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domingo, 6 de setembro de 2015

Uma questão de mentalidade

Nos últimos anos, o futebol brasileiro vem sendo marcado por uma ideia bastante clara: Com raras exceções, nossos técnicos vêm se notabilizando por armar equipes voltadas para o contra-ataque. Jogar no erro do adversário costuma ser o caminho mais prático e menos trabalhoso para alcançar as vitórias. E isso passa a fazer mais sentido quando constatamos que nossos treinadores precisam defender seu emprego a cada rodada. Nesse cenário, tornou-se comum vermos times defendendo a vantagem mínima a partir do momento em que ela se estabelece. O problema é quando tal mentalidade se estende também à Seleção.
No amistoso de sábado diante da Costa Rica, tal prática ficou bastante evidente. Após um início onde o pressing foi aplicado com relativo sucesso, o gol de Hulk fez o Brasil passar a se defender com todos os jogadores no campo de defesa especulando contragolpes em bolas longas. Deste modo, nem mesmo a grande fase vivida por Douglas Costa pôde ser aproveitada, uma vez que sua maior qualidade é o excepcional desempenho no um contra um. No Bayern, Guardiola organiza seu time de forma que a posse de bola é utilizada para atrair os oponentes para o lado oposto do campo até que alguém inverta a jogada para o ponteiro decidir contra, invariavelmente, um único adversário.
Douglas, mesmo se quisesse, não encontraria tal situação na Seleção Brasileira porque a equipe trabalha pouco a bola. A carta de intenções de Dunga é claramente voltada para a verticalização das jogadas e o problema crônico na saída de bola – algo observado desde os tempos de Felipão – não só é um empecilho na criação como uma das razões para os frequentes apuros defensivos. Sem dúvida, um aspecto que deveria ser trabalhado após a pífia participação na Copa América. Mas, ao que tudo indica, o principal diagnóstico realizado pela comissão técnica diz respeito ao lado psicológico de alguns atletas e isso explica a ausência de Thiago Silva na última lista de convocados.

Todavia, o real motivo para a Seleção atuar abaixo das expectativas está na mentalidade de Dunga, que é a mesma marca da esmagadora maioria dos treinadores brasileiros. O trabalho é voltado para o resultado imediato e nunca para o aperfeiçoamento do futebol praticado. Durante a partida contra os costa-riquenhos, houve um breve instante de alento quando o comandante mandou o meia Rafinha a campo no lugar do volante Luiz Gustavo. Acostumado ao toque de bola barcelonista, o filho do tetracampeão Mazinho fez o jogo fluir e a Seleção melhorou sensivelmente. Resta saber se o técnico fez a mesma leitura de um momento tão fugaz e, ao mesmo tempo, tão auspicioso. Ainda há tempo para mudar.  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito das imagens: Leo Correa/Mowa Press e Rafael Ribeiro/CBF

sábado, 4 de maio de 2013

O Barça está morto. Longa vida ao Barça!

Nos últimos dias discutiu-se bastante sobre o momento atual do Barcelona e se a eliminação da UEFA Champions League pelo poderoso Bayern de Munique representou o fim de um ciclo vitorioso do time catalão. Para muitos, o ciclo de Messi & Cia. só se encerrará quando a atual geração deixar o clube ou mesmo ser substituída por outra gradativamente. Discordo dessa visão. Para este blogueiro, um ciclo do Barcelona se encerrou ainda em 2012, quando o técnico Pep Guardiola anunciou que aquela seria sua última temporada. Naquele momento, o ex-jogador colocou um ponto final numa história que começou em 2008, redefinindo uma nova era após o exitoso período em que o holandês Frank Rijkaard esteve no comando, época em que Ronaldinho Gaúcho brilhou intensamente, muito bem assessorado por Deco, Eto’o e outros. Em outras palavras, a era Rijkaard e a era Guardiola, por suas singularidades, já representaram ciclos distintos.
Deste modo, é possível dizer que a chegada de Tito Vilanova no Barça representa o reinício dos trabalhos no reino blaugrana. Uma retomada onde algumas providências típicas de Guardiola como a constante variação de esquemas táticos e a solidez defensiva ficaram para trás e o time assumiu uma visão ligeiramente mais vertical na busca do gol. São essas particularidades somadas à troca de treinador que indicam um reinício. Como paralelo é possível citar o Milan que revolucionou o futebol com Arrigo Sacchi no fim dos anos 1980 quando contava com craques italianos como Baresi e Maldini aliados ao fabuloso trio holandês composto por Rijkaard, Gullit e Van Basten, sucedido pelo Milan de Fabio Capello, uma equipe mais dura, mas ainda assim vencedora.
É justamente esse processo que o Barcelona vive neste momento. Depois de vencer tudo, chegou o momento de re-oxigenar o plantel – nomes como Thiago Silva e Neymar vêm sendo fortemente especulados – e quem sabe avaliar se Vilanova é realmente o profissional capaz de conduzir essa transição. O certo é que uma nova era se inicia para o Barça e provavelmente começará com a conquista do título espanhol deste certame. Contudo, se ela terá tanto sucesso quanto suas versões anteriores só o tempo dirá.
Crédito da Imagem: Getty Images

sábado, 2 de março de 2013

Basta ganhar

As últimas semanas foram duras para o Barcelona. Após a derrota para o Milan na partida de ida das oitavas de final da UEFA Champions League, o time catalão foi batido duas vezes pelo Real Madrid num espaço de apenas cinco dias. No primeiro encontro, os Merengues venceram por 3 a 1 em pleno Camp Nou e eliminaram o rival da Copa do Rei. Hoje, com uma equipe mista, os comandados de José Mourinho venceram novamente, desta vez por 2 a 1, atuando no estádio Santiago Bernabéu.
Apesar da evidente má fase, ainda é muito cedo para se falar em fim de um ciclo no Barcelona. O título espanhol parece ser questão de tempo – são 12 pontos de vantagem sobre o segundo colocado Atlético de Madrid e 13 para o Real Madrid – e a classificação em âmbito europeu depende de suas próprias forças. Contudo, é provável que o momento da reestruturação pontual tenha chegado, mesmo que isso não signifique quebrar os dogmas do clube.
Existe um pensamento consolidado de que enquanto esta versão do Barcelona seguir impondo seu estilo, mantendo a bola sob seu domínio e pressionando no campo de ataque, não será possível determinar o fim de sua era. Todavia, acredito que este não é ponto. Os rivais do Barcelona não precisam derrotá-lo dentro do seu estilo. Não há necessidade de ter a posse por mais tempo ou adiantar a marcação para sufocar os catalães em seu campo. O Barça, pela consolidação de sua escola, automação e entrosamento, provavelmente será insuperável em seu estilo por muito tempo.
O centro da questão é outro. Se os adversários derrotarem o Barcelona fazendo uso de suas próprias estratégias, anulando seus pontos fortes e aproveitando os espaços oferecidos, será mais do que suficiente para marcar o declínio. Se isso significar a interrupção das metas do Barcelona, se representar sua queda de rendimento, então caberá aos blaugranas encontrar suas respostas para a maneira como os times se armam contra ele. Resposta que, pelo visto, aqueles que o enfrentam estão encontrando.
Foto: Getty Images

