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sábado, 15 de agosto de 2015

Entendendo a convocação

Entrevistas coletivas com treinadores não costumam ser fáceis de interpretar. Sempre existirá a intenção do profissional de não trazer à tona todos os aspectos que cercam sua equipe e, por parte da mídia, informações que se convertam em manchetes se tornaram mais requisitadas do que as notícias sobre o esporte em si. Trata-se então de outro jogo, este travado fora das quatro linhas, algo que no caso de Dunga se torna mais ainda disputado devido ao histórico de rusgas do técnico com a imprensa esportiva desde os tempos de jogador.
Portanto, entender todas as decisões que culminaram na convocação dos 24 nomes para os amistosos da Seleção Brasileira diante da Costa Rica (5 de Setembro em Boston) e Estados Unidos (8 de setembro em Nova Jersey) não é uma tarefa simples, uma vez que ficou evidente que, ao contrário do que disse Dunga, as decisões não seguiram uma linha exclusivamente técnica. Para facilitar o trabalho, vamos dividir as observações pelas posições da lista divulgada na última quinta-feira:
Goleiros: Alisson (Internacional), Jefferson (Botafogo) e Marcelo Grohe (Grêmio);
Na meta, Jefferson e Marcelo Grohe mantêm a confiança do treinador enquanto Diego Alves se recupera de séria lesão nos ligamentos do joelho direito. Contudo, Dunga revelou a alguns jornalistas após a coletiva que deve conceder a titularidade a Grohe visando testes para as Eliminatórias. Falando no gremista, chamou a atenção o chamado dos goleiros da dupla Gre-Nal, fato inédito em toda história da Seleção. Aos 22 anos e muito seguro, Alisson possivelmente será uma das apostas do técnico para os Jogos Olímpicos de 2016.  
Zagueiros: David Luiz (PSG), Gabriel Paulista (Arsenal), Marquinhos (PSG) e Miranda (Internazionale de Milão);
Os zagueiros são um caso à parte. As convocações anteriores mostraram que David Luiz, Marquinhos e Miranda estão entre os preferidos do treinador, mas a ausência de Thiago Silva diz muito sobre a nova lista. No entanto, ao contrário do que escreve o ex-jogador Juninho Pernambucano em seu perfil no Twitter, acredito que a exclusão está muito mais ligada ao conjunto da obra do que ao pênalti cometido na eliminação para o Paraguai na Copa América. Defensor experiente, Thiago vem demonstrando sistematicamente uma instabilidade emocional, no mínimo, preocupante desde o Mundial. Por enquanto, ao contrário de Maicon, não é possível afirmar que chegou o fim da linha para ele, porém, ficou bastante claro que a confiança foi momentaneamente perdida.
Laterais: Daniel Alves (Barcelona), Danilo (Real Madrid), Douglas Santos (Atlético) e Filipe Luis (Atlético de Madrid);
Assim como ocorre com os centrais, as laterais também abrem um bom espaço para debate. Mesmo com as críticas à capacidade dos treinadores brasileiros, Daniel Alves permaneceu entre os chamados, assim como Filipe Luis, consolidado como titular da lateral esquerda. Recuperado da lesão que o tirou da Copa América, Danilo volta ao grupo. Destaque no Atlético Mineiro e com idade olímpica, Douglas Santos completa o setor. O que chama a atenção, entretanto, são as ausências. Uma eterna incógnita em termos de Seleção, Marcelo, aparentemente, continua fora dos planos. É possível que o estilo mais ousado seja um problema num time que tenta se estabelecer defensivamente, mas a relação do vice-capitão do Real Madrid com os técnicos recentes do Brasil nunca foi das melhores. Outra ausência notável é a de Geferson do Internacional. Convocado para a Copa América, o lateral surpreendeu a todos que esperavam nomes mais consolidados. Sem nenhuma aparição no torneio, também não figura entre os alas chamados na última sexta-feira para a Seleção Sub-23. Realmente, o caso mais estranho neste retorno de Dunga.         
Volantes: Elias (Corinthians), Fernandinho (Manchester City), Luiz Gustavo (Wolfsburg) e Ramires (Chelsea);
Ao que tudo indica, Dunga não viu na Copa América os mesmos problemas constatados por este colunista. Afinal, embora a transição defensiva seja um processo coletivo, os volantes escolhidos deixaram muito a desejar nessa tarefa. Esperava-se agora a opção por centro-campistas capazes de distribuir o jogo com mais fluidez. Todavia, as escolhas recaíram sobre Elias e Ramires que são muito mais condutores/infiltradores do que passadores. Por outro lado, o retorno de Luiz Gustavo deve ser celebrado por sua maior presença física em campo e bom passe. Pelo que depender de Dunga, o volante do Wolfsburg será titular até o Mundial da Rússia.    
Meias: Kaká (Orlando City), Lucas Lima (Santos), Oscar (Chelsea) e Willian (Chelsea);
Dentre os diversos equívocos de Felipão antes e durante a Copa do Mundo estava a ausência de alguém capaz de dividir a responsabilidade com Neymar. Desnecessário explicar por que isso foi um complicador diante da Alemanha. No entanto, chamar o meia do Orlando City, neste momento, é discutível. Está certo que os jovens da Seleção precisam de uma referência, mas se isto estiver custando a vaga de Philippe Coutinho – um dos poucos capazes de suprir Neymar em termos de talento – alguma coisa está errada. Sem falar que a presença de Kaká em amistosos nos EUA num momento em que se contesta a interferência de patrocinadores na Seleção não pega nada bem. De positivo, o retorno de Oscar e o primeiro teste de Lucas Lima, um dos melhores meias do futebol brasileiro na atualidade.   
Atacantes: Douglas Costa (Bayern de Munique), Hulk (Zenit), Lucas (PSG), Neymar (Barcelona) e Roberto Firmino (Liverpool).
Não ocorreu desta vez a volta de Alexandre Pato à Seleção. Mesmo com as exclusões de atletas que militam na China e no Oriente Médio, Dunga preferiu incluir Hulk e Lucas Moura e a manutenção de Roberto Firmino e Douglas Costa, este em ótima fase no Bayern de Munique. Inclusive, assim como houve na Copa América, não há nenhum centroavante típico entre os convocados. Recuperando-se de caxumba e suspenso nas duas primeiras partidas das Eliminatórias, Neymar é o 24º jogador da lista e, assim como Kaká, uma presença que levanta dúvidas sobre ingerências na convocação. Não que este colunista duvide da honestidade de Dunga, mas técnico de Seleção é como mulher de César: Não basta ser honesto é preciso parecer honesto.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Getty

