sábado, 27 de junho de 2015

A cultura do sofrimento

Como velha raposa do futebol que é, Ramón Díaz sabia o que fazer para anular a Seleção Brasileira. Observou o que o compatriota José Pékerman havia feito com a Colômbia e adiantou sua marcação para explorar o crônico problema brasileiro na transição entre defesa e meio-campo. Como ocorria com Luiz Felipe Scolari, a equipe de Dunga sofre tanto para sair jogando quanto para manter a bola em seus pés. Sem conseguir usufruir da posse, restava apenas a tentativa dos contragolpes que se tornaram a única alternativa após o gol nascido na primeira boa escapada.
Numa de suas entrevistas coletivas, Dunga declarou que o sofrimento daria a tônica do percurso de seu selecionado na Copa América. E assim foi. Sofreu diante de Peru, Colômbia, Venezuela a na eliminação diante do Paraguai. Desses quatro, apenas os colombianos eram rivais de destaque no atual cenário mundial. Nos outros casos o Brasil penou justamente por não conseguir transformar sua superioridade técnica em domínio e, sobretudo, em gols que dariam a tranquilidade necessária. Um episódio emblemático ocorreu diante da Venezuela, quando Dunga optou pela entrada de mais dois zagueiros e viu um adversário que estava praticamente batido ressuscitar e quase empatar.  
Sofrimento normalmente gera pressão. E pressão pode provocar nervosismo. E isso provavelmente explica o pênalti absolutamente desnecessário cometido por Thiago Silva e que acabou resultando no gol paraguaio. Uma instabilidade preocupante ainda mais por se tratar de um zagueiro experiente e que figura entre os mais valiosos do planeta. Não é absurdo dizer que o Paraguai não levava perigo suficiente para chegar ao empate sem uma mãozinha do defensor. E não há dúvida de que daqui em diante seu nome sempre será questionado por imprensa e torcida.
Quem também sofre é o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Acuado pelas investigações do FBI e da Polícia Federal, o dirigente pode tentar desviar o foco de si para a escolha de um novo treinador para substituir Dunga. Muitos dirão que não faltam motivos para a troca, o que até pode ser verdade. No entanto, em nome da continuidade do trabalho, recomenda-se que o técnico permaneça. Independente do nome escolhido para a sequência, os problemas indicam que o sofrimento deve dar a tônica até a Copa do Mundo de 2018. Talvez Dunga não esteja tão errado assim.    
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Crédito da imagem: Reuters

domingo, 21 de junho de 2015

Sobrou vontade. Faltou futebol

Horas antes da partida em que a Seleção Brasileira bateu a Venezuela por 2 a 1, Lédio Carmona, comentarista do canal SporTV, falou sobre a obrigação de vitória diante do selecionado viñotinto como uma demonstração de respeito à camisa “tão pisada nos últimos meses”. Naquele momento, de certo modo, o jornalista estava condicionando o triunfo à vontade dos jogadores brasileiros. Respeitosamente discordo dessa visão. O futebol já provou sobejamente que vontade é um componente importante, mas está longe de ser o aspecto mais relevante do jogo.
Como se trata de um esporte coletivo, arrisco dizer que o aspecto mais importante é a organização. Para ser considerada eficiente, uma equipe precisa se defender bem, armar suas jogadas com inteligência e ser contundente no ataque. Por consequência, intensidade e compactação se tornaram palavras de ordem quando se pensa em modernidade no futebol. E, embora a Seleção de Dunga seja compacta e intensa sem a bola, com ela nos pés a história é outra. Obviamente, a melhoria na fase ofensiva depende do entrosamento do novo time. Todavia, também cabe discutir as escolhas do treinador.
Desde os tempos de Felipão, a transição defesa/meio-campo tem sido um tormento para a Seleção. A bola circula de uma lateral a outra sem que os volantes assumam sua função de armar as jogadas. Por diversas vezes, o meia Willian precisou recuar para receber dos pés dos zagueiros que iniciar as manobras de armação enquanto Fernandinho permanecia preso à frente dos defensores e Elias se entregava à marcação. Do banco, Casemiro, um dos melhores passadores do grupo convocado para a Copa América, assistia a tudo sem receber uma oportunidade do técnico.
O grande ponto de inflexão da partida se deu após o gol de Roberto Firmino. O confortável placar de 2 a 0 propiciou a Dunga a possibilidade de colocar em campo o volante recém-incorporado ao Real Madrid e tentar ficar mais com a bola. Porém, o caminho escolhido foi colocar David Luiz no meio-campo pensando em vencer mais duelos aéreos e, quem sabe, especular lançamentos. Instantes depois, a entrada de Marquinhos no lugar de Robinho deu a certeza de que o treinador estava muito mais preocupado em defender o placar do que construir uma vitória mais contundente. Não por acaso, a Venezuela descontou após o rebote de uma cobrança de falta cometida pelo mesmo Marquinhos e o Brasil tomou um esperado sufoco nos minutos finais.
E assim, o torcedor brasileiro experimentou a sensação de ver sua seleção escalando quatro zagueiros para se defender da Venezuela. Mesmo que Marquinhos tenha ido para a lateral-direita e David Luiz para o meio, as alterações simbolizaram a maneira como Dunga enxerga o futebol. Embora o técnico tenha dito que acompanhou de perto a Copa do Mundo, restou a dúvida se observou a campeã Alemanha e seus volantes construtores. Neste ponto, e apenas neste, poderíamos seguir a linha de Lédio Carmona e dizer que se sobrou vontade durante os 90 minutos, faltou outro elemento abstrato tão importante quanto: Coragem.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O saudosismo e outras drogas

A derrota da Seleção Brasileira para a Colômbia na última quarta-feira despertou na imprensa e na torcida uma fúria e um fatalismo que andavam parcialmente adormecidos desde o final da Copa do Mundo de 2014. Obviamente, o descontentamento foi potencializado pela maneira como os comandados de Dunga foram subjugados durante quase toda a partida que decretou o fim da sequência de onze vitórias desde que o capitão do Tetra reassumiu o posto, porém, o exagero nas reações e nas “avaliações” fez lembrar por que o jornalista inglês Tim Vickery nos define como maníaco-depressivos.
Naturalmente, existem pontos em que pouco há o que se discutir. O primeiro deles é que o futebol brasileiro precisa rever determinados conceitos como, por exemplo, a função exercida pelos meio-campistas. Atualmente, com a compactação dos setores, não cabe mais a divisão entre os volantes que apenas marcam e os meias que só atacam. Portanto, os jogadores que atuam na faixa central de nosso 4-4-2 (4-4-1-1) devem participar da saída de bola, da criação da jogada e do avanço até a intermediária ofensiva. Esse possivelmente foi o maior pecado da Seleção em sua derrota. Com a marcação alta da Colômbia bloqueando as laterais, Elias e Fernandinho não conseguiam executar a transição de forma adequada e a bola voltava aos pés adversários em forma de perigosos contragolpes. Uma pressão que acabou resultando no único gol do cotejo.
O segundo ponto (quase) pacífico é que não possuímos uma grande geração neste momento. Excetuando Neymar, os outros convocados possuem bom nível, mas poucos são realmente capazes de dividir o protagonismo com o craque do Barcelona. Quando o atacante não consegue atuar em seu mais alto nível, ninguém se mostra capaz de compensar tecnicamente, assim como não há um jogo coletivo que possa sustentar a performance da equipe em momentos de pouco brilho do ídolo. Construir uma Seleção capaz de se impor mesmo sem seu maior astro – ora suspenso pela Conmebol por quatro partidas – talvez seja a grande missão de Dunga em sua segunda passagem.
No entanto, agir como se este fosse o pior período de nossa história futebolística colocando-o abaixo de entressafras similares ou fazendo recortes de períodos específicos não parece a avaliação mais justa. Nem sempre tivemos Romário e Ronaldo em nosso ataque. Inclusive, a rigor, só reunimos dupla Ro-Ro em 1997. E o próprio Rivaldo, coadjuvante de luxo à época ainda não havia se firmado com a camisa amarela. Isso faz lembrar o período que se seguiu ao fim da geração de Zico, Falcão & Cia quando as pessoas viam um jovem Bebeto como prova definitiva da decadência do futebol brasileiro.
Constatar as questões acima de modo algum quer dizer que o futebol brasileiro vive um mar de rosas ou que os profissionais da área não precisam se mexer. Temos muito que repensar em diversas áreas e o massacre no Mundial deveria ser um marco dessa conclusão. Contudo, discursos preguiçosos ou apocalípticos contribuem pouco para esse debate. Ou quem sabe, apenas façam parte do que deveríamos ter sepultado em 8 de julho de 2014.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol
Imagem: Agência Getty