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Apenas diferentes

A festa da torcida do Corinthians no embarque da delegação para a disputa do Mundial de Clubes da FIFA e a presença de 20 mil torcedores do clube no Japão mostra o quão importante é esse torneio para um time brasileiro. Por aqui, seguimos a lógica de que a competição é o ápice para uma agremiação, uma Copa do Mundo dos clubes, mesmo quando ainda não possuía a chancela oficial e reunia apenas os campeões de América do Sul e Europa.
Seguindo essa lógica, os maiores clubes brasileiros projetam vencer ou ficar bem classificados no Brasileiro, ou levantar a Copa do Brasil, para então conquistar a Copa Libertadores e alcançar a tão sonhada vaga no Mundial. Um raciocínio bastante lógico, mas que não é acompanhado pelos times europeus, em especial os ingleses, que não encaram o Mundial como o mesmo interesse. Ressalta-se a peculiaridade dos ingleses, uma vez que não são todos os países do Velho Continente a encarar o Mundial de Clubes com desdém. Para ficar em dois exemplos, o Milan desfilou em carro aberto após o título de 2007, enquanto Guardiola chorou copiosamente quando foi campeão em 2009 com o Barcelona. Italianos e espanhóis sempre deram relativa importância.
No entanto, como mostram as notícias que vêm de Londres, o interesse da imprensa britânica, dos torcedores do Chelsea e até da comissão técnica dos Blues é bem pequeno. Poucas referências nos jornais, pouca informação entre a torcida e para o novo técnico Rafael Benítez o foco está no apagar do “incêndio” provocado pela saída de Roberto Di Matteo e sua própria contratação. Até o embarque para o Oriente, todas as atenções estarão voltadas para temas mais urgentes. A maneira como o Chelsea se comportará na competição ainda é uma incógnita. Afinal, pode acreditar que um título faria bem aos ânimos e se entregar em campo. Por outro lado, pode confirmar o desinteresse e atuar de maneira apenas protocolar.
Sem dúvida, Corinthians e Chelsea vão encarar o Mundial de maneira diferente. Cada um dentro de sua própria realidade e vivendo as particularidades de seus atuais momentos. Não há maneira certa ou errada. Há apenas a constatação de visões diferentes sobre o mesmo torneio. Enfatizar a todo o momento o desinteresse dos ingleses como uma forma de desmerecer um eventual título corintiano é apenas uma forma intelectualmente desonesta de desvalorizar a conquista alheia. Bem mais nobre seria contextualizar a maneira como as principais ligas lidam com a disputa do torneio. Mas isso deve dar trabalho.           
Imagem: talkSPORT

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Futebol e política

Para grande parte da crônica esportiva, a demissão do técnico Mano Menezes da Seleção Brasileira foi uma manobra política de José Maria Marin. Ao que tudo indica, o presidente da CBF quis romper com toda a estrutura montada por Ricardo Teixeira e instituir sua própria comissão. Logicamente, com essa medida, mesmo que a base da Seleção seja mantida pelo técnico Luiz Felipe Scolari, a sequência do projeto de Mano para nosso selecionado foi irremediavelmente rompida. Mas que projeto era esse?
Em seu discurso, Mano Menezes sempre se mostrou atualizado em relação às deficiências do futebol brasileiro dentro das quatro linhas. Com frequência, o ex-técnico da Seleção citava problemas com a falta de compactação, com laterais que não sabem compor uma linha de quatro, com volantes que não sabem jogar, etc. Aos poucos, tal filosofia foi sendo implantada na equipe principal e os resultados, ainda que tímidos, começaram a aparecer. Simultaneamente, ao lado do então coordenador do futebol de base, Ney Franco, Mano tentava implantar uma espécie de padronização das categorias inferiores dos clubes no que diz respeito à formação de atletas. Sem dúvida, uma iniciativa elogiável, ainda mais num país desacostumado com qualquer tipo de planejamento mais elaborado.
Porém, a política entrou em campo mais uma vez. Ao receber o convite para treinar o São Paulo, Ney ouviu do presidente Marin que não haveria problema para sua liberação. Na prática, a cúpula deixava claro que o trabalho em desenvolvimento não era tão relevante quanto se pensava e, ao mesmo tempo, reaproximava a entidade de um clube poderoso que havia sido deixado de lado ao final da gestão de Ricardo Teixeira. É bem provável que Mano Menezes tenha percebido ali que o sucessor de Teixeira não pensava como ele. Isso, somado à falta de qualquer manifestação que desse segurança ao treinador deixava claro que a mudança poderia acontecer a qualquer momento. Até que aconteceu.
Com a demissão de Mano, uma onda de críticas varreu o Brasil. De repente, ninguém era a favor da troca do comando técnico. Quem acompanhava à distância até poderia acreditar que o trabalho estava obtendo êxito mesmo sem resultados significativos. Concomitantemente, surgiu o boato de que o espanhol Pep Guardiola estaria aberto a um convite para treinar o Brasil. Era a senha para que os pedidos pela contratação do ex-técnico do Barcelona invadissem programas esportivos, jornais e redes sociais. De repente, a possível chegada de Guardiola se tornou a chave para todas as mazelas do nosso esporte. Mas ninguém se dispôs a tentar explicar para o grande público por que seria.
Não há dúvidas de que Guardiola é um homem anos-luz à frente da média dos treinadores locais. Seus feitos realizados a partir da escola barcelonista estão entre as coisas mais importantes que aconteceram no futebol desde sua invenção. Só isso já bastaria para credenciá-lo ao cargo de técnico do Brasil. No entanto, tanto Guardiola quanto qualquer outro treinador só poderiam atuar no âmbito da Seleção. No máximo dar prosseguimento aos incentivos à base que Mano Menezes e Ney Franco deram início.
Sob o comando de Felipão e a coordenação de Parreira, é possível que a Seleção caminhe melhor. Apesar das boas intenções, a passagem de Mano foi apenas regular. Um bom projeto, mas que nunca encontrou o necessário respaldo dos resultados, algo que sabemos ser fundamental em qualquer coisa ligada ao esporte tupiniquim. Certo ou errado é desse modo que o raciocínio local funciona. Do mais desligado torcedor até o articulista mais renomado, sempre haverá a cobrança pelo resultado, independente do projeto.
O futebol brasileiro precisa do tão falado projeto sim, porém, como um todo. O que é realizado da Seleção pode e deve andar paralelamente a isso. Precisamos de um calendário racional, de uma política para levar público aos estádios, de uma organização que proteja os direitos dos jogadores, de medidas que equacionem as dívidas dos clubes, de um planejamento que vise aproveitar da melhor maneira os estádios que estão sendo construídos para o Mundial, de dirigentes mais profissionais, enfim, precisamos arregaçar as mangas e olhar para frente.
E isso, via de regra, não está ligado ao ocupante da cadeira de técnico da Seleção. Está bem acima dele, inclusive. E é nesse lugar onde se encontra o verdadeiro problema. Está na estrutura corrupta e viciada do futebol brasileiro. Que parte da CBF, passa pelos clubes, por profissionais da área e até pelo canal de TV que, em nome de seus interesses, sempre que pode solicita o retorno de uma fórmula de campeonato que claramente é lesiva ao planejamento das agremiações. Neste cenário, pedir Guardiola ou outro técnico estrangeiro é muito mais um sonho idealista do que uma necessidade. Neste momento deveríamos nos concentrar nos problemas reais. E são tantos.
Crédito da Imagem: Bruno de Lima, Lancenet

