Mostrando postagens com marcador Imprensa esportiva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imprensa esportiva. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de agosto de 2015

A revolução silenciosa

Alguma coisa está mudando no futebol brasileiro. Lentamente, como tudo costuma ser, mas existem forças positivas em andamento dentro de uma estrutura historicamente arcaica. É verdade que o nível de endividamento dos clubes continua alarmante, que a política demissionária de técnicos segue imperando e que a cartolagem – sobretudo de federações estaduais e CBF – continua sendo um entrave. No entanto, em diversos aspectos podemos constatar avanços consideráveis que não podem ser ignorados. Pontos que, reunidos, formam uma pequena e silenciosa revolução que chama a atenção de quem sempre manteve um espírito crítico em relação ao futebol local.
Dentro de campo, já é visível a maior compactação e intensidade nas partidas. A imagem de um futebol brasileiro moroso e espaçado vem dando lugar a jogos mais rápidos e dinâmicos. Com isso, boas partidas vêm deixando de ser algo raro no Brasileirão. É certo que as longas viagens e o calendário inchado são um empecilho quando se pensa na aplicação de velocidade Premier League, porém, nota-se que a referência mudou. Os times nacionais ainda não são intensos como as principais equipes europeias, mas o Brasil não tem sido mais uma ilha isolada no planeta.
E tal mudança não passa apenas pelos jogadores e treinadores. Embora essa questão não tenha sido tratada de forma aberta pela Comissão de Arbitragem da CBF é nítida a existência de uma orientação para que os árbitros deixem o jogo “correr” mais. Os choques têm sido considerados normais e nem todo esbarrão é interpretado como falta. E isso tem contribuído de forma sensível para o aumento da dinâmica nas partidas. Mesmo a polêmica punição severa das reclamações pode se tornar algo positivo a médio/longo prazo. Existe uma cultura enraizada no Brasil que coloca o árbitro como outro adversário a ser derrotado. Quanto menos os atletas se preocuparem com os árbitros, maior a possibilidade de se concentrarem exclusivamente na partida que estão disputando. Logicamente, ainda veremos expulsões exageradas até que o novo sistema encontre seu equilíbrio, contudo, quando isso acontecer, a tendência é que todos saiam ganhando.
Outro movimento bastante positivo é a evolução da média de público dentro do campeonato. Apesar dos 16.392 pagantes desta temporada ainda não ter ultrapassado os 16.537 de média total registrada em 2014, a curva que determina o aumento de público é visível e auspiciosa. São mais de 20 mil em julho, sendo que a décima sexta rodada tem tudo para ser a de maior público até o momento com quebra de recorde do campeonato na partida entre Flamengo e Santos no Maracanã. Difícil especificar todos os fatores para o aumento do público, uma vez que o preço médio do ingresso continua alto. Mas é possível citar alguns como o novo horário das 11 da manhã, a presença de Atlético Mineiro e Corinthians nas primeiras colocações da tabela, o fantástico apoio da torcida do Palmeiras (dono da maior média) e a chegada do atacante Paolo Guerrero inflamando os torcedores do rubro-negro carioca.
Enquanto algumas coisas se transformam internamente, boas notícias surgem do meio externo ao esporte. Quase que simultaneamente às ações do FBI que desmantelaram um esquema de corrupção na FIFA e culminaram com a prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, houve a aprovação no Senado Federal da Medida Provisória 671, também conhecida como MP do Futebol, na prática, trata-se do primeiro passo para o fim das gestões temerárias que tantos danos causaram ao nosso futebol. Evidentemente, a chamada Bancada da Bola trabalha para diminuir os impactos da MP, entretanto, dificilmente conseguirão barrar o cerne da matéria. Não há dúvidas de que o futebol brasileiro deveria ser mais autônomo, mas se não é capaz de se auto-regular, que a moralização venha de fora.
Paralelamente, não se nota grandes mudanças em nossa imprensa esportiva. A perigosa mistura entre esporte e entretenimento está mais presente do que nunca e isso se nota até em espaços onde a informação ainda sobrevive como o principal ativo. Está claro que a audiência norteia a mídia e isso não seria diferente no esporte, porém, a busca pela qualidade não pode ser deixada em segundo plano. Análises táticas mais profundas e debates mais elevados não deveriam ser exceções num grande universo de mesas redondas que levam do nada a lugar nenhum. Do mesmo modo, as entrevistas deveriam questionar muito mais sobre o jogo, em vez de alimentar intrigas e fomentar a eterna corda bamba em que vivem os treinadores. Não há dúvida que todos sairiam ganhando com isso. Sobretudo, o futebol tão massacrado no país que um dia o classificou como casa. 
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O saudosismo e outras drogas

