Até este momento, não se sabe o destino de Ronaldinho Gaúcho. Grêmio, Flamengo e Palmeiras estão oficialmente em leilão pela contração do craque. Sim, leilão, não existe uma palavra que defina melhor o tipo de negociação proposta por seu irmão e agente, Roberto de Assis.
No entanto, o mais certo é que Ronaldinho atue no futebol brasileiro em 2011. Bons analistas como Eduardo Cecconi (aqui) e Carlos Pizzatto (aqui) já projetaram como o jogador poderia ser bem aproveitado no Grêmio (seu destino mais provável), mas ainda não há pistas de como o técnico Renato Portaluppi encara essa questão, com o mesmo se aplicando ao rubro negro Vanderlei Luxemburgo e ao alviverde Felipão. Embora seja visto por muitos no Brasil como meio-campista, Ronaldinho sempre se deu melhor quando atuou mais à frente, caindo pela ponta esquerda. Foi assim no Barcelona quando alcançou seu auge e foi assim no Milan quando chegou a ficar entre os 30 pré-selecionados de Dunga para o último Mundial. Nas duas ocasiões, uma coisa em comum: a pouca (ou nenhuma) contribuição com o sistema defensivo das equipes.
Pessoas ligadas à antiga diretoria do Barcelona dizem abertamente que a liberdade dada a Ronaldinho se justificava pela magia de seu futebol. Porém, assim que sua produção caiu, as críticas não demoraram a surgir e o banco de reservas acabou sendo o seu destino.
No Milan, se viu uma situação semelhante quando o treinador Massimiliano Allegri preferiu optar pelo voluntarioso Boateng como trequartista a apostar no gaúcho como criador do time. Um equívoco terrível na visão deste blogueiro. Nessa função, o ganense apresenta boa chegada ao ataque e chute forte, mas é só. É de se lamentar que um time que na última década contou com meias do calibre de Boban, Rui Costa e Kaká, hoje tenha um atleta tão limitado tecnicamente naquela faixa do gramado.
Nos últimos tempos, é comum ouvirmos que determinado jogador não serve para o futebol europeu, mas pode fazer a diferença no Brasil. Logo em seguida, exemplos como Romário, Ronaldo, Adriano e Petkovic são citados sem que haja muita contestação. Nunca vi a questão dessa maneira. Para mim, antes de tudo, existe a maneira diferente do brasileiro ver futebol.
Para muitos técnicos, jornalistas e torcedores brasileiros é plenamente aceitável que um meia habilidoso ou um atacante goleador não tenha obrigações defensivas e/ou grande movimentação desde que seja capaz de criar boas jogadas ou marcar muitos gols em troca. Essa é uma cultura brasileira e, por que não dizer, sul-americana. Se está correta ou não, é outra história.
Por sua vez, não faltam casos de meias e atacantes que, apesar da técnica, sempre foram contestados pela rígida visão europeia: Valderrama, Romário, Baggio, Petkovic, Hagi, Ronaldo, Rivaldo, Riquelme, Djalminha, Alex e Robinho foram, cada um ao seu modo, criticados ou cerceados no Velho Continente.
Ainda no PSV, Romário levava o técnico Gus Hiddink à loucura graças a sua total displicência tática. Felizmente para o Baixinho, seus gols em escala industrial garantiam sua titularidade. Gols que o levaram ao Barcelona, como um pedido especial de Johan Cruyff e onde foi mantido sob controle mediante acordos com o chefe que permitiam suas noitadas em troca do balançar das redes. Talvez essa tenha sido a maior razão para Romário nunca ter sido alvo de grande cobiça do futebol italiano, destino de quase todos os craques nos anos 80 e 90.
No mesmo Barcelona em que brilhou Romário, Ronaldo também fez sua história. O Fenômeno foi um Pelé na temporada 1996/97, mas teve que ouvir do então auxiliar José Mourinho que ele deveria participar mais do jogo e não ficar à sombra de seus gols. Anos depois, ainda na Catalunha, Rivaldo enfrentou problemas com o holandês Louis van Gaal que chegou a dizer que o seu compatriota Zenden era mais jogador que o pernambucano.
O genial Roberto Baggio é um exemplo famoso de craque barrado em grandes equipes por contribuir pouco taticamente. Mesmo em seus melhores momentos havia quem o contestasse. No épico “Todos corações do mundo”, um torcedor resume bem o que muitos italianos pensavam do nativo de Caldogno: “É um grande campeão, mas é uma dama. Não corre.” Certa vez, em visita ao Brasil, o meia-atacante se defendeu: “Os técnicos de hoje preferem um jogador capaz de correr 10 km numa partida do que alguém que saiba o que fazer com a bola.”

Até algum tempo atrás, ouvia-se por estes lados pedidos de convocação para o sérvio Dejan Petkovic. Primeiro pediam para o Brasil, depois para seu próprio selecionado. O meio-campo pouco inspirado da Sérvia e Montenegro no Mundial de 2006 deu mais munição aos críticos de sua ausência. Mas uma rápida história contada por Pet dá uma ideia de como a visão europeia é diferente da nossa: “Fui bem numa das poucas chances que tive na seleção. Fiz um gol e dei uma assistência. Quando a partida terminou, perguntei para o técnico o que ele tinha achado e ouvi que eu tinha perdido bolas importantes no meio-campo. Reclamei e só fui chamado de novo num amistoso diante do Brasil.”
Petkovic é um caso emblemático do nosso futebol. Em 2009, ele dificilmente teria vaga num clube pequeno da Espanha ou da Itália, mas foi um dos pilares do título brasileiro do Flamengo naquele ano. Por sua vez, esse mesmo clube europeu deve contar em suas fileiras com algum titular que resume seu futebol a fôlego e abnegação. E receberia um lutador como o romanista Rodrigo Taddei de braços abertos. Afinal, como disse Baggio, os técnicos adoram isso.
Portanto, nunca fiz coro aos que dizem que Petkovic joga no Brasil por que o nível do futebol daqui é muito mais baixo. Historicamente, sempre houve mais liberdade para aqueles que podem decidir individualmente uma partida. Era assim com Júnior no mesmo Flamengo em 1992 e foi assim com Zico no final de sua carreira. Isso num futebol pré-Lei Bosman, quando a maior parte dos grandes jogadores brasileiros ainda fazia a festa de nossos estádios.
Trata-se de uma maneira de enxergar futebol. E, diante dos esforços dos clubes envolvidos na tentativa de trazer Ronaldinho, não resta dúvida de que ele receberá toda liberdade criativa que necessita. Além, é claro, de jogadores destacados para correr para ele.
Crédito das imagens: Reuters (1 e 2) e O Globo (3).