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os primeiros três pontos

Após dez vitórias seguidas em amistosos, a Seleção Brasileira entrou em campo na noite deste domingo para a primeira partida oficial após a Copa do Mundo. Como não poderia deixar de ser, tratava-se de um jogo cercado de expectativa, uma vez que uma sombra da desconfiança pairava – e ainda paira – sobre a equipe do técnico Dunga. Não havia dúvida que recolher os cacos do maior fracasso da história do futebol nacional e recomeçar não seria uma tarefa fácil. E isso ficou bastante evidente na estreia na Copa América diante do Peru.
Nesse cenário, sofrer um gol pouco depois do pontapé inicial em seguidas falhas da defesa está longe de ser o melhor dos mundos. Apesar da resposta de Neymar ter ocorrido rapidamente, ficou claro ali que o nervosismo deu a tônica da Seleção daquele momento em diante. A compactação e o sentido mais coletivo que marcaram as partidas anteriores não foram os mesmos e o time buscou a vitória pelo caminho mais complicado, ou seja, aos trancos e barrancos.
Com David Luiz repetindo os abandonos de sua linha para disputar bolas altas no meio e jogadores dando botes precipitados que basicamente serviam para abrir clareiras na defesa, a Seleção lembrou o amontoado de Felipão de tão dolorosa memória. Sem uma geração brilhante, Dunga precisa mais do que nunca transformar seu elenco em um time capaz de ser competitivo e taticamente equilibrado, feito que alcançou no Mundial da África do Sul, embora tenha se perdido em sua gratidão a alguns nomes úteis na conquista da Copa América de 2007, mas que não tinham mais como contribuir três anos depois.
Desta vez, sem Oscar desde a convocação e sem Philippe Coutinho para o cotejo de estreia a criatividade do meio de campo verde-amarelo ficou quase toda a cargo de Willian. Percorrendo todos os lados do campo, o atleta do Chelsea tentou acionar Neymar por diversas vezes e foi uma das poucas peças lúcidas no gramado. Só não foi o melhor do Brasil porque havia Neymar, aquele que continua sendo o fator de desequilíbrio do time. Neymardependência? Melhor depender dele do que não ter ninguém a quem recorrer. Todavia, para as ambições brasileiras, isso talvez não seja o suficiente.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty

terça-feira, 5 de maio de 2015

Uma chance para Coutinho

As surpresas relativas à convocação da Seleção Brasileira para a disputa da Copa América começaram com o anúncio de João Doria Júnior como chefe da delegação brasileira no Chile. Figura conhecida muito mais por sua faceta de apresentador de TV e pelo posicionamento político do que pela afinidade com o futebol, o empresário surge como um recado da cúpula da CBF dizendo ao esporte nacional de que lado a entidade está. Felizmente para a Seleção, o posto de chefe de delegação não guarda a mesma importância dos tempos de Paulo Machado de Carvalho, nome de indiscutível relevância organizacional e logística nas campanhas vitoriosas de 1958 e 1962.
Outra surpresa desagradável, esta dentro de campo, foi a não convocação de Oscar para a competição que se inicia em 11 de junho. Lesionado, o meia tem uma estimativa de lenta recuperação, o que comprometeria o nível de sua participação. Se é que existe a possibilidade de haver uma boa notícia neste caso, vale ressaltar que o atleta do Chelsea atua de forma praticamente ininterrupta desde 2011 e um merecido descanso não só não faz mal como pode garantir uma performance melhor quando as Eliminatórias para a Copa do Mundo tiverem início.

Por outro lado, a ausência de Oscar na lista abre espaço para Philippe Coutinho finalmente alcançar o esperado destaque no elenco do técnico Dunga. Vindo de temporadas brilhantes com a camisa do Liverpool, Coutinho pode ser peça criativa que falta ao meio-campo da Seleção. Além disso, seu bom entrosamento com Neymar nascido ainda nos tempos de sub-17 pode representar um diferencial para o selecionado verde-amarelo.
Em boa fase no Porto, Casemiro aparece como opção de volante com passe mais qualificado. Mesmo que o titular da posição seja Luiz Gustavo, não deixa de ser positivo perceber que Dunga enxerga o que o mundo do futebol pede que o jogador dessa posição desenvolva. Paralelamente, nomes como Everton Ribeiro e Diego Tardelli estão na berlinda por atuarem em ligas periféricas. Preenchendo a cota experiência da Seleção, Robinho também teve seu chamado questionado, apesar do bom momento que atravessa no Santos.
Confira abaixo os 23 jogadores convocados para os amistosos contra México (7 de junho) e Honduras (10 de junho) e para a disputa da Copa América:
Goleiros: Diego Alves (Valencia), Jefferson (Botafogo), e Marcelo Grohe (Grêmio);
Zagueiros: David Luiz (PSG), Marquinhos (PSG), Miranda (Atlético de Madrid) e Thiago Silva (PSG);
Laterais: Danilo (Porto), Fabinho (Monaco), Filipe Luís (Chelsea) e Marcelo (Real Madrid);
Volantes: Casemiro (Porto), Elias (Corinthians), Fernandinho (Manchester City), e Luiz Gustavo (Wolfsburg);
Meias: Douglas Costa (Shakhtar Donetsk), Everton Ribeiro (Al Ahli), Philippe Coutinho (Liverpool) e Willian (Chelsea);
Atacantes: Diego Tardelli (Shandong Luneng), Neymar (Barcelona), Roberto Firmino (Hoffenheim) e Robinho (Santos).
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty

quinta-feira, 26 de março de 2015

Mais do que um placar

A vitória da Seleção Brasileira sobre a França por 3 a 1 no amistoso desta quinta-feira não foi uma vingança pela derrota na final de 1998. Do mesmo modo, o triunfo no Stade de France também não devolve as eliminações nos Mundiais de 1986 e 2006. Nem apaga da memória o massacre sofrido na última Copa e muito menos soluciona os sérios problemas estruturais do futebol brasileiro que, diga-se, têm pouco a ver com a Seleção e seus inúmeros “estrangeiros”. E qualquer apregoação nessa direção provavelmente resvalará numa euforia que sempre nos fez mal.
No entanto, é preciso observar o momento da Seleção Brasileira sem as amarras do trabalho anterior e olhando para frente.  Após a derrota para Alemanha, o que mais se cobrava da equipe verde-amarela era competitividade e apresentação de um futebol compatível com o que o mundo inteiro pratica. Tratava-se de algo muito mais relevante do que vitórias em amistosos ou recolocação no ranking da FIFA. E é exatamente isso o que está acontecendo sob o comando de Dunga.
A tão malfadada bola longa (ou chutão, como preferir) não faz mais parte do repertório verde-amarelo, a pressão alta está mais coordenada e a compactação está próxima do ideal. Tudo dentro do figurino neste estágio do trabalho. Isso não quer dizer que a Seleção está pronta para vencer seus desafios até 2018, muito menos indica que o trabalho está perto do fim. Ainda existem diversos pontos a serem aperfeiçoados como a bola parada, a velocidade de transição e o entrosamento dos homens de frente. Sem falar que um selecionado nacional nunca é obra pronta. A porta sempre deverá estar aberta para a chegada de novos talentos, sob o risco de repetir 2010.
Contudo, é preciso reconhecer que algo está sendo feito. Inclusive em termos de proposição de jogo, algo cobrado por nove entre dez comentaristas. É notório que a figura de Dunga causa repulsa e que sua retórica pouco adequada aos nossos tempos não é bem aceita num mundo onde o discurso costuma valer tanto quanto a prática. Se deixarmos o preconceito de lado, veremos que existe algo positivo em andamento, mesmo que o autor do trabalho não seja o arquiteto dos sonhos.

Imagem: Getty

domingo, 15 de março de 2015

A era da desinformação

Quando adolescente, ao tentar entender o funcionamento da imprensa em geral, sempre ouvi dizer que imparcialidade era a palavra-chave. Que o jornalismo imparcial era o melhor caminho para a informação. Mais velho, percebi que embora isso seja o ideal, a imparcialidade era algo utópico uma vez que todo profissional possui seus conceitos e que isso inevitavelmente o faria tomar partido do que entendesse ser o mais correto. Ou, na pior das hipóteses, tomaria partido do seu contratante. Deste modo, a imparcialidade deu lugar à isenção, termo parecido, mas que no jornalismo seria o equivalente à liberdade para informar sem estar atado a compromissos de terceiros.
Infelizmente, nesta altura da vida me parece evidente que imparcialidade e isenção, em diferentes escalas, não existem em sua plenitude nos meios de comunicação. E isso acontece porque sempre haverá interesses econômicos, políticos ou ideológicos se sobrepondo à informação. Ou melhor, a informação está lá, mas exposta da forma ou do tamanho que for mais conveniente. Alguém poderia dizer que o diabo mora nas manchetes, mas desconfio que ele sobrevive e se revigora na falta de espírito crítico do público em geral. Com esse espírito seria mais simples buscar a informação mais completa em meio a tanto achismo e indução ao erro.
O que estamos vivendo no Brasil atualmente talvez seja a expressão máxima de como a imprensa pode manipular a opinião pública sem necessariamente mentir. Basta omitir fatos – a alta do dólar no mundo inteiro aqui travestida de desvalorização do real é um bom exemplo – escolher os colunistas cujo posicionamento seja o mais conveniente, além de mascarar dados e temos o cenário perfeito para quem já está predisposto a clamar por impeachment, intervenção militar e retorno da ditadura (alô, professores de História!).
No entanto, ao contrário de outras épocas, o acesso à informação e a diversidade de meios de comunicação e interesses são capazes de suplantar, pelo menos em parte, a venda que alguns tentam colocar na população brasileira. Hoje não é tão fácil manipular num país inteiro como se fez nas décadas de 1960 e 1990, ainda mais com tantos escândalos pipocando por todas as partes. Contudo, restou provado que a regulamentação da mídia é uma necessidade real. Não como forma de interferir na liberdade de expressão ou mesmo censurar, mas para coibir a formação de oligopólios e monopólios e combater à desinformação.
Não permita que alguém pense por você.

Imagem: Reprodução

sábado, 7 de março de 2015

Dória, Bielsa e a imagem dos brasileiros no exterior

Um dos principais reforços do São Paulo em 2015, Matheus Dória foi o convidado da terceira edição do programa Bate-Bola, da ESPN Brasil, na última quinta-feira. Em dado momento, o zagueiro foi perguntado sobre sua passagem pelo Olympique de Marselha e as dificuldades que enfrentou sob o comando do argentino Marcelo Bielsa. Aproveitando a ocasião, Dória falou a respeito de seu não aproveitamento no time francês e do comportamento do técnico com auxiliares e com ele mesmo. Ali estava apenas a versão do jovem brasileiro, mas as reações que vieram a seguir surpreenderam este blogueiro. Com poucas ressalvas ou contextualização, a maior parte das pessoas que se manifestaram sobre o tema optou por criticar Dória. É como se o jogador brasileiro fosse o único culpado por seus infortúnios no Olympique independente do que lá aconteceu.
Antes de tudo, é preciso recordar como se deu a contratação de Dória pelo OM. Figura de destaque no Botafogo desde 2013, embora não fosse unanimidade entre os torcedores, o zagueiro tornou-se objeto de cobiça de importantes clubes europeus e acabou desembarcando na França por cerca de oito milhões de euros. No entanto, antes mesmo de se apresentar ao seu novo treinador, Dória se deparou com a entrevista coletiva de El Loco dizendo que sua diretoria não o consultou sobre a contratação, que não tinha avaliado o defensor e que era contra a sua chegada. Não é preciso ser um gênio para perceber que a vida do garoto, então com 19 anos, não seria fácil em Marselha. Como era de se esperar, Dória ficou encostado no clube até que o São Paulo o repatriasse.
Reunindo esses fatos, o depoimento de Dória e refletindo sobre o histórico de loucuras de Marcelo Bielsa é possível chegar à conclusão de que pode não se tratar do clássico caso do jogador que não conseguiu seu espaço e saiu atirando contra o seu ex-técnico. Bielsa nunca quis a chegada de Dória, não fez questão de esconder isso e nunca concedeu chances reais para o jogador se firmar. Analisando a questão, ela remete muito mais a uma típica queda de braço entre dirigente e técnico do que propriamente a reprovação de um atleta após um período de trabalho e convivência.
Contudo, é possível dizer que há, por parte de algumas pessoas, uma pré-disposição em considerar os brasileiros culpados por qualquer situação negativa no exterior independente dos fatores que esta envolver. Possivelmente baseada em episódios onde os brasileiros realmente erraram, criou-se por aqui uma regra geral onde o profissional brasileiro, seja ele técnico ou jogador, está sempre errado. Um provável resultado da soma de pouco pensamento crítico somado ao atávico complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues definiu tão bem. Esta sim, uma típica conduta com ares de regra geral.