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Contagem Regressiva: Novembro de 2012

Para um fanático por futebol, Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Enfim, é um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
Os prós e os contras
Parece piada, mas, infelizmente, não é. Justamente quando Mano Menezes dava sinais de que estava encontrando um caminho para a Seleção Brasileira visando a Copa do Mundo de 2014, o presidente da CBF, José Maria Marin, e seus aliados decidiram demitir o treinador sem dar muitas explicações. A versão oficial de que a intenção da entidade é mudar os métodos de trabalho não convenceu ninguém e o anúncio da demissão ter acontecido após uma reunião realizada na Federação Paulista de Futebol dá sinais de que a iniciativa foi muito mais política do que técnica.
Sem a definição do sucessor de Mano, esta coluna analisa os principais candidatos ao cargo mais cobiçado do futebol brasileiro, pontuando os prós e contras de cada um:
Luis Felipe Scolari – Ao que tudo indica, é o favorito ao posto. É o preferido do presidente da Federação Paulista, Marco Polo Del Nero - mais forte do que nunca dentro da CBF - mas alega não ter recebido um convite oficial.
Pontos Positivos: No currículo, além dos bons trabalhos na década de 1990, levou o Brasil ao pentacampeonato mundial em 2002 tendo, como agora, pouco tempo para a missão. Posteriormente, mesmo sem conquistar nenhum título, conseguiu fazer de Portugal uma seleção competitiva durante toda sua passagem. Seu estilo “paizão” pode servir como escudo dos jogadores em momentos turbulentos, coisa que Mano Menezes não foi capaz de fazer;
Pontos Negativos: Na sequência da boa passagem por terras lusitanas, Felipão não emplacou mais nenhum projeto relevante. Em 2008, foi uma vítima de máquina de moer treinadores conhecida como Chelsea, refugiou-se por algum tempo no futebol do Uzbequistão e retornou ao Palmeiras após dez anos de sua primeira passagem. No caótico ambiente palestrino, não conseguiu impor-se como imaginado. O título da Copa do Brasil deste ano não apagou a má campanha que culminou com o rebaixamento do time paulista.       
Muricy Ramalho – Convidado por Ricardo Teixeira em 2010, recusou a proposta e foi campeão brasileiro pelo Fluminense. Depois, foi bicampeão paulista e ainda conquistou a Copa Libertadores 2011 pelo Santos. É o menos cotado entre os brasileiros listados.
Pontos Positivos: Trabalho. Essa sempre foi a marca desse técnico que coloca as vitórias sempre em primeiro plano. Com Muricy, a Seleção provavelmente resolveria os problemas defensivos que tantos danos causaram durante a Era Mano Menezes. Seu currículo recente é o mais vitorioso entre todos os treinadores brasileiros;
Pontos Negativos: O massacre sofrido pelo Santos no último Mundial Interclubes poderia ter sido visto como normal diante de um adversário como o Barcelona. Todavia, os equívocos táticos cometidos na decisão e as declarações desconectadas da realidade após a partida denunciaram um técnico ultrapassado em relação ao futebol que é praticado pelas melhores equipes do planeta. O hábito de se eximir de responsabilidade quando seus times atravessam momentos ruins também pesa contra.
Tite – Disputará o Mundial de Clubes em dezembro com o Corinthians e, se for campeão, provavelmente haverá um grande clamor popular por seu nome. Já declarou que sonha chegar à Seleção um dia, mas, por ora, evita abordar diretamente o assunto.    
Pontos Positivos: É um dos técnicos brasileiros mais atualizados e está sempre disposto a observar e aprender. No Corinthians, implantou uma filosofia moderna e colheu bons frutos como a conquista do Brasileiro de 2011 e a Libertadores deste ano. A marcação adianta implantada no Timão se assemelha ao que Mano vinha tentando fazer na Seleção, mas com uma grande diferença: Ela funciona no Corinthians;  
Pontos Negativos: Tite sempre precisou de algum tempo para organizar suas equipes e isso não é algo que a Seleção oferece. Quem assumir terá de colocar ordem na casa rapidamente se aprontar para a Copa das Confederações. Além disso, não há evidências de que o tão solicitado futebol-arte encontrará vez com o gaúcho. Sua equipe se caracteriza pela intensidade na marcação. Com a bola, é um time normal.
Pep Guardiola – Embora nomes estrangeiros tenham sido praticamente descartados pelo presidente Marin, a suposta receptividade mostrada pelo catalão ao saber que a Seleção Brasileira estava sem treinador animou muita gente no País.  
Pontos Positivos: Guardiola seria um sopro de inovação no cenário empobrecido do futebol brasileiro. Multicampeão com o Barcelona, sempre demonstrou respeito pelo que nossa escola representa e seria uma escolha de impacto no momento atual. E, como referência, os profissionais que aqui estão só teriam a ganhar;  
Pontos Negativos: O tempo até a Copa do Mundo é muito curto para mudanças mais profundas. Além disso, o fato de se não estar ligado à cultura do nosso futebol pode atrasar ainda mais a preparação da Seleção. Pep seria uma grande opção para o início de um ciclo. Agora, mesmo com todas suas qualidades, seria uma aposta.
Segundo as palavras do presidente da CBF na Soccerex, o novo técnico deverá ser anunciado até o início de janeiro. Até lá, haja especulações e boatos sobre quem deverá suceder Mano Menezes.
E para você, qual seria o técnico ideal para a Seleção? Vote na enquete ao lado!
De olho na Copa
Além da inoportuna demissão de Mano Menezes, a situação interna da CBF também não anda nada boa. Especula-se que Andrés Sanchez, diretor de seleções, deve deixar o cargo nos próximos dias e, ao que tudo indica, para se tornar oposição à cúpula da entidade. Simultaneamente, o braço direito de José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, deve ser indiciado pela Polícia Federal por envolvimento com a máfia de comercialização de informações sigilosas recentemente desmontada pela operação Durkhein.
A mascote da Copa de 2014 teve seu nome divulgado no último domingo. Fuleco, nome escolhido por 48% dos 1,7 milhão de votantes, mistura as palavras futebol e ecologia. Enquanto isso, a bola oficial da Copa das Confederações será apresentada no próximo dia 1º de dezembro quando também ocorrerá o sorteio dos dois grupos do torneio. Além do Brasil, país-sede, estarão presentes Espanha, Itália, Japão, México, Taiti e Uruguai. O representante da confederação africana será conhecido em 2013 após a Copa Africana de Nações. Infelizmente, não haverá um técnico para comentar sobre o grupo em que o Brasil foi sorteado.         
Confira abaixo, o andamento das obras nas doze sedes:         
Dentro do previsto: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza e Salvador;  
Apresentando atrasos: Cuiabá, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo;
Situação preocupante: Curitiba, Manaus, Natal e Recife.
Imagens: Agência Estado, Gazeta Press, Sportv, Reuters e FIFA.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Manobra arriscada