sábado, 27 de junho de 2015

A cultura do sofrimento

Como velha raposa do futebol que é, Ramón Díaz sabia o que fazer para anular a Seleção Brasileira. Observou o que o compatriota José Pékerman havia feito com a Colômbia e adiantou sua marcação para explorar o crônico problema brasileiro na transição entre defesa e meio-campo. Como ocorria com Luiz Felipe Scolari, a equipe de Dunga sofre tanto para sair jogando quanto para manter a bola em seus pés. Sem conseguir usufruir da posse, restava apenas a tentativa dos contragolpes que se tornaram a única alternativa após o gol nascido na primeira boa escapada.
Numa de suas entrevistas coletivas, Dunga declarou que o sofrimento daria a tônica do percurso de seu selecionado na Copa América. E assim foi. Sofreu diante de Peru, Colômbia, Venezuela a na eliminação diante do Paraguai. Desses quatro, apenas os colombianos eram rivais de destaque no atual cenário mundial. Nos outros casos o Brasil penou justamente por não conseguir transformar sua superioridade técnica em domínio e, sobretudo, em gols que dariam a tranquilidade necessária. Um episódio emblemático ocorreu diante da Venezuela, quando Dunga optou pela entrada de mais dois zagueiros e viu um adversário que estava praticamente batido ressuscitar e quase empatar.  
Sofrimento normalmente gera pressão. E pressão pode provocar nervosismo. E isso provavelmente explica o pênalti absolutamente desnecessário cometido por Thiago Silva e que acabou resultando no gol paraguaio. Uma instabilidade preocupante ainda mais por se tratar de um zagueiro experiente e que figura entre os mais valiosos do planeta. Não é absurdo dizer que o Paraguai não levava perigo suficiente para chegar ao empate sem uma mãozinha do defensor. E não há dúvida de que daqui em diante seu nome sempre será questionado por imprensa e torcida.
Quem também sofre é o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Acuado pelas investigações do FBI e da Polícia Federal, o dirigente pode tentar desviar o foco de si para a escolha de um novo treinador para substituir Dunga. Muitos dirão que não faltam motivos para a troca, o que até pode ser verdade. No entanto, em nome da continuidade do trabalho, recomenda-se que o técnico permaneça. Independente do nome escolhido para a sequência, os problemas indicam que o sofrimento deve dar a tônica até a Copa do Mundo de 2018. Talvez Dunga não esteja tão errado assim.    
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Reuters

