O jogaço entre Brasil e Espanha pelas quartas-de-final do Mundial Sub-20 ainda ecoa. Não pelo resultado em si – a Seleção venceu nos pênaltis após empatar por 2x2 em 120 minutos – mas pela maneira como a partida se desenrolou. Fazendo uso do toque de bola que vem caracterizando sua escola, os jovens espanhóis empurraram o time de Ney Franco para o campo de defesa e obrigaram o Brasil a viver se contra-ataques fortuitos.
Deve ter sido um choque para muita gente ver aquilo. Uma Seleção Brasileira (mesmo que de novos) sendo sufocada pelo toque de bola de uma escola que até pouco tempo atrás buscava espaço no segundo escalão do futebol mundial é demais para a cabeça de quem acha que só aqui existe futebol.
A verdade é que as coisas mudaram. A Espanha tem agora o modelo de jogo mais eficiente do mundo, baseado na técnica e na troca de passes. Apoiada nesse estilo, a Fúria decidiu deixar de ser touro para ser toureiro. Como resultado, ostenta atualmente os títulos europeu e mundial, além de diversas conquistas em categorias de base.
É verdade que no final das contas o classificado foi o Brasil, mas aquela partida deixou alguns questionamentos no ar. Ontem, no programa Linha de Passe da ESPN Brasil, o comentarista Mauro Cezar Pereira iniciou esse assunto e culpou a CBF pela ausência de uma escola brasileira e um melhor trabalho de base. Por sua vez, Paulo Vinícius Coelho lembrou que historicamente o Brasil nunca teve um estilo único de trabalho e que as coisas mudavam de acordo com os resultados. Disse ainda que vivemos uma crise por termos jogadores de muita potência física e menos cérebro quando comparados aos craques do passado. Por fim, Fernando Calazans finalmente justificou sua presença após anos no programa e afirmou as diferenças entre a antiga forma como se jogava futebol no Brasil e a maneira como a Espanha o pratica hoje. Para o colunista de O Globo, o futebol tupiniquim era baseado no toque de bola sim, porém, de maneira mais vertical do que os espanhóis o fazem. A título de comprovação, citou as seleções de 58, 70 e 82.
Antes de qualquer análise é preciso contextualizar os fatos. Falar em culpa da CBF nesse caso me parece um pensamento estreito. Sobram defeitos na entidade e listá-los aqui esgotaria o post. Entretanto, a questão da formação de atletas num país de território continental como o nosso não pode ser centralizada dessa forma. Até mesmo a maneira como o futebol é visto em nossos estados é diferente. Para ficar num único exemplo, o entendimento de jogo dos cariocas é bem diferente de como os gaúchos veem.
Deste modo, melhor voltar o foco principal para os clubes que são os reais formadores de atletas. Para começo de conversa, ninguém joga para perder. Se o trabalho é feito para formar jogadores altos, rápidos e fortes fisicamente é porque se acredita que aquilo é o mais certo a se fazer. São frequentes os relatos de garotos dispensados de clubes por serem baixos demais ou frágeis demais. Nesse cenário, o talento com a bola parece ficar em segundo plano. Na base, querem que os meninos estejam prontos para vencer desde cedo e se esquecem que o principal objetivo das categorias menores é formar bons jogadores.
A partir daí é possível falar em participação da CBF. Certa vez, Carlos Alberto Parreira propôs a criação de uma escola nacional de técnicos. Uma instituição formadora de profissionais do esporte e voltada para a capacitação de novos treinadores e preparadores físicos com o objetivo de padronizar os métodos de trabalho no futebol brasileiro. Difícil não ver uma iniciativa dessas com bons olhos, mas é preciso respeito às características regionais de nosso país. É a mistura de estilos e etnias que nos faz tão singulares dentro e fora dos gramados. Ficando no exemplo anterior, é essa mescla que produz um jogador firme e implacável como Dunga atuando simultaneamente com a excelência técnica quase indolente de Romário.
Respeitando essas diferenças é hora de buscar o cerne da questão. Para este blogueiro, ela se encontra no esgotamento do atual estilo brasileiro. De 1970 a 1994, o Brasil procurou um jeito de vencer. Só reencontramos o caminho das vitórias quando unimos a força e a tática europeia aos atributos genuinamente nacionais como a habilidade e a capacidade de improviso. Não por acaso, nossa seleção e nossos clubes viveram a partir da década de 1990 um período de conquistas praticamente tão vitorioso quanto o das gerações de 1950 e 1960.
No entanto, o mantra “igualar-a-pegada-e-deixar-a-técnica-fazer-a-diferença” dá sinais de falência. Sem fugir do clichê, não existe mais bobo no futebol. Selecionados que antes eram meros sparrings agora se fecham como ostras e contra-atacam de forma eficiente e ordenada. Em resumo, a distância diminuiu. Agora a busca por um novo caminho de vitórias passa pelo reencontro com o velho estilo brasileiro, técnico e habilidoso, mas sem desconectá-lo do rigor tático e da potência física. Entender o que está acontecendo é o primeiro passo para encontrar uma saída.
Imagem: Reuters