A notícia da demissão do técnico Mano Menezes caiu como uma bomba nesta sexta-feira. Embora seus resultados à frente da Seleção Brasileira não fossem os melhores, a sensação geral era a de que, aos poucos, o time estava entrando nos trilhos. Após romper com toda a base construída pelo antecessor Dunga, Mano fez diversas escolhas questionáveis, mudou de rota algumas vezes, não conquistou bons resultados, mas, mesmo assim, dava sinais de que estava encontrando uma forma de jogar e uma espinha dorsal.
O ano de 2012 se encerra com a Seleção atuando de uma forma semelhante às de grandes equipes do futebol mundial, com volantes que sabem jogar, evitando quebrar a saída de bola e com um ataque técnico e habilidoso. Se o balanço geral desses quase dois anos e meio não é positivo, pelo menos, indicava que havia um caminho a ser seguido. Sendo assim, por que a mudança?
Como escreve Juca Kfouri, ao que tudo indica, a troca tem um viés muito mais político do que técnico. Dizem também que a demissão é uma maneira de enfraquecer o diretor Andrés Sanchez nos bastidores da CBF. Se assim for, a iniciativa é ainda mais perigosa do que parece. Restando menos de dois anos para o Mundial, romper com um trabalho que agora dá frutos é uma medida bastante temerária.
Queira ou não, a vinda de um novo treinador dificilmente garantirá a sequência do trabalho. Mesmo que a mentalidade do escolhido seja parecida com a de Mano Menezes, provavelmente haverá a troca de alguns ou de muitos jogadores. Exemplos: E se o novo técnico considerar preocupante o fato de Diego Alves não ser titular absoluto do Valencia? E se enxergar David Luiz como um zagueiro instável? E se tiver preferência por um volante de mais pegada no meio-campo? E se não contar com Kaká? E se não gostar de Neymar atuando como o homem mais adiantado do time?  
Perguntas não faltam, mas respostas sim. E a primeira é o nome do novo comandante. No momento, os especulados são Tite, Muricy Ramalho e Luiz Felipe Scolari. Destes, o primeiro seria a aposta mais sensata, o segundo seria um retrocesso em termos conceituais e o terceiro é a velha aposta no que já deu certo um dia. Uma quarta opção, que beira o improvável, seria a contratação de Pep Guardiola. Improvável, sobretudo, porque o ex-Barcelona não parece interessado em assumir trabalhos pela metade e já declarou que não vê como ideal um estrangeiro assumindo um selecionado. Para o futebol brasileiro, a vinda de Pep poderia significar um sopro de ar fresco numa estrutura fechada e empoeirada. No entanto, essa não parece ser uma preocupação da entidade que define os rumos desse esporte.
Crédito da imagem: Ivo Gonzalez / O Globo

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Pep, o que faremos?

Tito Vilanova ainda convalescia da retirada de um tumor da glândula parótida enquanto assistia o seu Barcelona enfrentando o Villarreal pela Copa do Rei. De repente, toca o telefone e ele ouve uma voz familiar do outro lado da linha: “Tito, o que faremos?” Era Pep Guardiola. O então técnico blaugrana estava preocupado com o andamento da partida e queria a opinião de seu auxiliar e amigo para encontrar uma solução que veio após o diálogo.
Durante a Era Guardiola, a pergunta mais formulada girava em torno de sua competência como técnico. Pep era mesmo um treinador revolucionário ou o mérito residia na qualidade do grupo composto por jogadores do calibre de Messi, Xavi e Iniesta? A resposta mais sensata provavelmente estava em reconhecer a importância das duas coisas. Conforme a história de sua empreitada era contada, algumas pistas apontavam que o mundo estava diante de um personagem incomum. Antes de assumir o Barça, Guardiola viajou à América do Sul para se encontrar com Marcelo Bielsa e debater futebol com o argentino. Dali, e de suas próprias convicções, nasceu um dos maiores times da história, uma equipe capaz de encantar o mundo com um toque de bola sensacional aliado a um sentido de marcação quase militar.
Mas outros pontos foram notados durante o percurso. O lateral Daniel Alves não soou exagerado quando definiu o ex-comandante como gênio. Por sua vez, o goleiro Víctor Valdés surpreendeu este blogueiro ao dizer que a maior qualidade do ex-volante era encontrar soluções para combater os pontos fortes de seus adversários. Obviamente, tratava-se de um elogio, porém, não deixa de ser curioso notar que o treinador admirado por fazer sua equipe atuar de maneira tão envolvente tivesse como ponto forte saber neutralizar seus rivais.
É bem provável que a atual fase irregular do Barcelona tenha na ausência de Guardiola sua principal causa. Assim como o antigo chefe, Tito Vilanova conhece cada canto do clube e era a escolha mais lógica para uma diretoria que planejava a continuidade do trabalho. Contudo, é quase impossível esperar que outro profissional não tomasse nenhuma decisão pessoal. Aos poucos, o Barcelona vem revelando um novo repertório que inclui maior verticalização das jogadas, tiros de meta “rifados”, diminuição de escanteios curtos, menos variações táticas e, sobretudo, menor movimentação ofensiva. Não por acaso, o rendimento técnico caiu. Se isso será definitivo não se sabe, mas talvez uma ligação para um velho amigo ajude a recolocar as coisas em seu devido lugar.
Foto: AP