domingo, 21 de junho de 2015

Sobrou vontade. Faltou futebol

Horas antes da partida em que a Seleção Brasileira bateu a Venezuela por 2 a 1, Lédio Carmona, comentarista do canal SporTV, falou sobre a obrigação de vitória diante do selecionado viñotinto como uma demonstração de respeito à camisa “tão pisada nos últimos meses”. Naquele momento, de certo modo, o jornalista estava condicionando o triunfo à vontade dos jogadores brasileiros. Respeitosamente discordo dessa visão. O futebol já provou sobejamente que vontade é um componente importante, mas está longe de ser o aspecto mais relevante do jogo.
Como se trata de um esporte coletivo, arrisco dizer que o aspecto mais importante é a organização. Para ser considerada eficiente, uma equipe precisa se defender bem, armar suas jogadas com inteligência e ser contundente no ataque. Por consequência, intensidade e compactação se tornaram palavras de ordem quando se pensa em modernidade no futebol. E, embora a Seleção de Dunga seja compacta e intensa sem a bola, com ela nos pés a história é outra. Obviamente, a melhoria na fase ofensiva depende do entrosamento do novo time. Todavia, também cabe discutir as escolhas do treinador.
Desde os tempos de Felipão, a transição defesa/meio-campo tem sido um tormento para a Seleção. A bola circula de uma lateral a outra sem que os volantes assumam sua função de armar as jogadas. Por diversas vezes, o meia Willian precisou recuar para receber dos pés dos zagueiros que iniciar as manobras de armação enquanto Fernandinho permanecia preso à frente dos defensores e Elias se entregava à marcação. Do banco, Casemiro, um dos melhores passadores do grupo convocado para a Copa América, assistia a tudo sem receber uma oportunidade do técnico.
O grande ponto de inflexão da partida se deu após o gol de Roberto Firmino. O confortável placar de 2 a 0 propiciou a Dunga a possibilidade de colocar em campo o volante recém-incorporado ao Real Madrid e tentar ficar mais com a bola. Porém, o caminho escolhido foi colocar David Luiz no meio-campo pensando em vencer mais duelos aéreos e, quem sabe, especular lançamentos. Instantes depois, a entrada de Marquinhos no lugar de Robinho deu a certeza de que o treinador estava muito mais preocupado em defender o placar do que construir uma vitória mais contundente. Não por acaso, a Venezuela descontou após o rebote de uma cobrança de falta cometida pelo mesmo Marquinhos e o Brasil tomou um esperado sufoco nos minutos finais.
E assim, o torcedor brasileiro experimentou a sensação de ver sua seleção escalando quatro zagueiros para se defender da Venezuela. Mesmo que Marquinhos tenha ido para a lateral-direita e David Luiz para o meio, as alterações simbolizaram a maneira como Dunga enxerga o futebol. Embora o técnico tenha dito que acompanhou de perto a Copa do Mundo, restou a dúvida se observou a campeã Alemanha e seus volantes construtores. Neste ponto, e apenas neste, poderíamos seguir a linha de Lédio Carmona e dizer que se sobrou vontade durante os 90 minutos, faltou outro elemento abstrato tão importante quanto: Coragem.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

domingo, 24 de julho de 2011

Não foi apenas a raça.