Imagem: Divulgação

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O 7 a 1 e os pandas

O ex-jogador Gérson costuma repetir uma lição que recebeu de seu mestre Valdir Pereira, o Didi. Certa vez, atuando juntos no meio-campo do Botafogo, o Canhotinha ouviu que não era necessário adiantar a marcação porque o adversário teria que passar por ali caso quisesse chegar ao gol. Sendo assim, se ficassem posicionados, poderiam recuperar a bola e iniciar o contra-ataque. Com a categoria de ambos, não é difícil imaginar quantas jogadas elaboraram nas 21 ocasiões em que estiveram lado a lado no meio-campo alvinegro.
O tempo passou e hoje sabemos que alguns conceitos do futebol mudaram. O terreno de jogo foi “encurtado” e pressionar no campo do rival faz parte da estratégia de se obter a posse o mais próximo possível da meta inimiga. Para que chegássemos a esse entendimento, vimos seleções como a Holanda de 1974, times como o Milan de Arrigo Sacchi e, mais recentemente, o Barcelona de Pep Guardiola. Mesmo assim, a proposta simplificada pelo chamado Príncipe Etíope continua viva em equipes como o Chelsea de José Mourinho e o Atlético de Madrid comandado por Diego Simeone.
Discutir conceitos faz bem ao futebol. Curiosamente, isso é o que menos se faz no Brasil. É como se o esporte fosse encerrado em si mesmo, sem grande necessidade de se debater sua filosofia. Após o fatídico 7 a 1, o mínimo que se poderia esperar da CBF era a organização de um grande simpósio para que os maiores nomes do nosso futebol pudessem se reunir com seus pares estrangeiros com o objetivo de entender tanto o que aconteceu no Mineirão como os rumos do futebol brasileiro a partir dali. Do mesmo modo, seria interessante ver algo semelhante na imprensa. É triste constatar que o primeiro SporTV Repórter sobre o tema teve Valesca Popozuda como convidada.
A ausência de debates mais sérios possivelmente é a razão para tantos pensamentos soltos e tantas analogias forçadas. Hoje, quando se mostra qualquer problema do futebol brasileiro ele invariavelmente é seguido de alguma referência ao revés de 8 de julho como se tudo estivesse num só pacote e não pudesse ser observado separadamente. Se a ligação entre a estrutura do país e a seleção nacional fosse tão intrínseca em países exportadores de talento, dificilmente a Argentina teria feito frente à Alemanha na decisão da última Copa.

Quanto mais o tempo passa, maior se torna a sensação de que uma oportunidade única está sendo perdida. Com as vitórias da Seleção de Dunga nos amistosos e provavelmente nas Eliminatórias, o 7 a 1 começará a se tornar apenas um grande ferimento mal cicatrizado. Lembraremos do que o causou, mas não do que fizemos para que aquilo não se repetisse. Enquanto nada acontece, a impressão é que toda vez que alguém usa o 7 a 1 em vão, um panda morre. E como eu gostaria que preservassem o simpático urso.  

Imagem: Wikipédia e Vipcomm

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Anjos brancos à beira de outro inferno

Atual campeão europeu e mundial, o Real Madrid vive uma crise insólita. O futebol que assombrou os gramados em 2014 não tem sido visto neste ano. O contra-ataque avassalador não vem sendo tão eficiente e a defesa antes segura vem apresentando falhas comprometedoras. Nas lesões de jogadores importantes como a do croata Modric está parte da explicação para a queda de produção, mas a atual fase dos merengues faz com que os observadores de futebol mais antigos se lembrem do fracasso da primeira Era Galáctica.
Tudo começou em 2000. Florentino Pérez, em sua primeira passagem pela presidência do Real Madrid, implantou uma filosofia que unia a visão mercadológica do novo século com o romantismo do passado glorioso do clube. O primeiro a chegar foi Luís Figo, com direito ao choque causado pelo pagamento da multa contratual ao Barcelona. Em seguida, foi a vez do gênio francês Zinedine Zidane. Depois do Mundial de 2002, Ronaldo desembarcou para inaugurar definitivamente o período galáctico. Três estrelas que somadas ao prata da casa Raúl e a Roberto Carlos faziam a diferença em campo com o suporte de atletas voluntariosos como Michel Salgado, Claude Makelele e Flávio Conceição.
Como explica o jornalista britânico John Carlin em seu excepcional livro “Anjos Brancos”, a fórmula de Pérez era relativamente simples:
– Um time que reúne as maiores estrelas do futebol é imbatível;
– Este time não precisa de complicados esquemas táticos;
– Mesmo não ganhando sempre, porque o imponderável habita o futebol, a arte e o espetáculo ficam para a eternidade;
– Como o futebol é a maior religião do mundo, um time com estrelas globais tem uma torcida mundial;
– O torcedor é um ser absolutamente fiel;
– Qualquer grande corporação internacional pagará o que for preciso para ter seu nome associado a este super time;
– O time mais caro do mundo é também o mais barato.
As coisas caminharam bem até a chegada de David Beckham em 2003. Astro cuja imagem ultrapassava os limites do esporte, o inglês parecia ser a peça que faltava ao panteão madridista, uma vez que, além da qualidade técnica, trazia consigo uma legião de fãs, sobretudo na Ásia. Contudo, a engenharia financeira proposta por seu mandatário não era capaz de operar milagres. Para a inclusão de Beckham, alguns cortes precisaram ser feitos. Com isso, os alguns dos principais carregadores de piano deixaram o clube e deram lugar à política que ficou conhecida como Zidanes y Pavones, alusão direta aos craques que se juntavam aos jovens da base como o mediano zagueiro Francisco Pavón. No início funcionou. O time liderou boa parte da temporada 2003/4 e Florentino pôde saborear aquilo que julgou ser o crepúsculo dos catedráticos do futebol e seus esquemas mirabolantes. Porém, o fôlego do elenco curto, embora talentosíssimo, arrefeceu após a virada de ano e terminou numa impensável quarta colocação.

Qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência. Embora alguns conceitos tenham mudado – como a necessidade de destruidores no meio-campo – mesmo um time estelar não pode prescindir de boas as condições físicas, táticas e, logicamente, psicológicas. A festa de aniversário promovida por Cristiano Ronaldo após a goleada por 4 x 0 imposta pelo Atlético de Madrid caiu como uma bomba junto à torcida. “Seu riso, nossa vergonha” eram as palavras que estampavam a faixa que alguns torcedores levaram ao centro de treinamento dos blancos. Conhecido por sua capacidade de gerir grupos compostos por jogadores renomados, Carlo Ancelotti terá a dura missão de recolocar sua equipe nos trilhos já neste sábado no estádio Santiago Bernabéu diante do Deportivo La Coruña com a esperança de que a história não se repita mais uma vez.
Imagens: Reproduções Youtube e Instagram