sábado, 16 de junho de 2012

Revolucionários, mas nem tanto

Há alguns anos, Zagallo disse que o esquema tático do futuro era o 4-6-0. Como não poderia deixar de ser, a imprensa caiu matando em cima do Velho Lobo por enxergar nessa declaração uma postura defensivista do ex-técnico. Na verdade, assim como o “gol é apenas um detalhe” de Parreira, essa foi mais uma polêmica fabricada num país que ignora debates mais elaborados. O que Zagallo queria dizer é que o futebol caminhava para a extinção dos atacantes fixos com o trabalho ofensivo sendo feito pelos homens que chegam de trás com a bola dominada.
O tempo passou e em parte deu razão a Zagallo. O sistema mais usado no mundo provavelmente é o 4-5-1 (4-2-3-1) onde um único atacante é referência para o restante do time. Todavia, apesar de provavelmente desconhecer a citada previsão, o técnico da Espanha Vicente del Bosque resolveu aplicar o módulo na partida de estreia na Eurocopa diante da Itália. Na ocasião, o escolhido para cumprir a função de “falso 9” foi Cesc Fàbregas, meia improvisado na posição algumas vezes por Pep Guardiola no Barcelona. Fábregas, ótimo jogador e afeito à função nos tempos de La Masia, tentou cumprir o papel, até marcou gol de empate, mas era visível que se sentia pouco à vontade no papel.
A campeã mundial, como sempre, teve mais posse de bola e maior domínio territorial, mas faltava profundidade. O time tocava, tocava e, na maioria das vezes, esbarrava na defesa italiana. Não por acaso, a experiência só durou uma partida e na sequência contra a Irlanda lá estava Fernando Torres no onze inicial. Um centroavante de fato que mesmo longe de sua melhor forma marcou dois gols contra a Irlanda. Naquele momento, Torres era a referência para um meio-campo capaz de criar diversas oportunidades de gol por jogo. Muitas vezes, a simples presença de um jogador mais fixo naquele espaço é o suficiente para que haja a conclusão satisfatória de um lance. Possivelmente, alguém vai se lembrar de Messi e seu caminhão de gols pelo Barcelona mesmo sem atuar mais fixo entre os zagueiros. Porém, como dizem, toda regra tem a sua exceção.       
Foto: AFP

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O fim, o legado e os caminhos.

É oficial. Josep Guardiola não é mais técnico do Barcelona. Após quatro anos, treze títulos em dezoito possíveis, o ex-volante anunciou em coletiva que não comandará o time catalão na próxima temporada.  Segundo palavras do presidente Sandro Rosell, foi uma decisão unilateral, uma vez que - apesar da eterna panela de pressão política que sempre caracterizou o clube - a direção blaugrana se mostrava satisfeita com seu trabalho. Na oportunidade, o nome do auxiliar Tito Vilanova foi anunciado como o novo técnico, dando um sentido de continuidade ao projeto que vem sendo desenvolvido.
Desconheço as razões da saída de Guardiola. No entanto, é impossível não encarar o anúncio como o fim de um ciclo. Em quatro temporadas, Pep reconstruiu uma equipe desacreditada e a transformou num esquadrão dos sonhos, praticante de um tipo de futebol nunca antes visto em tamanha plenitude. Coletiva e individualmente muito próximo a perfeição. Obviamente, nada impede que Tito Vilanova realize façanha semelhante. Porém, ainda é muito cedo para dizer se o auxiliar tem a inventividade, a coragem e até a parcela de loucura presente em Guardiola.
Como legado, este Barcelona deixa para o mundo da bola mensagens positivas como não ser necessário possuir atletas altos e fortes para ser competitivo, que ser ofensivo não significa ser defensivamente vulnerável, que os volantes podem marcar e também jogar e, sobretudo, que é possível vencer sem abdicar do futebol bem jogado. Difícil imaginar outro time que tenha deixado tantas lições e influenciado tanto.
Neste momento algumas perguntas se fazem obrigatórias. O destino do Barcelona é a primeira delas. A motivação e a ambição deste grupo continuarão as mesmas? Em diversos momentos, os jogadores culés relacionaram o fantástico momento que viviam a Guardiola. Como será com Vilanova no comando? Pelo lado do treinador, é impossível não especular sobre sua próxima equipe e se ele será tão bem sucedido numa agremiação que não lhe é tão familiar. Afinal, uma coisa é treinar um time “de casa”, onde se conhece do porteiro ao presidente. Outra, bem diferente, é comandar um grupo desconhecido, numa realidade desconhecida. Certamente, propostas não faltarão. Hoje, uma história chegou ao fim, mas outra começa a ser escrita a partir de agora. Feliz de quem viu esse time jogar.


Imagem: Reuters

terça-feira, 24 de abril de 2012

Não foi uma derrota do futebol.

É perfeitamente compreensível que as pessoas lamentem a eliminação do Barcelona da UEFA Champions League. O time comandado por Pep Guardiola pratica o futebol mais encantador mundo, está sempre no ataque e ainda conta com o melhor jogador do planeta. Mesmo assim, a classificação do Chelsea não pode ser chamada de “derrota do futebol”. Pelo contrário, foi mais uma prova de como esse esporte pode ser fantástico e imprevisível.
Diante do poderio blaugrana, só havia um caminho para os Blues: se defender. Cobrir cada espaço, correr em cada bola, se entregar. Pode não ser algo plasticamente bonito, mas é emocionante e, por que não dizer, heróico. E deu certo. Agora, cabe ao técnico Roberto Di Matteo recuperar o fôlego do grupo, remontar um time que terá quatro importantes desfalques na decisão e tentar o voo final.
Ao Barcelona, cabe a reflexão. A eliminação de hoje não significa que tudo está errado e muito menos representa que a “Fórmula Barça” se esgotou. Grandes times da história também tiveram suas trajetórias vencedoras interrompidas e nem por isso foram menos especiais. Este não precisa ser o fim de um ciclo, mas é importante que diretoria catalã acredite nisso e mantenha Guardiola no cargo.
O futebol continua escrevendo suas linhas. E segue forte. Apaixonante.
Imagem: El País

sábado, 14 de abril de 2012

E se Andrés estiver certo?

Calma, leitor. Este blogueiro ainda não ficou louco. É lógico que a declaração de Andrés Sanchez, diretor de Seleções da CBF, dizendo que o trabalho de base do Barcelona é uma balela passa longe de ser sensata. Além das evidências que vemos em campo, não faltam matérias mostrando que as categorias de base do clube catalão atuam seguindo a mesma linha filosófica da equipe principal.