A derrota da Seleção Brasileira para a Colômbia na última quarta-feira despertou na imprensa e na torcida uma fúria e um fatalismo que andavam parcialmente adormecidos desde o final da Copa do Mundo de 2014. Obviamente, o descontentamento foi potencializado pela maneira como os comandados de Dunga foram subjugados durante quase toda a partida que decretou o fim da sequência de onze vitórias desde que o capitão do Tetra reassumiu o posto, porém, o exagero nas reações e nas “avaliações” fez lembrar por que o jornalista inglês Tim Vickery nos define como maníaco-depressivos.
Naturalmente, existem pontos em que pouco há o que se discutir. O primeiro deles é que o futebol brasileiro precisa rever determinados conceitos como, por exemplo, a função exercida pelos meio-campistas. Atualmente, com a compactação dos setores, não cabe mais a divisão entre os volantes que apenas marcam e os meias que só atacam. Portanto, os jogadores que atuam na faixa central de nosso 4-4-2 (4-4-1-1) devem participar da saída de bola, da criação da jogada e do avanço até a intermediária ofensiva. Esse possivelmente foi o maior pecado da Seleção em sua derrota. Com a marcação alta da Colômbia bloqueando as laterais, Elias e Fernandinho não conseguiam executar a transição de forma adequada e a bola voltava aos pés adversários em forma de perigosos contragolpes. Uma pressão que acabou resultando no único gol do cotejo.
O segundo ponto (quase) pacífico é que não possuímos uma grande geração neste momento. Excetuando Neymar, os outros convocados possuem bom nível, mas poucos são realmente capazes de dividir o protagonismo com o craque do Barcelona. Quando o atacante não consegue atuar em seu mais alto nível, ninguém se mostra capaz de compensar tecnicamente, assim como não há um jogo coletivo que possa sustentar a performance da equipe em momentos de pouco brilho do ídolo. Construir uma Seleção capaz de se impor mesmo sem seu maior astro – ora suspenso pela Conmebol por quatro partidas – talvez seja a grande missão de Dunga em sua segunda passagem.
No entanto, agir como se este fosse o pior período de nossa história futebolística colocando-o abaixo de entressafras similares ou fazendo recortes de períodos específicos não parece a avaliação mais justa. Nem sempre tivemos Romário e Ronaldo em nosso ataque. Inclusive, a rigor, só reunimos dupla Ro-Ro em 1997. E o próprio Rivaldo, coadjuvante de luxo à época ainda não havia se firmado com a camisa amarela. Isso faz lembrar o período que se seguiu ao fim da geração de Zico, Falcão & Cia quando as pessoas viam um jovem Bebeto como prova definitiva da decadência do futebol brasileiro.
Constatar as questões acima de modo algum quer dizer que o futebol brasileiro vive um mar de rosas ou que os profissionais da área não precisam se mexer. Temos muito que repensar em diversas áreas e o massacre no Mundial deveria ser um marco dessa conclusão. Contudo, discursos preguiçosos ou apocalípticos contribuem pouco para esse debate. Ou quem sabe, apenas façam parte do que deveríamos ter sepultado em 8 de julho de 2014.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

domingo, 10 de agosto de 2014

Brasil em duas frentes

O saudoso Millôr Fernandes costumava dizer que imprensa é oposição e que o resto é armazém de secos e molhados. Particularmente, costumava preferir a versão de que a imprensa deveria ser imparcial e isenta, mas os anos me ensinaram que isso não passa de utopia. Em cada análise sempre há uma opinião implícita e um julgamento de valor que muitas vezes não é o mais correto. No caso do nosso jornalismo esportivo, a posição está clara: A CBF está errada até quando acerta. Não que isso seja comum, obviamente.

