso, é evidente que os gigantes do Velho Continente são, em teoria, mais fortes do que os grandes times brasileiros. Contudo, o histórico indica que essa distância não só é menor do que os oito gols sofridos pelo time praiano como mostra que muitas vezes essa diferença pode ser suplantada com estratégia, dedicação e até uma pitada de sorte. Como o Corinthians, atual campeão mundial, derrotando o Chelsea numa partida em que não foi superior, mas conseguiu equilibrar as ações em diversas ocasiões durante os 90 minutos e fez por merecer a vitória. Talvez sucessos como o do Timão entrem para a galeria dos mais fracos vencendo os mais fortes, porém, não foi um triunfo que causasse o espanto diante de um absurdo. Quem conhecia o campeão sul-americano sabia que poderia dar jogo. E deu.

Como também houve jogo quando o Ajax, em intertemporada, veio ao Brasil e foi derrotado por Palmeiras e no ano seguinte pelo Vasco. Naquelas partidas, eram equipes de poderio financeiro semelhante se enfrentando de igual para igual, e mostrando limitações que só poderiam ser compensadas com reforços nada baratos. No fundo, o mais provável é que times brasileiros estejam mais próximos das equipes médias da Europa que possuem poder aquisitivo parecido. Times que não estão no topo do mundo, mas que também não estão a oito impiedosos degraus de distância.

Getty Images

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Com algum sofrimento, brasileiros confirmam favoritismo na Libertadores

Virou lugar comum analisar as chances de títulos dos clubes brasileiros a cada início de Copa Libertadores da América. Com receitas superiores em relação aos seus pares sul-americanos, as equipes locais precisam lidar também com a pressão de ter que confirmar em campo um favoritismo imposto por terceiros. Logicamente, as agremiações brasileiras projetam chegar à final da competição, mas, a princípio, a única obrigação evidente é avançar para as oitavas-de-final. E foi exatamente isso o que ocorreu nesta semana.
Atlético Mineiro, Corinthians, Fluminense, Grêmio, Palmeiras e São Paulo estão entre os 16 melhores times da Libertadores. Os seis brasileiros que disputaram o torneio cumpriram seu objetivo mínimo e se classificaram. A eles se juntaram quatro (de cinco) argentinos, um colombiano, um equatoriano, um mexicano, um paraguaio, um peruano e um uruguaio, proporção que indica a melhor performance dos times nacionais. Em termos percentuais, tivemos os seguintes aproveitamentos por país:
Argentina: 52,20%
Brasil: 58,17%
Bolívia: 30,50%
Chile: 37,00%
Colômbia: 46,33%
Equador: 44,50%
México: 58,00%
Paraguai: 40,67%
Peru: 50,00%
Uruguai: 53%
Venezuela: 27,50%
Os números acima mostram que os brasileiros realmente tiveram a melhor performance da competição e que foram seguidos de perto pelos mexicanos do Tijuana e do Toluca. Curiosamente, só o primeiro se classificou para as oitavas. Outro país que apresentou desempenho interessante foi a Argentina, embora um dos seus representantes, o Arsenal de Sarandí, tenha ficado pelo caminho. Outra constatação que chama a atenção é o baixíssimo aproveitamento dos venezuelanos, cujo futebol melhorou consideravelmente nos últimos anos, inclusive em nível de seleção, mas que não se refletiu nas campanhas de Caracas e Deportivo Lara.
Como pode ser observado no chaveamento abaixo, existe a chance de até quatro times brasileiros chegarem às semifinais, o seria um feito inédito. De mesmo modo, todos eles podem ficar pelo caminho e não alcançar essa fase. Contudo, pelo menos por enquanto, todos cumpriram seu objetivo.
Arte: ESPN