Equivocam-se aqueles que pensam que o título da Copa América conquistado pelo Uruguai é fruto apenas da raça e do patriotismo dos jogadores. Esses elementos quase sempre estiveram presentes nas campanhas da Celeste Olímpica e nunca foram garantia de sucesso. Aliás, em várias ocasiões essa valentia se confundiu com violência e acabou prejudicando o próprio selecionado.
O triunfo uruguaio tem como marca maior a continuidade e a qualidade do trabalho de Óscar Tabárez, técnico que soube conduzir de maneira brilhante a geração mais talentosa dos últimos anos e que mostrou ao mundo que a quarta colocação no Mundial da África do Sul não foi obra do acaso e de uma tabela favorável.
Olhando para os nossos umbigos, se existe algo que os brasileiros deveriam copiar da seleção uruguaia não é a raça ou amor à camisa. Não creio que isso tenha faltado em gramados argentinos. Inclusive, a seleção de Dunga tinha essas características de sobra e não foi suficiente para garantir o hexa.
O que falta ao Brasil é continuidade. Parar de jogar tudo no lixo a cada resultado abaixo das expectativas. É perceber que é muito mais difícil recomeçar tudo do zero do que promover uma transição de gerações de forma menos traumática. Esta sim é a verdadeira lição deixada por esta Copa América.     
Imagem: Reuters

domingo, 17 de julho de 2011

Não é hora de jogar tudo para o alto.

Ao contrário do que muitos acreditam, um ano de trabalho para um treinador de seleção é pouco. O empate diante do Paraguai – que custou a eliminação brasileira da Copa América nos pênaltis – foi apenas a quarta partida oficial do Brasil de Mano Menezes e a décima segunda no geral. Para um trabalho que começou quase do zero, já houve evolução, mesmo que lenta.   
Este período em território argentino serviu para observar pontos fundamentais na construção de uma nova seleção. Serviu para entrosar o time base, passar aos jogadores o que pensa o treinador e batizar os mais jovens com a camisa amarela. Também serviu para constatarmos o quanto se precipitaram aqueles que viam em Paulo Henrique Ganso e Neymar craques prontos e acabados. No entanto, crucificá-los agora seria uma atitude covarde e estúpida. Não falta talento a dupla santista. Falta rodagem, algo que só virá com o tempo.
O importante agora é que não se coloque tudo a perder. Demitir Mano agora significa dar dez passos atrás na preparação para a Copa do Mundo, o real objetivo. O momento é para se pesar os erros e os acertos e usá-los como lições para o futuro. Serão longos três anos até o Mundial.      
Imagem: Reuters

terça-feira, 12 de julho de 2011

Enfim, Messi.

Até a vitória da Argentina por 3 a 0 sobre a Costa Rica na última rodada da fase de grupos da Copa América, um dilema atormentava a seleção comandada por Sergio Batista: Por que Lionel Messi não joga bem na Argentina?
Em busca de uma resposta, inúmeras hipóteses foram ventiladas. Desde uma improvável falta de patriotismo (manifestada no hino não entoado), passando pela falta de entrosamento, até a qualidade inferior de seus compatriotas quando comparados com os companheiros de Barcelona. Difícil afirmar qual é a razão, no entanto, era evidente que essa situação estava incomodando o jogador e que a atuação de ontem pelo menos diminui a pressão sobre seus ombros.
Que Messi é um craque não se discute. Sua agilidade, capacidade de descortinar jogadas com dribles e fintas e seu poder de finalização o colocam entre os melhores jogadores de todos os tempos. Porém, atuar bem pela seleção também é importante. Faz parte da construção de sua lenda pessoal. Ser campeão ou não depende da ajuda de seus companheiros, mas suas apresentações individuais são de sua responsabilidade quase exclusiva.
Não estou entre aqueles que defendem que a Argentina copie a maneira de atuar do Barcelona para simular o ambiente perfeito para Messi. A escola de futebol é outra, o tempo de treinamento é muito menor e as características dos atletas são distintas. Antes de tudo, o técnico Batista deve buscar a formação de um time, explorando as peças que tem à disposição. E, dentro desse time, dar ao seu camisa 10 toda liberdade que ele precisa para brilhar. Depois é com ele.
Imagem: Fernando Vergara, AP.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Afinal, o que queremos?