Um desses raros acertos é o anúncio de uma Seleção Brasileira Olímpica que caminhe paralelamente à principal. O plano arquitetado por Alexandre Gallo e Dunga, os respectivos técnicos, e o coordenador Gilmar Rinaldi é que 46 jogadores sejam chamados a cada convocação. Serão duas equipes com objetivos diferentes. A primeira, composta por atletas com idade olímpica, será comandada por Gallo e terá como meta preparar o grupo que disputará os Jogos do Rio de Janeiro em 2016. Um time que fará uso das mesmas datas FIFA e mandará suas partidas, prioritariamente, nos estádios utilizados na Copa do Mundo. A segunda, treinada por Dunga, cumprirá o ciclo até 2018.


Responsável pela base da Seleção desde 2013, Gallo foi o único “sobrevivente” da hecatombe que atingiu a comissão técnica. Durante o Mundial, assumiu o papel de observador de Luiz Felipe Scolari, mas não foi incluído na lista de dispensas da CBF. Com dois títulos do Torneio de Toulon no currículo, ouve de seus críticos que sua filosofia privilegia a participação de jovens altos e fortes, preferencialmente mais velhos, em detrimento dos mais talentosos. Um erro, uma vez que o primeiro objetivo das categorias menores sempre será revelar jogadores de qualidade.

Discussões à parte, caberá ao treinador a exclusiva montagem de um selecionado voltado para os Jogos tendo datas e estrutura para isso. Algo inédito em se tratando de Seleção Brasileira. Desde os Jogos de Los Angeles em 1984, nossos elencos olímpicos são montados no apagar das luzes, no máximo com a convocação alguns nomes para a composição do grupo principal. Inseridos num contexto distinto, os garotos não moldam um time, apenas passam a fazer parte de um ambiente estelar que, em alguns casos, nem corresponde à realidade.     

Ouro em Londres, o México foi fartamente elogiado justamente por essa estratégia executada pelo técnico Luis Fernando Tena. Chegou a hora de o Brasil ter um planejamento semelhante. Mesmo que a razão seja o fato do torneio acontecer em nosso território, a iniciativa não deixa de ser louvável. Frequentemente, estamos dispostos a criticar a CBF. Talvez seja este o momento de elogiar sem, necessariamente, sermos tachados de armazém de secos e molhados.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Claude Paris/AP

domingo, 27 de julho de 2014

Um novo ciclo


Ao contrário do que ocorreu com Mano Menezes em seu início de trabalho na Seleção Brasileira em 2010, quando partiu quase do zero, os convocados por Luiz Felipe Scolari para o Mundial de 2014 devem formar a base da equipe que tentará recuperar o prestígio perdido no ciclo que se encerra na Copa do Mundo de 2018. À sua disposição, o técnico Dunga terá ao final de quatro anos um grupo que estará num estágio mais amadurecido do que foi visto recentemente em território brasileiro. Obviamente, se o ex-capitão chegar até lá.

Nos últimos dias ficou ainda mais evidente que Dunga não conta com a aprovação da imprensa esportiva. Não pelos fatos expostos de sua vida, que têm moderada relevância, mas pela maneira como estão lidando com eles, a ponto de haver sugestão paraque o treinador renuncie antes mesmo de estrear. Nesse cenário, está claro que apenas uma sequência de bons resultados e, sobretudo, bom futebol vai proteger o técnico das críticas que vão acompanhá-lo até o fim de seu contrato. Por tanto, é possível que tenhamos força máxima desde o início e não uma estrutura de transição.

Da equipe titular comandada por Felipão, nomes como Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Luiz Gustavo, Paulinho, Oscar, Hulk e Neymar provavelmente seguirão formando a espinha dorsal do novo time. Além deles, os goleiros Victor e Jefferson e os meia-atacantes Willian e Bernard têm condições de fazer parte do projeto. No entanto, veteranos como Júlio César, Daniel Alves, Maicon, Maxwell e Fred deverão ter suas vagas cedidas aos jovens que estão surgindo. Por sua vez, Dante, Fernandinho, Ramires e Hernanes, pela faixa etária, precisarão continuar correspondendo em seus clubes, enquanto Henrique e Jô, que só foram chamados por contarem com a confiança do ex-técnico brasileiro, dificilmente serão lembrados novamente.