segunda-feira, 11 de março de 2013

Pelo fim das torcidas organizadas

Mais uma vez, as chamadas torcidas organizadas voltaram a dominar o noticiário esportivo. Sem nenhuma novidade, todas as informações se referiam à violência promovida por esses agrupamentos. Primeiro, foi a morte do adolescente boliviano Kevin Espada, atingido por um sinalizador disparado por um torcedor corintiano durante a partida em que o campeão do mundo enfrentava o San José pela Copa Libertadores da América na cidade de Oruro. Na semana passada, foi a vez de uma organizada do Palmeiras, revoltada com a derrota de seu time para o Tigre, promover um episódio lamentável no aeroporto de Buenos Aires onde o goleiro Fernando Prass precisou levar pontos na orelha após ser ferido por uma xícara arremessada por um imbecil trajado de alviverde.
Esses foram apenas os episódios mais recentes envolvendo torcidas organizadas. Seria possível citar inúmeros casos, mesmo se restringindo a Corinthians e Palmeiras. Acontece que esse é um mal nacional. Uma chaga que o futebol brasileiro traz consigo há décadas e que contribui de forma inegável para a baixa frequência de público em nossos estádios e, mais importante, para as mortes ligadas a esse esporte. Um problema identificado, mas nunca enfrentado da maneira correta pelas autoridades brasileiras, omissas quando o assunto é punir os torcedores infratores.
Em seu blog, o comentarista Mauro Cezar Pereira defende que acabar com as torcidas organizadas não solucionaria o problema e que seria uma iniciativa ingênua, caso fosse tomada. Para o jornalista, isso faria com que os torcedores organizados passassem a atuar na clandestinidade, o que poderia ser ainda pior, uma vez que se tornariam incontroláveis. Todavia, ingenuidade talvez não seja a ideia de acabar com esses grupos, mas acreditar que isso será algo simples de ser realizado, como se bastasse algum magistrado bater o martelo e decidir pela extinção. Não será.
A violência promovida pelas torcidas organizadas precisa ser contida. E está bem claro que isso só acontecerá quando seu fim for decretado. Dizer que tal medida é impossível é o mesmo que decretar a falência de todo o sistema de segurança pública. Um sistema que conseguiu, entre outras coisas, conter situações bem mais complexas como a desarticulação de quadrilhas do crime organizado ou desocupação de favelas dominadas pelo tráfico.
Às vésperas de sediar uma Copa do Mundo, as torcidas organizadas são fantasmas a assombrar um esporte que evolui em diversas frentes, mas nunca no respeito e segurança para o público amante de futebol. Não existe hora melhor do que o momento em que os olhos do mundo estão voltados para o Brasil. Resta saber se haverá vontade política para tornar realidade essa urgente necessidade. Antes que outros Kevins surjam em nossos noticiários.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Top 10 - Dez perguntas para o futebol brasileiro em 2012.

Mais uma temporada do nosso futebol se inicia e com ela as infindáveis interrogações de sempre. Já que não é possível colocar todas neste espaço, separei as dez que julgo mais relevantes.
10º - Kléber e Dagoberto continuarão aprontando no Sul? Sem deixar muita saudade em São Paulo, os atacantes chegam, respectivamente, ao Grêmio e Internacional com status de craques e a missão de deixar o passado polêmico para trás.
9º - O Palmeiras seguirá como um barril de pólvora? Em 2011 aconteceu de tudo no alviverde. Quando tudo parecia perdido e a Segunda Divisão batia à porta, Felipão afastou Kléber e encontrou paz para escapar do abismo. Agora, o experiente treinador luta para ultrapassar os problemas internos e montar um time competitivo a partir de um elenco, no máximo, mediano.  
8º - Neymar se consolidará como o melhor jogador brasileiro? Que Neymar é o melhor jogador brasileiro em atividade, pouco se discute. Mas o santista será capaz de assumir de vez esse posto e conduzir a Seleção Brasileira a grandes vitórias?
7º - O futebol mineiro vai se recuperar? Definitivamente, o ano passado não foi bom para os times mineiros. O América voltou à Segundona, Atlético e Cruzeiro brigaram até o fim contra o rebaixamento e as receitas inferiores em relação aos rivais do eixo Rio-São Paulo preocupam quando se pensa em competitividade. 
6º - O Flamengo sairá de mais uma crise? Para variar, o rubro-negro está mergulhado em mais uma crise. Jogadores insatisfeitos com atrasos nos direitos de imagem, Luxemburgo perdendo o comando, conflitos nos bastidores somados ao fato de ser um ano de eleição no clube; tudo para manter as coisas em ebulição por um bom tempo. E qual a novidade?
5º - As obras para o Mundial de 2014 continuarão atrasadas? Jerome Valcke, Secretário-Geral da FIFA, avisou: “Só precisamos de oito sedes.” Mesmo assim, em muitas cidades as obras para a Copa do Mundo continuam atrasadas. Para muitos, tal atraso é calculado para que as obras sejam finalizadas na última hora desobrigando o poder público de realizar licitações. Preocupante.  
4º - As lições de Yokohama foram assimiladas? Não se trata de emular o Barcelona, mas perceber o quanto temos errado na formação dos nossos jogadores e em nossa filosofia de jogo. Em 2012, veremos se a derrota do Santos no Japão provocou algum tipo de reflexão em nossos treinadores.
3º - A “balança comercial” será favorável? Até algum tempo, a janela internacional de transferências era um pesadelo para os torcedores. Nossos melhores jogadores deixavam o País e a contrapartida quase sempre desapontava. No entanto, com a crise europeia e o aumento nas receitas dos clubes brasileiros, esse panorama mudou bastante.
2º - Um time brasileiro conquistará a Libertadores? A última edição da competição ficou marcada pelo título do Santos, mas também pela eliminação de quatro times brasileiros nas oitavas. Não resta dúvida que o poderio financeiro de nossos clubes é maior, mas isso será o suficiente?
1º - O futebol brasileiro finalmente ganhará a medalha de ouro? Em Londres, uma ótima geração de jogadores terá mais uma chance de conquistar uma inédita medalha de ouro para a Seleção Brasileira. Mais do que isso, uma conquista pode significar a permanência de Mano Menezes até a Copa do Mundo. Em caso de derrota, muita coisa pode mudar.
E então, leitor, acredita que tem as respostas? Fique à vontade para respondê-las.
Foto: EFE