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O otimismo para escanteio

Neste fim de semana, a bola voltou a rolar em partidas oficiais nos gramados brasileiros. É o retorno dos campeonatos estaduais, competições que ocupam um terço da temporada e que, ano após ano, perdem mais um pouco do prestígio que ainda resta. E, ao contrário do que recomendaria a lógica, seus dirigentes não se mostram interessados e transformá-los em algo muito diferente de um estorvo num calendário que precisa ser revisto com urgência.
O argumento da tradição dos Estaduais não se sustenta na prática. Com folhas de pagamento milionárias, os clubes precisam buscar receitas maiores a cada dia e enfrentar adversários fracos em estádios vazios tornou-se algo absurdamente contraproducente. Neste momento, apenas a cota de TV justifica em parte a existência desses torneios. No entanto, as televisões pagam para transmitir partidas das agremiações mais conhecidas. São as exibições de times como Corinthians, Flamengo, Cruzeiro, Internacional e demais grandes que movem o interesse do público. Por consequência, é óbvio supor que esse pagamento seria potencialmente maior num cenário onde o Brasileirão começasse em fevereiro ou março.
Paralelamente, muitos temem que o fim dos Estaduais representaria também o fim dos pequenos clubes que tanto contribuem para a grandeza do futebol brasileiro. Entretanto, é justamente o contrário. Grande parte dos times menores não tem atividades após o encerramento de suas etapas regionais. Para muitos atletas, quase todos mal remunerados, o ano termina antes de sua metade. Não há nem ao menos a chance de atuar durante toda a temporada regular. Uma triste realidade que CBF e federações ignoram quando elaboram o calendário.
Bem mais significativo do que a proposta redução de datas dos Estaduais seria a saída dos grandes clubes e a transformação em campeonatos regionais extensos que preencham todo o calendário dos times de menor investimento. Uma iniciativa que iria ao encontro das reivindicações do movimento Bom Senso FC, como uma proposta de um futebol melhor para todos. Ou, pelo menos, melhor para quem realmente se preocupa com ele, algo que, em princípio, não parece ser o caso dos dirigentes da Federação do Rio de Janeiro e de Eurico Miranda, novo/velho presidente do Vasco da Gama.
Numa decisão claramente arbitrária, a Ferj estipulou entre R$ 5 e R$ 50 os preços dos ingressos para o Campeonato Carioca em 2015. Se a intenção fosse apenas defender os interesses do torcedor seria perfeito, mas há indícios de que não se trata disso. A começar pela falta de diálogo com seus filiados, aqueles que são a razão da existência de qualquer federação. Com a decisão unilateral, Flamengo e Fluminense terão prejuízo em jogos no Maracanã, estádio cujo custo médio de cada torcedor atinge R$ 12. Com as famigeradas meias-entradas, uma máfia em nosso país, grande parte da torcida adentra o estádio pagando metade do ingresso. Ou seja, na prática, é como se a Ferj estivesse estipulando parte da carga de ingressos em R$ 2,50 a R$ 25, ignorando os reflexos dessa decisão nas finanças dos clubes.
Outro indício é a influencia de Eurico Miranda junto à presidência da Ferj. Quem acredita que o cartola não tem calculado na ponta do lápis os danos provocados aos rivais pela precificação, sinceramente, acredita em tudo. Quando Eurico foi reeleito, estava claro que a situação do futebol carioca e brasileiro pioraria de forma significativa. Ao contrário de Roberto Dinamite, seu antecessor, Eurico não é danoso apenas ao Vasco. Sua influência se estende a outros dirigentes, federações e até a CBF. A volta do ex-deputado representa retrocesso num futebol que deveria olhar para frente, ainda mais após sediar uma Copa do Mundo e ver tantas arenas construídas e reformadas. Por essas e outras, não há razão para otimismo com o futebol brasileiro. Pelo menos, não neste momento.
Texto escrito originalmente para o site Barroso em Dia
Imagem: CNN

domingo, 14 de dezembro de 2014

O fim de uma era

O programa Linha de Passe de segunda-feira (08/12) marcou a última aparição ao vivo do comentarista Paulo Vinícius Coelho na ESPN Brasil. Um dos principais nomes do jornalismo esportivo brasileiro, PVC, como é chamado, sempre se destacou dos demais profissionais da casa por sua memória prodigiosa, seu poder de argumentação baseado mais em fatos do que em achismos, sua visão tática, sua rede de informantes que o permite estar quase sempre à frente das notícias e, por que não dizer, por seu carisma. A partir de janeiro de 2015, Paulo será mais um integrante do Fox Sports, um grande reforço, vale ressaltar.
Não cabe neste espaço especular os motivos que levaram à sua saída. Meus breves contatos com ele foram através de e-mails e Twitter. Até mesmo suas bem traçadas linhas na contracapa do livro “É Tetra!” foram por intermédio do amigo André Rocha. Sendo assim, a intenção deste post é tentar dimensionar o que a saída de PVC significa para a ESPN nacional que há poucas semanas também perdeu os direitos da UEFA Champions League para o Grupo Turner/Esporte Interativo, assim como já havia perdido a Serie A italiana e a Bundesliga para a Fox.   
Os fãs do esporte mais atentos devem ter percebido as mudanças ocorridas na ESPN Brasil após João Palomino assumir o posto de diretor de jornalismo antes ocupado por José Trajano. Visando aumentar a audiência, Palomino promoveu diversas alterações na programação deixando de lado o ambiente quase artesanal que tão bem identificava o canal tornando-o mais próximo do que o SporTV, seu maior concorrente, sempre fez. Paralelamente, as edições do aclamado Bate-Bola se espalharam por toda a grade promovendo horas e horas de debates que na maioria das vezes são apenas comentários em sequência sem nenhum tipo de embate de ideias.
Talvez por isso tenha me chamado tanto a atenção a troca de PVC da segunda para a terceira edição do Bate-Bola. Na versão vespertina, Paulo Vinícius e Mauro Cezar Pereira frequentemente confrontavam seus pontos de vistas em acalorados debates nos quais o assinante só tinha a ganhar. Com a separação dos parceiros dos tempos de Placar, as atrações se tornaram cada vez mais estéreis e, por que não dizer, descartáveis. Hoje, o melhor programa diário dos canais esportivos é o Redação SporTV e seu formato ágil e informativo. Justamente o que a ESPN perdeu.
Numa das últimas edições do Linha de Passe, José Trajano, um dos fundadores do canal, disse em tom de lamentação que o jornalismo que ele mais admira é o investigativo, com o repórter indo ao encontro da notícia e não com comentaristas num estúdio. Pelo visto, esse caminho não será mais seguido pela ESPN Brasil, talvez excetuando o notável trabalho investigativo de Lúcio de Castro. Com a perda de tantos campeonatos importantes, a solução mais provável é que os programas de debate ganhem ainda mais destaque. Nem que seja para falar sobre as competições mostradas pela concorrência.