Historicamente, a palavra “planejamento” nunca fez parte do dicionário dos dirigentes brasileiros. Sempre seguindo a cartilha do amadorismo, os responsáveis pelos rumos de nossa seleção e de nossos clubes são capazes de reduzir a pó qualquer estrutura que vise médio e longo prazo.
No entanto, num breve ato de reflexão é possível perceber que a maneira como os cartolas enxergam o futebol é muito parecida com o que pensam – em sua maioria – torcedores e jornalistas esportivos. A cobrança de resultados imediatos e o desprezo à continuidade é uma marca nacional. Não tenho conta de quantas vezes vi dirigentes jogando trabalhos pelo ralo, jornalistas fazendo uso das mais possantes cornetas e torcedores pedindo a cabeça do técnico a cada derrota. Trata-se de uma característica atávica dos brasileiros.
O melhor reflexo dessa mentalidade pode ser observado na Seleção Brasileira. Excetuando as peculiaridades regionais, a visão e a cobrança costumam ser as mesmas. Qualquer resultado ruim é capaz de levar o torcedor da confiança extrema à depressão. Carlos Alberto Parreira e Dunga sentiram isso na pele. Ambos chegaram à Copa do Mundo com o time pronto e com boa aprovação pública, mas viram tudo se transformar em pó depois da eliminação. 
Antes da Copa de 2006, Parreira se proclamava um “gestor de talentos” tantas eram as opções daquele momento. O experiente treinador conduziu todo o processo após o pentacampeonato de 2002 com tranquilidade. Promoveu as saídas de veteranos como Rivaldo e as entradas de jovens jogadores como Kaká e Robinho no momento certo, venceu a Copa América de 2004 com um time praticamente reserva, faturou a Copa das Confederações no ano seguinte e, de quebra, classificou a Seleção em primeiro lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas. Tudo como manda o figurino, até chegar à preparação em Weggis, Suíça. Ali, Parreira percebeu que parte de sua constelação estava dizimada por uma temporada desgastante, enquanto outra se apresentou absolutamente fora de forma. E quando isso se somou a uma preparação quase circense estava claro que não poderia dar certo.
Em seguida, Dunga chegou para colocar ordem na casa. Na visão da CBF nada melhor do que um ex-capitão durão para colocar os craques folgados nos eixos e resgatar o “amor à camisa”. Ricardo Teixeira chegou a dizer que seria a Seleção mais fechada de todos os tempos. Todavia, como a velha piada do gênio da lâmpada que não fazia nada certo, os desejos de torcida e imprensa foram atendidos por vias tortas. O time se tornou uma espécie de exército, trancafiado, longe de tudo e com o seu comandante em guerra com a imprensa. Devoção a causa não faltava, porém, o talento ficou em segundo plano. Novamente, não deu certo.  
Não me surpreendi quando Teixeira apareceu no programa “Bem Amigos” do Sportv logo após a derrota brasileira para a Holanda se eximindo de qualquer responsabilidade e jogando o então ex-treinador Dunga aos leões. O dirigente disse que o Brasil seguiria um novo rumo e que a renovação era o caminho, mesmo que isso implicasse em derrotas no percurso.
Entretanto, a primeira iniciativa da nova “filosofia teixeiriana” não poderia soar mais incoerente. Se as pessoas pediam um time mais solto e suplicavam pelo renascimento da escola brasileira, nada mais ilógico do que oferecer o comando desse novo projeto a Muricy Ramalho que, embora tenha inegável capacidade para montar times competitivos, não é muito mais do que um Dunga com currículo. Felizmente, o então técnico do Fluminense recusou o chamado. 
Então, por linhas tortas, a CBF chegou a Mano Menezes. Inteligente, o técnico gaúcho conseguiu combinar o desejo dos fãs com seu entendimento do futebol atual e construiu uma filosofia baseada no protagonismo e na iniciativa de jogo. Para tal missão, Mano conta com uma boa e jovem geração com características compatíveis com a proposta de jogo. Todavia, não será de uma hora para a outra que esses jovens formarão um time na acepção da palavra. Isso vai demandar tempo e treinamento. Maus resultados no início não deveriam colocar em xeque tudo o que se planeja para esta Seleção. Caso contrário, estaremos provando mais uma vez que para o futebol brasileiro a única filosofia que se enxerga é a da vitória.    
Créditos das imagens: AFP (Parreira), Reuters (Dunga), Agência Estado (Mano Menezes).

