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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A melhor fórmula

Quando o Cruzeiro deu sinais de que seria bicampeão brasileiro, ali por volta da virada do primeiro para o segundo turno, um velho discurso voltou à tona: o Brasileirão deveria retornar ao “mata-mata” como fórmula. Afinal, segundo muitos, o formato de disputa por pontos corridos se torna desinteressante a partir do momento em que um time dispara na liderança. Os mais atentos poderiam desconfiar que o tal desinteresse cresce na medida em que o virtual campeão não é um clube do Rio ou de São Paulo, mas essa é outra história. Duvido muito que o torcedor celeste tenha ficado desestimulado.
A verdade é que nosso futebol já deveria ter superado esta discussão. Sobretudo agora que a Copa do Brasil também tem seu desfecho no fim do ano e abriga novamente todas as grandes equipes do país. Quem prefere jogos finais tem seu momento com uma competição que ainda tem como bônus a classificação para a Copa Libertadores do ano seguinte. Enquanto isso, o campeonato nacional tem razões para ser realizado em pontos corridos em turno e returno. E não são poucas.
A começar pelo aspecto financeiro das equipes. Para que se realizem mais três fases – quartas de final, semifinal e final – precisamos de mais seis datas após o término da primeira. E Isso, com a concomitância de competições como Copa do Brasil ou Sul-Americana, representa no mínimo um mês a menos de atividade para os doze times que não se classificarem para as finais. Na prática, esse cenário dificulta negociações com televisão, patrocinadores e significa menos dinheiro de bilheteria. Prejuízos que os quatro eliminados nas quartas de final também sentirão em parte.
Outro aspecto relevante é a meritocracia. Imaginar o vencedor da primeira fase eliminado pelo oitavo colocado, que muitas vezes chega cambaleante, é tudo o que um torneio não precisa. Se a fórmula fosse aplicada atualmente, por exemplo, teríamos Cruzeiro e Atlético Paranaense lutando por uma vaga nas semifinais. Caso os paranaenses avançassem, todo o trabalho e investimento cruzeirense iriam por água abaixo em duas partidas. Difícil encontrar disparate maior.
Por fim, mas não menos importante, está o planejamento. Com a mudança ocorrida em 2003, passou a ficar claro para os dirigentes que o título está muito mais ao alcance de quem se organiza para conquistá-lo. Num país onde o amadorismo ainda impera no esporte, nada melhor do que termos uma liga que por sua natureza fomenta o planejamento dos clubes. Não por acaso, a edição de 2014 premiou a agremiação que fez tudo da forma mais correta possível. Parabéns, Cruzeiro, legítimo campeão brasileiro.
Coluna escrita originalmente para o site Barroso em Dia.
Foto: Cristiane Mattos / Futura Press

sábado, 10 de novembro de 2012

Quando o presente encontra o futuro.

Independente do que as últimas rodadas do Brasileirão estiverem reservando, Santos e Cruzeiro terão um final de campeonato bem mais melancólico do que suas torcidas esperavam. Campeão continental na temporada passada e contando com o melhor jogador brasileiro em atividade, o Santos sofreu com a perda de nomes importantes como Ganso e Elano e a constante ausência de Neymar por conta das diversas convocações para a Seleção Brasileira. Por sua vez, apesar do início auspicioso, o time mineiro deverá se contentar apenas por ter sido pouco ameaçado pelo rebaixamento.  
Em comum entre as duas equipes, a presença de dois treinadores donos de estilos parecidos e uma maneira bem similar de enxergar futebol. Muricy Ramalho e Celso Roth possuem carreiras bem consolidadas no Brasil, títulos na bagagem – o primeiro bem mais do que o segundo – e a perspectiva de continuarem no mercado por mais alguns anos. No entanto, existem evidências de que ambos podem sofrer mais do que imaginam caso não percebem que o futebol mundial está mudando e que as soluções das duas últimas décadas podem não funcionar tão bem agora.
Após ver sua equipe ser massacrada pelo Barcelona no Mundial de Clubes, Muricy saiu com um discurso pouco conectado com a realidade na coletiva pós-jogo quando preferiu citar o sistema “3-7-0” dos catalães, onde não havia um atacante fixo na frente, para criticar os jornalistas brasileiros que consideram atuar com três zagueiros e sem centroavante um erro. A observação do treinador perde totalmente o sentido quando se constata que o time então comandado por Pep Guardiola não atuou dessa maneira para se fechar mais como fazem 99% de nossos técnicos, mas para atacar melhor e manter ainda mais a posse de bola.    
Em 2012, ao ver seu time passar por uma profunda reformulação e sem demonstrar segurança para lançar jovens valores, Muricy apoiou totalmente sua equipe nas costas de Neymar. Com o craque em campo, o Santos é perigoso e tem um aproveitamento de quem briga pelo título nacional. Sem poder contar com o astro por conta dos compromissos com a Seleção, o que se viu em campo foi um emaranhado de jogadores que na maioria das vezes não poderia ser descrito como um time. Era uma presa fácil para a maioria dos adversários. Como era de se imaginar, ao invés de proteger seu grupo e assumir seus erros, o técnico tetracampeão brasileiro preferiu criticar sua diretoria e tratar publicamente da necessidade de reforços.
Caminho semelhante trilhou Celso Roth. Corresponsável pela contratação de diversos volantes de qualidade duvidosa para o Cruzeiro, Roth declarou que seu time não atacava porque não sabia como fazê-lo. E, ao perceber que sua saída do clube mineiro é iminente, fez críticas indiretas ao grupo atual dizendo que gostaria de treinar o Cruzeiro de três anos atrás, numa versão no melhor estilo do clássico “eu ganho, nós empatamos, eles perdem”. Essa última característica é bastante perceptível nos discursos de Ramalho e Roth. Quando as coisas vão mal a culpa é sempre dos outros. Reconhecer que o estilo “quem marca bem, joga bem” está ultrapassado, nenhum deles fez. Talvez ainda falte mais algumas lições como a recebida em Yokohama. Ou talvez porque ainda existam dirigentes que não perceberam que o melhor da dupla ficou no passado e que as exigências do futebol do futuro serão diferentes.                 
Imagem: UOL e Globo Esporte