Imagem: Reprodução ESPN

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A melhor fórmula

Quando o Cruzeiro deu sinais de que seria bicampeão brasileiro, ali por volta da virada do primeiro para o segundo turno, um velho discurso voltou à tona: o Brasileirão deveria retornar ao “mata-mata” como fórmula. Afinal, segundo muitos, o formato de disputa por pontos corridos se torna desinteressante a partir do momento em que um time dispara na liderança. Os mais atentos poderiam desconfiar que o tal desinteresse cresce na medida em que o virtual campeão não é um clube do Rio ou de São Paulo, mas essa é outra história. Duvido muito que o torcedor celeste tenha ficado desestimulado.
A verdade é que nosso futebol já deveria ter superado esta discussão. Sobretudo agora que a Copa do Brasil também tem seu desfecho no fim do ano e abriga novamente todas as grandes equipes do país. Quem prefere jogos finais tem seu momento com uma competição que ainda tem como bônus a classificação para a Copa Libertadores do ano seguinte. Enquanto isso, o campeonato nacional tem razões para ser realizado em pontos corridos em turno e returno. E não são poucas.
A começar pelo aspecto financeiro das equipes. Para que se realizem mais três fases – quartas de final, semifinal e final – precisamos de mais seis datas após o término da primeira. E Isso, com a concomitância de competições como Copa do Brasil ou Sul-Americana, representa no mínimo um mês a menos de atividade para os doze times que não se classificarem para as finais. Na prática, esse cenário dificulta negociações com televisão, patrocinadores e significa menos dinheiro de bilheteria. Prejuízos que os quatro eliminados nas quartas de final também sentirão em parte.
Outro aspecto relevante é a meritocracia. Imaginar o vencedor da primeira fase eliminado pelo oitavo colocado, que muitas vezes chega cambaleante, é tudo o que um torneio não precisa. Se a fórmula fosse aplicada atualmente, por exemplo, teríamos Cruzeiro e Atlético Paranaense lutando por uma vaga nas semifinais. Caso os paranaenses avançassem, todo o trabalho e investimento cruzeirense iriam por água abaixo em duas partidas. Difícil encontrar disparate maior.
Por fim, mas não menos importante, está o planejamento. Com a mudança ocorrida em 2003, passou a ficar claro para os dirigentes que o título está muito mais ao alcance de quem se organiza para conquistá-lo. Num país onde o amadorismo ainda impera no esporte, nada melhor do que termos uma liga que por sua natureza fomenta o planejamento dos clubes. Não por acaso, a edição de 2014 premiou a agremiação que fez tudo da forma mais correta possível. Parabéns, Cruzeiro, legítimo campeão brasileiro.
Coluna escrita originalmente para o site Barroso em Dia.
Foto: Cristiane Mattos / Futura Press

domingo, 23 de novembro de 2014

Em obras

Quando se pensa em Seleção Brasileira, o ano de 2014 sempre será lembrado pela tragédia futebolística ocorrida na Copa do Mundo. Daqui a 50 anos ainda encontraremos quem esteja debatendo sobre os motivos que levaram o selecionado mais vitorioso da história a ser massacrado dentro de sua própria casa. Todavia, como o “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” é também um lema do povo brasileiro, nada mais justo do que partir para a ótica da reconstrução da equipe.
Com a saída de Scolari, Dunga não era o nome preferido de imprensa e torcida. A Seleção que o ex-capitão comandou entre 2006 e 2010 era muito competitiva, mas carecia de criatividade. É quase consenso entre os críticos que nosso futebol deveria se inspirar nos exemplos de Espanha e Alemanha e construir um time capaz de propor o jogo como um dia fomos capazes de fazer. Uma questão já debatida neste espaço é se temos jogadores para tal missão. A resposta mais sensata neste momento é não. Durante anos, formamos atletas de estilo vertical, baseando-nos na tese de que os mais talentosos devem ficar mais próximos do gol adversário. Com isso, o meio-campo se tornou uma área muito mais de destruição do que de construção. Sobretudo, pela necessidade de cobertura de laterais apoiadores.
Passou quase despercebida a viagem da comissão técnica pela Europa após os amistosos contra Turquia e Áustria. Na Alemanha e na Inglaterra, Dunga se reuniu com Jürgen Klopp e José Mourinho, técnicos conhecidos pelo estilo intenso e vertical ora visto no Borussia Dortmund e no Chelsea. Alguém provavelmente vai pensar num diálogo com Guardiola, porém, está bastante claro que o tipo de jogo que Dunga enxerga como ideal para os seus comandados certamente não é o tiki-taka. E isso não significa que ele está errado.
É possível aproveitar as qualidades que o jogador brasileiro oferece hoje e ser competitivo ainda assim. Nos seis amistosos realizados depois do Mundial, o novo treinador deu mostras de que teremos uma equipe (ao lado) mais organizada, compacta e intensa do que a anterior. O fato de ter sacado do grupo a figura de um centroavante mais fixo é um indício de que o desejo é que todos participem do jogo. Em entrevista após a vitória sobre os austríacos, o meia Roberto Firmino destacou ao microfone aquele que é o mantra de seu chefe: “Se igualarmos a pegada, nossa qualidade individual vai se sobressair.” Infelizmente, há quatro anos, esse pensamento não se confirmou plenamente.
De qualquer forma, é impossível negar que o saldo deste reinício é positivo. Mais do que as seis vitórias, foi importante resgatar o moral do grupo. Vencer sempre será o melhor remédio para se curar as feridas do futebol. Deste modo, a Seleção encerra seus trabalhos em 2014 e se reúne novamente em março do ano que vem. Embora a CBF não confirme, os rivais devem ser Nigéria e França. Aproveitando a ocasião, este colunista também se despede temporariamente deste espaço e promete retornar às atividades em 2015. Até lá!  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.

Imagem: Getty

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Nuvens sobre os aplausos

A torcida turca sempre foi conhecida por seu fervor, indubitavelmente, um traço da cultura e da alma do povo otomano. Quando as seleções de Turquia e Brasil deram o pontapé inicial do amistoso disputado no Estádio Sukru Saracoglu, os torcedores estavam apoiando seu selecionado como sempre fizeram. Contudo, além da indefectível paixão pelo futebol, os turcos também são fãs do talento brasileiro. Algo que Neymar & Cia estavam dispostos a oferecer em Istambul naquela noite.
Não foram apenas quatro gols e nenhum sofrido. A Seleção Brasileira de Dunga tem realizado boas partidas dentro das possibilidades de um novo ciclo. A intensidade cobrada nos treinamentos é vista em campo e o comportamento tático tem sido o mesmo que marcou a primeira passagem do técnico. Obviamente, ainda se espera um volume maior de jogo no meio-campo, mas a transição afoita que se viu no Mundial deste ano está sendo solucionada com uma saída de bola mais tranquila, de pé em pé, e com a presença dos dois volantes. Os lançamentos longos para o centroavante escorar para quem vem de trás estão ficando cada vez mais no passado.
Todavia, o que realmente transformou o amistoso vencido pelo Brasil foram as atuações de Neymar e Willian. O primeiro somando mais dois gols às suas invejáveis marcas, além de uma série de jogadas que levaram seus marcadores à loucura. O segundo mostrando por que deveria ter tido mais oportunidades com Scolari. Seu “elástico” sensacional sobre dois marcadores e seu dinamismo com e sem a bola serviram para assegurar espaço entre os titulares nesse reinício. Atuações suficientes para trazer os adeptos locais para o lado verde-amarelo da força.
Por razões óbvias, não será tão simples para a Seleção Brasileira reconquistar sua própria torcida. As feridas da Copa do Mundo ainda estão abertas e não serão cinco vitórias em amistosos que transformarão toda a frustração em incentivo. Para essa missão, as Eliminatórias serão muito mais determinantes. Somente diante da torcida brasileira será possível dimensionar até que ponto o revés no Mundial pode ser superado. Para o primeiro momento, o que vimos até agora pode ser classificado como auspicioso.

