Parece que aconteceu há dez anos, mas 2010 foi o ano em que a Internazionale conquistou tudo. Num espaço de sete meses, o capitão Javier Zanetti teve a honra de erguer os troféus da Serie A, Coppa Italia, UEFA Champions League e Mundial de Clubes da FIFA. Difícil explicar como uma equipe conseguiu ir do céu ao inferno em pouco mais de um ano, mas este post busca responder a essa pergunta.
Em primeiro lugar, nenhum time consegue enfileirar técnicos como Rafa Benítez, Leonardo, Gian Piero Gasperini e Claudio Ranieri impunemente. Ok, o espanhol possui um histórico de bons resultados bem superior aos dos outros três, mas cometeu o pecado mortal de ignorar todo o ótimo trabalho que José Mourinho havia realizado em duas temporadas e decidiu, por convicção ou por vaidade, fazer tudo do seu jeito. Como resultado, viu o time que herdara cair de produção vertiginosamente e acabou pagando com seu cargo antes da virada do ano.
Leonardo assumiu em seguida com a missão de reorganizar os Nerazzurri. Vindo de um período conturbado no banco do Milan, o brasileiro conseguiu conquistar a confiança dos jogadores, porém, sua quase total inaptidão para montar defesas não deu a consistência necessária a um time que tentava manter os títulos que ostentava. Talvez por perceber que seu perfil estava muito mais ligado aos aspectos administrativos de uma agremiação do que ao trabalho de campo, Leonardo aceitou a proposta do PSG e se tornou diretor executivo do clube francês.
Depois de vasculhar o mercado em busca de um novo treinador e receber negativas de nomes como Fabio Capello e Marcelo Bielsa, a Inter finalmente acertou com Gian Piero Gasperini, que trabalhava como comentarista desde sua saída do Genoa. Gasperini iniciou o trabalho técnico nesta temporada, mas sua insistência com seu 3-4-3 anacrônico e incompatível com o elenco disponível abreviou sua passagem.
Depois de fracassar com Juventus e Roma, Claudio Ranieri assumiu a vaga muito mais por ser um nome disponível do que por ser o técnico dos sonhos de uma grande equipe. Ciente desse atual estágio de sua carreira, o romano chegou a Via Durini tentando fazer o óbvio e deixando que a qualidade do elenco fizesse sua parte. E é neste ponto que reside o maior problema interista. Embora seja prematuro falar em declínio, é evidente que o grupo vencedor de outrora não vem sendo capaz de responder aos desafios propostos.
Observando os pilares da equipe é possível diagnosticar que a maioria se encontra bem longe da melhor forma física e técnica. Começando pela meta, não é segredo que Júlio César não é nem sombra do melhor goleiro do mundo na temporada 2009/10. Não se sabe se a falha contra a Holanda na Copa do Mundo de 2010 destruiu sua confiança, mas a verdade é que Júlio nunca mais foi o mesmo após se chocar com Felipe Melo na fatídica eliminação brasileira na África do Sul.
Na lateral direita, após quase se transferir para o Real Madrid, Maicon também viu seus melhores dias ficarem para trás. Problemas físicos e alguma displicência fizeram o camisa 13 amargar seus piores momentos com a camisa da Inter. Com o perdão do trocadilho infame, o baile que levou de Bale na partida contra o Tottenham resume bem o que foi a temporada passada para Maicon. Neste certame, após se recuperar de uma cirurgia no joelho, o lateral ainda se esforça para reencontrar sua melhor forma. Na zaga central, Lúcio segue mostrando a vontade de sempre, todavia, a ausência que alguém como Mourinho no banco de reservas parece ter despertado o zagueiro afoito que estava adormecido. No lado esquerdo, as frequentes lesões de Samuel vêm deixando uma lacuna no setor. Até este momento, nem Ranocchia e muito menos Chivu conseguiram atingir o nível do experiente argentino.
No meio-campo, embora Zanetti e Cambiasso continuem correndo como sempre, o maestro Sneijder vê o futebol que fez dele um dos melhores do mundo em 2010 ficar para trás. Além disso, o fracasso na transferência para o futebol inglês (United ou City) parece estar influenciando em seu desempenho nos gramados. Enquanto isso, as presenças opacas de jovens como Obi e Álvarez no setor ajudam pouco. Na frente, está cada vez mais evidente a falta que Eto’o faz. Sem o camaronês, não há ninguém do elenco capaz de resolver o jogo sozinho, embora Pazzini continue perigoso quando recebe a bola em condições de finalizar. Por sua vez, Diego Milito desapareceu no banco de reservas, enquanto os recém-contratados Diego Forlán e Mauro Zárate ainda buscam seu espaço no time.
Nesse cenário, não é absurdo pensar em reforços. A aquisição de um lateral-esquerdo confiável, um volante capaz de dar mais pegada ao meio-campo e um atacante de velocidade são as carências mais visíveis do plantel. O volante Sandro do Tottenham, o meia Kevin Strootman do PSV e os atacantes Hulk do Porto e Carlos Tévez do Manchester City são as especulações de momento. Resta saber se depois de anunciar que o clube já estava se ajustando ao Fair Play financeiro da UEFA, o presidente Massimo Moratti estará disposto a abrir os cofres em janeiro. Se bem que uma breve consulta à tabela de classificação da Serie A mostra que motivos para isso não faltam.
Imagens: Reuters, Getty e Goal.com