domingo, 3 de julho de 2011

Sinal amarelo.

Há alguns anos, uma crítica do comentarista Walter Casagrande me causou algum espanto: “O Parreira é muito pragmático. Ele treina até as substituições!” Na ocasião, assim como hoje, dei razão ao ex-treinador. Afinal, nada melhor do que treinar para as situações adversas que o seu time pode encontrar.
Vendo as intervenções do técnico Mano Menezes durante o modorrento empate por 0 a 0 diante da Venezuela, me lembrei daquela passagem. Segundo o jornalista Paulo Vinícius Coelho, Mano não realizou nenhuma alteração durante os treinos da Seleção em Los Cardales. Não por acaso, as entradas de Fred no lugar de Robinho e Lucas Moura na vaga de Pato (talvez o melhor em campo) não fizeram sentido.
Obviamente, a falta de variações não foi a única razão para o futebol praticado. Jogadores importantes como Ganso e Neymar ficaram abaixo do que se esperava e faltou movimentação. Robinho, sumido em campo, é quem deveria ter saído para a entrada do incisivo Lucas.
Agora, a Seleção terá cinco dias para se preparar para o duelo diante do Paraguai. Passado o nervosismo da estreia, é hora desses jovens começarem a mostrar do que são capazes. Talento não falta. Atitude, talvez.     
Crédito da Imagem: AFP

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Rei? Ainda não.

Ser titular e principal jogador de uma seleção pentacampeã mundial aos 19 anos não é para qualquer um. Também não é fácil ser o maior destaque de uma Copa Libertadores com essa idade. Pois Neymar conseguiu isso e pode alcançar muito mais.
E “pode” é a palavra-chave. Neymar tem toda condição técnica para se tornar um dos melhores do mundo, mas isso ainda não aconteceu. Para tanto, falta a inevitável transferência para o futebol europeu, a afirmação numa grande liga europeia e disputar pelo menos uma competição oficial com a Seleção principal.
Exatamente por isso, me causam espanto as inúmeras matérias elevando a jóia santista ao status de craque consagrado. Isso sem falar nas comparações com Messi, ora ampliadas pela disputa da Copa América. Como comparar um verdadeiro gênio eleito o melhor do mundo duas vezes – e que provavelmente será eleito pela terceira vez – com um jogador cinco anos mais novo e com um currículo bem mais modesto? Difícil.
Mas que fique claro. Este texto não tenta, de forma alguma, diminuir Neymar. Até acho que o brasileiro é melhor hoje do que Messi era com a mesma idade. Em 2006, o argentino ainda disputava a ponta direita do Barcelona com o apenas esforçado Giuly, muitas vezes era visto como uma espécie de fiel escudeiro de Ronaldinho Gaúcho e no Mundial da Alemanha, só foi titular em uma oportunidade. O intuito aqui é apenas dimensionar diferentes estágios nas carreiras de dois atletas acima da média. Neymar pode até superar Messi um dia. Porém, ainda existe um longo caminho a ser percorrido.

domingo, 26 de junho de 2011

Enquete.