Entre retornos e novidades, os arqueiros Cássio, Diego Alves e Marcelo Grohe saem na frente por oportunidades. Os jovens Rafael Cabral, Neto e Gabriel são outros que podem aparecer em breve nas listas de convocações. Para o centro da defesa, Miranda e Dedé surgem com evidência, mas Marquinhos e Rodrigo Caio, ambos com 20 anos, e o botafoguense Dória, 19, têm a idade e o sonho olímpico a favor.

Na lateral direita, talvez resida a posição com maior margem para experimentações. Com as possíveis aposentadorias de Daniel Alves e Maicon da camisa amarela. Marcos Rocha, Danilo e Mário Fernandes, este também na mira da Seleção Russa, despontam como favoritos. Rafael da Silva, outro lateral frequentemente lembrado, tem contra si a irregularidade que marca sua trajetória no Manchester United. No lado oposto, Filipe Luís, Alex Sandro e Alex Telles são opções interessantes para a disputa com Marcelo.

Muito contestado durante a Copa do Mundo, o meio-campo da Seleção requer cuidados. Dunga não foi um volante brilhante, mas sabe que o coração do jogo reside ali. O técnico dificilmente abrirá mão de um volante marcador, o que implica que Luiz Gustavo possivelmente seguirá no time. Todavia, isso não significa que deixará o setor esvaziado de talento. Durante sua primeira passagem, fazia uso de um 4-3-1-2 que se convertia num 4-2-3-1 com Elano abrindo pela direita e Robinho pela esquerda. Nas duas formações, preocupação com o preenchimento do meio campo. Deste modo, volantes mais técnicos como Rômulo, Souza (São Paulo) e Lucas Silva adquirem boas perspectivas. Mais à frente, Ganso volta à pauta, assim como Lucas Moura, Philippe Coutinho e Roberto Firmino, quase desconhecido no País, mas de grande destaque no Hoffenheim e cobiçado por gigantes europeus.

No ataque, a carência de centroavantes pode fazer com que Neymar atue como o jogador mais adiantado da equipe, função já testada por Mano Menezes. Não como “falso 9”, mas como um atacante móvel. Por sua entrega e participação sem bola, Hulk deve continuar, porém, precisa mostrar o poder de decisão que o destacou no Porto. Outros avançados que podem surgir futuramente são Luiz Adriano do Shakhtar Donetsk e a joia santista Gabriel. Como se nota, talento não falta. A maior parte desses atletas atua em altíssimo nível na Europa e o grande desafio é transformá-los numa equipe competitiva. Dentro de seu estilo, Dunga é capaz de cumprir essa missão. Resta saber se terá tempo para isso.

Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: AP

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Paz armada

Há duas décadas, o capitão da Seleção Brasileira erguia o troféu de campeão do mundo aos gritos de “Essa é pra vocês, seus traíras! É nossa essa porra!”, no que se tornou o maior desabafo de uma figura ligada ao futebol em toda a história desse esporte. Naquele momento, Dunga exorcizou as críticas – boa parte imerecidas – que recebera por conta da derrota em 1990 e durante a campanha que culminou no tetracampeonato nos EUA. É verdade que o gesto foi deselegante e em nada combinou com a postura ideal de um desportista, mas só o jogador sabia o que havia passado. A partir dali, ficou evidente que sua relação com a imprensa nunca seria saudável. E assim foi pelo restante de sua carreira de atleta e durante sua passagem como técnico do Brasil entre 2006 e 2010.
De volta ao posto que deixou há quatro anos, Dunga fez mea-culpa em sua primeira entrevista coletiva e disse que deseja melhorar seu trato com os órgãos de imprensa. A julgar pela forma um pouco ríspida que usou para responder determinadas perguntas, imagina-se que a tarefa não será das mais fáceis para ele. Por natureza, o técnico tem um gênio forte, “turrão” para pegar um termo usado pelo próprio. E a maneira como provavelmente armará a equipe brasileira deve lhe render críticas que dificilmente serão digeridas de forma tranquila. Ainda mais quando a opinião geral aponta para o resgate de um futebol protagonista.  Como ele reagirá a isso ainda é uma incógnita, mas chegou a hora de voltarmos o olhar para o outro lado da questão.
Dunga é só uma parte dessa equação. Seria um equívoco dizer que ele esbraveja em direção a fantasmas sem rosto. Suas respostas normalmente têm endereço e quase sempre são uma forma reação a comentários que ultrapassam a barreira da imparcialidade. Logo após o término da citada coletiva, o jornalista Paulo Vinícius Coelho escreveu que o trabalho de Dunga deveria ser observado de forma neutra e justa. Nada mais correto. Um novo ciclo se inicia e a análise precisa ser feita a partir do amistoso contra a Colômbia no dia 5 de setembro em Miami.
Lamentavelmente, não deve ser assim. A notícia de seu retorno caiu como uma bomba na imprensa esportiva e os efeitos foram sentidos de imediato. Seu nome foi rejeitado de forma quase unânime. A partir daí, uma caminhada que nem começou já foi alvo de todo tipo de ataque. Entre tantos, um chamou mais a atenção. Durante o programa Linha de Passe (ESPN Brasil) exibido na última segunda-feira, o comentarista José Trajano se declarou inimigo de Dunga. Sim, inimigo, como se houvesse uma guerra a ser travada. Em seu discurso inicial, o técnico se mostrou interessado em melhorar sua relação com a mídia, mesmo que suas armas verbais estejam por perto. Pelo visto, talvez tenha que usá-las bem antes do que imagina.
Imagem: Vanderlei Almeida/AFP

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

O outro lado da queda

Da mesma forma que é impossível falar em futebol brasileiro como uma coisa única, também não é correto representar a imprensa esportiva de maneira singular. Tite, possível sucessor de Scolari, não pode ser colocado no mesmo pacote de outros treinadores brasileiros que aparentam não fazer ideia do que está acontecendo no mundo. Deste modo, cabe a ressalva para os profissionais que cobrem o esporte de maneira séria e que refutam qualquer parcela de “achismo” nos seus trabalhos. O que vem a seguir não é para eles.

Ao mesmo tempo em que futebol é paixão, algo que qualquer pessoa pode apreciar, sua compreensão não é algo tão simples. Não em seu nível profissional. Para entendê-lo em sua totalidade, assim como um treinador faz com sua equipe e seus adversários, é preciso estudar, se aprofundar no tema. Talvez por ter nascido a partir de uma costela das antigas crônicas de jornal, grande parte da imprensa brasileira ainda enxerga o futebol como uma coisa lúdica, uma espécie de arte cuja finalidade é encantar pessoas. Se ele foi assim um dia, não é mais. Trata-se de um esporte de alto rendimento e se nele encontramos beleza e emoção, isso está muito mais ligado à sua natureza, ao manejo habilidoso da bola do que algo previamente estabelecido.

Piadas do tipo descrever o sistema 4-2-3-1 como linha de ônibus sempre esbarraram no ridículo, assim como a pilhéria com termos técnicos como “triângulo de base alta”. Não que esses termos sejam obrigatórios no vocabulário jornalístico, mas a percepção de que eles fazem parte do dialeto técnico, sim. Não por acaso, após a massacrante derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha, poucas foram as análises realmente consistente do que aconteceu no Mineirão. Um jovem e bom comentarista, cujo nome não será citado por respeito, passou as 24 horas seguintes fazendo toda sorte de gracinhas com o acontecido. Do que houve em campo, pouco ou quase nada disse.

Ao longo da história, nossa Seleção – aqui entendida como o topo da pirâmide do futebol brasileiro – se reinventou algumas vezes. 1970 e 1994 são dois casos onde o problema da época foi compreendido e corrigido com resultado satisfatório. Se isso ocorrerá novamente agora só saberemos no futuro, mas seria providencial que no decorrer desse processo os profissionais de imprensa caminhassem juntos nesse sentido. Até para que possam tratar desse assunto com a seriedade e propriedade que o tema merece.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pontos e Vírgulas

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

Quando o cérebro dá lugar ao fígado

Não saberia precisar em que momento a boa relação entre Seleção Brasileira e imprensa esportiva se rompeu. Talvez tenha sido após a evolução dos próprios meios de comunicação, quando o número de jornalistas cobrindo o escrete canarinho aumentou a tal ponto que a velha resenha com treinadores e atletas deixou de ser possível ou tão frequente, tornando a relação mais fria. Ou com a chegada de Ricardo Teixeira ao comando da CBF, um dirigente que sempre puniu com distanciamento quem ousava criticar ou investigar os atos de sua gestão. Quem sabe, a origem esteja no histórico Manifesto de Glasgow, documento redigido pelos jogadores brasileiros em junho de 1973 que expressava descontentamento com notícias que julgavam ser falsas.

