O horário do café é, de longe, o mais prazeroso num ambiente de trabalho. No meu caso, encontro o pessoal de outras seções para colocar o assunto futebol em dia, o que significa, basicamente, zoar os times dos adversários. De uns tempos para cá, é impossível não notar como o futebol europeu vem tomando espaço nessas conversas. Há duas semanas, as discussões giraram em torno da expulsão de Nani na partida entre Manchester United e Real Madrid com direito a torcedor do time inglês se sentindo o maior injustiçado do mundo. Na última semana, o massacre barcelonista sobre o Milan tomou conta da mesa sem que isso soasse forçado ou blasé.
Outro fenômeno que observo, desta vez nas ruas, é o constante aumento no número de camisas de agremiações europeias. Hoje, é tão normal ver um sujeito trajando as cores do Barcelona quanto ver alguém com o fardamento do Cruzeiro, maior torcida do estado. Simultaneamente, é comum ouvirmos os nomes dos jogadores europeus dividindo as atenções com as estrelas locais. As escalações dessas equipes, mais fáceis de serem assimiladas pela manutenção dos elencos, estão na ponta da língua da molecada tanto quanto a do time de coração.
Existe um pensamento enraizado de que os times brasileiros por sua história e tradição nunca perderão seu espaço nos corações dos torcedores para associações estrangeiras. Como muitas vezes são passados de pai para filho, acreditam que eles estão acima de qualquer “modinha” e a distância do que ocorre lá fora impede que haja a interação que só a presença no estádio pode proporcionar. No entanto, pouco ou nunca se comenta que de toda população brasileira apenas uma pequena fração assiste seu time in loco. A maior parte, por falta dinheiro, distância ou insegurança, prefere assistir do sofá de casa ou no bar com os amigos.
Estima-se que o Flamengo tem 35 milhões de aficionados, mas quantos vão aos jogos com frequência? 50, 100, 200 mil? Isso significa que mais de 95% dessas pessoas consome o rubro-negro de outras formas. Pela TV, pela internet, pelo rádio, de alguma forma elas estarão ligadas ao cotidiano da Gávea. E é justamente por essa parcela da população que o clube fatura R$ 200 milhões por ano e não por causa dos 20 mil que estão no estádio – alguns deles sem pagar – sem o merecido tratamento.
E se a maioria está em casa ou em qualquer outro lugar, o que impede de trocar de canal e ver o Barcelona trocando seus passes como se aquilo fosse uma ciência exata ou ver as arenas lotadas e o futebol vertiginoso da Premier League? Nada impede. E é isso o que não se percebe. Antes de tudo, futebol é algo que atrai as pessoas. O manejo da bola como nunca sonhamos ter, a emoção a cada minuto, a alegria das vitórias. E como a imensa maioria não está no estádio, no fundo, a distância dos times brasileiros para os europeus é a mesma, ou seja, do sofá para a TV.
Nessa disputa, vemos as agremiações locais perderem espaço a cada dia para algo que, queira ou não, é superior, mais bem tratado e atraente. Todavia, na medida em que esse processo se desenha, continuamos fingindo que ele não existe, fazendo piadas com a “geração Playstation” ao mesmo tempo em que nossos dirigentes parecem mais preocupados com outras coisas em vez de tentar tornar nosso futebol capaz de competir com as marcas que se internacionalizam cada vez mais. Preferimos passar quase metade do ano vendo nossos times enfrentando semiamadores nos Estaduais enquanto as principais ligas do planeta mostram, simultaneamente, o que têm de melhor. Nessa luta desigual, não será nenhuma surpresa que no momento em que nossos cartolas perceberem que existe guerra pelo torcedor (ou consumidor) sendo travada, ela já esteja irremediavelmente perdida.
Imagem: Uol
