domingo, 15 de janeiro de 2012

Nem tudo é Barcelona.

Como era de se imaginar, o que mais chamou a atenção no programa “Arena Sportv” da última sexta-feira foi a crítica do comentarista Müller à transferência de Rivaldo para o Kabuscorp de Angola. Chamado de “praticamente ex-jogador”, o meia-atacante não deixou barato e, via Twitter, classificou o ex-companheiro de Palmeiras como “fracassado”.
Sinceramente, essa polêmica pouco me importa. Cada atleta sabe o momento de parar e se o pentacampeão se sente à vontade para atuar no país africano, essa é uma decisão que só cabe a ele. Na verdade, o que mais me fez refletir foram as declarações de Frank de Boer, técnico da Ajax e adversário do Palmeiras em amistoso disputado no sábado. Frank, ex-jogador do time de Amsterdã e da seleção holandesa, observou alguns aspectos do futebol brasileiro que merecem destaque.
Nesta semana, já havia citado a atuação do alviverde em partida do Brasileirão 2011, onde, segundo ele, os comandados de Felipão atuaram num anacrônico 4-2-2-2, sistema fartamente utilizado nos anos 1990, mas atualmente em desuso. Mais preocupante foi o comentário durante o programa, onde enfatizou que os times brasileiros abusam dos chutões e que dependem muito da habilidade dos atacantes. Ainda segundo o holandês, as jogadas do Ajax nascem da defesa, passam pelo meio-campo e o gol não é marcado necessariamente pelos homens de frente. Assim como Guardiola havia feito na entrevista coletiva pós-Mundial, essa foi mais uma cutucada em nosso estilo de jogo vigente. Mais um comentário a ser somado ao urgente debate sobre o futebol que praticamos em contraponto ao futebol que queremos e/ou deveríamos praticar.
Por outro lado, é bom deixar claro: Uma coisa é a revisão mais do que necessária dos rumos de nosso futebol; outra, bem diferente, é achar que a distância futebolística entre Brasil e Europa é a mesma evidenciada pela partida entre Santos e Barcelona. Após o massacre de Yokohama, muitos se apressaram em dizer que o futebol europeu era infinitamente melhor do que o nosso e que a aula aplicada pelo Barça era a prova definitiva disso. Não é bem assim. A goleada evidenciou apenas que o time catalão é muito superior à equipe de Muricy, algo que todos sabíamos ou, pelo menos, deveríamos saber. No entanto, se existe um time que não serve como parâmetro justamente por ser completamente fora da curva este é o Barcelona. Não por acaso, é tão especial.
Palmeiras 1x0 Ajax, um amistoso bem disputado, mostrou outra realidade. Excetuando a elite do Velho Continente – composta por no máximo uma dúzia de times – o restante se assemelha e muito ao que vemos em nossos gramados. Via de regra, o futebol contemporâneo é definido, em primeira instancia, pelo montante investido. Neste aspecto, os Godenzonen estão muito mais próximos dos brasileiros do que de seu “herdeiro” Barcelona. Mesmo que sua filosofia seja elogiável e até invejável, pois remete a uma prática que acreditamos ser a ideal, sem o poderio financeiro dos gigantes europeus não é possível manter os craques que fazem a diferença. Embora seja importante dizer que essa constatação não signifique afirmar que não há o que melhorar em nossa prática atual, pois, sem dúvida, há muito coisa a ser feita.
Imagem: ESPN

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O adeus de Marcos.