terça-feira, 26 de junho de 2012

Não se deixe enganar

Neste momento, o Cruzeiro lidera o Campeonato Brasileiro e com essa colocação voltou à tona a velha discussão sobre a qualidade de Celso Roth como treinador. Antes de tudo, é preciso deixar de lado a ótica maniqueísta que rege as análises futebolísticas no Brasil para não elevar o comandante da Raposa a um nível onde ele nunca esteve, mas também não deixar de reconhecer os méritos de quem construiu uma carreira pautada por trabalhos dignos.
Roth, assim como Muricy Ramalho e outros, faz parte de uma geração de técnicos que se moldaram nas décadas de 1990 e 2000, onde a marcação tornou-se prioridade em detrimento do futebol. Era em que o meio-campo se esvaziou de criatividade, em que os alas se tornaram um amálgama dos laterais e dos pontas e quando os três zagueiros eram marca registrada de nossas equipes. Atualmente, mesmo com o retorno da linha de quatro na defesa e de sistemas que emulam o que o restante do mundo faz, ainda estão nítidos os conceitos táticos desse passado recente.
Os melhores exemplos de como Celso Roth trabalha foram dados pelo jornalista e ex-setorista de Internacional e Grêmio, Eduardo Cecconi. No Inter, foram comuns os comentários de que os treinos eram todos voltados para a marcação e para a chamada bola parada. Para o ataque, pouca atenção. No rival Tricolor, uma história de sua última passagem é ainda mais reveladora. Após assumir o time, o técnico reuniu os titulares e, apontado para cada um dos reservas, instituiu uma anacrônica marcação homem a homem.
Obviamente, isso não quer dizer que os métodos de Roth não podem dar certo. Podem, ainda mais num país onde o esporte está tão atrasado em relação ao que estamos vendo nos melhores times da Europa. No entanto, quando cobramos um futebol mais bem jogado, quando pedimos o retorno dos pensadores ao meio-campo, quando falamos em retomada do protagonismo da Seleção, estamos indo na contramão de tudo o que Roth representa. Afinal, do contrário, estaremos apenas confirmando nosso eterno vínculo com o resultado, uma cultura que nos levou ao estágio em que o futebol brasileiro hoje se encontra.     
Foto: André Casado / Globo Esporte

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A eterna Teoria da Conspiração.