Todavia, pelo menos em parte, o ex-presidente do Corinthians pode estar certo. Embora não tenha se refletido sempre no time principal, a base barcelonista segue uma linha mais ou menos parecida desde a década de 1970 e se reforçou conceitualmente ainda mais quando Johan Cruyff se tornou treinador. Durante as últimas décadas, o Barça enfrentou momentos bons e ruins, mas só se firmou como um time em que a diferença está na força dos canteranos com a atual geração.
Antes, apesar da aura “cruyffiana” sempre presente, o estilo de jogo sofria alterações por parte dos ex-treinadores como Bobby Robson e Louis van Gaal. Paralelo a isso, os destaques blaugranas invariavelmente eram estrangeiros formados noutras praças como Stoichkov, Laudrup, Koeman, Romário, Ronaldo, Rivaldo e os holandeses, Ronaldinho, Deco e Eto’o. Durante todo esse período, os atletas formados na base tiveram grande valor, porém, funcionavam como complemento para um time de estrelas.
Com a chegada de Josep Guardiola, essa história mudou. Montando uma equipe formada basicamente por jogadores oriundos de La Masia, sobretudo pela geração 87, e atuando fielmente segundo a cartilha escrita por Cruyff com alguns adendos de Guardiola, a atual versão do Barcelona é o ápice e a prova do sucesso das categorias de base. No entanto, é possível dizer que este time é o primeiro e o único em que o protagonismo não precisou ser importado. E aqui, não excluo Lionel Messi da lista de canteranos, uma vez que o argentino chegou ao clube muito jovem e cercado de dúvidas sobre sua evolução.
Por esse prisma, até que é possível dizer que Sanchez não estava tão errado. Não há evidências que o Barcelona seguirá se mantendo no topo tendo sua base como coluna vertebral. Isso só acontecerá se a próxima geração for tão (ou quase tão) boa quanto esta e, de preferência, continue sob o comando de Guardiola. Porém, infelizmente, a arrogância de nosso cartola transformou o que poderia ser um bom debate em mera demonstração de presunção.
Imagens: Eduardo Viana e site oficial do Barcelona.

sábado, 3 de março de 2012

Guardiola?

É ponto pacífico que a Seleção Brasileira não fez um bom jogo diante da Bósnia que, ao contrário do que dizem alguns “especialistas”, é um selecionado respeitável.  Também está claro que o trabalho de Mano Menezes evoluiu muito pouco desde que o ex-técnico do Corinthians assumiu o comando verde-amarelo. Em consequência, está se tornando unanimidade a ideia de que os Jogos de Londres podem marcar o fim de sua passagem pela Seleção, no caso da não conquista do ouro olímpico.
Deste modo, a possível sucessão de Mano levanta um velho tema: O Brasil está preparado para ter um treinador estrangeiro? Para muitos, neste momento, não temos um profissional plenamente capacitado para dirigir a Seleção na Copa do Mundo que iremos sediar. Muricy Ramalho, o maior vencedor dos últimos tempos, viu seu Santos cair de maneira ridícula diante do Barcelona e teve toda a mediocridade sua filosofia de jogo escancarada para o mundo inteiro. Outros nomes antes badalados como Vanderlei Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari estão longe de seus melhores dias e figuras em evidência como Tite e Dorival Júnior ainda não têm a experiência necessária para o cargo.    
Neste cenário, é mais do que explicável a citação de nomes estrangeiros. E quem melhor para a missão do que o responsável pela montagem da equipe mais admirada da atualidade? Quem melhor do que o bastião do futebol bem jogado? Não foi difícil que o raciocínio alcançasse o nome de Josep Guardiola. E, como a renovação do ex-volante com o Barcelona se mostra complicada, o sonho tomou ares de possibilidade real por aqui.
Não deveria. Primeiro, porque tudo indica que o ciclo de Guardiola no Barça ainda não chegou ao fim. Nesta semana, jogadores como Daniel Alves e Pedro vieram a publico pedir sua permanência. Um exemplo de que o relacionamento tanto com titulares quanto com os reservas continua sadio. Segundo, porque o técnico nunca deu mostras de que esteja interessado em deixar a rotina de clube para se dedicar a uma seleção. E se o interesse pelo trabalho no dia-a-dia permanece vivo, a Internazionale parece disposta a pagar uma fortuna por seus préstimos. Em terceiro, mas não menos importante, está a dúvida sobre até que ponto um trabalho realizado numa agremiação que já possui uma filosofia de jogo consolidada pode ser parâmetro para uma seleção que só se encontra de tempos em tempos e que é composta por jogadores com estilos distintos em relação aos catalães.
É preciso entender que uma coisa é treinar uma equipe todos os dias e moldá-la ao seu planejamento. Outra, bem diferente, é mapear os melhores de um país que exporta seus atletas para o mundo inteiro, reuni-los e fazer deles um time. Não dá para apenas adorar o Barcelona e querer transpor o que ele tem de melhor sem pensar em como a equipe se construiu e como isso foge da realidade de uma seleção que não seja a espanhola. O Brasil tem seu estilo próprio e jogadores com talento suficiente para produzir mais do que a Seleção tem apresentado atualmente. Talvez não sob as ordens de Mano.
Foto: AP

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Maneiras e maneiras.

Se existe uma expressão que me intriga essa atende por “futebol de resultado”. Para mim, toda filosofia de jogo visa o resultado. A diferença está na maneira como se busca esse resultado e em como se lida com as derrotas e momentos instáveis. Fiz esse preâmbulo para refletir sobre um debate que tive ontem com Rogério Jovaneli, André Rocha, Vitor Sérgio Rodrigues e Darcio Vieira via Twitter e voltar a um assunto recorrente neste espaço: Os técnicos brasileiros.
Antes de tudo, digo que acredito que a maneira como os treinadores montam suas equipes também é fruto da política demissionária que impera neste país. Sempre com a corda no pescoço e lidando com dirigentes amadores e sem noção da real força de seus times, nossos treinadores muitas vezes encontram em soluções mais práticas e cautelosas o caminho para a manutenção dos próprios empregos.
Logicamente, isso não quer dizer que este blogueiro concorda com a mediocridade instalada por Muricy, Roth & Cia, mas que compreendo que esta pode ser parte da resposta para tamanho equívoco. Um equívoco histórico cujo maior feito foi demolir a velha escola brasileira de futebol e instaurar em seu lugar uma prática retrógrada e desagradável de se jogar futebol.
O que parece não ter ocorrido aos nossos técnicos é algo que para Josep Guardiola (sim, de novo nosso personagem favorito) parece óbvio: É muito mais simples conquistar vitórias se o time jogar bem. E por “jogar bem” entenda-se privilegiar a técnica e o conjunto, deixando em segundo plano o futebol de físico e retrancado que ora nos caracteriza. Enquanto esteve no Santos, Dorival Júnior percebeu isso e, não por acaso, seu time encantou o Brasil com um estilo envolvente e ofensivo. Um time que não era invencível, nem infalível, mas que brilhava, vencia e que ainda serviu de modelo para o que desejávamos ver na Seleção. Um modelo que, lamentavelmente, parece ter se perdido no tempo.
Imagem: IG

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Melhores do mundo?