Porém, como nem tudo são flores, os bastidores da Seleção continuam mais quentes do que o desejado. Após o corte do lateral Maicon por ter se apresentado muitas horas depois do combinado, foi a vez de Thiago Silva polemizar sobre a perda da tarja de capitão para Neymar. À imprensa, o zagueiro disse que se sentia chateado pelo acontecido e que o jovem atacante não o havia procurado para conversar sobre o assunto. Em seguida, diante da enorme repercussão, Thiago recuou, apareceu numa descontraída – e oportuna – foto com Neymar e culpou a imprensa pelo suposto superdimensionamento do episódio. Por sua vez, Dunga procurou sepultar a questão de forma apaziguadora, mas firme. Deixou claro que todos têm o direito de se manifestar, mas que a Seleção possui uma hierarquia.
Se a atitude do defensor terá mais desdobramentos, possivelmente só saberemos em futuras convocações. Ex-atleta do Milan, clube conhecido pelo apreço por seus líderes históricos, e atual dono da braçadeira no PSG, é compreensível que Thiago Silva tenha se apegado à condição de capitão da Seleção Brasileira. No entanto, a crise de choro nas oitavas de final perante o Chile, onde sua fraqueza poderia ter desestabilizado o grupo por completo, foi determinante para que todos percebessem que ele não tinha o perfil para a missão. Ainda entre os melhores zagueiros do planeta, Thiago pode ser muito útil para o Brasil. Nesse cenário, cabe ao próprio jogador entender que sua atual aflição pode ser, no fundo, uma boa notícia. Afinal, ficou bastante evidente que a tarja de capitão da Seleção se tornou um fardo pesado demais para ele.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Mowa Press

domingo, 9 de novembro de 2014

Neymar e a legião estrangeira

Único brasileiro indicado à Bola de Ouro FIFA 2014, artilheiro do Barcelona na temporada, quinto maior goleador da Seleção Brasileira com 40 gols, capa de grandes publicações, Neymar mostra que está alcançando a maturidade com apenas 22 anos. Até mesmo o “file de borboleta” que sempre o caracterizou ficou para trás. Com 4,5 kg a mais, o brasileiro adquiriu a musculatura necessária para o jogo mais físico que encontrou na Europa. “Ele está ganhando massa, ganhando força e, consequentemente, mais potência”, explica o preparador físico da Seleção, Fabio Mahserehdjian.
Que Neymar se tornou o jogador mais importante da Seleção não é nenhuma novidade. Assim como sua quarta aparição como um dos postulantes à premiação máxima da FIFA também não surpreende ninguém. O que vem chamando a atenção é sua estabilização como um dos grandes nomes do futebol mundial. Antes coadjuvante de Lionel Messi, Neymar começa a dividir o protagonismo no Barcelona com o gênio argentino. Logicamente, a maior liberdade recebida do técnico Luis Enrique e o deslocamento de Messi para uma posição onde se tornou mais “arco” do que “flecha” contribuíram para essa notável evolução, mas nada disso faria diferença se Neymar não fosse o craque que muitos duvidavam ser.
Neste momento, as comparações com Robinho ficaram para trás. Além da origem santista e do gosto pelo drible, pouca coisa os une. Negociado ao Real Madrid em 2005 como novo Ronaldinho Gaúcho, Robinho nunca se afirmou no Velho Continente. E, mesmo na Seleção, sempre pairou alguma desconfiança pelos incontáveis gols perdidos. Por sua vez, Neymar tem se notabilizado não só pelo faro de artilheiro, como pela maestria nas cobranças de falta. A faixa de capitão que agora enverga é apenas mais uma prova de que a pressão de ser a referência não incomoda o atacante. Está cada vez mais claro que o seu patamar é entre feras do calibre de Romário, Ronaldo e Rivaldo.
No entanto, cabe a Dunga estruturar uma equipe que dê suporte ao seu melhor jogador. Um time que funcione bem mesmo num dia ruim do camisa 10 ou em sua ausência. Graças ao nosso inchado calendário que não se interrompe em datas FIFA, a lista de convocados para os amistosos diante de Turquia (12 de Novembro em Istambul) e Áustria (18 de Novembro em Viena) não conta com atletas que militam no Brasil. Portanto, esta será a chance para o técnico observar nomes que ainda não tinham recebido oportunidade neste novo ciclo.
Entre os chamados, destacam-se os retornos do zagueiro Thiago Silva, do goleiro Diego Alves e do meia Lucas Moura. Atravessando boa fase no Porto, Casemiro é mais um indício de que Dunga está à procura de volantes que saibam construir o jogo. Também estreante, Roberto Firmino finalmente terá a chance de comprovar na Seleção tudo o que os mais atentos perceberam no Hoffenheim. Artilheiro da atual edição da UEFA Champions League, Luiz Adriano é o primeiro centroavante convocado após as péssimas apresentações de Fred e Jô no Mundial. Mesmo que a intenção inicial seja a manutenção de uma equipe sem a presença de um nove clássico, não deixa de ser válida a opção de um jogador de área no banco de reservas.
Curiosamente, a nova sensação tupiniquim em gramados europeus ficou de fora da lista. Destaque máximo do Benfica nesta temporada, o meia Anderson Talisca vem chamando a atenção pelos gols e arrancadas fulminantes e já despertou o interesse de gigantes como Chelsea e Manchester United. Convocado por Alexandre Gallo para a Seleção Brasileira sub-21, Talisca está no radar de Dunga e possivelmente figurará em futuras convocações do time principal. Mesmo com todos os seus problemas, o futebol brasileiro tem a capacidade de se renovar como nenhum outro. Resta saber se a nova comissão técnica conseguirá conduzir esse processo de forma satisfatória.

Atualização (10/11): Confirmando sua excelente fase, Talisca foi convocado hoje para substituir o lesionado Lucas Moura nos amistosos diante de Turquia e Áustria. Nada mais justo. 
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagens: Reprodução The Times e AFP

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ao (contra-)ataque!

Em quatro partidas, quatro vitórias, oito gols marcados e nenhum sofrido. No caminho, rivais como Colômbia e Argentina foram abatidos. Esse é o saldo da nova Seleção Brasileira novamente sob o comando de Dunga. Mas, por que isso não parece ser suficiente para convencer público e crítica? Quem ouve os principais comentaristas ou lê os maiores colunistas tem a impressão de que os resultados têm pouca ou nenhuma importância dentro do cenário pós-Copa. E não é difícil entender os motivos.
Há anos o Brasil vive o mesmo dilema: Queremos mudança nos rumos do futebol, mas não temos dirigentes e técnicos capacitados para a missão. Para piorar, muitos desses cartolas e profissionais simplesmente não identificaram a existência do problema e seguem como se ainda detivéssemos o principal campeonato do planeta. E, de certo modo, a Seleção representa o consolidado de tudo o que tanto se critica no futebol brasileiro e que precisa ser mudado. E talvez esteja aí o nosso erro.
Desde a era Guardiola no Barcelona, passando pela ascensão da Espanha até o ressurgimento da Alemanha, um modelo de jogo se tornou uma espécie de ideal imaginário para o Brasil. Ou melhor, parece ter se tornado a fórmula única para a retomada do estilo há muito perdido. Era como se a adaptação de jogadores de estilo rápido e vertical que produzimos nas últimas décadas para um estilo voltado para o toque de bola fosse uma simples questão de opção do treinador da vez. Infelizmente, a vida real não funciona dessa forma.
A Seleção é o topo da pirâmide. Uma equipe formada por atletas que militam em diversas partes do mundo, mas com uma característica em comum. São jogadores que, em sua maioria, possuem um estilo de jogo vertical, de condução de bola e afeito ao contra-ataque. Assim são Neymar, Diego Tardelli, Oscar, Philippe Coutinho, Willian, Hulk, Robinho, Kaká e Lucas Moura. Paulo Henrique Ganso é um dos poucos a exibir um repertório diferente. E talvez justamente por isso não faça parte dos planos imediatos de Dunga.
Neste cenário, nada mais lógico do que vermos o técnico estruturando seu time para marcar forte e aproveitar os espaços. Com os jogadores que temos, esse é o caminho mais natural a seguir. Além disso, equipes como Chelsea, Real Madrid, Atlético de Madrid e Borussia Dortmund mostraram, recentemente, que é possível vencer de outras formas, desde que não se perca de vista conceitos básicos do futebol atual como organização, compactação, intensidade e jogo coletivo. Isso não quer dizer que nunca mais haverá uma filosofia propositiva no Brasil, mas essa revolução só será possível a partir da base. De baixo para cima.  
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Sportv