Como destaquei no post abaixo, considero a Argentina a maior favorita ao título da Copa América por jogar em casa e contar com grandes valores individuais. Porém, sempre é perigoso descartar seleções como Brasil e Uruguai.
Uma vez que o México não utilizará sua seleção principal na competição, El Tri foi classificado na opção “outro”, assim como Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Peru e Venezuela, com destaque maior para os cinco sul-americanos que disputaram a última Copa do Mundo.   
Deste modo, o “Além das Quatro Linhas” quer saber: Quem vencerá a Copa América 2011?
Para tentar responder a essa pergunta, peço aos amigos que utilizem a enquete ao lado, mas, claro, sem deixar de fazer os comentários de sempre neste post.

sábado, 25 de junho de 2011

Contagem Regressiva: Junho de 2011

Para um fanático por futebol, Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. É um período para se tirar férias do trabalho e só sair de casa para tratar de assuntos estritamente necessários. São semanas mágicas, onde um jogador consegue deixar o mundo mortal para fazer parte do panteão dos Deuses da Bola e, de quebra, transformar um país inteiro numa grande festa. É uma época para se rir, chorar, se emocionar. Enfim, é um momento que será guardado para sempre em nossos corações...
O primeiro desafio.
Dizem que Copa América não vale nada e que o importante é a Copa do Mundo. No entanto, basta uma eliminação para que o mundo desabe sobre as cabeças do técnico e dos jogadores. Sabendo disso, o técnico Mano Menezes levará força máxima à Argentina, com exceção dos jogadores citados aqui.
Campeões da Copa Libertadores, Paulo Henrique Ganso e Neymar chegam com status de titulares e craques do time. O que não deixa de ser curioso, quando se pensa que há um ano os dois foram preteridos por Dunga na convocação para o Mundial da África do Sul. Mais do que a intransigência do ex-treinador, a importância atual dos santistas mostra como o futebol é dinâmico. Outro que tem tudo para se firmar no onze inicial num futuro próximo é Lucas, meia-atacante do São Paulo.
Tratando especificamente de Neymar, impressiona como sua fase vem mobilizando noticiários no Brasil e no mundo. Nesta semana, quase toda a home do site do jornal Marca foi ocupada pela jóia da Vila. Neymar seria a resposta do Real Madrid a Messi, dizem os mais entusiasmados. O sérvio Petkovic, de curta passagem pelo clube merengue, disse que o jovem é “bem melhor do que Cristiano Ronaldo”.   
Sinceramente, tal badalação me incomoda. Concordo que Neymar é a maior promessa do futebol brasileiro nos últimos anos e que caminha a passos largos para se tornar um jogador de classe mundial. Porém, ele ainda precisa evoluir em alguns aspectos antes de receber esse “selo de qualidade”. Além da vaidade exacerbada (pode chamar de “máscara”, se quiser) que pode desviá-lo do melhor caminho, Neymar ainda possui o terrível defeito de se jogar em determinados lances na tentativa de cavar faltas. Um expediente útil no futebol brasileiro, mas que não será aceito pela arbitragem internacional e que também pode fazer com que as torcidas rivais se voltem contra ele.     
Confira a seguir, os 23 jogadores que participarão da Copa América que terá início no dia 1º de julho em solo argentino:  
Goleiros: Jefferson (Botafogo) Júlio César (Internazionale) e Victor (Grêmio);
Zagueiros: David Luiz (Chelsea), Lúcio (Internazionale), Luisão (Benfica) e Thiago Silva (Milan);
Laterais: Adriano (Barcelona), André Santos (Fenerbahçe), Daniel Alves (Barcelona) e Maicon (Internazionale);