Caio Júnior é um bom sujeito. Ex-jogador de algum talento e ex-comentarista esportivo acima da média, Caio decidiu ser treinador e, entre altos e baixos, vem construindo uma carreira interessante. No fim de 2011, entre a demissão do Botafogo e a contratação pelo Grêmio, voltou a ser notícia ao visitar o poderoso Barcelona. Rapidamente, tentaram colar em sua testa um rótulo de “novo Guardiola”, alguém que seria capaz de tirar o futebol brasileiro da mesmice.
Em entrevista ao jornalista Marcus Alves, Caio trata de esclarecer que não se trata disso: “Ah, as pessoas estão misturando um pouco pelo fato de eu ter ido lá e querer implementar no Grêmio. Não é bem isso.” Em seguida, o técnico gremista se mostra antenado com o que está acontecendo no mundo: “Não é só o Barcelona. O conceito de tudo que vem acontecendo por aí é o que eu procuro trazer para meu trabalho. A gente tem que estar atualizado. E, então, nesse momento, o Barcelona é a maior referência porque chama muito a atenção. O futebol hoje mudou e tem gente que não consegue enxergar.”
Caio está certo. E apesar do mau início no tricolor gaúcho, é muito bom saber que um treinador brasileiro abriu seus olhos para a evolução do esporte. O problema vem depois, quando o paranaense diz que os técnicos brasileiros são os melhores do mundo porque sabem lidar com jogadores que não estão bem preparados taticamente e por enfrentarem uma pressão maior. De certo modo, uma opinião semelhante àquela manifestada por Muricy Ramalho antes do Mundial Interclubes.
Impossível não observar o equívoco deste pensamento. Saber ou, pelo menos, tentar lidar com adversidades e trabalhar sob pressão de mídia e torcida não fazem de nossos treinadores os melhores do mundo. No máximo, isso atesta boa capacidade de atuar em ambientes que não são ideais e até hostis. Desde Carlos Alberto Parreira, que com apenas 24 anos se aventurou a treinar a seleção de Gana, não faltam exemplos de treinadores brasileiros que desbravaram o mundo sem medo do que encontrariam. No entanto, embora isso seja digno de nota, não transforma a classe em top.
Para serem os melhores, os técnicos brasileiros precisam confrontar e superar os melhores. Hoje, isso só é possível nos maiores campeonatos europeus. Ali, entre feras como José Mourinho, Guardiola e Alex Ferguson, é que alguém realmente se prova. Nos últimos anos, nomes como Parreira, Vanderlei Luxemburgo, Luiz Felipe Scolari e Leonardo tentaram e não foram bem. Em cada caso, faltou alguma coisa para que o êxito fosse alcançado.
Além disso, falta aos nossos profissionais a capacidade de inovar e implantar novas técnicas e conceitos. Até pouco tempo atrás, nossos treinadores ainda se agarravam ao velho 3-5-2 que a Europa – salvo raras exceções – abandonou faz tempo. Sem falar na pouca compactação, nos duelos individuais e dos meios-de-campo conscientemente esvaziados de talento. Por sua entrevista, Caio Júnior percebeu que essas práticas estão em desuso. Embora isso não seja suficiente para colocá-lo entre os melhores do mundo, pelo menos mostra que alguém por aqui já abriu os olhos. Mesmo que parcialmente.
Imagem: Zero Hora

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ecos de Yokohama

Nos últimos dias, li e ouvi muita coisa sobre a final da Copa do Mundo de Clubes da FIFA. A maioria, como era de se esperar, descartável. Entretanto, a derrota imposta ao Santos pelo Barcelona ainda ecoará por um bom tempo. Diante disso, decidi reunir neste post o que julguei ser mais interessante para nosso debate:
A Repercussão – Mal comparando, o massacre sofrido pelo time da Vila teve impacto no Brasil semelhante ao que os ingleses sofreram ao serem goleados em casa pela Hungria por 6x3 em 1953. Obviamente, os contextos são diferentes. Naquela época, os inventores do futebol mal conheciam seu rival, enquanto hoje, os jogos do Barça estão perfeitamente acessíveis.
Além disso, creio que nem o santista mais fanático considerava seu time favorito diante do campeão europeu. A surpresa está na maneira como a final foi disputada. Ou melhor, como não foi disputada. Praticamente não houve jogo. Foi uma aula de futebol, como bem descreveu Neymar. O mínimo que se esperava de uma equipe comandada por Muricy Ramalho era que houvesse um trabalho mais duro de marcação e de ocupação de espaços. Em vez disso, o que se viu foi um time atônito diante de um adversário infinitamente superior. Foi um choque inevitável, até para quem não se ilude com discursos ufanistas.
A Reflexão – O debate sobre a negligenciação da técnica no futebol brasileiro não é novo, mas voltou à tona após a final mundial e foi amplificado pelas palavras do técnico Pep Guardiola declarando que o toque de bola barcelonista é o mesmo que seu pai e seu avô diziam sobre o nosso futebol. Na verdade, o toque de bola do Barça tem raízes muito mais holandesas do que brasileiras, embora este aspecto de nossa escola tenha perdido espaço nos últimos tempos em relação aos trabalhos de força e velocidade. Todavia, é impossível não constatar a falência conceitual sofrida por técnicos como Muricy, Celso Roth e outros. O futebol mais corrido do que pensado, os duelos individuais, o jogo nos erros do adversário e a exploração desmedida da bola aérea sofreu sua derrota mais categórica.
Os Equívocos – Entre as principais bobagens ditas após o fiasco santista, talvez a pior seja de autoria de seu próprio treinador. Após o mundo assistir a mais uma exibição do fantástico tiki-taka blaugrana, Muricy, do auto de sua arrogância, preferiu falar sobre os três zagueiros e o ataque sem um ponto de referência. De quebra, aproveitou para cutucar a imprensa, como se esta tivesse alguma coisa a ver com o vareio que acabara de acontecer.
Outro equívoco recorrente está na abordagem que trata do desenvolvimento técnico dos atletas sem tocar o aspecto coletivo, característica mais marcante do admirado estilo do Barça. Por último, mas não menos importante, está o clichê de que para o Barcelona é vitória não é o mais importante. Claro que é. Não só para o Barça, mas para qualquer time profissional. Acontece que lá se entende que a melhor maneira para chegar à vitória é jogar bem, algo que no Brasil parece ser visto como coisas excludentes.
A Conclusão – Não tenho dúvidas de que os conceitos de futebol no Brasil estão mudando. Antes do Mundial de Clubes, as derrotas na Copa da África e o mau momento da Seleção já tinham acendido o alerta. Nomes como Carlos Alberto Parreira, Mano Menezes e outros já falavam da formação dos nossos jogadores, de imposição de jogo e de como estamos atrasados em termos táticos. O que aconteceu em Yokohama talvez tenha servido como epitáfio de um conceito de futebol ultrapassado. No entanto, desconfio que suas viúvas continuarão vivas por um bom tempo.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O jogo mais esperado do ano.