O que mais me chama a atenção nas redes sociais é a velocidade como as notícias repercutem. Todos têm uma opinião, todos querem abordar os temas que lhes agradam. Com o anúncio da aposentadoria de Marcos não foi diferente. Ao lado das tentativas de canonização definitiva dos palmeirenses e das observações debochadas dos torcedores rivais, havia o enorme respeito pelo profissional e pela pessoa que ele é.
Infelizmente, a segunda metade da carreira de Marcos foi marcada por infindáveis lesões. Após a Copa de 2002, o ponto mais alto de sua trajetória, o goleiro passou boa parte de seu tempo entregue ao departamento médico. Como não poderia deixar de ser, essa rotina sacrificante foi crucial em sua decisão de pendurar as luvas. Agora, o que fica são as lembranças de um dos maiores arqueiros de sua geração.
Geração em que dividiu os holofotes com Rogério Ceni e Dida, goleiros que tiveram carreiras mais regulares, mas, nem por isso, de mais sucesso. Ceni conquistou mais títulos pelo São Paulo, Dida triunfou na Europa, porém, Marcos foi o camisa 1 no pentacampeonato na Ásia. Homem de confiança de Felipão, foi determinante na conquista brasileira rivalizando com Oliver Kahn o posto de melhor goleiro daquele Mundial. Todavia, diante de um palmeirense fanático, não tente colocá-lo no mesmo patamar dos outros dois. A devoção de Marcos ao alviverde não permite tal heresia. Não ouse comparar quem um dia recusou o Arsenal para jogar a segunda divisão com quem só não defendeu o clube londrino, porque este desistiu da negociação. Não tente comparar São Marcos com um goleiro frio e de muitas camisas como baiano.  
Aqueles que o conhecem, definem Marcos como um sujeito do bem, autêntico, passional. Não daquele tipo que fala sem pensar, mas do tipo que fala o que pensa. Neste aspecto, é quase um estranho num mundo politicamente correto onde imperam declarações pasteurizadas. Apesar disso, um homem de grupo, contador de estórias e piadas. Por essa faceta, quase recebeu de Dunga uma vaga no Mundial de 2010. Mas isso não seria digno dele. Não seria digno de um dos melhores goleiros que o Brasil já teve.
Valeu, Marcos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Maneiras e maneiras de se ver futebol.