A polêmica em torno do último clássico entre Cruzeiro e Atlético continua. Para muitos torcedores do Galo, a vitória por 6 a 1 foi entregue de bandeja ao rival que precisava vencer para escapar de vez da ameaça de rebaixamento. Para comprovar tal tese, os revoltados atleticanos citam uma declaração de seu presidente, Alexandre Kalil, logo após a partida e diversos boatos que pipocaram nas redes sociais de domingo para cá.
Após o jogo, Kalil, na emoção do momento, disse que até ele estava acreditando que seu time havia entregue o resultado, tamanha a apatia demonstrada em campo. Algum tempo depois, mais calmo, o dirigente disse à ESPN Brasil que a atuação era, na verdade, um desrespeito para com o clube e uma desmobilização diante da garantia de permanência na 1ª divisão conquistada rodadas antes. Disse também que houve uma festa durante a semana para comemorar o cumprimento dessa meta. Todavia, declarou que a premiação prometida ao elenco estava cancelada mediante o vexame em Sete Lagoas.
Já a teoria da conspiração tem muitas vertentes. Além da tradicional “mala preta”, especulam que a queda do Cruzeiro para a 2ª divisão acarretaria prejuízo financeiro para o Atlético tanto nas cotas de TV quanto no patrocínio do banco BMG e que, por isso, a queda do rival seria prejudicial.
De certo modo, a teoria dos atleticanos me lembrou a velha conversa - que é sustentada até hoje - de que a Copa de 1998 foi vendida aos franceses mesmo não havendo nenhuma prova de que isso aconteceu. Para este blogueiro, tudo isso não passa de choro de torcedor. Lamento de quem não aceita que derrotas acachapantes e/ou vexaminosas fazem parte do futebol. E para quem realmente crê que o Atlético Mineiro vendeu sua derrota, faço as seguintes perguntas:
1 – Se era algo combinado, por que levar uma goleada para chamar a atenção do País inteiro? Por que não começar a correr quando o placar estivesse, por exemplo, 2 a 0?
2 – Se a queda do arquirrival significaria prejuízo, o que dizer da não classificação para a Sul-Americana? Também não representa um prejuízo?
3 – No futebol, é possível “comprar” um árbitro, um goleiro e até alguns jogadores, mas um time inteiro e o seu treinador?    
Com a palavra, os teóricos da conspiração...       
Imagem: Lancenet

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A4L Tube.

“Vai beber na água do Montillo!”
O vídeo abaixo poderia ser apenas mais um dos que mostram a revolta de torcedores com os jogadores de seu time. Porém, o que aconteceu no desembarque da delegação do Cruzeiro no aeroporto de Confins após a derrota para o Santos me chamou mais a atenção do que o normal justamente pela presença de alguém conhecido entre os manifestantes.
Entre os mais indignados estava meu amigo Pedro (0:17) que se deparou com os atletas do clube celeste justamente quando embarcava para suas merecidas férias. Além do inconfundível sotaque barbacenense, Pedro quase me matou de rir ao mandar o time “beber na água do Montillo”. Vale a pena conferir abaixo...
E não fique chateado, Pedro. Nada como uns dias na Costa do Sauípe para curar seu velho coração de torcedor...     
Descobriu algum vídeo interessante ou engraçado cujo tema é futebol? Mande-o para meu e-mail: a4l@bol.com.br, colocando no assunto “A4LTube”. Ele poderá ser publicado aqui!

domingo, 4 de setembro de 2011

Algumas coisas nunca mudam.

Não me lembro da última vez em que a janela de transferências internacionais causou tão pouco dano ao futebol brasileiro. Em outros tempos, jogadores como Neymar, Ganso, Lucas e Leandro Damião teriam sido vendidos o mais rápido possível e por preços que se constatariam como ninharia no futuro. Hoje, esse panorama mudou devido à crise financeira vivida pela Europa e, sobretudo, pelo alto crescimento das receitas dos clubes brasileiros oriundas prioritariamente dos direitos de televisionamento. “O jogador brasileiro está muito caro”, afirma um empresário alemão que há pouco mais de vinte anos viu seus compatriotas contratando o ótimo Tita por uns trocados.
Se a manutenção dos grandes jogadores se tornou mais fácil no futebol brasileiro, infelizmente, o mesmo não pode ser dito do emprego dos técnicos que atuam no País. Ainda na 20ª rodada, o Campeonato Brasileiro viu 16 clubes trocarem de técnico. Entre demissões e pedidos de dispensa, temos uma média de quase um treinador caindo por rodada, um absurdo.
Obviamente, esse tipo de conduta faz parte de nossa cultura futebolística amadora, mas não deixa de causar espanto quando Tite, técnico do time líder do campeonato, se vê atormentado por uma possível demissão caso sua equipe perca uma partida. Pelo menos neste caso a pressão era muito mais externa do que interna, já que Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, não parece fazer coro a nossa política de demissões. Talvez por saber que não existe nenhum grande treinador disponível no mercado.
Quem não tem visão parecida é Zezé Perrella, presidente do Cruzeiro que nesta semana demitiu Joel Santana (clique no vídeo abaixo) após ver a equipe celeste perder em casa para o modesto Figueirense. O fato dos mineiros terem entrado em campo com um time cheio de desfalques não serviu de desculpa para o treinador carioca, demitido com pouco mais de dois meses de trabalho. Lamentavelmente, a dispensa de Joel teve apoio da imprensa esportiva do estado. Em seu lugar assumiu Emerson Ávila, funcionário do Cruzeiro e treinador da Seleção Brasileira Sub-17, campeã sul-americana, mas sem experiência em equipes de ponta.
E essa é a faceta mais curiosa dessa conduta demissionária. Na grande maioria das vezes, o técnico é substituído por outro de nível mais ou menos parecido ou até inferior, tendo como objetivo maior a mudança por si mesma. Não existe planejamento. Não existe nem mesmo um fio condutor que defina pelo menos o perfil do profissional com o qual o clube pretende trabalhar. Ora é um técnico estilo “boleirão” e currículo extenso, ora é um jovem profissional que não é ex-jogador. Ora é um técnico famoso pelo jogo defensivo, ora é alguém conhecido pela ousadia tática. Em comum, apenas a constatação de que na maioria das vezes a troca não melhora o time como imaginado.
Já passou da hora de dirigentes, torcedores e imprensa esportiva enxergarem que, salvo exceções, demitir treinador não é a solução para time nenhum. Para uma equipe se formar é necessário planejamento, trabalho e, sobretudo, tempo. Enquanto isso não acontecer, continuaremos achando que a função do técnico se resume apenas à conversa de vestiário, mesmo sabendo que é muito mais do que isso.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Oportunismo, achismo e outros “ismos”.