Nem a final da UEFA Champions League, muito menos a decisão da Copa Libertadores chamaram tanto a atenção. Na última semana, só se falou de Santos e Barcelona. Basicamente, o debate gira em torno das chances do time brasileiro diante da melhor equipe do planeta.
Os santistas pensam no Barça desde o apito final da Libertadores. O Brasileirão para o clube praiano serviu basicamente como laboratório e recuperação de jogadores, sobretudo, de Paulo Henrique Ganso. O técnico Muricy Ramalho respondia a perguntas sobre o então possível adversário, mesmo em momentos em que a situação não tinha nada a ver com o Mundial de Clubes. Enquanto isso, os catalães continuaram sua rotina normal disputando Supercopa, La Liga, Copa del Rey e Champions League. No último sábado, a concentração estava toda voltada para o arquirrival Real Madrid, o que resultou numa vitória categórica no clássico e deixou a equipe em boas condições no campeonato.
Mas isso não significa desinteresse. Aliás, o discurso de Pep Guardiola e dos jogadores é o de valorização do torneio. Não restam dúvidas de que o Santos sonha muito mais com essa conquista, mas é um equívoco dizer que o Barcelona não se importa com ela. Portanto, as tentativas de desvalorização de uma eventual conquista brasileira, não devem passar do velho exercício de “pseudagem” tão comum nos dias de hoje.
E um eventual triunfo do campeão sul-americano passa pela maneira como time será armado e como a bola será trabalhada. Está claro que Muricy nem pensa em tentar tirar a posse do Barcelona. Muito menos, tentará marcar à frente durante muito tempo. Por tudo o que o comandante santista disse nos últimos meses, a estratégia é recuar, fechar os espaços mantendo a equipe o mais agrupada possível e, com a bola, tentar contragolpes rápidos sem tolher a capacidade de Ganso e Neymar. Na teoria, não é complicado. Na prática, como disse o treinador, Xavi e Iniesta podem abrir a defesa com sua irresistível troca de passes.
Muitos se preocuparam com a semifinal santista diante do Kashiwa Reysol, quando os japoneses tiveram mais posse de bola e finalizaram mais vezes. Talvez se esqueçam que diante de Cerro Porteño e Peñarol - rivais na semifinal e na final da Libertadores e que não eram nem sombra do Barcelona - o Santos também ofereceu a bola e tratou de contra-atacar em boa parte dos jogos. Obviamente, mais do que nunca, essa será a estratégia.
Por último, mas não menos importante, há o fator Neymar. Não, você não lerá aqui que o garoto está no nível de Messi ou Cristiano Ronaldo. Tem muito chão a ser percorrido antes disso. No entanto, a jóia da Vila é um fato novo para a defesa barcelonista. Provavelmente, Daniel Alves já marcou o camisa 11 em treinos da Seleção, mas não é a mesma coisa. E se houver o imaginado duelo com Puyol, Neymar pode conseguir superar o zagueiro em determinados lances e criar boas oportunidades. Se a chance do Santos existe, ela passa por seus pés.
E para você, o que Santos precisa fazer para vencer o Barcelona?           
Crédito da montagem: R7

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Taticamente Falando.

Espaço destinado a comentar um assunto que é interessantíssimo para alguns, mas considerado por muitos, aborrecedor ou até mesmo difícil de ser assimilado, mas que sem o mínimo conhecimento desse aspecto o futebol não pode ser compreendido em sua totalidade.
Após três anos de ausência, a análise tática está de volta ao “Além das Quatro Linhas”. Uma pausa motivada muito mais pela inabilidade deste blogueiro para desenhar os sistemas do que por desinteresse pelo assunto. Neste espaço, pretendo abordar o tema sempre buscando explicar os termos mais utilizados no universo da tática contextualizando-os com acontecimentos atuais e históricos. Todavia, diferentemente do que fazem de maneira brilhante os amigos André Rocha, Eduardo Cecconi e os nobres integrantes de “A Prancheta”, aqui a ideia central é tratar das expressões usadas quando se fala em tática e não mostrar como determinadas equipes jogam atualmente.
O falso nove.
A expressão “falso nove” é relativamente nova do dialeto futebolês. Difícil precisar quando surgiu, mas ganhou força após o técnico do Barcelona, Pep Guardiola, deslocar o atacante Lionel Messi da ponta direita para o centro do ataque motivado pelo baixo rendimento do sueco Zlatan Ibrahimovic, centroavante que chegou com pompas, mas que terminou a temporada 2009/10 amargando o banco de reservas.
Nessa função, ainda desempenhada pelo craque argentino, a posição de centroavante (ou nove) é apenas o ponto de partida para os deslocamentos pelos lados do campo e recuo à intermediária para ajudar na armação das jogadas. Com isso, os zagueiros centrais adversários perdem a referência de marcação e enfrentam o dilema de sair da área à caça de Messi e ver Villa e Pedro entrando em diagonal às suas costas ou ficarem plantados esperando o camisa 10 vindo de trás com a bola dominada.

No entanto, antes de Messi, outro genial jogador já colocava o “falso nove” em prática em gramados italianos. Sob o comando do técnico Luciano Spalletti, Francesco Totti era o “falso 9” de uma Roma que se alinhava num 4-2-3-1. Como o jogador mais adiantado dos Giallorossi, Totti tinha total liberdade para se movimentar pelo ataque e voltar para armar. Não é exagero dizer que o ídolo romanista era o dono do time e via seus companheiros jogando em função de seu talento. Porém, em certos momentos, ter uma equipe inteira em órbita de um único atleta era muito mais problema do que solução.

Os dois exemplos acima citados não são protagonizados por dois jogadores muito acima da média por mero acaso. Fazer bem as funções de “arco” e “flecha” é tarefa para poucos. Talvez por isso, o “nove clássico” ainda seja tão popular no mundo da bola.