domingo, 12 de outubro de 2014

Com a cara de Dunga

Foram apenas três amistosos, algumas horas de treino e períodos de convivência. Contudo, os primeiros jogos da Seleção Brasileira sob as ordens de Dunga deram mostras de que seu estilo de comandar não mudou. Vimos uma equipe aguerrida, buscando fechar os espaços, renunciando à posse de bola em diversos momentos e vencendo com alguma dose de sofrimento. Fora de campo, um técnico vibrante e irritadiço como sempre. De certo modo, é como se os quatro anos que se passaram desde a eliminação para a Holanda em 2010 não tivessem existido. Mas existiram.
Sendo pragmático, é elogiável ver o treinador de um selecionado conseguindo impor suas ideias em tão pouco tempo. A título de comparação, Mano Menezes só conseguiu esboçar algo parecido quando chegou a dois anos no cargo. No entanto, há uma diferença crucial: Enquanto Mano almejava alterar o perfil da Seleção, tentando reimplantar o protagonismo perdido, Dunga optou pelo mais simples, buscando jogar no erro do adversário, algo que corresponde ao tipo de jogador que o Brasil produziu nos últimos anos.
Embora seja difícil saber se Dunga realmente enxerga todo o cenário do futebol brasileiro e mundial ou se apenas implanta sua visão desse esporte, a verdade é que ele conseguiu atingir seu objetivo inicial, ou seja, venceu seus primeiros duelos e viu sua equipe atuar de modo semelhante ao que fazia quando de sua passagem anterior. Dentro desse cenário, melhor impossível. Porém, dentro dos anseios do público, a distância para o modelo tido como ideal é grande.
A começar por sua relação com a imprensa. Pelo menos desde 1990, Dunga vive às turras com os jornalistas esportivos. Nunca digeriu ter visto seu nome batizando o fracasso da Seleção no Mundial da Itália. Tanto que fez questão de “dedicar” o tetracampeonato conquistado nos EUA a esse segmento. E a recíproca é verdadeira. Na última sexta-feira, no programa “Linha de Passe”, o comentarista José Trajano fez questão de lembrar que não gosta do técnico. Pouco depois da vitória por 2 x 0 sobre a Argentina, Mauro Cezar Pereira criticou Dunga pelo entrevero com a comissão técnica rival mesmo sem saber direito o que tinha acontecido.
Todavia, mais importante do que vencer a desconfiança da imprensa é o resgate da competitividade da Seleção. Dunga conseguiu isso em sua primeira passagem, mas sua equipe tinha como ponto fraco a incapacidade de romper defesas mais fechadas, preferindo o contragolpe. O problema é que este provavelmente será o comportamento de 90% dos adversários daqui por diante. Para o Brasil, propor o jogo é também uma obrigação histórica que um peso de cinco estrelas impõe. Sem dúvida trata-se do maior desafio deste ciclo.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Fred Dufour/AFP

domingo, 5 de outubro de 2014

Transição e renovação

Não existe fórmula exata para se promover a renovação de uma seleção. Cada treinador adota as medidas que julga necessárias de acordo com as circunstâncias e suas convicções. Além disso, antes mesmo de se pensar em renovação, é preciso promover a transição entre gerações para que não haja uma lacuna entre jogadores jovens e experientes. Em 2002, Parreira teve a paciência necessária para incorporar novos talentos ao grupo pentacampeão, mas errou ao não identificar focos de desinteresse nas grandes estrelas antes do Mundial de 2006. Em seguida, Dunga respondeu forte ao pedir comprometimento, porém, falhou ao se apegar demasiadamente aos atletas que lhe deram suporte durante a trajetória até a África do Sul. Por sua vez, Mano Menezes cometeu o pecado de romper com tudo o que seu antecessor havia feito, apostou na juventude e caiu sem encontrar seu time ideal.
Quanto a Felipão, sua chegada sempre foi mais uma medida política e uma tentativa de recolocar a Seleção Brasileira nos trilhos do que uma decisão estratégica. Embora não possa ser responsabilizado por tudo o que ocorreu na última Copa, ficou evidente logo no início do torneio que a fórmula da vontade acima da organização dificilmente vingaria no futebol atual. Por seu estilo aguerrido dentro e fora de campo, muitos acreditam que Dunga reza a mesma cartilha, todavia, sua primeira passagem foi marcada muito mais pelo pragmatismo do que por um estilo “vamo-que-vamo”. Sua Seleção poderia ser criticada pela falta de ideias, não pela falta de organização. De certo modo, seu estilo pode ser comparado ao do argentino Diego Simeone. O que não é, necessariamente, um elogio.
Dunga é um obcecado por vitórias. Em seu dicionário, jogar bem é vencer e marcar época significa conquistar títulos. Talvez por isso não entenda por que a Seleção de 1982 é adorada mesmo sem ter vencido nada. Deste modo, não surpreende a iniciativa de trazer de volta à pauta jogadores que dificilmente chegarão com fôlego a 2018. A presença de nomes como Maicon, Elias, Robinho e agora Kaká nas duas primeiras convocações indica que a preocupação com o presente é grande. Embora não tenha deixado nada explícito, Dunga quer espantar logo o fantasma dos 7 x 1. Não por acaso, levará o que tem de melhor para pegar a Argentina e sinalizou positivamente para futuros amistosos contra a Alemanha.
Mesmo diante dessa constatação, a iniciativa chama a atenção. Aos 32 anos e com passagem marcada para defender o Orlando City, é pouco provável que Kaká siga como um atleta de nível de Seleção por muito tempo. Bem mais jovem e vivendo boa fase, Ganso seria uma opção que faria mais sentido tanto pela idade quanto por suas características. Neste momento, o Brasil não tem nenhum meia capaz de cadenciar o jogo. Mesmo que o time idealizado por Dunga não tenha como objetivo reter mais a bola, não deixa de ser interessante ter alguém como o são-paulino como alternativa.
Paralelamente, também existe a percepção de que o radar da comissão técnica segue atento a novos valores. Chamado preventivamente por causa da lesão de Jefferson, o goleiro Marcelo Grohe vem se apresentando em grande forma no Grêmio. Convocados depois dos cortes de Marquinhos, Ramires e Fernandinho, o zagueiro Juan Jesus e os volantes Souza e Rômulo fazem parte de um perfil de renovação. Apesar de Juan ser um defensor não mais que razoável, Souza e Rômulo são opções bastante auspiciosas do comandante brasileiro, uma vez que são exemplos típicos de volantes capazes de marcar e atacar com eficiência, seguindo a tendência mundial. O que indica que, além do momento, Dunga também olha para o futuro.
Coluna escrita originalmente para o site Doentes por Futebol.
Imagem: Getty Images