Ao contrário do que muitos disseram nesta quarta-feira, o favoritismo dado aos clubes brasileiros na Copa Libertadores não veio por caso e não é, pelo menos no meu caso, fruto de achismo ou ufanismo. Uma análise do histórico dos times locais na competição mostra um percentual maior de aproveitamento tanto dentro quanto fora de casa e o retrospecto recente aponta para um desempenho médio maior do que o de qualquer outro país. Além disso, o poderio financeiro dos clubes brasileiros não só é maior como tende a sê-lo cada vez mais.
Então eu pergunto: Não é exatamente assim que se analisa o favoritismo na UEFA Champions League? Não é a partir do poderio financeiro que se evidencia a força dos clubes ingleses? Não é a receita absurdamente maior do que a da concorrência que transforma Barcelona e Real Madrid em alienígenas em La Liga? Ora, quem pode pagar mais tem maiores condições de contratar e manter os melhores elencos e treinadores.
A eliminação simultânea de quatro times brasileiros nesta quarta-feira foi, sem dúvida, um evento atípico. Como bem lembrou o jornalista Paulo Vinícius Coelho, desde 1991 sempre houve um brasileiro entre os semifinalistas e desde 1994 sempre tivemos mais de um time entre os quadrifinalistas da Libertadores. E, na temporada passada, quatro brasileiros estavam vivos nas quartas-de-final da competição.
Portanto, antes de se falar em arrogância é preciso falar de constatação. Negar o favoritismo seria, antes de tudo, não manifestar uma opinião por medo ou conservadorismo. O mesmo raciocínio me diz que colocar os quatro times eliminados num mesmo balaio é uma simplificação grosseira. Cada caso é um caso e precisa ser analisado individualmente.
No que tange o Internacional, além do resultado obtido no Uruguai, havia o entendimento de que o Peñarol era um adversário abordável, embora, logicamente, não estivesse eliminado de véspera. Dentro dessas circunstâncias, a derrota em pleno Beira Rio pode ser considerada, sim, um vexame. E quando se diz isso não significa menosprezo à história dos aurinegros, pentacampeões da Libertadores, mas uma constatação honesta diante do momento do time de Montevidéu e, por consequência, do futebol uruguaio. Mal comparando, é como o Ajax na Liga dos Campeões. Ninguém ignora o passado dos Godenzonen, porém, num confronto com o Chelsea, o favoritismo certamente penderia para o lado dos Blues que nunca conquistaram um título do torneio.
No caso do Fluminense ficou evidente que não houve arrogância. Talvez tenha sido o contrário. O Tricolor simplesmente abdicou de jogar no Paraguai, levando pressão o tempo todo. No entanto, a eliminação do Cruzeiro foi a que mais me chamou a atenção. Melhor campanha da Libertadores, futebol envolvente e entrosado, tudo indicava uma classificação tranquila após a vitória na Colômbia. Mas, em se tratando de uma equipe comandada por Cuca, tudo é possível.
Nesse contexto, nada mais lógico do que cada um retirar de sua eliminação a lição necessária para o futuro. Lamentavelmente, esse 4 de maio será lembrado por um bom tempo como o maior tombo coletivo do futebol brasileiro na história do torneio. Entretanto, apesar da queda em conjunto, as soluções são individuais. E enxergar essa data como uma crise do futebol brasileiro é o primeiro passo para não encontrá-las.
Crédito da Imagem: EFE