O fato é que a relação não é boa. Isso se reflete nos comentários, na cobertura diária das principais competições, na análise de desempenho e, sobretudo, na cobrança por resultados. Logicamente, não se espera que a pressão por bom futebol seja amena num selecionado cinco vezes campeão mundial. O parâmetro estabelecido como ótimo passou a ser as seleções de 1970 ou 1982, obviamente, sem os problemas defensivos da última e com o tom turvo da memória afetiva. Tudo o que se fez depois disso parece insuficiente ou enfadonho, mesmo que os números não digam o mesmo.


É consenso que a Seleção comandada por Luiz Felipe Scolari não atravessa um bom momento. O crônico problema na saída de bola e da ligação direta persiste e foi potencializado pela pressão de se disputar um Mundial em casa. Sem dúvida, uma combinação perigosa que vem colocando em risco a permanência brasileira na competição. Paralelamente, outros postulantes ao título também enfrentam problemas de outra natureza e, até agora, ninguém desponta como grande favorito. Um bom exemplo é a Alemanha e seu quarteto de centrais na primeira linha e a forma kamikaze como enfrentaram – e quase foram eliminados – pela Argélia. Fosse com o Brasil, muita gente teria arrancado os cabelos.

A questão central não é reconhecer os defeitos da Seleção Brasileira. E nem observar com mais critério o que se passa do lado de lá. Isso deveria ser obrigatório para quem se propõe a trabalhar com futebol. A questão é a maneira como uma grande parcela da imprensa brasileira lida com a Seleção. Passa longe de ser o “jogar junto” erroneamente sugerido nesta semana por Felipão, mas não deveria ser a maneira quase colérica como alguns se comportam. Se a paixão deveria ficar de fora como prega a imparcialidade, o ódio também deveria. Talvez substituído por uma boa análise estatística das partidas. Mas creio que aí já é querer demais.


Imagem: Ari Ferreira/LANCE! Press

domingo, 15 de setembro de 2013

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.

A coisa mais importante dentre as menos importantes


O assunto da semana na imprensa esportiva brasileira não nasceu dentro de campo. A demissão do jornalista Flávio Gomes doscanais ESPN após ofensas – em tom de brincadeira – ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e à sua torcida dominou os debates nas redes sociais durante os últimos dias e reabriu a discussão sobre jornalistas que declaram sua paixão por um time. No caso de Flávio, a Portuguesa, que teria sido prejudicada por erros de arbitragem na partida em que foi derrotada pelo tricolor gaúcho pelo placar de 3 a 2 no último dia 7.

Como já colocado neste blog há algum tempo, jornalista esportivo não é “filho de chocadeira”. Todos têm seu clube de coração e conviver com isso dentro da profissão que abraçaram é algo mais do que comum no meio. O problema está no modo como externam esse sentimento. No mundo ideal, que talvez nem exista, um jornalista consegue separar seu lado torcedor do seu lado profissional na medida certa. Não protege seu time quando precisa criticá-lo e nem pesa demais a mão só para mostrar isenção. Na prática, é a velha busca pelo equilíbrio que os técnicos tanto gostam de arvorar.

Dizer que a opção pela demissão segue a tendência do politicamente correto que domina o mundo não é exagero. Contudo, respeitando o direito de Flávio Gomes de pensar diferente, existem limites. Em seus tweets, o jornalista atacou a história do Grêmio, sua torcida e até mesmo o povo gaúcho fazendo uso indireto de um preconceito que não pode ser tolerado quando parte de um profissional cujas palavras têm grande alcance. A decisão da direção da ESPN pela demissão foi dura, mas não foi absurda. É comum o discurso da imprensa esportiva cobrando seriedade e profissionalismo de quem trabalha com o futebol. O amadorismo da cartolagem, um dia considerado um ato de devoção por uma agremiação, hoje é visto com explicável desconfiança. Seguindo a mesma lógica, faz todo sentido cobrar a mesma postura da mídia. Mesmo que nem todos entendam dessa maneira.