Volantes: Elias (Atlético de Madrid), Lucas Leiva (Liverpool), Ramires (Chelsea), Sandro (Tottenham); 
Meias: Elano (Santos), Jadson (Shakhtar Donetsk) Lucas (São Paulo) e Paulo Henrique Ganso (Santos);
Atacantes: Alexandre Pato (Milan), Fred (Fluminense), Neymar (Santos) e Robinho (Milan).
Mundial Sub-20
No último dia 16, o técnico Ney Franco convocou os 26 atletas que compõem a pré-lista para o Mundial Sub-20 que será disputado entre 29 de julho e 20 de agosto na Colômbia.
Além da presença de jogadores que estão fazendo sucesso no futebol brasileiro como o volante Casemiro, o meia Oscar e o atacante Diego Maurício, a convocação também marca o retorno do meia Philippe Coutinho da Internazionale e do atacante Roberto Firmino, ex-Figueirense e hoje no Hoffenheim.     
Ausentes devido aos seus compromissos com a seleção principal, Lucas e Neymar devem fazer falta. Quem acompanhou o Sul-Americano sub-20 provavelmente se recorda de que muito do mérito da conquista do torneio se deve ao desempenho da dupla. Como montar um time competitivo sem os astros será a primeira tarefa de Ney Franco.  
Confira a seguir a lista de convocados que ainda sofrerá o corte de cinco nomes, uma vez que apenas 21 podem ser inscritos na competição:  
Goleiros: Aleksander (Avaí), Cesar (Flamengo) e Gabriel (Cruzeiro);
Zagueiros: Bruno Uvini (São Paulo), Frauches (Flamengo), Juan (Internacional) e Romário (Internacional);
Laterais: Alex Sandro (Santos), Danilo (Santos), Gabriel Silva (Palmeiras) e Rafael Galhardo (Flamengo);
Volantes e meias: Allan (Vasco), Alan Patrick (Santos), Casemiro (São Paulo), Dudu (Cruzeiro), Felipe Anderson (Santos), Fernando (Grêmio), Oscar (Internacional),
Philippe Coutinho (Inter de Milão) e Roni (Criciúma);
Atacantes: Diego Maurício (Flamengo), Henrique (São Paulo), Negueba (Flamengo),
Roberto Firmino (Hoffenheim), Sebá (Cruzeiro e Willian José (São Paulo).
Os rivais.  
Se existe um favorito nesta Copa América, este é a anfitriã Argentina. Sem conquistar um título desde 1993, quando ergueu a própria Copa América, nossos hermanos contam com a vantagem de atuar em seus domínios, além, é claro, a presença de Messi. Todavia, sempre é bom ficar de olho no Uruguai. Quarta lugar no último Mundial, a Celeste Olímpica entrará em campo para mostrar que a melhor colocação de um sul-americano na Copa não aconteceu por mero acaso.   
De olho na Copa.  
Assunto do mês, a Medida Provisória 527/2011 que institui o Regime Diferenciado de Contratações (RDC) ainda divide opiniões. Se para alguns a medida significa a abertura de portas para a roubalheira, uma vez que o orçamento público será sigiloso, para outros, a medida visa exatamente combater a corrupção na forma dos cartéis formados por empreiteiras.  
Na teoria, a nova lei quer resguardar os valores do orçamento governamental para que as grandes construtoras não possam se pautar pelo valor máximo disponível antes de participarem das licitações para as obras do Mundial de 2014. Na prática, a ausência de limites para os gastos públicos e a falta de transparência proposta pela MP são motivos de preocupação para quem vem acompanhando o desenrolar desse processo.     
Em linhas gerais, podemos classificar o andamento das obras nas sedes da seguinte forma:
Dentro do previsto: Belo Horizonte, Brasília;
Apresentando atrasos: Cuiabá, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e Salvador;
Situação preocupante: Curitiba, Manaus, Natal e São Paulo.    
Crédito da Imagem: Mowa Press