Até este momento, não se sabe o destino de Ronaldinho Gaúcho. Grêmio, Flamengo e Palmeiras estão oficialmente em leilão pela contração do craque. Sim, leilão, não existe uma palavra que defina melhor o tipo de negociação proposta por seu irmão e agente, Roberto de Assis.
No entanto, o mais certo é que Ronaldinho atue no futebol brasileiro em 2011. Bons analistas como Eduardo Cecconi (aqui) e Carlos Pizzatto (aqui) já projetaram como o jogador poderia ser bem aproveitado no Grêmio (seu destino mais provável), mas ainda não há pistas de como o técnico Renato Portaluppi encara essa questão, com o mesmo se aplicando ao rubro negro Vanderlei Luxemburgo e ao alviverde Felipão.
Embora seja visto por muitos no Brasil como meio-campista, Ronaldinho sempre se deu melhor quando atuou mais à frente, caindo pela ponta esquerda. Foi assim no Barcelona quando alcançou seu auge e foi assim no Milan quando chegou a ficar entre os 30 pré-selecionados de Dunga para o último Mundial. Nas duas ocasiões, uma coisa em comum: a pouca (ou nenhuma) contribuição com o sistema defensivo das equipes.
Pessoas ligadas à antiga diretoria do Barcelona dizem abertamente que a liberdade dada a Ronaldinho se justificava pela magia de seu futebol. Porém, assim que sua produção caiu, as críticas não demoraram a surgir e o banco de reservas acabou sendo o seu destino.
No Milan, se viu uma situação semelhante quando o treinador Massimiliano Allegri preferiu optar pelo voluntarioso Boateng como trequartista a apostar no gaúcho como criador do time. Um equívoco terrível na visão deste blogueiro. Nessa função, o ganense apresenta boa chegada ao ataque e chute forte, mas é só. É de se lamentar que um time que na última década contou com meias do calibre de Boban, Rui Costa e Kaká, hoje tenha um atleta tão limitado tecnicamente naquela faixa do gramado.
Nos últimos tempos, é comum ouvirmos que determinado jogador não serve para o futebol europeu, mas pode fazer a diferença no Brasil. Logo em seguida, exemplos como Romário, Ronaldo, Adriano e Petkovic são citados sem que haja muita contestação. Nunca vi a questão dessa maneira. Para mim, antes de tudo, existe a maneira diferente do brasileiro ver futebol.
Para muitos técnicos, jornalistas e torcedores brasileiros é plenamente aceitável que um meia habilidoso ou um atacante goleador não tenha obrigações defensivas e/ou grande movimentação desde que seja capaz de criar boas jogadas ou marcar muitos gols em troca. Essa é uma cultura brasileira e, por que não dizer, sul-americana. Se está correta ou não, é outra história.
Por sua vez, não faltam casos de meias e atacantes que, apesar da técnica, sempre foram contestados pela rígida visão europeia: Valderrama, Romário, Baggio, Petkovic, Hagi, Ronaldo, Rivaldo, Riquelme, Djalminha, Alex e Robinho foram, cada um ao seu modo, criticados ou cerceados no Velho Continente.
Ainda no PSV, Romário levava o técnico Gus Hiddink à loucura graças a sua total displicência tática. Felizmente para o Baixinho, seus gols em escala industrial garantiam sua titularidade. Gols que o levaram ao Barcelona, como um pedido especial de Johan Cruyff e onde foi mantido sob controle mediante acordos com o chefe que permitiam suas noitadas em troca do balançar das redes. Talvez essa tenha sido a maior razão para Romário nunca ter sido alvo de grande cobiça do futebol italiano, destino de quase todos os craques nos anos 80 e 90.
No mesmo Barcelona em que brilhou Romário, Ronaldo também fez sua história. O Fenômeno foi um Pelé na temporada 1996/97, mas teve que ouvir do então auxiliar José Mourinho que ele deveria participar mais do jogo e não ficar à sombra de seus gols. Anos depois, ainda na Catalunha, Rivaldo enfrentou problemas com o holandês Louis van Gaal que chegou a dizer que o seu compatriota Zenden era mais jogador que o pernambucano.
O genial Roberto Baggio é um exemplo famoso de craque barrado em grandes equipes por contribuir pouco taticamente. Mesmo em seus melhores momentos havia quem o contestasse. No épico “Todos corações do mundo”, um torcedor resume bem o que muitos italianos pensavam do nativo de Caldogno: “É um grande campeão, mas é uma dama. Não corre.” Certa vez, em visita ao Brasil, o meia-atacante se defendeu: “Os técnicos de hoje preferem um jogador capaz de correr 10 km numa partida do que alguém que saiba o que fazer com a bola.”
Até algum tempo atrás, ouvia-se por estes lados pedidos de convocação para o sérvio Dejan Petkovic. Primeiro pediam para o Brasil, depois para seu próprio selecionado. O meio-campo pouco inspirado da Sérvia e Montenegro no Mundial de 2006 deu mais munição aos críticos de sua ausência. Mas uma rápida história contada por Pet dá uma ideia de como a visão europeia é diferente da nossa: “Fui bem numa das poucas chances que tive na seleção. Fiz um gol e dei uma assistência. Quando a partida terminou, perguntei para o técnico o que ele tinha achado e ouvi que eu tinha perdido bolas importantes no meio-campo. Reclamei e só fui chamado de novo num amistoso diante do Brasil.”
Petkovic é um caso emblemático do nosso futebol. Em 2009, ele dificilmente teria vaga num clube pequeno da Espanha ou da Itália, mas foi um dos pilares do título brasileiro do Flamengo naquele ano. Por sua vez, esse mesmo clube europeu deve contar em suas fileiras com algum titular que resume seu futebol a fôlego e abnegação. E receberia um lutador como o romanista Rodrigo Taddei de braços abertos. Afinal, como disse Baggio, os técnicos adoram isso.
Portanto, nunca fiz coro aos que dizem que Petkovic joga no Brasil por que o nível do futebol daqui é muito mais baixo. Historicamente, sempre houve mais liberdade para aqueles que podem decidir individualmente uma partida. Era assim com Júnior no mesmo Flamengo em 1992 e foi assim com Zico no final de sua carreira. Isso num futebol pré-Lei Bosman, quando a maior parte dos grandes jogadores brasileiros ainda fazia a festa de nossos estádios.
Trata-se de uma maneira de enxergar futebol. E, diante dos esforços dos clubes envolvidos na tentativa de trazer Ronaldinho, não resta dúvida de que ele receberá toda liberdade criativa que necessita. Além, é claro, de jogadores destacados para correr para ele.     
Crédito das imagens: Reuters (1 e 2) e O Globo (3).