Crédito da Imagem: ESPN

domingo, 28 de outubro de 2012

Pontos e Vírgulas.

Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado por futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
Brasil, o país da Moviola
Virou uma praga. De uns tempos para cá, os programas esportivos brasileiros foram dominados pelas discussões de arbitragem. Rodada após rodada, os lances polêmicos envolvendo as decisões dos árbitros se tornaram o principal foco dos debates e das mesas redondas. A bola rolando que é o que realmente importa ficou relegada ao segundo plano. Ou terceiro, se contarmos as polêmicas baratas.
Não são poucas as semelhanças com a velha moviola (hábito de alguns programas italianos de repetir os lances à exaustão e que, basicamente, servem apenas para alimentar polêmica). Agora até os lances bem anulados viraram objeto de especulação. Como bem observou o jornalista Rogério Jovaneli, as TVs ignoram o jogo real e confundem os telespectadores abusando do slow motion e fazendo com que as pessoas acreditem em algo às vezes imperceptível.
E mesmo com o discurso quase uníssono de que os erros não são intencionais, as polêmicas se arrastam por toda a semana como se no comando estivesse a Sônia Abrão. Discussões rasas que não levam a lugar nenhum como os italianos e sua moviola demonstram desde a década de 1960. Muitos dizem que os nossos treinadores importam suas táticas com muitos anos de atraso. Acho que o mesmo pode ser dito dessa “nova” compulsão da imprensa.

sábado, 8 de setembro de 2012

Três em um

Após o apito final do argentino Nestor Pitana, havia muito que dizer sobre a magra vitória da Seleção Brasileira sobre a África do Sul. A primeira, e mais importante, diz respeito ao futebol pobre que a equipe de Mano Menezes apresentou. Após a boa vitória sobre a Suécia em Estocolmo, o técnico parecia ter encontrado um rumo. Escalou o time num 4-4-2 em linha com dois volantes (Rômulo e Paulinho) que sabem jogar, com Ramires aberto na direita como em seus melhores dias no Chelsea, Oscar derivando da esquerda para o meio e Neymar com liberdade para se movimentar e se aproximar de Leandro Damião.
Dentro da lógica, o amistoso seguinte pedia a manutenção da equipe, até pela urgente necessidade de entrosamento. Eis que Mano resolve mudar. Escalou Lucas aberto pela direita – muito provavelmente porque a partida era no Morumbi – e Ramires em lugar indefinido. Sim, indefinido, pois na primeira metade do primeiro tempo o jogador pôde ser visto na esquerda, na direita e também no meio. Às vezes, à frente de Oscar, que foi visto como volante ao lado de Rômulo. Na prática, um time difícil de se entender tanto fora quanto dentro de campo.  
Outra questão que chamou a atenção foi o comportamento da torcida. Não é bairrismo dizer que a torcida paulista é, em média, mais exigente do que as de outros estados e mais propensa à vaia. A Seleção já foi vaiada noutros estados, mas em São Paulo parece ser algo atávico. Tanto é assim, que já se falava dos apupos muito antes de a bola rolar. Durante o jogo, a Seleção parecia enfrentar dois adversários, um no campo e outro nas arquibancadas. Os xingamentos ao final do amistoso foram plenamente justificados, uma vez que o Brasil atuou muito mal. Mas nada explica a vaia com dois minutos. Se for assim, é melhor ficar em casa e economizar um bom dinheiro.
Ainda houve tempo para a última polêmica do dia. Durante a coletiva, acuado por perguntas bastante espinhosas, Mano Menezes chegou a dizer que a imprensa brasileira deveria criar um ambiente positivo para a Seleção, pois é isso o que se vê noutros países. Nessa resposta o treinador errou três vezes. Primeiro, ao dar a entender que a mídia estrangeira trabalha a favor dos selecionados, o que não é verdade. Segundo, por se esquecer que já existe uma generosa parcela da imprensa brasileira que já faz esse trabalho. E, terceiro, por considerar a imprensa como uma entidade única. É preciso deixar claro que o papel da imprensa não é torcer. Nem a favor e nem contra. Assim como existe o chapabranquismo, também é perceptível a existência de uma ala que trabalha contra. No entanto, suas atitudes são mais veladas, mais nas entrelinhas. No fim, não passam de dois dispensáveis extremos.
Imagens: Reuters, Tom Dib/Lance

domingo, 13 de maio de 2012

Top 10 – Coisas que me irritam na imprensa esportiva

Quem acompanha noticiários esportivos certamente já se deparou com algum texto ou declaração capaz de tirar do sério. Hoje, tudo parece válido para chamar a atenção do público, seja um comentário calculadamente polêmico ou uma nota puramente especulativa, o que importa é a audiência. Obviamente, existem as valorosas exceções de sempre, mas nesta lista não há lugar para elas.
Contudo, é importante deixar claro que este Top 10 não tem a pretensão de pautar a mídia futebolística, apenas mostrar as situações que mais incomodam este velho blogueiro...
10. Abusar das especulações – Todo torcedor gosta de saber em quais jogadores seu time está interessado. Porém, transformar interesse plantado por empresário em notícia séria serve apenas para iludir os fãs;
9. Desprezar a opinião de quem está em campo – Acho divertido quando um comentarista dá a entender que sabe mais sobre determinado time do que o técnico que acompanha a equipe todos os dias. Arrogância pouca é bobagem;
8. Ex-jogadores que não se preparam para comentar – Não tem mais jeito. Os ex-jogadores chegaram às transmissões esportivas para ficar. Nada contra quem vem trazer ao público a visão de quem já esteve lá, mas só isso não basta. É preciso estudar sobre o assunto. Conhecer jogadores, técnicos e esquemas táticos. Infelizmente, são raros os que se preparam;
7. Achismo – Hoje, sobra opinião e falta informação. Gosto de programas de debate, mas, muitas vezes, os participantes deixam de lado a informação para ponderar sobre aquilo que não tem certeza;
6. Alimentar crises – Clubes brasileiros, por natureza, adoram uma crise. Porém, lamentavelmente, parte de uma imprensa que deveria ser neutra adora colocar mais lenha na fogueira de vaidades do nosso futebol. Tudo isso, claro, para que sejam produzidas mais e mais notícias;
5. Tratar o público como idiota – Alguns veículos tratam seu público como uma verdadeira massa estúpida e acrítica. Dão a entender que as pessoas não conhecem jogadores, esquemas táticos e a história dos times. Todavia, com o acesso cada vez maior à informação, as pessoas querem ser intelectualmente desafiadas e não apenas ser massa de manobra;
4. Nacionalismo e estrangeirismo – Todo extremismo é ruim. O pachequismo exacerbado de alguns deixa turva qualquer análise em que jogadores e times brasileiros estejam envolvidos. Por outro lado, o eterno complexo de vira-lata de muitos faz com que só o que vem de fora (sobretudo da Europa) tem valor;  
3. Tratar o esporte como mero entretenimento – O futebol está impregnado na cultura dos povos. Durante sua existência, parou guerras, aliviou opressões, deu alegria e provocou dor. Tratá-lo como um simples entretenimento é algo superficial e até indigno diante de sua importância;   
2. Falta de educação para com o público – Não sou adepto da infeliz frase “sou eu quem paga o seu salário”. Também não defendo os trolls que infestam a internet. No entanto, é lamentável como alguns jornalistas tratam pessoas que se manifestam de forma meramente discordante ou contestatória. Parecem prima-donas cheias de não me toques. Curiosamente, esses mesmos adoram cobrar paciência e gentileza dos profissionais da bola;
1. Perseguição e opiniões maldosas – De todas é a pior. Quem ousa desafiar certos jornalistas, seja jogador, técnico ou dirigente se torna alvo de perseguições covardes. Por vezes, tal conduta se manifesta em tom de escárnio ou simplesmente discordância a qualquer movimento do objeto de caça. Um caso em que o microfone se torna uma arma.
E então, o que mais te incomoda na imprensa esportiva?
Imagens: Sportv e UOL.